{"id":1808,"date":"2014-08-21T01:09:46","date_gmt":"2014-08-21T04:09:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1808"},"modified":"2017-11-02T14:08:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:10","slug":"suzanne-cara-ou-coroa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/suzanne-cara-ou-coroa\/","title":{"rendered":"Suzanne, Cara ou Coroa"},"content":{"rendered":"<p>Acabo de saber pela internet que Suzanne Richthofen, presa h\u00e1 doze anos pela morte de seus pais, escreveu \u00e0 Ju\u00edza de Execu\u00e7\u00f5es Penas que lhe autorizou o regime semi-aberto um pedido de adiamento de sua progress\u00e3o de pena.  O simbolismo do ato, em suas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, me tornou pensativo. S\u00e3o v\u00e1rias as camadas de perguntas que me apareceram ao julgar, mentalmente,  o que pode andar pela cabecinha da mo\u00e7a. Eu quase tenho pena dela, da\u00ed me lembro que ela n\u00e3o cometeu um crime qualquer. Ent\u00e3o continuo tendo pena dela, porque a enormidade de certos crimes j\u00e1 \u00e9 uma grande pena. Triste o ser humano que comete certos atos: por comet\u00ea-los ele j\u00e1 se brutaliza e, se nunca se arrepende deles, est\u00e1 condenado a uma vida horr\u00edvel, a vida dos insens\u00edveis. Suzanne Richthofen est\u00e1 reduzida, agora, a uma criatura meio digna de pena. De pena capital, talvez, mas tamb\u00e9m da compaix\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A enormidade do crime, quando cometido por uma pessoa normal, n\u00e3o psic\u00f3tica, deve trazer um impacto devastador sobre a sa\u00fade mental. A ficha pode demorar a cair, mas, se voc\u00ea n\u00e3o nasceu sem empatia, se n\u00e3o \u00e9 um psicopata frio, a ficha eventualmente cai. Qu\u00e3o terr\u00edvel deve ser esse momento, seja ele na solid\u00e3o de casa, a salvo da lei, posto que a lei reluta especialmente diante dos culpados, ou dentro de uma cela. A parede est\u00e1 l\u00e1, o concreto est\u00e1 l\u00e1. Pessoas de verdade, pessoas que ainda s\u00e3o humanas, enfrentam esse momento com dor.<\/p>\n<p>Ficar preso deve ser uma das coisas mais angustiantes a que um ser humano pode ser submetido. Talvez uma pris\u00e3o rigorosa consiga ser mais cruel do que uma decapita\u00e7\u00e3o. A pena de morte \u00e9 definitiva, sim, \u00e9 irretrat\u00e1vel e total, mas ela n\u00e3o tem prolongamento e nem desdobramentos. A luz pode bruxulear na hora de se apagar, mas apagada n\u00e3o mais est\u00e1 presente. Que dizer de quem enfrenta uma pena longa?<\/p>\n<p>Nascemos para a liberdade. Qu\u00e3o potente deve ser a desgra\u00e7a de quem permanece tanto tempo preso que desaprende a ser livre? Suzanne Richthofen pediu \u00e0 ju\u00edza que adie sua transfer\u00eancia ao regime semiaberto porque n\u00e3o deseja deixar o pres\u00eddio onde atualmente cumpre pena. Diz depender do sal\u00e1rio que recebe por seu trabalho ali (que certamente n\u00e3o \u00e9 muito) e que deseja reduzir a pena com este servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Penso que a ju\u00edza dever\u00e1 negar o pedido. N\u00e3o cabe ao apenado decidir sobre seu destino. N\u00e3o em um sistema judicial s\u00e9rio. Ao receber a pena, ainda mais em um sistema como o nosso, que se baseia na ideia (em minha opini\u00e3o ing\u00eanua) de que se pode recuperar a todo criminoso, o indiv\u00edduo \u00e9 privado de sua liberdade. N\u00e3o apenas do direito de ir e vir, mas do direito de ficar. N\u00e3o apenas do direito de fazer o que quer, mas do direito de n\u00e3o fazer o que n\u00e3o quer. Pris\u00e3o implica em coer\u00e7\u00e3o. O criminoso pode, e de fato deveria, ser coagido, at\u00e9 mesmo pela viol\u00eancia, se preciso, a cumprir com um sistema de regras e tarefas. Este sistema, em tese, teria a fun\u00e7\u00e3o de reeduc\u00e1-lo e preparar sua reinser\u00e7\u00e3o na sociedade. Algu\u00e9m que quebrou as regras da sociedade deve ser acostumado a segui-las.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os psic\u00f3logos costumam dizer que o psicopata \u00e9 um enganador por natureza, capaz de explorar a empatia dos &#8220;trouxas&#8221;. Talvez ela s\u00f3 esteja se fazendo de coitada, para atrair a empatia de gente como eu, que se comove com a dor alheia, mesmo a de quem merece a dor. Na verdade, e isso nem sou eu que digo, mas um psic\u00f3logo forense, <em>somente um psicopata da pior esp\u00e9cie consegue viver em uma pris\u00e3o sem jamais infringir as regras<\/em>. Sendo a pris\u00e3o um ambiente desumano por excel\u00eancia, para ter sucesso nela \u00e9 preciso ser desumano. Olhando por este lado, \u00e9 um erro que os sistemas prisionais privilegiem o bom comportamento. Deveriam privilegiar justamente o inconformismo. O bom comportamento revela algu\u00e9m que se alienou, que n\u00e3o conseguir\u00e1 mais viver em liberdade porque esqueceu a liberdade. O bom comportamento revela algu\u00e9m que aprendeu a jogar pelas regras para sair o mais cedo poss\u00edvel. Revela justamente quem n\u00e3o pode sair.<\/p>\n<p>Tenho diante de mim uma moeda e jogo cara ou coroa para saber se Suzanne \u00e9 s\u00f3 uma menina tola que se meteu com drogas e tamb\u00e9m subst\u00e2ncias entorpecentes (sic) e com isso participou da morte dos pr\u00f3prios pais, ou se \u00e9 uma criminosa fria e sem remorsos que at\u00e9 agora joga com maestria o Big Brother da pris\u00e3o para sair, se n\u00e3o o mais cedo poss\u00edvel, pois isto a opini\u00e3o p\u00fablica represou v\u00e1rias vezes, pelo menos de maneira definitiva. Cara, Suzanne m\u00e1. Coroa, Suzanne boa. Cara, Suzanne sair\u00e1 agora, e se dar\u00e1 bem, talvez tenha acesso \u00e0s contas dos pais mortos na Su\u00ed\u00e7a, esperar\u00e1 que a poeira baixe e emigrar\u00e1 em sil\u00eancio. Coroa, Suzanne seria avaliada como inapta pelos psic\u00f3logos forenses (se estes decidissem). Desaprendeu a liberdade, vai sair da cadeia como um cachorrinho acuado, ser\u00e1 hostilizada na rua e, se n\u00e3o cometer o suic\u00eddio cedo e nem for linchada por gente que se acha digna de atirar a primeira pedra at\u00e9 em Cristo redivivo, acabar\u00e1 seus dias como uma velha pobre, louca e sem fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Suzanne m\u00e1 \u00e9 uma pessoa f\u00e1cil de recuperar para a sociedade. Talvez at\u00e9 ganhe da justi\u00e7a o direito a uma nova identidade, para remover a marca de Caim de sua face. Suzanne m\u00e1 parece t\u00e3o boazinha&#8230; Suzanne boa \u00e9 um caso perdido. Ningu\u00e9m lhe dar\u00e1 a m\u00e3o, ningu\u00e9m lhe dar\u00e1 sequer um bom-dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de saber pela internet que Suzanne Richthofen, presa h\u00e1 doze anos pela morte de seus pais, escreveu \u00e0 Ju\u00edza de Execu\u00e7\u00f5es Penas que lhe autorizou o regime semi-aberto um pedido de adiamento de sua progress\u00e3o de pena. O simbolismo do ato, em suas circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, me tornou pensativo. S\u00e3o v\u00e1rias as camadas de perguntas que me apareceram ao julgar, mentalmente, o que pode andar pela cabecinha da mo\u00e7a. Eu quase tenho pena dela, da\u00ed me lembro que ela n\u00e3o cometeu um crime qualquer. 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