{"id":1721,"date":"2014-07-24T23:34:11","date_gmt":"2014-07-25T02:34:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1721"},"modified":"2020-08-04T19:39:51","modified_gmt":"2020-08-04T22:39:51","slug":"a-virgem-do-saba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/07\/a-virgem-do-saba\/","title":{"rendered":"A Virgem do Sab\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Baseado, em linhas muito vagas, em &#8220;The Queen of the Shabbat&#8221;, uma sinopse nunca desenvolvida por Clark Ashton-Smith.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Jovita emba\u00adlava a menina nos bra\u00ad\u00e7os e Jer\u00f4nimo as con\u00adtem\u00adplava, entre embe\u00adve\u00adcido e des\u00adcon\u00adfi\u00adado. Lembrou da noite em que a conhe\u00adcera, n\u00e3o teve receios nem remorsos \u2014 sen\u00adtiu-se, na verdade, cheio de orgu\u00adlho de ter sido t\u00e3o homem e recos\u00adtou na cama, arfando o peito como se os pulm\u00f5es inflassem dentro de uma estreita gaiola enferrujada e dezenas de nava\u00adlhas subis\u00adsem com a res\u00adpi\u00adra\u00ad\u00e7\u00e3o. Fechou os olhos, igno\u00adrou o cheiro dos rem\u00e9\u00addios e dos ch\u00e1s, e sentiu-\u200bse de novo na noite da Serra dos Caramonos.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite era fresca e a mata con\u00adser\u00advava um sil\u00ean\u00adcio agra\u00add\u00e1\u00advel. Apenas ao longe, muito longe, ouvia-\u200bse a pas\u00adsa\u00adgem dos car\u00adros na dis\u00adtante curva de Camargo. Os far\u00f3is deles, luzindo no fim de uma dis\u00adt\u00e2n\u00adcia imensa, como estre\u00adlas no fundo do c\u00e9u, ser\u00adviam como \u00fanica prova de civi\u00adli\u00adza\u00ad\u00e7\u00e3o naquele canto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas logo Jer\u00f4nimo ultra\u00adpas\u00adsa\u00adria a crista do Pico dos Caramonos e dei\u00adxa\u00adria para tr\u00e1s aquela p\u00e1lida vis\u00e3o de ati\u00advi\u00addade humana. Restaria diante de si ape\u00adnas o ondu\u00adlar escuro das ser\u00adras t\u00e3o logo as cida\u00addes dor\u00admis\u00adsem e res\u00adtas\u00adsem ape\u00adnas suas cons\u00adte\u00adla\u00ad\u00e7\u00f5es seme\u00ada\u00addas no len\u00ad\u00e7ol frio da terra e ele se sentiria seguro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela quinta vez no ano Jer\u00f4nimo inva\u00addia os limi\u00adtes da Fazenda Caramonos em busca de um ganho adi\u00adci\u00ado\u00adnal, o que cos\u00adtu\u00admava fazer sempre que a renda do tra\u00adba\u00adlho pare\u00adcia pouca para o fim do m\u00eas. Isto era sem\u00adpre \u00e0 noite, n\u00e3o por receio de que os donos lhe fizes\u00adsem qual\u00adquer mal, mas pela ver\u00adgo\u00adnha do pr\u00f3\u00adprio ato, filho que era de uma fam\u00ed\u00adlia de prin\u00adc\u00ed\u00adpios, tri\u00adcen\u00adte\u00adn\u00e1\u00adria e reli\u00adgi\u00adosa. Sua av\u00f3 \u00edndia teria ver\u00adgo\u00adnha de v\u00ea-\u200blo inva\u00addir a mata sem cerim\u00f4\u00adnias, cor\u00adrendo o risco de ser aba\u00adtido pela seta de um curupira, para roubar palmito e negar vida a uma bela palmeira.<\/p>\n\n\n\n<p>A fazenda estava aban\u00addo\u00adnada desde antes de qual\u00adquer lem\u00adbran\u00e7a de sua inf\u00e2ncia. O pro\u00adpri\u00ade\u00adt\u00e1\u00adrio vivia na cidade. Era parente de metade da fam\u00ed\u00adlia Rodrigues, fun\u00adda\u00addo\u00adra do muni\u00adc\u00ed\u00adpio de Itabat\u00e9, mas tra\u00adba\u00adlhava a dia para os outros e nunca visi\u00adtava mais as suas ter\u00adras. Diziam que n\u00e3o voltara a p\u00f4r os p\u00e9s nelas desde que enterrara do pai, morto vi\u00favo e ainda jovem. Abandonara-a dizendo bobagens, temendo que ali houvesse algo que devorava a vida do homem, algo que extinguira o seu galho da fam\u00edlia e que espreitaria quem l\u00e1 fosse \u2014 e Jer\u00f4nimo nunca esquecia esses boatos, mas mesmo os temendo sempre eles n\u00e3o o impediam de entrar mais uma vez, de at\u00e9 mesmo aventurar-se em torno da sede arruinada.<\/p>\n\n\n\n<p>O aban\u00addono fora cri\u00adando uma atmos\u00adfera fan\u00adt\u00e1s\u00adtica no lugar. As cer\u00adcas enfer\u00adru\u00adja\u00adram e apo\u00addre\u00adce\u00adram, o pasto se cobriu de ervas, de arbus\u00adtos, e logo de \u00e1rvo\u00adres. A casa secu\u00adlar fora arrom\u00adbada pelo gado e pelos ani\u00admais da mata, as telhas foram revi\u00adra\u00addas por mor\u00adce\u00adgos e tem\u00adpes\u00adta\u00addes, o madei\u00adrame apo\u00addre\u00adceu no tempo, ervas cres\u00adce\u00adram nas gre\u00adtas dos pisos. No ter\u00adreiro da sede o tra\u00adtor Fordson, dois cami\u00adnh\u00f5es International e uma cami\u00adnho\u00adnete Studebaker foram entre\u00adgues \u00e0 fer\u00adru\u00adgem e estavam cobertos de ervas. Nos cin\u00adquenta anos desde a mudan\u00e7a de Rui Rodrigues para Itatinga cres\u00adcera um p\u00e9 de canela atra\u00adv\u00e9s da car\u00adro\u00ad\u00e7a\u00adria da Studebaker, at\u00e9 romper pelo teto, e os dois International estavam t\u00e3o verdes de ervas que pare\u00adciam monstrengos de um p\u00e2ntano assombrado. Na aus\u00ean\u00adcia do dono, o maior dos peri\u00adgos fora, nas pri\u00admei\u00adras d\u00e9ca\u00addas, o gado bra\u00advio. Mas deste os ladr\u00f5es de gado e as doen\u00ad\u00e7as deram cabo em pouco mais que uma gera\u00ad\u00e7\u00e3o. Bem, pelo menos era o que pen\u00adsa\u00advam as pes\u00adsoas raci\u00ado\u00adnais. Para as outras, por\u00e9m, havia outros peri\u00adgos l\u00e1, que n\u00e3o se deve mencionar. E reses de esp\u00e9cies inauditas que nenhum ladr\u00e3o roubaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia d\u00e9cadas que Rui Rodrigues n\u00e3o dizia mais nada dos motivos de sua vinda para a cidade. Preferia per\u00adder a ami\u00adzade a fazer uma con\u00adfi\u00add\u00ean\u00adcia, e j\u00e1 as perdera quase todas. Restava \u00e0 gente do lugar criar hist\u00f3rias sobre os seus moti\u00advos, e havia tan\u00adtas quanto seus contadores. Essas teorias tinham de se basear nos murm\u00farios dos antigos e nas discut\u00edveis lembran\u00e7as que tinham sobre as palavras que Rui Rodrigues chegara deblaterando, com olhos vidrados, boca espumando pelos cantos, ressequida por longas horas de correr pelas estradas sem parar para tomar \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Acostumado ao tra\u00adjeto, Jer\u00f4nimo j\u00e1 des\u00adcia a tri\u00adlha reta pela face do pico, em dire\u00ad\u00e7\u00e3o ao bai\u00adxio onde o brejo se unia \u00e0 mata vir\u00adgem, e onde tabo\u00adas e l\u00edrios ocul\u00adta\u00advam o tre\u00adme\u00addal, tor\u00adnando peri\u00adgosa a entrada de incau\u00adtos, quando per\u00adce\u00adbeu a luz inco\u00admum que tre\u00adme\u00adlu\u00adzia no topo de uma colina baixa mais ou menos no meio daquela grota. O tre\u00admu\u00adlar da luz n\u00e3o era fogo f\u00e1tuo e nem ilu\u00ads\u00e3o, e nem tam\u00adpouco um prin\u00adc\u00ed\u00adpio de inc\u00ean\u00addio cau\u00adsado por um raio. Na luz ver\u00adme\u00adlha das laba\u00adre\u00addas ele pare\u00adceu divi\u00adsar for\u00admas que dan\u00ad\u00e7a\u00advam. A pele eri\u00ad\u00e7ada de medo pare\u00adceu fazer-\u200bse toda ouvi\u00addos e logo ele escu\u00adtava dis\u00adtan\u00adtes mur\u00adm\u00fa\u00adrios tra\u00adzi\u00addos pelo mesmo vento que lhe arre\u00adpi\u00adava os pelos das costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a curi\u00ado\u00adsi\u00addade era maior que o auto\u00adma\u00adtismo do medo, espe\u00adci\u00adal\u00admente acon\u00adse\u00adlhada pelo orgu\u00adlho de ca\u00e7a\u00addor de tesou\u00adros e amigo do alheio. Caminhando com a sua\u00advi\u00addade dos que sem\u00adpre vive\u00adram em con\u00adtato com a mata, aproximou-\u200bse da colina, sua conhe\u00adcida, pen\u00adsando em ocultar-\u200bse por tr\u00e1s de uma grande pedra que havia \u00e0 som\u00adbra de cen\u00adte\u00adn\u00e1\u00adrios jaca\u00adran\u00add\u00e1s, e de l\u00e1 obser\u00advar o que acon\u00adte\u00adcia. Enquanto se apro\u00adxi\u00admava, deu-\u200bse conta de que mui\u00adtas vezes pas\u00adsara por aquele canto da flo\u00adresta, ao p\u00e9 daquela mesma colina, mas nunca a per\u00adcor\u00adrera. Que esp\u00e9\u00adcie de receio subconsciente o detivera?<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrou mais uma vez da av\u00f3 \u00edndia, com quem, por azar, n\u00e3o apren\u00addera a falar. Ela apa\u00adre\u00adcia diante de si, como em um sonho, lhe dizia pala\u00advras que ele mal com\u00adpre\u00aden\u00addia, e ele afas\u00adtava a vis\u00e3o, como a uma teia de ara\u00adnha sobre seus olhos. Tinha de afastar a l\u00edngua trancada dos mortos e viver entre os vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo estava t\u00e3o perto que final\u00admente p\u00f4de ter a cer\u00adteza de que real\u00admente havia gente a dan\u00ad\u00e7ar e can\u00adtar em torno da fogueira, pro\u00addu\u00adzindo um ala\u00adrido curi\u00ado\u00adsa\u00admente baixo. Quando che\u00adgou ao fundo do vale, para con\u00adtor\u00adnar a colina, per\u00adce\u00adbeu que as mace\u00adgas e arbus\u00adtos toldavam-\u200blhe a vis\u00e3o do topo, impe\u00addiam ante\u00adci\u00adpar o que ocor\u00adria em torno das laba\u00adre\u00addas. Teve de subir por outro barranco e mais outro, at\u00e9 alcan\u00e7ar, finalmente, um lugar que lhe permitia ver o que acontecia. L\u00e1 se ins\u00adta\u00adlou entre as pedras para olhar. Nesse momento teve, pela pri\u00admeira vez, a dimen\u00ads\u00e3o de algo muito mais mons\u00adtru\u00adoso do que supusera.<\/p>\n\n\n\n<p>Em torno da fogueira que cre\u00adpi\u00adtava acima das vozes, havia um c\u00edr\u00adculo de pessoas nuas, mulhe\u00adres e homens de v\u00e1rias ida\u00addes, dan\u00ad\u00e7ando uma maca\u00adbra ciranda e can\u00adtando ver\u00adsos incom\u00adpre\u00aden\u00ads\u00ed\u00adveis, mas ver\u00adsos, posto que rima\u00addos e rit\u00adma\u00addos como uma can\u00ad\u00e7\u00e3o do inferno, na l\u00edn\u00adgua do pr\u00f3\u00adprio Belzebu. \u00c0 esquerda de si, \u00e0 mar\u00adgem da cla\u00adreira que o machado e o fre\u00adquente ritual tinham aberto entre as plan\u00adtas, em um impro\u00advi\u00adsado trono de pedra, estava um abjeto casal que pre\u00adsi\u00addia aquela cena digna de um pesa\u00addelo de inqui\u00adsi\u00addor: um homem nu do peito para baixo, envolto em uma capa de pele e de face oculta por um elmo em for\u00admato de cabe\u00e7a de bode. A sua m\u00e3o esquerda segu\u00adrava um b\u00e1culo ade\u00adre\u00ad\u00e7ado com ino\u00admi\u00adn\u00e1\u00adveis penduricalhos e a direita repou\u00adsava sobre os ombros de sua con\u00adsorte, uma jovem p\u00e1lida, que pare\u00adcia dopada ou em transe. A ciranda ter\u00adr\u00ed\u00advel girava em torno da fogueira, can\u00adtando aque\u00adles ver\u00adsos t\u00e9tri\u00adcos e o cara-\u200bde-\u200bbode aca\u00adri\u00adci\u00adava gen\u00adtil\u00admente, com as pon\u00adtas dos dedos, os ombros nus da sua companheira.<\/p>\n\n\n\n<p>Hipnotizado pelo ritmo sim\u00adples dos ver\u00adsos e pelas figu\u00adras, algu\u00admas belas, que dan\u00ad\u00e7a\u00advam a ence\u00adna\u00ad\u00e7\u00e3o infer\u00adnal, Jer\u00f4nimo n\u00e3o con\u00adse\u00adguia per\u00adce\u00adber deta\u00adlhes sutis. E assim ficou lon\u00adgos minu\u00adtos, at\u00e9 que um \u00ednfimo sus\u00adpiro da jovem no trono de pedra o aler\u00adtou nova\u00admente, e nesse ins\u00adtante ele notou o que lhe per\u00adma\u00adne\u00adcera alheio at\u00e9 ent\u00e3o: a mo\u00e7a ao lado do cara-\u200bde-\u200bbode era Jovita, filha de um vizi\u00adnho rico, amor seu de inf\u00e2n\u00adcia, flor dis\u00adtante demais para ser colhida por suas bru\u00adtas m\u00e3os. Mas ali estava, ao alcance de m\u00e3o ainda pior e destino ainda mais brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta per\u00adcep\u00ad\u00e7\u00e3o o atin\u00adgiu como uma c\u00f3lica, uma dor, um aperto pro\u00adfundo e longo, um abra\u00e7o gelado que n\u00e3o o lar\u00adgaria. Seus olhos pare\u00adce\u00adram abrir-\u200bse final\u00admente, e come\u00ad\u00e7ou a enxer\u00adgar coi\u00adsas que antes sur\u00adgiam bor\u00adra\u00addas como uma cena vista entre l\u00e1gri\u00admas, como a vis\u00e3o de quem est\u00e1 detr\u00e1s da cacho\u00adeira, como os mor\u00adros dis\u00adtan\u00adtes, azu\u00adlando no calor da tarde sob as nuvens. Notou vozes fami\u00adli\u00ada\u00adres, cor\u00adpos de talhe fami\u00adliar, cica\u00adtri\u00adzes em bra\u00ad\u00e7os, for\u00adma\u00adtos de p\u00e9s. Notou a blas\u00adfema ere\u00ad\u00e7\u00e3o que o cara-\u200bde-\u200bbode osten\u00adtava a con\u00adtem\u00adplar aquilo tudo: seu imenso, quase monstruoso p\u00eanis estava ereto e luzia como se lhe houvessem untado com algum tipo de unguento dos infernos. Uma raiva pro\u00adfunda come\u00ad\u00e7ou a fer\u00adver em seu est\u00f4\u00admago. Subia como um arroto ou azia, mas era s\u00f3 \u00f3dio fermentado. Um \u00f3dio sem dire\u00ad\u00e7\u00e3o, sem esperan\u00e7a, que apenas borbulhava e queria explodir.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dan\u00ad\u00e7a\u00adri\u00adnos inter\u00adrom\u00adpe\u00adram a ciranda, bebe\u00adram far\u00adta\u00admente de cane\u00adcos pos\u00adtos diante do trono de pedra e reto\u00adma\u00adram seus movi\u00admen\u00adtos, que ent\u00e3o pare\u00adciam desen\u00adgon\u00ad\u00e7a\u00addos como o tro\u00adpe\u00ad\u00e7ar de um ani\u00admal b\u00eabado. At\u00e9 que final\u00admente ficou claro que esta\u00advam mesmo sob o efeito de algo da bebida, e come\u00ad\u00e7a\u00adram a cam\u00adba\u00adlear e hesi\u00adtar, e por fim se dei\u00adta\u00adram na grama baixa e se entre\u00adga\u00adram a toda sorte de hedi\u00adon\u00adde\u00adzas que ofen\u00addem a Deus e \u00e0 natureza. E sempre o cara-de-bode acarinhava o ombro de Jovita enquanto sua verga acenava para frente e para tr\u00e1s, como se aprovasse tudo aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o cara-\u200bde-\u200bbode se ergueu do trono, osten\u00adtando sua blas\u00adf\u00ea\u00admia como um tro\u00adf\u00e9u diante do cres\u00adcente que sin\u00adgrava o c\u00e9u, a raiva explo\u00addiu. Jer\u00f4nimo largou-\u200bse de seu escon\u00adde\u00adrijo e entrou na cla\u00adreira, munido ape\u00adnas do por\u00adrete com que se fir\u00admava pelas tri\u00adlhas, e des\u00adfe\u00adriu tan\u00adtos e tama\u00adnhos gol\u00adpes em tudo o que se movia diante de si que o res\u00adpei\u00adt\u00e1\u00advel peda\u00e7o de goi\u00ada\u00adbeira se esfa\u00adce\u00adlou \u2014 mas n\u00e3o antes de partir v\u00e1rias costelas, arrancar diversos dentes e instalar o p\u00e2nico entre os presentes. Vendo-\u200bse desar\u00admado, tomou o pr\u00f3\u00adprio b\u00e1culo do cara-\u200bde-\u200bbode e o des\u00adfe\u00adriu num golpe cir\u00adcu\u00adlar que ter\u00admi\u00adnou de der\u00adru\u00adbar os \u00falti\u00admos dan\u00ad\u00e7a\u00adri\u00adnos que ten\u00adta\u00advam ainda se erguer para enfrent\u00e1-\u200blo. Nesse momento per\u00adce\u00adbeu que o cara de bode, a quem j\u00e1 fus\u00adti\u00adgara antes de roubar-\u200blhe a arma que por\u00adtava, con\u00adse\u00adguira erguer-\u200bse e recu\u00adpe\u00adrara uma arma de fogo den\u00adtre o amon\u00adto\u00adado de suas roupas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pare, seu grande imbe\u00adcil! Pare ou lhe ponho chumbo quente nos cornos!<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo ent\u00e3o dei\u00adxou cair o b\u00e1culo e se con\u00adfor\u00admou com o des\u00adtino \u2014 imaginou-se morto, heroico, penetrando no c\u00e9u em paz. O cara de bode lhe man\u00addou ajoelhar-\u200bse com as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a. Um den\u00adtre os dan\u00ad\u00e7a\u00adri\u00adnos veio com uma corda e lhe amar\u00adrou os pul\u00adsos e os p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea estra\u00adgou o nosso Sab\u00e1, \u00f3 mise\u00adr\u00e1\u00advel. Esperdi\u00e7ou semanas e semanas de preparo. Dev\u00edamos mat\u00e1-\u200blo aqui mesmo e seu san\u00adgue esta\u00adria sobre a sua pr\u00f3\u00adpria cabe\u00e7a!<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros tam\u00adb\u00e9m come\u00ad\u00e7a\u00adram a se erguer do tor\u00adpor da bebe\u00adra\u00adgem e das porretadas, entre xingamentos inomin\u00e1veis e gemidos de dor. O efeito dela pare\u00adcia dimi\u00adnuir na aus\u00ean\u00adcia de m\u00fasica, ou de alguma outra ener\u00adgia m\u00edstica que se rom\u00adpera com os gol\u00adpes da vara de goi\u00ada\u00adbeira. Nem todos con\u00adse\u00adgui\u00adram se erguer, por\u00e9m, pois os gene\u00adro\u00adsos gol\u00adpes haviam dei\u00adxado alguns bem estro\u00adpi\u00ada\u00addos. Havia san\u00adgue em pro\u00adfu\u00ads\u00e3o escor\u00adrendo de cer\u00adtos cor\u00adpos, res\u00adpin\u00adgando pelas folhas de relva. Alguns gemiam, outros ape\u00adnas voci\u00adfe\u00adra\u00advam impre\u00adca\u00ad\u00e7\u00f5es a todas as potes\u00adta\u00addes dos nove c\u00edr\u00adcu\u00adlos dos infernos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse \u00e9 o c\u00e3o que nos impor\u00adtu\u00adnou! Vamos mat\u00e1-\u200blo!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, irm\u00e3os! N\u00e3o basta der\u00adra\u00admar o san\u00adgue deste cachorro! Ele tem que con\u00adser\u00adtar o que fez.<br \/>Um mur\u00adm\u00fa\u00adrio de apro\u00adva\u00ad\u00e7\u00e3o per\u00adcor\u00adreu a multid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por hoje a noite \u00e9 per\u00addida! Nosso sacri\u00adf\u00ed\u00adcio n\u00e3o ser\u00e1 mais pro\u00adp\u00ed\u00adcio. Vamos levar este c\u00e3o conosco at\u00e9 a pr\u00f3\u00adxima lua crescente.<\/p>\n\n\n\n<p>Puseram um saco de ani\u00ada\u00adgem sobre a cabe\u00e7a de Jer\u00f4nimo e o ati\u00adra\u00adram em uma car\u00adro\u00e7a puxada por dois bois. Os que n\u00e3o con\u00adse\u00adguiam cami\u00adnhar por causa dos gol\u00adpes de vara de goi\u00ada\u00adbeira se sen\u00adta\u00adram sobre ela e os outros segui\u00adram a p\u00e9. Obviamente n\u00e3o era pos\u00ads\u00ed\u00advel saber para onde iam, mas Jer\u00f4nimo, naquele momento, estava mais pre\u00ado\u00adcu\u00adpado com os con\u00adt\u00ed\u00adnuos chu\u00adtes, socos e mor\u00addi\u00addas que os pas\u00adsa\u00adgei\u00adros lhe davam, con\u00adforme sua capa\u00adci\u00addade remanescente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Traste! Estrup\u00edcio! \u2014 gritavam-\u200blhe.<\/p>\n\n\n\n<p>A via\u00adgem foi assim sofrida, mas n\u00e3o demo\u00adrou tanto quanto Jer\u00f4nimo temera. A pro\u00adxi\u00admi\u00addade lhe suge\u00adria uma pre\u00ado\u00adcu\u00adpante pos\u00adsi\u00adbi\u00adli\u00addade de que as vagas seme\u00adlhan\u00ad\u00e7as n\u00e3o fos\u00adsem mais que coincid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A escu\u00adri\u00add\u00e3o n\u00e3o ter\u00admi\u00adnou depois que o carro parou. Ela se ins\u00adta\u00adlou como uma dor na cabe\u00e7a e uma exaus\u00adt\u00e3o dos mem\u00adbros. Quando des\u00adper\u00adtou, viu ape\u00adnas pare\u00addes em torno de si. Paredes de pedra. Acima de sua cabe\u00e7a, a uns tr\u00eas metros de altura, as t\u00e1buas de um asso\u00ada\u00adlho. Passos de pes\u00adsoas. Vozes con\u00adfu\u00adsas. Muita gente. Uma dis\u00adcus\u00ads\u00e3o em voz baixa. Fingiu ainda estar ador\u00adme\u00adcido, at\u00e9 que final\u00admente o sil\u00ean\u00adcio se instalou.<\/p>\n\n\n\n<p>No calor do que devia ser o meio da tarde, um al\u00e7a\u00adp\u00e3o se abriu. Uma cara de bode se enfiou por ele. Aquela expres\u00ads\u00e3o ani\u00adma\u00adlesca pare\u00adcia ainda mais gro\u00adtesca na luz da tarde do que pare\u00adcera sob a fraca lua cres\u00adcente. O pre\u00adsi\u00addente do Sab\u00e1 segu\u00adrava a m\u00e1s\u00adcara com ambas as m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Est\u00e1 com fome, c\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo n\u00e3o res\u00adpon\u00addeu. N\u00e3o que\u00adria implo\u00adrar nada que viesse daque\u00adlas m\u00e3os imun\u00addas que haviam tocado, mesmo que bre\u00adve\u00admente, o corpo de Jovita. E se n\u00e3o fos\u00adsem somente as m\u00e3o? \u00d3 infernos!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou lhe dar um pouco de ra\u00e7\u00e3o, para que fique vivo at\u00e9 a pr\u00f3\u00adxima lua.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizendo isto o cara de bode sol\u00adtou a m\u00e3o direita da m\u00e1s\u00adcara e estendeu-\u200ba para pegar alguma coisa que estava ao lado do al\u00e7a\u00adp\u00e3o. Atirou para baixo umas broas endu\u00adre\u00adci\u00addas, dois peda\u00ad\u00e7os gran\u00addes de carne de panela e uma gar\u00adrafa de metal cheia de \u00e1gua, cuja tampa de pres\u00ads\u00e3o se des\u00adpren\u00addeu quando caiu ao ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo n\u00e3o deu aten\u00ad\u00e7\u00e3o a nada do que ca\u00edra den\u00adtro de seu cub\u00ed\u00adculo. A n\u00e3o ser quando notou que tam\u00adb\u00e9m ca\u00edra a m\u00e1s\u00adcara, num momento de des\u00adcuido de seu dono quando lhe ati\u00adrara a comida. Olhou para cima rapi\u00adda\u00admente, e teve tempo de ver, num relance, a cara nari\u00adguda e odi\u00adosa de Jo\u00e3o Ferraz, grande fazen\u00addeiro e grande filho da puta, dono de metade dos votos da cidade, para d\u00e1-\u200blos a quem qui\u00adsesse, e empre\u00adga\u00addor dos melho\u00adres gati\u00adlhos num raio de deze\u00adnas de quil\u00f4metros.<\/p>\n\n\n\n<p>A cara desa\u00adpa\u00adre\u00adceu da aber\u00adtura do al\u00e7a\u00adp\u00e3o quase ins\u00adtan\u00adta\u00adne\u00ada\u00admente, dei\u00adxando um resto de d\u00favida, des\u00adtas que reti\u00adnem na mente por muito tempo, por\u00e9m Jer\u00f4nimo se fixou na m\u00e1s\u00adcara, que o olhava obli\u00adqua\u00admente, ca\u00edda no ch\u00e3o, como a deca\u00adpi\u00adta\u00ad\u00e7\u00e3o dum dem\u00f4\u00adnio. Trouxe-\u200ba para o tre\u00adcho mais claro do al\u00e7a\u00adp\u00e3o e come\u00ad\u00e7ou a contempl\u00e1-\u200bla. Que estra\u00adnha esp\u00e9\u00adcie de encanto aquele arre\u00admedo de cabe\u00e7a de ani\u00admal pos\u00adsui\u00adria, para trans\u00adfor\u00admar pes\u00adsoas comuns em ani\u00admais que se aca\u00adsa\u00adla\u00advam de um modo t\u00e3o blas\u00adfemo sob o c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto con\u00adtem\u00adplava os olhos obl\u00ed\u00adquos daquele arre\u00admedo tosco de um Bafom\u00e9 alheio \u00e0 Am\u00e9rica, distraiu-\u200bse de tal forma que n\u00e3o per\u00adce\u00adbeu a queda da tarde rumo a outra noite. Ouviu ape\u00adnas a fome, que o obri\u00adgou a roer uma das broas, mor\u00adder um naco da carne \u2014 que afi\u00adnal estava sabo\u00adrosa \u2014 e lamen\u00adtar a perda da maior parte da \u00e1gua. Parcialmente satis\u00adfeito, dei\u00adtou de lado a m\u00e1s\u00adcara obs\u00adcena e se recli\u00adnou na palha para ten\u00adtar dor\u00admir, enquanto pen\u00adsava num meio para sair daquela enrascada em que se metera por causa de seu amor a Jovita, nunca correspondido.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte notou que a m\u00e1s\u00adcara n\u00e3o estava mais na impro\u00advi\u00adsada mas\u00admorra. Poderia haver alguma porta por onde algu\u00e9m entrasse sem ser notado? Ou teria algu\u00e9m des\u00adcido ali durante seu sono para recuper\u00e1-\u200bla? A segunda teoria era rid\u00edcula demais: n\u00e3o fazia sentido algu\u00e9m descer por uma corda, com todo o ru\u00eddo e o risco envolvido. Era mais prov\u00e1vel haver uma porta secreta em alguma parede.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve muito tempo para pen\u00adsar sobre isso, e sobre muito mais, ao longo dos tedi\u00ado\u00adsos dias seguin\u00adtes. Isolado no escuro daquele cub\u00ed\u00adculo, espe\u00adrava, tenso e cheio de ira, pelo momento em que o leva\u00adriam pri\u00adsi\u00ado\u00adneiro, para submet\u00ea-\u200blo a alguma suprema indignidade. Per\u00addeu a conta dos dias que pas\u00adsou na mas\u00admorra impro\u00advi\u00adsada de Jo\u00e3o Ferraz. Comeu pouco, para manter-\u200bse vivo e alerta, mas comeu com repug\u00adn\u00e2n\u00adcia aquela comida que tal\u00advez tivesse fei\u00adti\u00ad\u00e7os e efl\u00fa\u00advios que n\u00e3o con\u00advi\u00adnham a um homem de bem. Comeu-\u200ba entre impre\u00adca\u00ad\u00e7\u00f5es e rezas de exorcismo, lem\u00adbrando o rosto enru\u00adgado da av\u00f3 \u00edndia pega a la\u00e7o no mato e as novenas em latim da av\u00f3 portuguesa que o criara e lhe ensinara a falar.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estava quase pronto para abra\u00e7ar seu destino quando despertou de sonhos intranquilos sentindo alguma coisa quente ro\u00e7ando sua pele. Virou-\u200bse como quem teme a pre\u00adsen\u00e7a de um \u00edncubo, mas per\u00adce\u00adbeu que era s\u00f3 Jovita que se dei\u00adtara ao seu lado durante o sono por algum motivo. Jer\u00f4nimo se levan\u00adtou como quem \u00e9 tocado por uma ser\u00adpente e ela se sen\u00adtou rapi\u00adda\u00admente quando ele o fez. L\u00e1 estava ela, ves\u00adtida com uma roupa caseira e cal\u00ad\u00e7ada de chi\u00adne\u00adlas bara\u00adtas. Trazia os cabe\u00adlos dou\u00adra\u00addos caindo pelas cos\u00adtas e o pequeno rosto sar\u00addento pare\u00adcia ainda mais deli\u00adcado e ado\u00adr\u00e1\u00advel na penum\u00adbra da masmorra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jovita!? O que faz aqui?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vim para ti. Sei que me desejas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo bai\u00adxou os olhos e disse len\u00adta\u00admente as pala\u00advras \u201cvoc\u00ea, Jovita?\u201d Disse-o de uma maneira t\u00e3o com\u00adpun\u00adgente que ela enten\u00addeu esse pro\u00adnun\u00adci\u00ada\u00admento t\u00e3o breve como um relato sobre toda a com\u00adple\u00adxi\u00addade do uni\u00adverso. Existe um certo talento disso nas mulhe\u00adres, uma coisa meio sobre\u00adna\u00adtu\u00adral de ler men\u00adtes, de enxer\u00adgar entrelinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sacrif\u00edcio de uma virgem, Jer\u00f4nimo. Mas tu podes me salvar a vida, e tu me queres, sempre soube.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Salvar a vida para perder a alma?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 A alma j\u00e1 est\u00e1 morta, Jer\u00f4nimo. Sem esperan\u00e7a a n\u00e3o ser na miseric\u00f3rdia de Deus. Mas tu, tu podes salvar-te.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ent\u00e3o mos\u00adtrou a corda que trou\u00adxera. Estava amar\u00adrada em algum lugar fora do al\u00e7a\u00adp\u00e3o e ficara escon\u00addida entre as som\u00adbras e entre as palhas durante a conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vamos\u2026 Hoje \u00e9 a noite do sacri\u00adf\u00ed\u00adcio. Tens de fugir, ou eles o matar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo n\u00e3o crendo na salva\u00e7\u00e3o, Jer\u00f4nimo teve a esperan\u00e7a de pelo menos lutar. N\u00e3o ficaria mais deitado como um porco na serva \u00e0 espera do punhal. Subiu pela corda com a agi\u00adli\u00addade de um macaco e depois puxou-\u200ba para cima. Ela ent\u00e3o desa\u00admar\u00adrou a corda da parede e enrolou-\u200ba em torno dos bra\u00e7os, puxando a manga do vestido sobre ela. Quem a visse teria a impress\u00e3o de que tinha algum grave incha\u00e7o de um dos bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O al\u00e7a\u00adp\u00e3o ficava exa\u00adta\u00admente no meio da casa, sob uma esp\u00e9\u00adcie de sal\u00e3o cen\u00adtral. Estavam, claro, na casa de Jo\u00e3o Ferraz. A casa estava deserta, ou pare\u00adcia estar. Apenas os gri\u00adlos soa\u00advam no mato, e raros vaga-\u200blumes pas\u00adse\u00ada\u00advam nas tre\u00advas. Era fim de madru\u00adgada e a lua quase cheia j\u00e1 estava baixa no hori\u00adzonte. O asso\u00ada\u00adlho de t\u00e1buas ran\u00adgia com os seus pas\u00adsos, gemendo como almas pena\u00addas. N\u00e3o, n\u00e3o pode\u00adria mesmo haver nin\u00adgu\u00e9m na casa, ou esta\u00adriam todos des\u00adper\u00adtos \u00e0quela altura. Talvez fosse cedo, talvez estivessem ainda procurando por alguma coisa que faltasse.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aonde vamos?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Espera!<\/p>\n\n\n\n<p>Estavam pr\u00f3ximos \u00e0 porta da frente e tinham ouvido passos. Jer\u00f4nimo estacou, j\u00e1 com um tambor de circo batendo doido dentro da boca, mas os pas\u00adsos con\u00adti\u00adnu\u00ada\u00adram em dire\u00ad\u00e7\u00e3o aos c\u00f4mo\u00addos que fica\u00advam mais abaixo na dire\u00ad\u00e7\u00e3o do rio, onde dor\u00admiam os empre\u00adga\u00addos fixos da propriedade. Jovita ent\u00e3o lhe entre\u00adgou o rolo de cor\u00addas de algod\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Amarra-\u200bme!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o vem comigo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, acredite-\u200bme!<\/p>\n\n\n\n<p>Movido mais pela von\u00adtade de sal\u00advar a pr\u00f3\u00adpria pele do que por qual\u00adquer afeto humano, Jer\u00f4nimo fez que enten\u00addeu o que ela que\u00adria dizer e deu de ombros, no con\u00adforto da covar\u00addia. Ela esta\u00adria salva, e ele ganha\u00adria algum tempo para fugir enquanto durasse a discuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Atada Jovita, des\u00adcer\u00adrou o trinco sim\u00adples da porta prin\u00adci\u00adpal, des\u00adceu as esca\u00addas deva\u00adgar, temendo que os degraus ran\u00adges\u00adsem tam\u00adb\u00e9m, e t\u00e3o logo se viu no ter\u00adreiro, come\u00ad\u00e7ou a correr, correr como jamais correra em toda a sua vida. Enquanto cor\u00adria, a sua mente se nublou de ter\u00adr\u00ed\u00adveis pesa\u00adde\u00adlos, movi\u00addos pela honra ferida e pelo remorso. Por fim a ver\u00addade ven\u00adceu sua ten\u00adta\u00adtiva de des\u00adcul\u00adpar a pr\u00f3\u00adpria ver\u00adgo\u00adnha e com\u00adpre\u00aden\u00addeu que Jovita se sacri\u00adfi\u00adcara por sua sal\u00adva\u00ad\u00e7\u00e3o. O mal\u00addito fei\u00adti\u00adceiro acha\u00adria alguma forma ino\u00admi\u00adn\u00e1\u00advel de com\u00adpen\u00adsar o sacri\u00adl\u00e9\u00adgio que Jer\u00f4nimo come\u00adtera, uma semana antes, con\u00adtra o tene\u00adbroso Amo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar come\u00ad\u00e7ou a lhe fal\u00adtar, os pul\u00adm\u00f5es fica\u00adram duros como foles de couro, a res\u00adpi\u00adra\u00ad\u00e7\u00e3o pas\u00adsava pelas suas nari\u00adnas cor\u00adtando a mucosa com um calor tor\u00adtu\u00adrante e os ner\u00advos das per\u00adnas doe\u00adram. Parou para tomar f\u00f4lego, bebeu de uma nas\u00adcente \u00e0 beira da estrada, olhou em volta. Cada mon\u00adta\u00adnha pare\u00adcia ter mil olhos. Era como se o mundo tivesse se trans\u00adfor\u00admado, todo, em uma grande mas\u00admorra ou, melhor, uma esp\u00e9\u00adcie de gal\u00e9 cujas gra\u00addes eram povo\u00ada\u00addas de vigias sobre\u00adna\u00adtu\u00adrais. E tudo isto o ten\u00adsi\u00ado\u00adnou at\u00e9 estar t\u00e3o r\u00edgido que se o tocas\u00adsem soa\u00adria como um ins\u00adtru\u00admento, em um acorde pega\u00adjoso de ira e medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o se deu conta de que seguia no rumo apro\u00adxi\u00admado da Serra dos Caramonos e da fat\u00ed\u00addica fazenda, onde estava a grota que tinha a colina onde encon\u00adtrara Jovita, seu des\u00adtino e per\u00addi\u00ad\u00e7\u00e3o. Pensara em fugir, mas se ati\u00adrava nos bra\u00ad\u00e7os do futuro, in\u00fa\u00adtil ten\u00adtar enga\u00adnar as Potestades Abissais. Suspirou, resignado, e quis cumprir o seu destino.<\/p>\n\n\n\n<p>A mata da fazenda nunca pare\u00adcera t\u00e3o assom\u00adbrada, mesmo na luz quente daquela manh\u00e3 de ver\u00e3o. Cada capin\u00adzal se com\u00adpor\u00adtava como uma moita de nava\u00adlhas e cada \u00e1rvore pare\u00adcia mover-\u200bse sobre a terra para cerc\u00e1-\u200blo. Se n\u00e3o fosse acos\u00adtu\u00admado desde menino, e se n\u00e3o conhe\u00adcesse de tan\u00adtas vezes cada trai\u00ad\u00e7\u00e3o que habi\u00adtava suas som\u00adbras, pode\u00adria ter se per\u00addido. Mas esse n\u00e3o foi o seu fim.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite ca\u00eda como um capuz sobre o mundo e ele se viu per\u00addido, n\u00e3o muito longe do \u00faltimo lugar do mundo onde gos\u00adta\u00adria de estar. Teve fome, comeu das fru\u00adtas da esta\u00ad\u00e7\u00e3o, lim\u00adpas e segu\u00adras, mesmo naquele lugar encan\u00adtado. Ao ter\u00admi\u00adnar de comer sen\u00adtiu voltar-\u200blhe ao san\u00adgue sua for\u00e7a de homem, um calor que irri\u00adtava os ner\u00advos e tur\u00advava os olhos. Ouviu a voz de sua av\u00f3 \u00edndia, grave e pausada, cuspindo palavras na velha l\u00edngua que n\u00e3o aprendera:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 <em>Okanhanga. Kunh\u00e3\u00edt\u00e9 i \u00eeuk\u00e1pi rama<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o teve um medo imenso, des\u00adses que enchem de cora\u00adgem o cora\u00ad\u00e7\u00e3o dos homens. Ergueu o fac\u00e3o e cor\u00adtou uma pal\u00admeira jovem, de caule ainda fle\u00adx\u00ed\u00advel. Lembrou-\u200bse das his\u00adt\u00f3\u00adrias que a sua m\u00e3e mesti\u00e7a lhe con\u00adtava, dos tem\u00adpos antes que os bran\u00adcos che\u00adgas\u00adsem. Sentiu cres\u00adcer den\u00adtro de si o valor de uma ra\u00e7a antiga, pisada e humi\u00adlhada. Manuseou o fac\u00e3o com agi\u00adli\u00addade, extraindo da pal\u00admeira a lasca ade\u00adquada para um arco de guerra. Aplainou-\u200bo com a faca de ca\u00e7a, pre\u00adpa\u00adrando cunhas para pren\u00adder a corda e ent\u00e3o ti\u00adrou do embor\u00adnal um peda\u00e7o de linha de pes\u00adca da grossa para com\u00adple\u00adtar. O arco era de manejo tra\u00adba\u00adlhoso, mas arre\u00admes\u00adsa\u00adria uma fle\u00adcha com a for\u00e7a de um pro\u00adj\u00e9\u00adtil. Um arco de homens, n\u00e3o de meni\u00adnos. Buscou um taqua\u00adral e esco\u00adlheu galhos longos, finos e firmes. Cortou dez fle\u00adchas que apon\u00adtou em serra, para que os infe\u00adli\u00adzes n\u00e3o as pudesse arran\u00adcar facil\u00admente. Fez fogo usando galhos secos e o isqueiro, endu\u00adre\u00adceu as pontas nas cha\u00admas at\u00e9 para\u00adrem de chiar. E para ter\u00admi\u00adnar sua obra, espe\u00adtou cada uma delas em um sapo venenoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a noite j\u00e1 pr\u00f3xima, cobriu-se de lama da beira do rio e escondeu-se entre ramas e folhas, para andar por entre as moitas sem ser visto. Terminado o disfarce teve vontade de rir, lembrando do causo do Bicho Folharada, que a m\u00e3e contara uma vez, na varanda da casa grande, \u00e0 luz do lampi\u00e3o. Jer\u00f4nimo gostara, mas os filhos do fazendeiro haviam zombado da ingenuidade dele, da hist\u00f3ria tola e at\u00e9 de se sua m\u00e3e de olhos rasgados e rosto redondo. Ent\u00e3o tivera \u00f3dio deles, mas tamb\u00e9m de si. Tivera vergonha. Mas naquela noite se sentia o pr\u00f3prio Bicho Folharada, pronto a aterrorizar meninos brancos crescidos sem respeito pela terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a noite enfim ins\u00adta\u00adlada, pro\u00adcu\u00adrou um lugar de onde pudesse con\u00adtem\u00adplar o topo da colina da fogueira. Escolheu outra colina mais alta, uns cem metros ao sul. Sobre ela, em uma for\u00adma\u00ad\u00e7\u00e3o rochosa, deitou-\u200bse em tocaia sob as b\u00ean\u00ad\u00e7\u00e3os de Iand\u00e9 Iara e de Tup\u00e3 Sy. Fez o sinal da cruz com a m\u00e3o esquerda e come\u00ad\u00e7ou a espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Os par\u00adti\u00adci\u00adpan\u00adtes do Sab\u00e1 che\u00adga\u00adram, pare\u00adciam res\u00adta\u00adbe\u00adle\u00adci\u00addos da surra de vara de goi\u00ada\u00adbeira. Possivelmente se pas\u00adsara um m\u00eas, pois a lua estava nova\u00admente come\u00ad\u00e7ando o quarto cres\u00adcente. Os rec\u00e9m che\u00adga\u00addos acen\u00adde\u00adram a fogueira e come\u00ad\u00e7a\u00adram a cozi\u00adnhar as po\u00e7\u00f5es mal\u00addi\u00adtas, mas o trono de pedra seguia vago. Jo\u00e3o Ferraz s\u00f3 che\u00adgou muito tempo depois, tra\u00adzendo Jovita pela m\u00e3o asquerosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ajuda de seus segui\u00addo\u00adres, despiu-\u200bse e enfiou a cabe\u00e7a na gro\u00adtesca m\u00e1s\u00adcara de bode. Depois for\u00e7aram-\u200bna a se des\u00adpir tam\u00adb\u00e9m e a assen\u00adta\u00adram sobre o trono de pedra, coberto com um couro de ani\u00admal peludo.<\/p>\n\n\n\n<p>O ritual come\u00ad\u00e7ou, a luz da fogueira ilu\u00admi\u00adnava cla\u00adra\u00admente o trono. Jer\u00f4nimo pode\u00adria, e deve\u00adria come\u00ad\u00e7ar. Desceu da pedra e come\u00ad\u00e7ou a se esguei\u00adrar por entre as mace\u00adgas, sutil como um ca\u00e7a\u00addor \u00edndio na mar\u00adgem do rio, teme\u00adroso de espan\u00adtar as gar\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as bebi\u00addas pare\u00adciam ter efeito, e todos, como c\u00e3es, j\u00e1 se refes\u00adte\u00adla\u00advam pelo ch\u00e3o, lambendo-\u200bse, cheirando-\u200bse e esfregando-\u200bse em con\u00adtor\u00ad\u00e7\u00f5es abo\u00admi\u00adn\u00e1\u00adveis, quando a blas\u00adf\u00ea\u00admia de Ferraz pare\u00adcia evi\u00addente e a sua m\u00e3o imunda ten\u00adtou alcan\u00ad\u00e7ar o corpo esguio de Jovita como da outra vez, Jer\u00f4nimo lembrou-\u200bse nova\u00admente da seve\u00adri\u00addade da av\u00f3 e se arre\u00adpen\u00addeu de n\u00e3o ter apren\u00addido a falar com ela. Envergonhado diante da natu\u00adreza, ape\u00adnas bal\u00adbu\u00adciou, como crian\u00e7a: \u201cTup\u00e3 me guie a m\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Disparou a fle\u00adcha com a per\u00ed\u00adcia que nem sabia ter. Ela asso\u00adbiou pelo ar e pene\u00adtrou o peito de Jo\u00e3o Ferraz como uma faca quente na man\u00adteiga. Ele levou \u00e0s m\u00e3os ins\u00adtin\u00adti\u00adva\u00admente \u00e0 fle\u00adcha, num gesto de arranc\u00e1-\u200bla, mas a ponta em serra se agar\u00adrou a ossos e entra\u00adnhas de uma forma que n\u00e3o cede\u00adria, enquanto o veneno len\u00adta\u00admente entrava.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dan\u00ad\u00e7a\u00adri\u00adnos demo\u00adra\u00adram a ver o que ocor\u00adria, entre\u00adti\u00addos em abo\u00admi\u00adna\u00ad\u00e7\u00f5es. Quando per\u00adce\u00adbe\u00adram e se ergue\u00adram, Jer\u00f4nimo flechou mais, pro\u00addu\u00adzindo cinco r\u00e1pi\u00addos cad\u00e1\u00adve\u00adres. Duas erra\u00adram o alvo, as outras ele guar\u00addou para uma even\u00adtu\u00ada\u00adli\u00addade. Os mal\u00addi\u00adtos, ent\u00e3o, se assus\u00adta\u00adram como se as trom\u00adbe\u00adtas do Ju\u00edzo tives\u00adsem sido sopra\u00addas, como no ter\u00adr\u00ed\u00advel qua\u00addro que pen\u00addia da parede da casa materna. A Onipresen\u00e7a de Deus se fizera entre eles, abatendo ere\u00e7\u00f5es e destruindo a ousadia dos canalhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7aram a cor\u00adrer em todas as dire\u00ad\u00e7\u00f5es, cor\u00adrer por suas vidas, sem nem ten\u00adta\u00adrem per\u00adce\u00adber de onde as fle\u00adchas vinham. Jovita tam\u00adb\u00e9m cor\u00adreu, sem nem lem\u00adbrar das rou\u00adpas. Alguns dos dan\u00ad\u00e7a\u00adri\u00adnos, sem muito conhe\u00adci\u00admento da terra, se embre\u00adnha\u00adram entre os l\u00edrios e taboas e foram tra\u00adga\u00addos pelo loda\u00ad\u00e7al. Outros pega\u00adram estra\u00addas que os leva\u00adriam mais para den\u00adtro da mata e seus peri\u00adgos \u2014 seria bom se Curupira existisse, pensou Jer\u00f4nimo. Eram como os dem\u00f4\u00adnios da pin\u00adtura t\u00e9trica que mos\u00adtrava o Deus sisudo que con\u00adde\u00adnada os peca\u00addo\u00adres \u00e0s tor\u00admen\u00adtas eter\u00adnas. Apenas Jovita pare\u00adceu cor\u00adrer com mais calma, diver\u00adgindo da sara\u00adbanda infer\u00adnal de gri\u00adtos, e ten\u00adtava seguir na dire\u00ad\u00e7\u00e3o da Fazenda Ferraz. Mas n\u00e3o con\u00adse\u00adguia cor\u00adrer muito bem e nem pare\u00adcia ter muito f\u00f4lego. Ele a alcan\u00ad\u00e7ou facilmente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Pare de cor\u00adrer! N\u00e3o tem mais perigo!<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se acal\u00admou ent\u00e3o, olhando com os olhos cheios de um amor que nunca esti\u00advera neles durante os tan\u00adtos anos em que Jer\u00f4nimo a sonhara.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oh, foi\u2026 foi voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se ren\u00addeu em seus bra\u00ad\u00e7os e Jer\u00f4nimo sen\u00adtiu con\u00adtra o peito os seus min\u00fas\u00adcu\u00adlos seios, rijos como m\u00e3os fecha\u00addas, com mamilos pontiagudos como setas. Tentou abra\u00e7\u00e1-\u200bla e suas m\u00e3os se per\u00adde\u00adram entre os cabe\u00adlos que revo\u00ada\u00advam \u00e0 brisa, ema\u00adra\u00adnhando os fios nos calos de seus dedos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Fazenda Ferraz estava dor\u00admindo em paz quando che\u00adga\u00adram. Jovita encon\u00adtrou a chave escon\u00addida den\u00adtro de um vaso de flo\u00adres no alpen\u00addre e abriu a porta sem fazer ru\u00eddo. Dentro da casa rei\u00adnava o sil\u00ean\u00adcio pre\u00adc\u00e1\u00adrio. Logo algum dos capan\u00adgas vol\u00adta\u00adria do mato e os dois sabiam que nem Deus os livra\u00adria. Principalmente depois que o resto da fam\u00ed\u00adlia, ou o resto da irman\u00addade, sou\u00adbesse do ocorrido.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo que fize\u00adram foi reco\u00adlher alguma comida da des\u00adpensa, o pouco dinheiro que pude\u00adram encon\u00adtrar nas gave\u00adtas des\u00adtran\u00adca\u00addas e rou\u00adpas para Jovita usar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Precisamos de um cavalo, querida!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Precisamos de mais do que isso, que\u00adrido! Nenhum cavalo nos salvar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ent\u00e3o exi\u00adbiu uma chave de carro que sur\u00adru\u00adpi\u00adara do prego atr\u00e1s da porta. Havia um Corcel esta\u00adci\u00ado\u00adnado num canto do terreiro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sabe diri\u00adgir? J\u00e1 diri\u00adgiu um desses?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sei n\u00e3o. Voc\u00ea sabe?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Claro. Onde voc\u00ea viveu esses anos todos, Jer\u00f4nimo?<\/p>\n\n\n\n<p>Ele teve vergonha de responder, vergonha da vida miser\u00e1vel. Entraram no carro, ela o ligou e em tr\u00eas minutos ganhavam estrada, acelerando em dire\u00e7\u00e3o ao sert\u00e3o cada vez mais ignorado enquanto a lua se escondia entre gordas nuvens que prometiam tempestade. Perto do ama\u00adnhe\u00adcer, che\u00adga\u00adram a um lugar de onde j\u00e1 viam o asfalto \u2014 e ainda n\u00e3o havia chovido. O motor do velho Corcel, de t\u00e3o exigido, come\u00e7ava a engasgar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Melhor deixar esse carro e seguir de \u00f4nibus. Ele n\u00e3o vai durar muito. Desce que eu vou me livrar dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jer\u00f4nimo desceu, trazendo as trouxas que tinham. Ela fez um audacioso retorno em cavalo de pau e embicou o carro para o rio. N\u00e3o havia cercas naquele trecho, s\u00f3 pedras a vencer. Ela deixou o carro em ponto morto em uma ribanceira e o viu cair desastradamente na \u00e1gua funda daquele remanso como um cad\u00e1ver precoce. Olhando as marcas de pneus na poeira da estrada, Jer\u00f4nimo e apenas em pensamento desejou que chovesse, que chovesse muito. Quase como se lesse sua mente ela disse a mesma coisa.<br \/>Cerca de duzentos metros depois entrariam na estrada principal. Tomariam o primeiro \u00f4nibus, para qualquer lugar. Jer\u00f4nimo ainda tinha dinheiro em seus bolsos. S\u00f3 tinha medo de sua apar\u00eancia horr\u00edvel, coberto ainda de lama e de folhas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenho de me limpar, Jovita.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela finalmente se deu conta do estado lastim\u00e1vel dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea at\u00e9 parece o Bicho Folharada\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>O coment\u00e1rio doeu em sua mem\u00f3ria, mas Jer\u00f4nimo n\u00e3o disse nada que denunciasse m\u00e1goas de um passado que talvez ela nem lembrasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de se banhar na \u00e1gua do mesmo rio que engolira o carro, e depois, de novo, na chuva torrencial que caiu, Jer\u00f4nimo finalmente parecia at\u00e9 um pobre pescador surpreendido no temporal. S\u00f3 Jovita conseguia luzir diferente, e estranhamente. Mas ela n\u00e3o se incomodava com a escurid\u00e3o que voejava em torno da cabe\u00e7a confusa dele. Quando finalmente se sentaram no banco de tr\u00e1s do \u00f4nibus, deitou a cabe\u00e7a em seu ombro e sorriu para o homem bem-vestido que os olhava com surpresa e asco no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus lagarteou pela estrada e ningu\u00e9m o perseguiu. Em algum lugar o rastro se perdera, ningu\u00e9m os queria mais, ningu\u00e9m os esperava. A manh\u00e3 acal\u00admou a ten\u00ads\u00e3o da noite e Jer\u00f4nimo teve uma rara e agra\u00add\u00e1\u00advel sen\u00adsa\u00ad\u00e7\u00e3o de espe\u00adran\u00e7a. O calor aumen\u00adtou por\u00e9m, o peito come\u00ad\u00e7ou a pesar e o choro da menina o des\u00adper\u00adtou das lem\u00adbran\u00ad\u00e7as doces de um ano antes. Estava nova\u00admente doente, dei\u00adtado em sua cama, ardendo em febre. Jovita o con\u00adtem\u00adplava apa\u00adren\u00adtando um dis\u00adtan\u00adci\u00ada\u00admento quase desa\u00adgra\u00add\u00e1\u00advel, fixa que estava nas fei\u00ad\u00e7\u00f5es da menina que mamava. \u201c\u00c9 natu\u00adral que uma m\u00e3e se dedi\u00adque \u00e0 cri\u00adan\u00e7a\u201d \u2014 ele pen\u00adsava, entre cala\u00adfrios de febre e pon\u00adta\u00addas de dor. \u201cMas que ama\u00adnhe\u00e7a logo, pelo amor de Deus.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dev\u00edamos bati\u00adzar logo a menina, Jovita. J\u00e1 est\u00e1 gran\u00addi\u00adnha, e h\u00e1 mui\u00adtos peri\u00adgos debaixo do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Jovita res\u00admun\u00adgava alguma coisa que ele n\u00e3o enten\u00addia, e n\u00e3o lhe deu aten\u00e7\u00e3o. Ele adormeceu de novo, sono entre\u00adcor\u00adtado de mui\u00adtos pesa\u00adde\u00adlos. \u00c0s vezes pesado, \u00e0s vezes uma pluma, flutuou ou se espalhou sobre a cama. Em alguns momen\u00adtos via o impos\u00ads\u00ed\u00advel, mas pen\u00adsava estar bem des\u00adperto. Em outros, sonhava o cen\u00e1\u00adrio mate\u00adrial do quarto, nor\u00admal e pobre. A menina n\u00e3o con\u00adse\u00adguia dor\u00admir por causa do vento nas telhas, a tem\u00adpes\u00adtade ribom\u00adbava \u00e0 dis\u00adt\u00e2n\u00adcia, mas pare\u00adcia n\u00e3o che\u00adgar nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um momento de sonho, ou tal\u00advez del\u00ed\u00adrio, ou tal\u00advez ver\u00addade, ele sen\u00adtiu um cala\u00adfrio que n\u00e3o era de febre, mas um pro\u00adduto de seus ner\u00advos ao escu\u00adtar, incr\u00e9\u00addulo, a can\u00adtiga de ninar que Jovita can\u00adtava para a menina, t\u00e3o pare\u00adcida com outras, que outras pes\u00adsoas can\u00adta\u00adram em outros dias:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Eu invoco a ti, esp\u00ed\u00adrito luzente,<br \/>Vem ante n\u00f3s, teu povo, tua gente.<br \/>Eu invoco a ti, em forma natu\u00adral,<br \/>Vis\u00ed\u00advel e tan\u00adg\u00ed\u00advel, humana e integral;<br \/>\u2014 Modesto servo do Senhor.<\/pre>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Eu invoco a ti, esp\u00ed\u00adrito potente,<br \/>Para nos guiar rumo ao poente.<br \/>Eu invoco a ti, sobe\u00adrano antigo<br \/>Venha, luz das trevas, amigo;<br \/>S\u00ea ben\u00adfa\u00adzejo e leva-\u200bo con\u00adtigo<br \/>\u2014 Modesto servo do Senhor.<\/pre>\n\n\n\n<p>No fundo de seus sonhos estava Jovita nua no meio da pequena sala, um c\u00edr\u00adculo de sal e cera de vela dese\u00adnhado em torno do ber\u00e7o e outro em torno de si. Velas quei\u00adma\u00advam sobre os m\u00f3veis, dando um ar l\u00fagu\u00adbre a todo o quarto. Ela parou de can\u00adtar e sus\u00adsur\u00adrou baixinho:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Vem, senhor oculto,<br \/>Com calma e paci\u00ad\u00ean\u00adcia,<br \/>Sem dano nem tumulto.<br \/>Vem, apossa-\u200bte dos corpos.<br \/>Vem habitar as almas.<br \/>Pelos vivos, pelos mortos.<br \/>Mas n\u00e3o nos cegues,<br \/>N\u00e3o nos emu\u00adde\u00e7as,<br \/>N\u00e3o nos ensur\u00adde\u00e7as<br \/>E nunca nos renegues.<\/pre>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Vem, senhor, con\u00adforme te chamo,<br \/>Sem tro\u00advejar e sem rel\u00e2m\u00adpago.<br \/>Vem, senhor, conforme o intento,<br \/>Sem gra\u00adnizo e sem vento.<br \/>Vem, senhor, pisa minha casa<br \/>Com teus p\u00e9s de ferro em brasa<br \/>E busca de n\u00f3s o que \u00e9 nosso dever<br \/>E leva o que \u00e9 certo conceder.<\/pre>\n\n\n\n<p>Os olhos de Jer\u00f4nimo fica\u00adram pesa\u00addos, pesa\u00addos, e ele ent\u00e3o se lem\u00adbrou da velha av\u00f3 que lhe dava con\u00adse\u00adlhos de cui\u00adda\u00addos. Ela apa\u00adre\u00adceu diante de si, na dig\u00adni\u00addade de seus noventa anos, e fez men\u00ad\u00e7\u00e3o de dizer mais alguma coisa, mas para qu\u00ea, se ele n\u00e3o enten\u00adde\u00adria. Por que n\u00e3o apren\u00addera com ela a falar? Mas ela n\u00e3o falou, nem ele ouviu, mas ambos se enten\u00adde\u00adram, na l\u00edn\u00adgua dos esp\u00ed\u00adri\u00adtos. E n\u00e3o havia seve\u00adri\u00addade, mas amor e dor nos olhos da velha \u00edndia, que n\u00e3o con\u00adse\u00adguira alert\u00e1-\u200blo, e agora ape\u00adnas podia receb\u00ea-\u200blo no seio da morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovita emba\u00adlava a menina nos bra\u00ad\u00e7os e Jer\u00f4nimo as con\u00adtem\u00adplava, entre embe\u00adve\u00adcido e des\u00adcon\u00adfi\u00adado. Lembrou da noite em que a conhe\u00adcera, n\u00e3o teve receios nem remorsos \u2014 sen\u00adtiu-se, na verdade, cheio de orgu\u00adlho de ter sido t\u00e3o homem e recos\u00adtou na cama, arfando o peito como se os pulm\u00f5es inflassem dentro de uma estreita gaiola enferrujada e dezenas de nava\u00adlhas subis\u00adsem com a res\u00adpi\u00adra\u00ad\u00e7\u00e3o. Fechou os olhos, igno\u00adrou o cheiro dos rem\u00e9\u00addios e dos ch\u00e1s, e sentiu-\u200bse de novo na noite da Serra dos Caramonos.[&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[24,97,107,41,12,43,11,96,10],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1721"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1721"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7265,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1721\/revisions\/7265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}