{"id":1725,"date":"2014-07-27T11:40:37","date_gmt":"2014-07-27T14:40:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1725"},"modified":"2017-08-13T00:37:56","modified_gmt":"2017-08-13T03:37:56","slug":"diversos-fins-de-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/07\/diversos-fins-de-mundo\/","title":{"rendered":"Diversos Fins de Mundo"},"content":{"rendered":"<p>> Uma an\u00e1lise das possibilidades e caracter\u00edsticas do apocalipse como elemento liter\u00e1rio, confrontando-o superficialmente com fatos hist\u00f3ricos. Para autores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>O mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico  \u00e9  um tema recorrente na literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia. N\u00e3o discorrerei sobre os motivos disso, posto que n\u00e3o sou psicanalista e nem cr\u00edtico liter\u00e1rio, mas quando eu mesmo escrevi sobre o tema, foi pelo atrativo de praticar uma abordagem &#8220;tabula rasa&#8221; sobre o mundo e come\u00e7ar a fazer as coisas funcionarem como eu desejava.<\/p>\n<p>Minhas leituras das obras do g\u00eanero, por\u00e9m, me levaram a crer que muitos autores cometem erros impressionantes ao criarem suas hist\u00f3rias, simplificando excessivamente os processos e as realidades derivadas do &#8220;apocalipse&#8221; escolhido. Este artigo pretende ser uma an\u00e1lise destas limita\u00e7\u00f5es, ressaltando que n\u00e3o s\u00e3o todas as obras que cometem estes erros, mas a frequ\u00eancia deles torna \u00fatil sua discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Entendo que as hist\u00f3rias p\u00f3s-apocal\u00edpticas se dividem em duas categorias, conforme o tipo de apocalipse que ocorreu:<\/p>\n<p>**Apocalipse cl\u00e1ssico** (catastr\u00f3fico e ocorrido no passado ou ent\u00e3o ocorrendo em um intervalo curt\u00edssimo de tempo)<\/p>\n<p>**Apocalipse gradual** (decorrente de um  processo, que evolui mais ou menos lentamente e se completa ou se completar\u00e1 em um per\u00edodo de muitos meses ou at\u00e9 muitos anos).<\/p>\n<p>### O Apocalipse Cl\u00e1ssico<\/p>\n<p>Temos um apocalipse catastr\u00f3fico, obviamente, quando o fim do mundo se produz como efeito de um evento r\u00e1pido e destruidor, como uma guerra nuclear, a queda de um aster\u00f3ide, uma guerra contra alien\u00edgenas ou algum outro tipo de acontecimento que n\u00e3o d\u00e1 \u00e0 humanidade nenhum tempo para se preparar ou para reagir adequadamente. <\/p>\n<p>Nesse tipo de hist\u00f3ria os personagens transitam por um mundo arruinado, no qual os sinais da exist\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o humana s\u00e3o recentes e, em alguns lugares, bastante conservados. Lidar com elementos restantes de tal civiliza\u00e7\u00e3o (um governo residual, radia\u00e7\u00f5es, instala\u00e7\u00f5es sem controle, m\u00e1quinas perigosas, etc.) pode ser parte importante da trama. Em geral s\u00e3o hist\u00f3rias dist\u00f3picas que tendem para a viol\u00eancia. Exemplos liter\u00e1rios de tais hist\u00f3rias s\u00e3o &#8220;N\u00e3o Ver\u00e1s Pa\u00eds Nenhum&#8221; (Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o \u2014 Cat\u00e1strofes Ambientais), &#8220;A Noite das Tr\u00edfides&#8221; (John Wyndham \u2014 Invas\u00e3o Alien\u00edgena), &#8220;Um C\u00e2ntico para Leibowitz&#8221; (Walter Miller Jr. \u2014 Guerra Nuclear), &#8220;O Martelo de L\u00facifer&#8221; (Larry Niven e Jerry Pournelle \u2014 Queda de Aster\u00f3ide).<\/p>\n<p>Em geral as hist\u00f3rias deste tipo se passam algum tempo ap\u00f3s o apocalipse propriamente dito, de forma que n\u00e3o acompanhamos o desenrolar dos eventos apocal\u00edpticos, mas apenas a maneira como os sobreviventes lidam com as suas consequ\u00eancias e as racionaliza\u00e7\u00f5es que desenvolvem para explic\u00e1-lo. Estas podem ser de tr\u00eas tipos:<\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o m\u00e1gica (ou &#8220;n\u00e3o explica\u00e7\u00e3o&#8221;):<br \/>\nO fim do mundo foi r\u00e1pido e &#8220;indolor&#8221;, ocorrido no passado recente e n\u00e3o foi testemunhado por nenhum dos personagens que iniciam a hist\u00f3ria. Possivelmente eles encontram algum personagem que compreendeu o que houve, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma necessidade.  A destrui\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e9 um evento incompreens\u00edvel, pelo menos a princ\u00edpio, e quando se revela a sua causa, ela quase sempre est\u00e1 em um fator m\u00e1gico ou que pode ser igualado \u00e0 m\u00e1gica por seus efeitos instant\u00e2neos. O exemplo mais perfeito destas hist\u00f3rias encontramos no filme &#8220;A Terra Silenciosa&#8221; (The Quiet Earth), no qual um homem amanhece sozinho em sua cidade e se cr\u00ea sozinho no mundo. Outro exemplo \u00e9 o romance &#8220;O Planeta dos Macacos&#8221; (Pierre Boulle), narrado sob o ponto de vista dos protagonistas astronautas.<\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o m\u00edtica:<br \/>\nComo o fim do muito foi h\u00e1 muit\u00edssimo tempo, sua mem\u00f3ria est\u00e1 mal preservada, embora seja referido em tradi\u00e7\u00f5es orais ou mitologias escritas. Neste caso a hist\u00f3ria estar\u00e1 ambientada na nova civiliza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 surgiu, s\u00e9culos ou mil\u00eanios depois da civiliza\u00e7\u00e3o original. <\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica:<br \/>\nDifere da m\u00edtica apenas no sentido de que o apocalipse se mant\u00e9m como um elemento definidor da cultura do povo. Em &#8220;Cidade das Sombras&#8221; (Jeanne Du Prau), uma sociedade inteira vive segundo regras que foram definidas pelos criadores da cidade. <\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica:<br \/>\nO apocalipse ocorreu h\u00e1 pouco tempo e possivelmente ainda restam testemunhas oculares. Ou, mesmo n\u00e3o restando, ainda h\u00e1 resqu\u00edcios do que ocorreu e toda uma cont\u00ednua tradi\u00e7\u00e3o, embora possa haver diverg\u00eancias quanto aos motivos primordiais (por exemplo, alguns grupos podem teologizar os fatos, enquanto outros podem ter explica\u00e7\u00f5es seculares).<\/p>\n<p>Em todos estes casos, por\u00e9m, a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 extensa e n\u00e3o h\u00e1 muito o que acrescentar, al\u00e9m da breve refer\u00eancia, que talvez seja in\u00fatil \u00e0 maioria dos leitores. O que realmente nos importa \u00e9 tratar do apocalipse gradual, e de uma s\u00e9rie de problemas que costumam acontecer no desenvolvimento destas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>### O Apocalipse Gradual<\/p>\n<p>Diferente do apocalipse cl\u00e1ssico, o gradual \u00e9 mais comumente vivido pelos personagens. Nas hist\u00f3rias que nos contam de um apocalipse gradual, o mais comum \u00e9 acompanharmos o seu desenrolar desde o in\u00edcio, ou logo depois do in\u00edcio, mesmo que o apocalipse em si n\u00e3o seja totalmente explicado. Trata-se de um tipo diferente de literatura de fantasia ou fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no qual o foco est\u00e1 totalmente no processo de ruptura e nas suas consequ\u00eancias imediatas.<\/p>\n<p>Cabe aqui ressaltar que o que estou chamamdo de apocalipse &#8220;gradual&#8221; n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o subg\u00eanero chamado de &#8220;terra moribunda&#8221; (&#8220;dying earth&#8221;, em ingl\u00eas). Este se ocupa de hist\u00f3rias ambientadas no planeta em uma fase decadente de sua evolu\u00e7\u00e3o, sendo indiferente a causa da decad\u00eancia. Nas hist\u00f3rias mais cl\u00e1ssicas deste subg\u00eanero, tratava-se da decad\u00eancia natural do planeta (&#8220;A M\u00e1quina do Tempo, de H. G. Wells), do sol (&#8220;A Terra Noturna&#8221;, de William Hope Hodgson e &#8220;Estufa&#8221;, de Bryan Aldiss) ou do pr\u00f3prio universo (ciclo do &#8220;Campe\u00e3o Eterno&#8221;, de Michael Moorcock e ciclo de &#8220;Zotique&#8221;, de Clark Ashton Smith).  A s\u00e9rie de novelas de Edgar Rice Burroughs ambientadas em Marte (&#8220;Barsoom&#8221;) s\u00e3o um tipo de fic\u00e7\u00e3o de &#8220;terra&#8221; moribunda (embora o planeta em quest\u00e3o seja Marte). Somente em momento posterior surgem terras moribundas nas quais o processo foi desencadeado pelo pr\u00f3prio ser humano (o anime &#8220;Nausicaa do Vale do Vento&#8221; e o filme &#8220;Blade Runner&#8221;, por exemplo).<\/p>\n<p>O que estou chamando de apocalipse gradual \u00e9 um g\u00eanero de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou fantasia que se dedica especificamente ao processo de destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o terrena.<\/p>\n<p>Deixando de lado os precursores menos conhecidos \u2014 mas de forma alguma irrelevantes \u2014 as funda\u00e7\u00f5es mais conhecidas deste g\u00eanero s\u00e3o os filmes de zumbis (todos eles descendentes por linhas tortas ou direitas da obra original de George A. Romero), o filme &#8220;Mad Max&#8221; (Arthur Miller) e o romance &#8220;A Dan\u00e7a da Morte&#8221; (Stephen King). <\/p>\n<p>Quando falamos de &#8220;apocalipse gradual&#8221;, falamos de um processo que levar\u00e1 \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da humanidade \u2014 ou uma muito forte redu\u00e7\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o, de forma que a civiliza\u00e7\u00e3o entra em colapso. N\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio que o mesmo processo extinga a vida como um todo, ou mesmo a afete.<\/p>\n<p>Ocorre que, quando observamos a maneira como o tema \u00e9 comumente abordado, tanto na literatura quanto no cinema, percebemos que os autores parecem subestimar a capacidade desagregadora dos eventos que concebem, ao mesmo tempo em que superestimam a resili\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o humana. Disso \u00e9 que vamos falar a seguir.<\/p>\n<p>### Poss\u00edveis formas de colapso<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio conceito de &#8220;colapso&#8221; da civiliza\u00e7\u00e3o deveria assustar suficientemente. N\u00e3o deveria ser tratado com leveza. Mas isso n\u00e3o \u00e9 o que se v\u00ea. De fato, a maior parte dos autores parece acreditar que tal colapso poderia acontecer de uma forma at\u00e9 benigna. Esta cren\u00e7a ing\u00eanua se revela sem fundamento quando analisamos situa\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria em que &#8220;quase&#8221; a civiliza\u00e7\u00e3o entrou em colapso. O quadro n\u00e3o \u00e9 nada bonito. Como veremos.<\/p>\n<p>Inicialmente, falar de &#8220;formas&#8221; deste colapso envolve discutir a origem da crise que destruir\u00e1 a civiliza\u00e7\u00e3o. Os economistas sabem, desde Marx, que a autossufici\u00eancia das na\u00e7\u00f5es \u00e9 uma ilus\u00e3o e que todas as atividades econ\u00f4micas, em todos os pa\u00edses, encontram-se interligadas de forma mais ou menos pr\u00f3xima.  Mesmo os economistas liberais de direita ensinam este conceito, embora atribuam-lhe um valor diferente. Esta interdepend\u00eancia significa que nenhum colapso localizado ser\u00e1 duradouro, a menos que a regi\u00e3o colapsada seja economicamente irrelevante (caso da Som\u00e1lia, por exemplo). Colapsos locais s\u00e3o reparados pela expans\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas vizinhas, tal como a pele ferida se reconstitui cobrindo o tecido removido.<\/p>\n<p>Sendo assim, o colapso da civiliza\u00e7\u00e3o somente pode ocorrer em n\u00edvel global. Sem uma causa que perturbe o funcionamento da civiliza\u00e7\u00e3o em todo o planeta de forma simult\u00e2nea, ou quase, a humanidade tem o poder de se recuperar de danos regionais. Isto \u00e9 significativamente diferente do que ocorria no passado, quando as civiliza\u00e7\u00f5es eram regionais e isoladas, estando \u00e0 merc\u00ea de suas contradi\u00e7\u00f5es internas (exemplo cl\u00e1ssico: a decad\u00eancia e dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de generalizado, o impacto precisa ser profundo, para impedir que a humanidade, sempre criativa, encontre um meio alternativo para suprir a falta da engrenagem que se quebrou. Certamente haveria um grande transtorno se um belo dia o mundo amanhecesse sem trigo, mas em poucos anos j\u00e1 nos ter\u00edamos adaptado a substitu\u00ed-lo por outras farinhas, como a de milho, a de mandioca, a de sorgo, a de soja ou a de casca de maracuj\u00e1. Alternativas existem. <\/p>\n<p>Mesmo a falta de algo t\u00e3o essencial quanto a \u00e1gua n\u00e3o teria o poder de destruir a civiliza\u00e7\u00e3o se o esgotamento ocorresse de forma suficientemente gradual, para permitir que fossem inventados sistemas de dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar ou de reciclagem de \u00e1guas polu\u00eddas.<\/p>\n<p>Temos, portanto, que definir de que forma o nosso &#8220;fator X&#8221; afetar\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o e com que velocidade ocorrer\u00e1 a redu\u00e7\u00e3o populacional. Casos em que o colapso da civiliza\u00e7\u00e3o ocorra sem qualquer mudan\u00e7a demogr\u00e1fica s\u00e3o fantasiosos: o colapso s\u00f3 ocorre se a economia for totalmente desorganizada, pois o que sustenta o poder pol\u00edtico-militar (Estado) \u00e9 o fluxo de bens e servi\u00e7os intermediados em moeda. A economia \u00e9 capaz de sobreviver \u00e0 escassez de uma infinidade de itens, e somente colapsa se houver um dos seguintes fatores:<\/p>\n<p>* redu\u00e7\u00e3o significativa da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n* redu\u00e7\u00e3o significativa dos insumos necess\u00e1rios \u00e0s atividades econ\u00f4micas principais (petr\u00f3leo, eletricidade, \u00e1gua, min\u00e9rios, alimentos, conhecimentos etc.)<br \/>\n* dificuldade do transporte<br \/>\n* guerra, revolu\u00e7\u00e3o ou cat\u00e1strofes<\/p>\n<p>Portanto, em termos reais, fora do \u00e2mbito de uma fantasia sem qualquer compromisso com a realidade, falar do colapso da civiliza\u00e7\u00e3o quer dizer falar do colapso da economia seguido ou precedido pelo colapso populacional.<\/p>\n<p>De guerras, revolu\u00e7\u00f5es e cat\u00e1strofes n\u00e3o h\u00e1 necessidade de falar, pois todos estes fatores est\u00e3o abordados no cap\u00edtulo sobre o apocalipse tradicional. Apenas lembrar que \u00e9 poss\u00edvel conceber uma guerra n\u00e3o nuclear capaz de destruir o mundo, se estivermos pensando em um tipo de retrofuturismo, mas presentemente isso j\u00e1 n\u00e3o procede: as armas nucleares n\u00e3o ser\u00e3o abandonadas, a n\u00e3o ser que inventemos coisa pior. Entre as civiliza\u00e7\u00f5es que acabaram por guerras e revolu\u00e7\u00f5es, o Imp\u00e9rio Romano \u00e9 o caso &#8220;cl\u00e1ssico&#8221;. Entre as cat\u00e1strofes naturais, os maias e os anasazi s\u00e3o bons exemplos. E h\u00e1 quem defenda que a civiliza\u00e7\u00e3o do vale do Indo (Mohenjjo-Daro) acabou por causa da mudan\u00e7a de fluxo do Ganges, que um dia correu para o oeste, mas atualmente corre para o leste.<\/p>\n<p>A dificuldade de transporte s\u00f3 ocorre se falta combust\u00edvel (em um mundo p\u00f3s-petr\u00f3leo ainda sem tecnologia de propuls\u00e3o confi\u00e1vel), se faltar meios para construir os ve\u00edculos (escassez de pl\u00e1sticos e metais) ou  se guerras destru\u00edrem a infraestrutura de transportes ou criarem zonas permanentes de contamina\u00e7\u00e3o, isolando certas regi\u00f5es.  De outra forma, dificuldades de transporte somente tendem a criar problemas pontuais, crises que n\u00e3o s\u00e3o permanentes, embora possam ser duradouras. Um exemplo de civiliza\u00e7\u00e3o que se destruiu por causa da dificuldade de transporte foi a da Ilha de P\u00e1scoa, que consumiu toda a madeira e ficou impossibilitada de construir barcos.<\/p>\n<p>Restam, portanto, somente duas causas complexas que vale a pena abordar: o esgotamento dos min\u00e9rios de que precisamos para construir nossa civiliza\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o populacional. Sobre o esgotamento dos min\u00e9rios, n\u00e3o vou falar porque n\u00e3o tenho conhecimento sobre isso. Apenas lembrarei ao leitor que h\u00e1 preocupantes not\u00edcias sobre o in\u00edcio da escassez de subst\u00e2ncias que s\u00e3o muito usadas na ind\u00fastria e n\u00e3o t\u00eam sido recicladas: cobre, ouro, ni\u00f3bio, tungst\u00eanio, h\u00e9lio, ne\u00f4nio, cromo e ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>### A doen\u00e7a perfeita para o Apocalipse<\/p>\n<p>Acredito que na maioria das obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do g\u00eanero p\u00f3s-apocal\u00edptico os autores mencionam a redu\u00e7\u00e3o populacional como um efeito e n\u00e3o como uma causa do processo. Esta \u00e9 uma abordagem que precisa ser revertida.  Em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria a humanidade enfrentou doen\u00e7as terr\u00edveis, que mataram muita gente, mas *em nenhum momento houve uma epidemia que tenha amea\u00e7ado a exist\u00eancia da humanidade*.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por mais terr\u00edvel que seja a &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221; que o autor imagine, ela dificilmente causar\u00e1 o fim da humanidade ou da civiliza\u00e7\u00e3o. Somente podemos conceber uma doen\u00e7a como fator capaz de destruir a nossa civiliza\u00e7\u00e3o global de hoje se esta doen\u00e7a, aliada a *outros fatores*, que ainda cabe analisar, tiver a capacidade de desencadear um processo duradouro de redu\u00e7\u00e3o populacional em todo o mundo. Nenhuma doen\u00e7a jamais conseguiu isso, mas o autor est\u00e1 livre para imaginar uma &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221; que possa conseguir isso. Atrevo-me a dizer que tal doen\u00e7a deveria reunir cinco caracter\u00edsticas b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>1. Transmiss\u00edvel por mais de um meio (preferencialmente pelo ar e pela via sexual, concomitantemente, para criar paranoia, hostilidade entre as pessoas e produzir grandes conflitos sociais, al\u00e9m de ser, tamb\u00e9m, os meios mais eficazes de propaga\u00e7\u00e3o).<br \/>\n2. Longo per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o (para o portador seguir transmitindo-a sem saber que j\u00e1 se contaminou).<br \/>\n3. Per\u00edodo de doen\u00e7a longo (para o portador continuar transmitindo-a por muito tempo), mas n\u00e3o muito (para que as mortes se avolumem rapidamente, criando p\u00e2nico).<br \/>\n4. Alta mortalidade (acima de 70%, de prefer\u00eancia) e capaz de produzir sequelas reprodutivas (esterilidade total ou relativa) nos doentes e nos sobreviventes.<br \/>\n5. Transmitida por pat\u00f3geno novo, resistente ao tratamento conhecido (em m\u00e9dia a ci\u00eancia leva meio s\u00e9culo para desenvolver o ant\u00eddoto ou a vacina para uma doen\u00e7a).<\/p>\n<p>Uma doen\u00e7a que re\u00fana as cinco caracter\u00edsticas (a AIDS re\u00fane quatro e meia) seria forte candidata a dar uma paulada forte na humanidade. Somem-se a isso as mortes decorrentes do p\u00e2nico e viol\u00eancia que se desencadeia, as decorrentes das crises econ\u00f4micas que se instalar\u00e3o quando a doen\u00e7a impactar a economia e outras formas de morte, podemos supor que uma doen\u00e7a &#8220;perfeita&#8221; poderia produzir uma redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial a 1\/3 da atual (propor\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 da Peste Negra em regi\u00f5es como Inglaterra e It\u00e1lia) ou at\u00e9 1\/6 da atual (como certas regi\u00f5es da Pol\u00f4nia, da Litu\u00e2nia, da Ucr\u00e2nia e da Alemanha na Guerra dos Trinta Anos). Esta \u00faltima mortandade, cabe lembrar, foi em muito ajudada pela propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as como a pr\u00f3pria Peste, a s\u00edfilis, a gonorreia e a tuberculose.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o \u00e9 inveross\u00edmil supor que uma combina\u00e7\u00e3o de guerras e doen\u00e7as, desencadeada pela difus\u00e3o inicial de uma doen\u00e7a em especial, cause grande redu\u00e7\u00e3o populacional em todo o mundo. N\u00e3o \u00e9 preciso recorrer a explica\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas para isso. O problema n\u00e3o est\u00e1 aqui, mas em como as pessoas reagir\u00e3o a tal mortandade. E a resposta \u00e9: nada bem, como veremos.<\/p>\n<p>Mas antes disso precisamos quantificar esta redu\u00e7\u00e3o, definindo em quanto tempo queremos que as pessoas morram. Uma redu\u00e7\u00e3o de 1% ao m\u00eas (que j\u00e1 \u00e9 brutal por si mesma) levaria seis anos inteiros (setenta e dois meses) para reduzir a popula\u00e7\u00e3o global em 51%.  Uma redu\u00e7\u00e3o de 2% ao m\u00eas (mais do que brutal) levaria tr\u00eas anos e meio para obter efeito semelhante. Sabendo que a Guerra dos Trinta anos produziu sua mortandade em um per\u00edodo espec\u00edfico, de cerca de onze anos, vemos que esses n\u00fameros n\u00e3o chutam para muito longe. Com um pouco de boa vontade, podemos imaginar uma letalidade de 3% (equivalente a seis milh\u00f5es de brasileiros morrendo por m\u00eas), que ainda assim levaria vinte e cinco meses para causar uma redu\u00e7\u00e3o de 51% da popula\u00e7\u00e3o. Mas existe algo interessante que s\u00f3 podemos ver quando criamos um gr\u00e1fico desta involu\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc1.jpg\" alt=\"calc1\" width=\"636\" height=\"309\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1736\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc1.jpg 636w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc1-120x58.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc1-250x121.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 636px) 100vw, 636px\" \/><\/p>\n<p>A primeira linha representa uma mortalidade uniforme de 1% ao m\u00eas por seis anos (janeiro de 2015 a dezembro de 2020). A segunda linha, mortalidade de 2% ao m\u00eas e a terceira, por sua vez, uma de 3% ao m\u00eas. Podemos observar neste gr\u00e1fico que a curva representada pela diminui\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica se torna cada vez menos acentuada com o passar do tempo, mesmo que a taxa de mortalidade se mantenha. Trata-se de uma varia\u00e7\u00e3o do paradoxo de Aquiles e a tartaruga, proposto por Zen\u00e3o de C\u00edtion:<\/p>\n<p>> Em uma persegui\u00e7\u00e3o na qual Aquiles conseguisse diminuir \u00e0 metade a cada minuto a sua dist\u00e2ncia para a tartaruga, ver\u00edamos que o corredor jamais a ultrapassaria.<\/p>\n<p>A ultrapassagem seria imposs\u00edvel pois a &#8220;metade da dist\u00e2ncia&#8221; seria um valor *cada vez menor*. Aqui temos mais ou menos a mesma coisa, pois qualquer que seja a taxa de mortalidade da &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221;, ela reduziria *cada vez menos* a popula\u00e7\u00e3o afetada, at\u00e9 chegar ao ponto em que a redu\u00e7\u00e3o se confundiria com a redu\u00e7\u00e3o natural ocorrida pelas causas comuns de morte.<\/p>\n<p>Ocorre que este cen\u00e1rio desconsidera dois fatos da natureza:<\/p>\n<p>1. O efeito cumulativo da evolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n2. A dificuldade cada vez maior da infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo que a doen\u00e7a tenha uma letalidade de 90%, isto significa que 1 em cada dez infectados sobreviver\u00e3o. Mesmo que os sobreviventes n\u00e3o adquiram a imunidade, eles demonstraram possuir caracter\u00edsticas (provavelmente gen\u00e9ticas) que favorecem sua sobreviv\u00eancia. Ent\u00e3o, \u00e0 medida que a doen\u00e7a dizima a popula\u00e7\u00e3o em geral, a popula\u00e7\u00e3o restante ser\u00e1, cada vez mais, composta por descendentes dos que sobreviveram.<\/p>\n<p>Disto resultam conclus\u00f5es \u00f3bvias:<\/p>\n<p>1. A letalidade da doen\u00e7a ser\u00e1 cada vez menor.<br \/>\n2. A taxa geral de mortalidade ser\u00e1 cada vez menor.<br \/>\n3. Logo, toda doen\u00e7a tende a se tornar in\u00f3cua ou control\u00e1vel.<br \/>\n4. Portanto, nenhuma doen\u00e7a exterminar\u00e1 a humanidade.<\/p>\n<p>Pode parecer um excesso de otimismo, mas n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o estamos aqui dizendo que a humanidade sobreviver\u00e1 inc\u00f3lume a qualquer tipo de doen\u00e7a, mas que eventualmente uma doen\u00e7a extremamente letal se tornar\u00e1 uma doen\u00e7a comum, como a gripe, que \u00e9 letal em alguns casos, especialmente crian\u00e7as e velhos, caso n\u00e3o tratada, mas que n\u00e3o tem o potencial de extinguir a humanidade. \u00c9 disso que estamos falando.<\/p>\n<p>O outro aspecto \u00e9 a dificuldade de infec\u00e7\u00e3o. Em um mundo superpopuloso e prom\u00edscuo, \u00e9 bastante f\u00e1cil que uma infec\u00e7\u00e3o se espalhe rapidamente. A &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221; poderia percorrer o planeta em poucas semanas antes de ser sequer detectada. Mas \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7a a diminuir rapidamente os contatos se tornam mais raros, a promiscuidade diminui e a doen\u00e7a come\u00e7a a se propagar com menos velocidade.<\/p>\n<p>Consequentemente, a longo prazo a taxa de mortalidade geral vai diminuir. O que nos leva a um novo gr\u00e1fico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc2.png\" alt=\"calc2\" width=\"615\" height=\"318\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1737\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc2.png 615w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc2-120x62.png 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/calc2-250x129.png 250w\" sizes=\"(max-width: 615px) 100vw, 615px\" \/><\/p>\n<p>Neste gr\u00e1fico, cada novo per\u00edodo de decr\u00e9scimo populacional tem uma taxa de decr\u00e9scimo 10% menor. Este gr\u00e1fico cont\u00e9m um pequeno erro: de fato, quanto menor a mortalidade, maior a redu\u00e7\u00e3o da letalidade a cada per\u00edodo. Por\u00e9m ele \u00e9 \u00fatil para nos demonstrar que eventualmente a redu\u00e7\u00e3o populacional vai estancar. Temos a evolu\u00e7\u00e3o de nosso lado.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos, ent\u00e3o, que nenhuma doen\u00e7a, por mais &#8220;perfeita&#8221; que seja, conseguir\u00e1 exterminar a humanidade, a menos que tenha uma letalidade de 100% (ou muito perto disso), seja propagada com grande rapidez e mate em um intervalo de tempo muito pequeno. Somente nestas condi\u00e7\u00f5es (que at\u00e9 hoje n\u00e3o foram observadas) uma doen\u00e7a poderia nos dizimar al\u00e9m do gargalo gen\u00e9tico sem nos dar tempo para evoluir defesas biol\u00f3gicas contra ela.<\/p>\n<p>Mas talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio que a doen\u00e7a em si nos mate, se ela conseguir destruir a civiliza\u00e7\u00e3o e incapacitar nossas estruturas artificiais de sobreviv\u00eancia, devolvendo-nos ao estado de natureza para o qual j\u00e1 n\u00e3o estamos preparados. Este \u00e9 o pr\u00f3ximo ponto a analisar.<\/p>\n<p>### O Apocalipse como um processo hist\u00f3rico<\/p>\n<p>Os rituais funer\u00e1rios s\u00e3o parte essencial da civiliza\u00e7\u00e3o. Quando a morte \u00e9 banalizada, em um contexto de redu\u00e7\u00e3o populacional r\u00e1pida, impossibilita o transcurso de tais ritos. Sabemos, com base nos documentos hist\u00f3ricos sobre as grandes mortandades do passado, que a civiliza\u00e7\u00e3o costuma ir ao limite quando os rituais funer\u00e1rios (que possuem um custo que n\u00e3o pode ser inteiramente descartado mesmo que os ritos sejam quase integralmente abolidos) se tornam excessivamente frequentes. Ent\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel supor que um aumento da taxa de mortalidade, em um curto espa\u00e7o de tempo, teria o potencial de colapsar a civiliza\u00e7\u00e3o conforme a conhecemos. Vejamos como:<\/p>\n<p>* Esgar\u00e7amento das rela\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\n* Amea\u00e7a ao direito de propriedade.<br \/>\n* P\u00e2nico.<br \/>\n* Colapso do sistema de transportes.<br \/>\n* Perda da refer\u00eancia do valor do dinheiro.<\/p>\n<p>Todos estes fatores podem acontecer, independentemente da exist\u00eancia de uma pandemia mort\u00edfera, mas \u00e9 razo\u00e1vel supor que a humanidade, posta diante de uma mortandade sem fim, entraria em colapso, produzindo os citados efeitos. Assim, a mortandade n\u00e3o precisa, em si mesma, ser a causa da extin\u00e7\u00e3o humana, basta que afete a humanidade de maneira suficiente para desorganizar o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es  podemos, subitamente, ser atirados de volta ao estado de natureza.<\/p>\n<p>Quando falo de &#8220;esgar\u00e7amento das rela\u00e7\u00f5es sociais&#8221; eu me refiro \u00e0 repulsa que a morte causa. Em quase todas as sociedades de hoje a morte \u00e9 temida e vista como um fato inaceit\u00e1vel. Quando a &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221; estiver matando aos milh\u00f5es, isto gerar\u00e1 uma dificuldade no trato com os moribundos e os doentes. Algo semelhante \u00e0 maneira como os homossexuais foram tratados nos primeiros tempos da pandemia de AIDS. O preconceito a quem foram ent\u00e3o submetidos ecoa at\u00e9 hoje, na radicaliza\u00e7\u00e3o religiosa e no aumenta da intoler\u00e2ncia contra eles, justamente quando eles se tornam mais vis\u00edveis. \u00c9 razo\u00e1vel supor que os doentes ser\u00e3o abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, que filhos n\u00e3o cuidar\u00e3o de pais e pais n\u00e3o cuidar\u00e3o de filhos, que os mortos ser\u00e3o enterrados sem cerim\u00f4nias, em valas comuns, empurrados por tratores. Isso j\u00e1 aconteceu, n\u00e3o s\u00f3 durante a Peste Negra, mas at\u00e9 recentemente, na epidemia de Gripe Espanhola de 1919, por exemplo. As pessoas se tornar\u00e3o fan\u00e1ticas, mas ao mesmo tempo as lideran\u00e7as religiosas formais perder\u00e3o sua ascend\u00eancia sobre o povo. A sociedade entrar\u00e1 num estado de selvageria causado pelo temor \u00e0 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O alto volume de falecimentos em curto espa\u00e7o de tempo esgotar\u00e1 os espa\u00e7os nos cemit\u00e9rios, for\u00e7ando a ado\u00e7\u00e3o de valas comuns para os cad\u00e1veres. Estas valas, se n\u00e3o forem bem seladas, podem ser uma fonte permanente de doen\u00e7as. Isto quer dizer que ap\u00f3s uma grande mortandade, os rituais f\u00fanebres ter\u00e3o perdido sua sacralidade. Geralmente inicia-se uma nova cultura funer\u00e1ria ap\u00f3s um processo desses.<\/p>\n<p>Em geral esta fase \u00e9 bem retratada na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Vemos isso de forma clara, por exemplo, em &#8220;A Dan\u00e7a da Morte&#8221;, de Stephen King. Por\u00e9m, seria tedioso um autor retratar em detalhes este momento, a menos que sua hist\u00f3ria foque neste momento, e n\u00e3o no mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a ao direito de propriedade \u00e9 um fator muito pouco mencionado na fic\u00e7\u00e3o. Talvez porque nos Estados Unidos, de onde vem a maior parte da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, as formalidades da posse de bens m\u00f3veis e im\u00f3veis sejam menores. Por\u00e9m mesmo l\u00e1 deveria haver maior aten\u00e7\u00e3o a este detalhe.<\/p>\n<p>A morte de um indiv\u00edduo inicia um longo processo de apura\u00e7\u00e3o de seus bens e d\u00edvidas (invent\u00e1rio), com o fim de distribu\u00ed-los entre os seus sucessores legais (herdeiros). No Brasil um processo de invent\u00e1rio pode demorar anos, ou mesmo d\u00e9cadas se os herdeiros resolverem litigar. Durante o invent\u00e1rio os bens do morto ficam indispon\u00edveis para venda (em alguns casos podem ficar indispon\u00edveis at\u00e9 mesmo para o uso). Existe a necessidade de se pagar taxas e impostos e n\u00e3o \u00e9 raro certos bens se tornarem inutiliz\u00e1veis ap\u00f3s o invent\u00e1rio (especialmente bens m\u00f3veis, como carros, utens\u00edlios, f\u00e1bricas, etc.).<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o amea\u00e7a a transi\u00e7\u00e3o do direito de propriedade quando o sistema encarregado de fazer estes procedimentos se depara com um grande volume de mortes em curto espa\u00e7o de tempo. Cart\u00f3rios, varas c\u00edveis, advogados etc. n\u00e3o est\u00e3o preparados para conduzir os processos que se amontoam. Isto cria situa\u00e7\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o de bens (posse) ou de roubo puro e simples de bens m\u00f3veis, por herdeiros (que, afinal, precisam seguir com a vida) ou por terceiros aproveitadores. Estas ocupa\u00e7\u00f5es \u00e0 margem da lei geram conflitos, que facilmente descambam para  a viol\u00eancia, e ajudam a criar um clima de desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei. A propriedade, aos poucos, deixa de ser garantida pelo estado de direito e passa a ser garantida pela for\u00e7a. <\/p>\n<p>Isto gera o p\u00e2nico de que o estado n\u00e3o seja mais capaz de garantir a paz social. As pessoas ent\u00e3o buscam armar-se e organizar-se em grupos para defender suas posses. Esses grupos crescem quando se amalgamam, e o am\u00e1lgama desses grupos inclui a fus\u00e3o de suas propriedades, legais ou reivindicadas. Ent\u00e3o temos uma nova conforma\u00e7\u00e3o da propriedade, que pode ser coletiva no in\u00edcio, mas que tende a uma feudaliza\u00e7\u00e3o, quando um indiv\u00edduo dentro do grupo consegue adquirir o seu controle. A nova conforma\u00e7\u00e3o da propriedade, gerada pelo p\u00e2nico, n\u00e3o ter\u00e1 muita coincid\u00eancia com os limites anteriormente vigentes: as pessoas n\u00e3o v\u00e3o manter o controle do que achavam ser seu, mas v\u00e3o procurar controlar aquilo que tenham meios de controlar efetivamente. As cercas e muros respeitar\u00e3o limites t\u00e1ticos defens\u00e1veis militarmente.<\/p>\n<p>Esta fase \u00e9 bem retratada na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Entre as obras populares que demonstram este estado de coisas temos os filmes da s\u00e9rie &#8220;Mad Max&#8221;, por exemplo.<\/p>\n<p>O colapso do sistema de transportes pode ocorrer antes, durante ou depois das fases acima. Ele ocorrer\u00e1 quando a humanidade n\u00e3o tiver mais meios econ\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos ou recursos humanos para reparar e operar estruturas de transporte caras, como aeroportos, rodovias e ferrovias. Em uma civiliza\u00e7\u00e3o colapsada haver\u00e1 uma tend\u00eancia ao transporte fluvial e mar\u00edtimo, onde isso for poss\u00edvel, e \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos automotores por tra\u00e7\u00e3o humana ou animal. Uma boa analogia para esta fase podemos encontrar na Alta Idade M\u00e9dia, em que os novos pseudo-estados criados pelos &#8220;b\u00e1rbaros&#8221; aproveitaram as estruturas romanas sobreviventes, sem nunca repar\u00e1-las, pois n\u00e3o tinham recursos para tal. \u00c0 medida que as estradas romanas se tornaram intransit\u00e1veis, grandes reinos, como o de Carlos Magno, se tornaram invi\u00e1veis. O feudalismo se consolida quando as viagens s\u00f3 podem acontecer a cavalo ou de navio.<\/p>\n<p>A perda de refer\u00eancia do valor do dinheiro \u00e9 o \u00faltimo est\u00e1gio de colapso. O dinheiro possui valor fiduci\u00e1rio, e n\u00e3o objetivo. Isto era verdade mesmo no caso do imp\u00e9rio romano, cujas moedas tinham baixo teor de metal precioso. Sem o poder estatal para garantir seu valor, o dinheiro se torna apenas papel e a sociedade tende ao escambo de bens ou servi\u00e7os, ocasionalmente surgindo novas formas de troca, regionalmente. No citado caso do imp\u00e9rio romano, o ouro e a prata em barra substitu\u00edram a moeda cunhada, mas a maior parte da substitui\u00e7\u00e3o foi, durante a Alta Idade M\u00e9dia, por bens e servi\u00e7os. A maior parte das &#8220;moedas&#8221; cunhadas nos primeiros s\u00e9culos ap\u00f3s o fim do Imp\u00e9rio eram pouco mais que medalhas, refletindo mais o orgulho de tiranetes e r\u00e9gulos do que uma utilidade objetiva.<\/p>\n<p>### Conclus\u00f5es<\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, concluir que uma civiliza\u00e7\u00e3o que sofra a curto prazo uma redu\u00e7\u00e3o sens\u00edvel de sua popula\u00e7\u00e3o se feudalizar\u00e1, pois a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista em que vivemos depende de uma grande popula\u00e7\u00e3o e de que esta seja est\u00e1vel. A instabilidade se contaminar\u00e1 nas institui\u00e7\u00f5es, destruindo o fr\u00e1gil equil\u00edbrio que nos mant\u00e9m seguindo.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de conceber a extin\u00e7\u00e3o da humanidade por um fator biol\u00f3gico, se conseguirmos que este impacto seja suficiente para colapsar o capitalismo. Sem o capitalismo, que produz, mais do que riqueza e poder, bens e servi\u00e7os para atender, mesmo que mal e porcamente, \u00e0 demanda de uma popula\u00e7\u00e3o de sete bilh\u00f5es de pessoas, podemos imaginar que a crise econ\u00f4mica permanente, resultante do fim do com\u00e9rcio internacional (ou da sua dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o) vai gerar uma carestia sem precedentes, conflitos sociais violent\u00edssimos e uma brutal queda da popula\u00e7\u00e3o por causa de fomes, guerras e doen\u00e7as ocasionadas por ambas. A &#8220;doen\u00e7a perfeita&#8221; poder\u00e1, no fim das contas, matar menos gente do que o pr\u00f3prio colapso da humanidade.<\/p>\n<p>Isso claro, se voc\u00ea n\u00e3o estiver concebendo um fim &#8220;m\u00e1gico&#8221; e &#8220;limpo&#8221; para a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo p\u00f3s-apocal\u00edptico  \u00e9  um tema recorrente na literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia. N\u00e3o discorrerei sobre os motivos disso, posto que n\u00e3o sou psicanalista e nem cr\u00edtico liter\u00e1rio, mas quando eu mesmo escrevi sobre o tema, foi pelo atrativo de praticar uma abordagem &#8220;tabula rasa&#8221; sobre o mundo e come\u00e7ar a fazer as coisas funcionarem como eu desejava. Minhas leituras das obras do g\u00eanero, por\u00e9m, me levaram a crer que muitos autores cometem erros impressionantes ao criarem suas hist\u00f3rias, simplificando excessivamente os processos e as realidades derivadas do &#8220;apocalipse&#8221; escolhido. Este artigo pretende ser uma an\u00e1lise destas limita\u00e7\u00f5es, ressaltando que n\u00e3o s\u00e3o todas as obras que cometem estes erros, mas a frequ\u00eancia deles torna \u00fatil sua discuss\u00e3o. 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