{"id":1801,"date":"2014-08-17T23:47:25","date_gmt":"2014-08-18T02:47:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1801"},"modified":"2017-08-13T00:32:27","modified_gmt":"2017-08-13T03:32:27","slug":"tecnicas-esquecidas-de-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/tecnicas-esquecidas-de-escrita\/","title":{"rendered":"T\u00e9cnicas Esquecidas de Escrita"},"content":{"rendered":"<p>> Em Homenagem a S\u00e9rgio Ferrari, do blog [Astromiau](http:\/\/astromiau.blogspot.com.br\/2014\/08\/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html).<\/p>\n<p>## Dada\u00edsmo Liquefeito<\/p>\n<p>Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorte\u00e1-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Gir\u00e3o batia p\u00e1ginas de di\u00e1rios em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o m\u00e9todo dada\u00edsta de Tzara, pois n\u00e3o apenas permitia descobrir inusitadas rela\u00e7\u00f5es entre palavras, como tamb\u00e9m criava as mais estranhas rela\u00e7\u00f5es entre letras e s\u00edlabas.<\/p>\n<p>A obra do extraordin\u00e1rio poeta ficou desacreditada depois de sua condu\u00e7\u00e3o ao sanat\u00f3rio p\u00fablico, em Barbacena, em 1959, ap\u00f3s ter dado de beber a umas senhoras o que ele chamou de &#8220;vitamina do esp\u00edrito&#8221;, que nada mais era do que a sua poesia dissolvida em leite. Para grande esc\u00e2ndalo da sociedade barbacenense, apurou-se que as obras utilizadas nesse espermimento (sic) foram revistinhas de Carlos Z\u00e9firo.<\/p>\n<p>## A M\u00e3o Dormente da Escurid\u00e3o<\/p>\n<p>Ursolino C. Gaio, de Juiz de Fora, MG, era um engraxate pobre e analfabeto, ainda adolescente, quando se matriculou no Mobral, em 1976. At\u00e9 hoje se orgulha de ter sido o \u00fanico brasileiro alfabetizado pelo dito programa governamental. Na \u00e9poca em que ainda mal aprender a ler, fascinou-se pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ou melhor, pelas capas dos livros de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que via nas bancas e livrarias da cidade. Um belo dia, subindo a Rua Halfeld em dire\u00e7\u00e3o ao trabalho, teve de parar por mais de vinte minutos contemplando a capa de &#8220;A M\u00e3o Esquerda da Escurid\u00e3o&#8221;,  de Ursula K. Le Guin. N\u00e3o pode ler o livro, mas o t\u00edtulo e a bizarra figura da capa o fizeram perder o ju\u00edzo durante meses.<\/p>\n<p>Ursolino desenvolveu uma t\u00e9cnica que consistia em sentar-se sobre a m\u00e3o esquerda at\u00e9 ela ficar meio dormente e depois introduzi-la entre as cobertas, onde estava a pena e caderno. Escrevia poemas er\u00f3ticos evocando seres abissais e andr\u00f3ginos aliens human\u00f3ides, dando de si em cada cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar da interrup\u00e7\u00e3o representada pela interfer\u00eancia de sua m\u00e3e, quando o surpreendeu em pleno ato criativo, Ursolino voltou a praticar sua arte quando, j\u00e1 adulto, passou a viver sozinho, muito sozinho. Atualmente Ursolino descobriu a Parada Gay de Juiz de Fora, onde encontrou v\u00e1rias figuras parecidas com a capa do livro e p\u00f4de finalmente viver sua paix\u00e3o juvenil. <\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o ele tem produzido pouca poesia, porque se afastou da metafora.<\/p>\n<p>## A T\u00e9cnica Infernal<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Constantino, de Leopoldina, Minas Gerais, tentou o suic\u00eddio v\u00e1rias vezes, por diversos m\u00e9todos, sempre sobrevivendo. Cada vez que o reanimavam, dedicava-se, por meses a fio, ao insano projeto de um romance que, dizia, lhe fora conferido pelo pr\u00f3prio dem\u00f4nio. Terminado o romance, entrava novamente em depress\u00e3o e acabava tentando o suic\u00eddio mais uma vez. Repetindo o ciclo. Segundo a fam\u00edlia, Constantino descobrira a t\u00e9cnica para escrever seus romances quando se acidentou com uma gilete ao tentar se depilar para o Carnaval. Depois disso, passou a provocar situa\u00e7\u00f5es de quase morte para voltar a conversar com o capeta. <\/p>\n<p>A carreira promissora do jovem terminou subitamente quando foi internado na Cl\u00ednica S\u00e3o Jos\u00e9, para proteg\u00ea-lo de si mesmo. L\u00e1, durante o banho de sol, encontrou L\u00facio Ferraz, um louco que penteava as sobrancelhas para cima e criava uma lagartixa de estima\u00e7\u00e3o. L\u00facio o reconheceu dizendo: &#8220;Salafr\u00e1rio, fiquei sabendo que andas roubando minhas hist\u00f3rias!&#8221; Supostamente L\u00facio tentou ati\u00e7ar a lagartixa para que atacasse Constantino com suas labaredas de fogo, mas Constantino morreu de sinopse antes que a micr\u00f3bia fera tivesse tomado f\u00f4lego para inciner\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Em Homenagem a S\u00e9rgio Ferrari, do blog [Astromiau](http:\/\/astromiau.blogspot.com.br\/2014\/08\/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html). ## Dada\u00edsmo Liquefeito Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorte\u00e1-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Gir\u00e3o batia p\u00e1ginas de di\u00e1rios em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o m\u00e9todo dada\u00edsta de Tzara, pois n\u00e3o apenas permitia descobrir inusitadas rela\u00e7\u00f5es entre palavras, como tamb\u00e9m criava as mais estranhas rela\u00e7\u00f5es entre letras e s\u00edlabas. 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