{"id":1780,"date":"2014-08-09T11:21:03","date_gmt":"2014-08-09T14:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1780"},"modified":"2017-11-02T14:08:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:10","slug":"mapas-cartas-diarios-outras-antiguidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/mapas-cartas-diarios-outras-antiguidades\/","title":{"rendered":"Mapas, Cartas, Di\u00e1rios e Outras Antiguidades"},"content":{"rendered":"<p>Ocorreu-me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto n\u00f3s ainda estamos presos ao passado de formas que n\u00e3o percebemos. Os \u00edndios do Xingu tem um conceito que expressa bem isso. Segundo narrou Orlando Villas-Boas, quando ele e outros sertanistas acompanhavam os \u00edndios em caminhadas pela floresta, se os brancos for\u00e7avam muito o ritmo, os \u00edndios pediam para fazer uma parada. Depois de ver isso ocorrer v\u00e1rias vezes, perguntaram-lhes por que e os \u00edndios disseram que os brancos queriam andar muito depressa, mas era preciso parar quando em vez, para dar tempo \u00e0s suas almas para alcan\u00e7arem os seus corpos. Sim, parece-me que o mundo evolui t\u00e3o depressa que deixamos nossas almas perdidas l\u00e1 atr\u00e1s. Isso talvez explique porque, mesmo no mundo louco e tecnol\u00f3gico em que j\u00e1 vivemos ainda estejamos pensando segundo modelos mentais  de um passado recente.<\/p>\n<p>Um bom exemplo s\u00e3o os di\u00e1rios. Muitos autores ainda fazem seus personagens escrev\u00ea-los, mas nada \u00e9 t\u00e3o anacr\u00f4nico. Quem em s\u00e3 consci\u00eancia ainda abre um caderno para escrever &#8220;querido di\u00e1rio&#8221; no alto de uma folha? S\u00f3 crian\u00e7as, mas elas ainda o fazem porque o conceito ainda est\u00e1 na televis\u00e3o e na literatura infantil.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio surgiu com os alquimistas, que tomavam notas di\u00e1rias de suas experi\u00eancias para acompanhar o seu desenvolvimento. Os navegadores tamb\u00e9m tinham o seu tipo de di\u00e1rio, que costumava incluir as coordenadas geogr\u00e1ficas em que cada entrada era escrita. Ambos tinham uma obsess\u00e3o com a contagem do tempo, embora por motivos diferentes. O di\u00e1rio pessoal surge mais tarde, na Europa, por influ\u00eancia do di\u00e1rio de navega\u00e7\u00e3o. As fam\u00edlias de marinheiros, ou os pr\u00f3prios marinheiros aposentados ou em folga, ou o h\u00e1bito destes de registrarem em forma de di\u00e1rio suas vicissitudes. Por\u00e9m, diferente dos outros, o di\u00e1rio pessoal tinha uma forma mais livre. Afinal, as coordenadas geogr\u00e1ficas n\u00e3o mudam muito quando voc\u00ea est\u00e1 curtindo a aposentadoria sentado em uma cadeira de balan\u00e7o.<\/p>\n<p>Com o tempo o di\u00e1rio se tornou &#8220;coisa de menininha&#8221; ou de dona de casa entediada que, sem ter com quem conversar, enchia cadernos escrevendo &#8220;querido di\u00e1rio&#8221;. Foi essa a imagem de di\u00e1rio que mais se perpetuou. O di\u00e1rio de bordo praticamente j\u00e1 n\u00e3o tem uso, porque os navios s\u00e3o acompanhados em tempo real atrav\u00e9s de GPS e radiocomunica\u00e7\u00e3o. O di\u00e1rio cient\u00edfico ainda \u00e9 usado, embora j\u00e1 n\u00e3o seja parecido com o que se fazia no passado, e hoje se chama &#8220;relat\u00f3rio&#8221;.<\/p>\n<p>O di\u00e1rio pessoal \u00e9 um anacronismo porque j\u00e1 n\u00e3o existem as raz\u00f5es pelas quais era escrito. As donas de casa entediadas quase j\u00e1 n\u00e3o existem, e os di\u00e1rios foram substitu\u00eddos por blogs e redes sociais. Portanto, \u00e9 extremamente improv\u00e1vel que seu personagem escreva um di\u00e1rio, a menos que ele seja um personagem de \u00e9poca, ou um personagem meio rid\u00edculo.<\/p>\n<p>Por sua vez, o h\u00e1bito de escrever cartas j\u00e1 desapareceu, e desapareceu t\u00e3o r\u00e1pido que mal o vimos desfazer-se no ar. Em 1997 a carta ainda era o principal meio de comunica\u00e7\u00e3o. Quando criei a revista liter\u00e1ria &#8220;Trem Azul&#8221;, em parceria com o Emerson &#8220;Toquinho&#8221; Teixeira Cardoso, reunimos um fich\u00e1rio com os endere\u00e7os de mais de 500 escritores do Brasil e do mundo. Quando voltei de minha inatividade liter\u00e1ria, em 2005, subitamente aquilo n\u00e3o tinha mais nenhum valor.<\/p>\n<p>As cartas perderam o sentido com a inven\u00e7\u00e3o do e-mail e a populariza\u00e7\u00e3o de telefones celulares. Da segunda vez que fiz uma revista liter\u00e1ria, toda a comunica\u00e7\u00e3o foi feita por correio eletr\u00f4nico. Uma situa\u00e7\u00e3o como a do filme &#8220;Central do Brasil&#8221;, em que pessoas analfabetas pagavam a uma outra para que escrevesse cartas para a fam\u00edlia distante, nos parece mais alien\u00edgena do que uma civiliza\u00e7\u00e3o marciana. Aquele filme talvez n\u00e3o tenha ganhado o Oscar porque nos EUA a revolu\u00e7\u00e3o do e-mail j\u00e1 acontecia, enquanto n\u00f3s ainda est\u00e1vamos presos no s\u00e9culo XIX. Hoje um filme como aquele n\u00e3o seria feito, n\u00e3o s\u00f3 porque o assunto j\u00e1 n\u00e3o existe, mas porque o p\u00fablico de hoje j\u00e1 teria dificuldades para entender: o analfabetismo praticamente desapareceu e quase ningu\u00e9m escreve cartas.<\/p>\n<p>A ideia de esperar semanas pela resposta parece exasperante aos jovens de hoje, e eles tem raz\u00e3o: cartas eram uma merda para fins de comunica\u00e7\u00e3o, e sua \u00fanica vantagem era a possibilidade de serem colecionadas e posteriormente publicadas. Uma das perdas do futuro ser\u00e1 n\u00e3o termos mais a &#8220;correspond\u00eancia&#8221; dos escritores editada. Ser\u00e1 uma perda grande. E-mails e redes sociais s\u00e3o prec\u00e1rios e provavelmente se perder\u00e3o no buraco da mem\u00f3ria. Se eu amanh\u00e3 ou depois me tornar uma lenda da literatura, os fil\u00f3logos e cr\u00edticos do futuro n\u00e3o ter\u00e3o como desencavar minha correspond\u00eancia com meus pares: ela n\u00e3o existir\u00e1, embora eu tenha sido muito atuante nas redes sociais (Orkut, Formspring, Facebook, Plus e VK.com).<\/p>\n<p>O desaparecimento da carta foi t\u00e3o grande que se voc\u00ea fizer seus personagens trocarem cartas os leitores jovens provavelmente entender\u00e3o o contexto mais ou menos como a ilumina\u00e7\u00e3o de pergaminhos na Idade M\u00e9dia. Para os adolescentes de hoje, n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a entre uma carta e um pergaminho de feiti\u00e7os. Em duas gera\u00e7\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o sentir\u00e3o diferen\u00e7a entre um livro f\u00edsico e um grim\u00f3rio. O livro, ali\u00e1s, j\u00e1 est\u00e1 se tornando uma esp\u00e9cie de fetiche, o que denuncia sua decad\u00eancia como m\u00eddia. As pessoas cheiram livros como se eles fossem entes queridos, querem t\u00ea-los em edi\u00e7\u00f5es de luxo como se fossem tesouros. Antigamente os livros eram vistos de uma forma estritamente utilit\u00e1ria: ningu\u00e9m valorizava mais uma obra por ter &#8220;capa dura&#8221; ou &#8220;papel p\u00f3len&#8221;. Muitos livros de qualidade s\u00f3 foram ganhar edi\u00e7\u00f5es de luxo d\u00e9cadas ap\u00f3s sua publica\u00e7\u00e3o original. Muitos autores famosos foram publicados inicialmente em revistas impressas em papel r\u00fastico (&#8220;pulp&#8221;) e de capa mole. Essa mudan\u00e7a j\u00e1 \u00e9 reflexo do papel m\u00edstico que est\u00e1 sendo atribu\u00eddo ao livro, e o futuro nos reserva uma revis\u00e3o radical do papel e da forma da leitura na sociedade.<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 do mapa rodovi\u00e1rio (e dos mapas em geral, mas o caso do mapa rodovi\u00e1rio \u00e9 tang\u00edvel). Antes da inven\u00e7\u00e3o do GPS as viagens de f\u00e9rias precisavam do infatig\u00e1vel &#8220;Guia 4Rodas&#8221;, com seu &#8220;Mapa Rodovi\u00e1rio do Brasil&#8221;, que representava as principais estradas do pa\u00eds atrav\u00e9s de linhas coloridas e c\u00f3digos engra\u00e7ados. Em caso de d\u00favida, parar na beira da estrada, estender o mapa sobre o cap\u00f4 e tentar descobrir para onde ir. Quase sempre a cena indefect\u00edvel dos antigos filmes de viagem: o marido que teimava em confiar no mapa em vez de perguntar pelo caminho aos transeuntes acabava indo parar em algum fim de mundo assombrado. Ainda nos anos 1990 a revista &#8220;Piratas do Tiet\u00ea&#8221; publicou uma tirinha sobre um entregador de pizza que foi parar no inferno tentando seguir um mapa rodovi\u00e1rio at\u00e9 Guaianases. Se suas hist\u00f3rias est\u00e3o ambientadas no passado, seus personagens precisam passar por essa dificuldade.<\/p>\n<p>Mas hoje em dia ningu\u00e9m compraria o Guia 4Rodas, talvez ningu\u00e9m mais saiba ler um mapa rodovi\u00e1rio. Eu mesmo j\u00e1 me esqueci como era. Estamos acostumados \u00e0 ideia do Google Mapas (ou do iMaps, para voc\u00ea que prefere produtos da Apple) e dos GPS. O mapa n\u00e3o pode ser uma folha de papel dobrada, precisa ser algo din\u00e2mico, que se pode consultar enquanto dirige. A ideia de parar na beira da estrada para ler um mapa nos parece t\u00e3o absurda quanto esperar semanas pela resposta a uma carta de amor. Vivemos a velocidade, em todos os aspectos, e precisamos da instantaneidade, do macarr\u00e3o ao amor de nossas vidas, tudo tem que vir em tr\u00eas minutos, e ser consumido igualmente r\u00e1pido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocorreu-me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto n\u00f3s ainda estamos presos ao passado de formas que n\u00e3o percebemos. Os \u00edndios do Xingu tem um conceito que expressa bem isso. Segundo narrou Orlando Villas-Boas, quando ele e outros sertanistas acompanhavam os \u00edndios em caminhadas pela floresta, se os brancos for\u00e7avam muito o ritmo, os \u00edndios pediam para fazer uma parada. 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