{"id":187,"date":"2011-12-04T20:56:00","date_gmt":"2011-12-04T23:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=187"},"modified":"2017-11-02T14:09:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:02","slug":"como-tornar-me-definitivamente-um-nao-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/12\/como-tornar-me-definitivamente-um-nao-imortal\/","title":{"rendered":"Como Tornar-me Definitivamente um N\u00e3o Imortal"},"content":{"rendered":"<h4>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>Houve uma \u00e9poca, h\u00e1 n\u00e3o muitos s\u00e9culos, em que o termo &#8220;academia&#8221; tinha um prest\u00edgio inabal\u00e1vel. Era, tamb\u00e9m, um tempo no qual as pessoas se sentiam muito identificadas com a monarquia, por raz\u00f5es as mais diversas, principalmente religiosas.<a href=\"#1\"><sup>1<\/sup><\/a> Eram tempos brutos, nos quais a fogueira ou os instrumentos de tortura (quando n\u00e3o ambos) eram o destino de pessoas que n\u00e3o pensavam de acordo com a regra dominante. Eram tempos nos quais uma pessoa poderia passar a vida inteira em uma pris\u00e3o para doentes mentais<a href=\"#2\"><sup>2<\/sup><\/a> apenas por ter um comportamento ligeiramente divergente. A menos, \u00e9 claro, que <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/universosombrio.blogspot.com\/2010\/04\/elizabeth-bathory-condessa-sanguinaria\">tivesse dinheiro e t\u00edtulos de nobreza<\/span>, nesse caso voc\u00ea poderia <a target=\"_new\" href=\"http:\/\/super.abril.com.br\/blogs\/superlistas\/6-mulheres-diabolicas-que-voce-provavelmente-nao-conhecia\/\">degolar mocinhas virgens para banhar-se em sangue na busca da eterna juventude<\/a> durante d\u00e9cadas antes de algu\u00e9m se incomodar em lhe condenar a uma &#8220;pris\u00e3o domiciliar&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero, com isso, sugerir que acad\u00eamicos s\u00e3o sanguin\u00e1rios, mas que a academia \u00e9 um f\u00f3ssil de uma \u00e9poca cujo fim, iniciado penosamente com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, \u00e9 um dos grandes progressos da Hist\u00f3ria. Este texto pretende explicar porque eu penso assim, e convenc\u00ea-lo, leitor, a pensar de forma semelhante.<\/p>\n<h4>Origem do Termo<\/h4>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe \u2014 e \u00e9 poss\u00edvel que muita gente n\u00e3o saiba \u2014 a palavra &#8220;academia&#8221; remonta aos antigos gregos. Deriva do nome de um dos montes de Atenas, o <i>Akademos, <\/i>que, por sua vez, tinha sido transformado em um bosque sagrado, plantado em homenagem \u00e0 deusa.<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#3\"><sup>3<\/sup><\/a> Mas esta academia original era apenas o apelativo informal para o conjunto dos fil\u00f3sofos que se reuniam para discutir <i>sophia <\/i>\u00e0 sombra de \u00e1rvores c\u00e9lebres. Esta academia original seria algo in\u00f3cuo, quase benigno.\n<\/p>\n<p>Ocorre que esta palavra passou \u00e0 posteridade como lembran\u00e7a de nomes ilustres que por l\u00e1 discutiram: S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles entre eles, gigantes que deixaram indel\u00e9veis marcas na cultura humana por mil\u00eanios a seguir. Era quest\u00e3o de tempo que algu\u00e9m, interessado em comparar-se com S.P.&#038;A. tivesse a brilhante ideia de chamar ao seu grupo local de discuss\u00f5es pelo mesmo nome antigo, mesmo que n\u00e3o houvesse o envolvimento de nenhum bosque, nenhuma deusa e nenhuma <i>sophia.<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico que o uso do termo tenha sido reconsiderado, quase um mil\u00eanio depois que o zelo crist\u00e3o dispersou a academia original, por um tirano florentino, leg\u00edtimo representante dos ilustres regimes renascentistas italianos que, vistos por nossos olhos democr\u00e1ticos, seria o equivalente a um Muammar Kadhafi, um Benito Mussolini ou um ditador de republiqueta latinoamericana: militar, cruel e obcecado pelo poder. O que diferenciava os tiranetes florentinos dos ditadores do s\u00e9culo XX era uma preocupa\u00e7\u00e3o com a cultura: afinal, vivia-se numa \u00e9poca em que ser culto era chique, ao contr\u00e1rio de hoje, em que uma frase como &#8220;nemli e nemlerey&#8221; se torna um meme nas redes sociais. Nada era mais chique para um tiranete renascentista do que ter seu grego domesticado ensinando filosofia para a juventude. Algo assim como os milion\u00e1rios chineses devem sentir com seus ingleses de estima\u00e7\u00e3o ensinando l\u00edngua e modos ocidentais aos estudantes: os n\u00e1ufragos de uma grande civiliza\u00e7\u00e3o deca\u00edda servindo de semente para a grande civiliza\u00e7\u00e3o nascente, ainda chamada de b\u00e1rbara.<\/p>\n<h4>Academias e Absolutismo<\/h4>\n<p>Se a motiva\u00e7\u00e3o original dos tiranetes florentinos ao criar &#8220;academias&#8221; fora dar um lustro de cultura nas suas armaduras sujas do sangue dos cidad\u00e3os,<sup><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#4\">4<\/a><\/sup> da vez seguinte que a ideia entrou em uso a preocupa\u00e7\u00e3o com a cultura era menor, mas havia uma necessidade maior de definir a coisa. Muito depois que fossem esquecidas as academias renascentistas, com seus caracter\u00edsticos nomes engra\u00e7ados,<sup><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#5\">5<\/a><\/sup> os monarcas europeus se apropriaram da ideia. As primeira academias formais surgiram onde os monarcas asseguraram o poder absoluto ou onde os tiranetes conseguiram estabilizar-se no poder. Contrariamente \u00e0s academias informais, com seus nomes tolos, estas tinham nomes pomposos e oficialescos.<\/p>\n<p>Em Floren\u00e7a, M\u00e9dici fundaram a Academia das Belas Artes de Floren\u00e7a, respons\u00e1vel, entre outras coisas, por hoje ainda chamarmos as artes visuais de &#8220;Belas Artes&#8221; e n\u00e3o simplesmente de &#8220;Artes Visuais&#8221;. Esta academia pretendeu (e conseguiu) substituir as in\u00fameras guildas de artistas e artes\u00e3os herdadas da noite dos tempos e unificar o ensino de pintura, escultura e outras artes ditas &#8220;belas&#8221;. Desta &#8220;unifica\u00e7\u00e3o&#8221; surgiu um estilo padronizado, logo chamado de &#8220;acad\u00eamico&#8221;, e cuja grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da arte pode ser medida pelo fato de ele ter surgido j\u00e1 no fim do Renascimento, ou de o fim do Renascimento ter j\u00e1 come\u00e7ado t\u00e3o logo ele surgiu. A academia florentina teve uma acolhida t\u00e3o boa (n\u00e3o necessariamente entre os artistas e artes\u00e3os anteriormente estabelecidos em Floren\u00e7a) que logo outros tiranos italianos (entre eles o Papa) trataram de criar suas academias. Pipocaram institui\u00e7\u00f5es semelhantes por toda a Bota: em Bolonha, em Siena, em Roma, em N\u00e1poles. E com a difus\u00e3o de tanta academia, o velho Renascimento come\u00e7ou a transformar-se em outra coisa, que hoje \u00e9 chamada, retrospectivamente, de &#8220;barroco&#8221;.<sup><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#6\">6<\/a><\/sup><\/p>\n<h4>A Fun\u00e7\u00e3o da Academia no Contexto Absolutista<\/h4>\n<p>Obviamente os reis n\u00e3o fundavam academias apenas porque precisavam de um &#8220;ar culto&#8221;. A partir da segunda metade do s\u00e9culo XVI a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica j\u00e1 tinha mudado tanto que os reis n\u00e3o mais precisavam de subterf\u00fagios. Mesmo os <i>condottieri<\/i> italianos haviam adquirido um ar de nobreza, que inicialmente n\u00e3o tinham, e podiam contar com legi\u00f5es de imitadores e puxa-sacos. Confortavelmente sentados nos seus tronos, ao menos em compara\u00e7\u00e3o com a precariedade do poder de seus antecessores e antepassados, esses l\u00edderes puderam estabelecer estruturas para exerc\u00edcio de seu poder.<\/p>\n<p>E as academias surgem nesse contexto: a fun\u00e7\u00e3o principal delas passou a ser, desde ent\u00e3o, a de controlar a produ\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o do que se convencionou a chamar de &#8220;cultura&#8221;. Em suma: uma Academia \u00e9 apenas um nome pomposo para os departamentos de censura dos estados absolutistas europeus. Sen\u00e3o, vejamos:<\/p>\n<p>Uma das fun\u00e7\u00f5es da academia era justamente a de centralizar a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica. A Academia de Belas Artes de Floren\u00e7a foi criada justamente para substituir todas as guildas de artistas e artes\u00e3os da cidade, colocando a forma\u00e7\u00e3o dos futuros artistas integralmente sob a \u00e9gide dos M\u00e9dici, tiranos heredit\u00e1rios da cidade a ponto de se &#8220;enobrecerem&#8221;. <i>Ein Volk, Ein Reich, Ein Akademie. <\/i>Isto se consolidou com o surgimento das chamadas &#8220;Academias Nacionais&#8221;, das quais a <i>Acad\u00e9mie Fran\u00e7aise <\/i>foi o modelo.<\/p>\n<p>Outra importante fun\u00e7\u00e3o era manter a tal da &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221;. O ensino de artes nas academias era baseado na c\u00f3pia dos modelos antigos e o aluno s\u00f3 estava autorizado a desenhar suas pr\u00f3prias ideias depois de atingir certo grau de perfeccionismo na imita\u00e7\u00e3o dos mestres do passado, altura na qual j\u00e1 tinham, provavelmente, substitu\u00eddo suas ideias originais pelos ideais infundidos pela academia.<\/p>\n<p>Por fim, uma academia tamb\u00e9m funcionava como instrumento para controlar quem estava autorizado a &#8220;fazer arte&#8221;. Sem um diploma da academia o sujeito n\u00e3o era considerado um artista formado e o seu trabalho ficava relegado a uma segunda categoria: ganhava menos, era menos prestigiado e n\u00e3o tinha nenhuma prote\u00e7\u00e3o se, de repente, algu\u00e9m resolvesse se ofender com o conte\u00fado. Em Portugal, no fim do s\u00e9culo XVIII, ser membro de uma academia, a Arc\u00e1dia Lusitana, adiou consideravelmente a persegui\u00e7\u00e3o ao poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, cujo sobrenome passou \u00e0 Hist\u00f3ria como sin\u00f4nimo de palavr\u00e3o.<\/p>\n<p>Da conjun\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas objetivos, resultava que a Academia desestimulava a originalidade, propiciava a estagna\u00e7\u00e3o e dificultava o acesso do povo em geral \u00e0 arte. Ao mesmo tempo, era um instrumento eficaz de neutraliza\u00e7\u00e3o da arte como um catalisador do sentimento nacional: os governos criavam academias justamente pensando em utilizar os nomes dos grandes artistas para legitimar o regime. Com o tempo a condi\u00e7\u00e3o de &#8220;acad\u00eamico&#8221; passou a ser praticamente sin\u00f4nima de algu\u00e9m comprometido com o sistema, ou por ele cooptado.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da literatura, a academia sempre pretendeu estabelecer um padr\u00e3o lingu\u00edstico de prest\u00edgio, n\u00e3o apenas opondo-se a inova\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas mas tamb\u00e9m procurando deliberadamente arcaizar o idioma, como aconteceu com a l\u00edngua portuguesa, que, sob a influ\u00eancia do academicismo, progressivamente adotou um sistema ortogr\u00e1fico etimol\u00f3gico que <i>llevouse mais de dous seculos para revogarse, a pesar de toda a difficuldade que offerecia aos estudantes, com innumeras lettras dobradas, digraphos inexplicaveis, e variantes orthographicas esdr\u00faxulas.<\/i><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#7\"><sup>7<\/sup><\/a><\/p>\n<h4>O Ataque Modernista ao Academicismo<\/h4>\n<p>Entre n\u00f3s existe um marco definido de rea\u00e7\u00e3o ao academicismo: a Semana de Arte Moderna de 1922. Em outros pa\u00edses o marco \u00e9 menos definitivo e a transi\u00e7\u00e3o foi mais lenta. Para n\u00f3s fica parecendo que, da noite para o dia, alguns jovens iluminados resolveram atacar o <i>status quo<\/i>, criando do nada uma nova arte, livre das amarras do famigerado academicismo. A verdade \u00e9 menos rom\u00e2ntica, os ataques vinham sendo arquitetados desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e \u00e0quela altura, na maior parte do mundo, o <i>quo<\/i> j\u00e1 n\u00e3o tinha mais nenhum <i>status<\/i>, como diria Mill\u00f4r Fernandes.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o ao academicismo se deu, inicialmente, pela cria\u00e7\u00e3o de academias rivais, como a Academia Prussiana, que se imp\u00f4s a tarefa de fazer a independ\u00eancia cultural da Pr\u00fassia em rela\u00e7\u00e3o ao Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico, mas com o tempo come\u00e7ou-se a perceber que o ideal nacional da Academia era diligentemente contr\u00e1rio \u00e0s culturas minorit\u00e1rias, o que era particularmente grave nos estados multiculturais, como a Espanha,  a \u00c1ustria-Hungria e o Reino Unido. Na Espanha, por exemplo, o academicismo redundou em obscurantismo e em fascismo, chegando alguns acad\u00eamicos a endossarem a supress\u00e3o de todas as culturas n\u00e3o-castelhanas do pa\u00eds, ainda que tivessem, como no caso do catal\u00e3o e do galego, uma tradi\u00e7\u00e3o mais antiga e vener\u00e1vel que a do pr\u00f3prio castelhano e que se reflete at\u00e9 mesmo na confus\u00e3o entre &#8220;castelhano&#8221; (a l\u00edngua do Reino de Castela) e &#8220;espanhol&#8221; (que seria a l\u00edngua do reino unificado da Espanha, que inclu\u00eda Castela, Arag\u00e3o, Le\u00e3o, Ast\u00farias, Gal\u00edcia e Navarra).<\/p>\n<p>O que aconteceu, de fato, foi que, no Brasil, tal como por vezes anteriores, o ingresso na modernidade somente ocorreu depois de esgotadas todas as demais popularidades. Somente entramos no Romantismo a partir da d\u00e9cade de 1830, meio s\u00e9culo depois de pa\u00edses como Inglaterra e Alemanha o inventarem. Somente abolimos inteiramente a escravid\u00e3o em 1889, e depois de n\u00f3s s\u00f3 faltaram os pa\u00edses mu\u00e7ulmanos (tal como n\u00f3s, muito a contragosto) e as col\u00f4nias europeias na \u00c1frica (incluindo o not\u00e1vel exemplo sul-africano). Da mesma forma, somente contestamos o academicismo mais de sessenta anos depois do surgimento das primeiras correntes art\u00edsticas francesas (impressionismo, pontilhismo, simbolismo).<\/p>\n<p>Pior ainda: escolhemos aderir ao modernismo justamente a reboque de sua vers\u00e3o mais degenerada, o futurismo italiano. Ningu\u00e9m estranhe haver tantos sobrenomes assim entre os modernistas de 22: Del Picchia, Malfatti, Bo Bardi etc. N\u00e3o que o futurismo italiano fosse artisticamente nulo, mas n\u00f3s tiv\u00e9ramos sessenta anos de ideais art\u00edsticos antecipadores do modernismo, t\u00ednhamos que pular no barco justamente com os futuristas, adoradores do fascismo. Faz pensar que n\u00e3o houve, de fato, revolu\u00e7\u00e3o alguma em 1922 (tanto que Del Picchia acabou eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1943, enquanto outros modernistas de muito melhor quilate, mas n\u00e3o ligados ao futurismo ou \u00e0 Semana de Arte Moderna, como Drummond e Quintana, jamais puseram os p\u00e9s naquela Casa).<\/p>\n<h4>A Continuidade como Caracter\u00edstica dos Movimentos Pol\u00edticos e Culturais Brasileiros<\/h4>\n<p>Nada do que foi escrito, dito, feito, pintado ou esculpido a partir de 1922 conseguiu efetivamente mudar a rela\u00e7\u00e3o de poder no cen\u00e1rio cultural brasileiro. Algumas coisas mudam apenas para que possa tudo continuar igual, como na c\u00e9lebre frase de Malaparte. Os modernistas fizeram e aconteceram, mas foram sendo encampados pelo academicismo \u00e0 medida em que foram ficando velhinhos e os velhinhos de 1922, ofendidos ent\u00e3o, foram morrendo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode achar que estou sendo excessivamente cruel com os modernistas de 1922 (os quais, confesso, nunca exatamente admirei, por raz\u00f5es que somente muito tardiamente eu consegui articular), mas pare um pouco e pense sobre o contexto em que tudo aconteceu: ser\u00e1 mesmo que foi da noite para o dia que um grupo de intr\u00e9pidos jovens paulistanos sacou do bolso a ideia mirabolante de demolir o academicismo e forjar uma arte genuinamente nacional? Dificilmente, ainda que alguns livros de Hist\u00f3ria possam dizer isso. Sabemos, e sabemos muito bem, que todos os eventos hist\u00f3ricos s\u00e3o produto de tens\u00f5es acumuladas, de condi\u00e7\u00f5es preexistentes, de enganos e acertos de seus atores. Imaginar que a Semana de 1922 tenha sido uma s\u00fabita ruptura \u00e9 algo ing\u00eanuo demais, at\u00e9 para mim que sou t\u00e3o ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica da Hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 que, at\u00e9 hoje, n\u00e3o houve em momento algum qualquer revolta contra o <i>status quo<\/i> que fosse ao mesmo tempo inequ\u00edvoca e vencedora. As vit\u00f3rias obtidas s\u00e3o o produto apenas de movimentos toler\u00e1veis, e estes assim se tornam pelo recuo em seus ideais, pela coopta\u00e7\u00e3o do <i>status quo<\/i> ou ent\u00e3o por se tornarem &#8220;p\u00f3stumos&#8221; \u00e0s mudan\u00e7as que deveriam causar. V\u00ea-se isso de uma forma muito evidente na maneira como certas mudan\u00e7as culturais aconteceram no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia brasileira, por exemplo, n\u00e3o aconteceu como consequ\u00eancia de nenhum dos v\u00e1rios processos de ruptura que foram tentados, entre os quais dois de respeit\u00e1vel inspira\u00e7\u00e3o (as Conjura\u00e7\u00f5es de Minas Gerais e Bahia), teve que esperar at\u00e9 que as elites brasileiras cooptassem o processo, mais para livrar-se do entrave de uma metr\u00f3pole que se mostrara fr\u00e1gil demais at\u00e9 para extorquir os impostos da col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a supera\u00e7\u00e3o da hegemonia portuguesa na cultura s\u00f3 ocorreu de forma gradual. Na educa\u00e7\u00e3o, as faculdades nacionais foram sendo criadas devagar, provavelmente para n\u00e3o se por a perder o prest\u00edgio dos diplomas de Coimbra ostentados pela elite brasileira. Na literatura, o modelo acad\u00eamico herdado de Portugal (e que l\u00e1 j\u00e1 se encontrava superado) s\u00f3 foi encontrar contesta\u00e7\u00e3o a partir da d\u00e9cada de 1830, quando um honor\u00e1vel pol\u00edtico (mas sofr\u00edvel poeta) chamado Domingos Jos\u00e9 Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#8\"><sup>8<\/sup><\/a> resolveu beijar a vi\u00fava e decretar o nascimento de uma nova literatura.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia nacional era a de sermos mais conservadores do que os portugueses em quase tudo. Enquanto eles j\u00e1 abra\u00e7avam o romantismo na d\u00e9cada de 1820 e os ingleses e alem\u00e3es j\u00e1 o brandiam desde antes de 1810, n\u00f3s s\u00f3 fomos faz\u00ea-lo a partir de 1836. Enquanto os portugueses j\u00e1 superavam a hedionda ortografia etimol\u00f3gica em 1910, n\u00f3s ainda nos mantivemos aferrados a ela at\u00e9 1946. \u00c9 verdade que a Rep\u00fablica Portuguesa se inspirou grandemente na brasileira, inclusive na escolha da ef\u00edgie que a representou na moeda e nos selos, e que nada mais era que a mesma <i>Marianne<\/i> dos franceses. Por\u00e9m, quando no Brasil um homem como Olavo Bilac ainda detinha not\u00e1vel influ\u00eancia e o realismo-parnasianismo tinha for\u00e7a suficiente para sufocar todo um movimento liter\u00e1rio renovador (o simbolismo), fazendo-o dissover-se numa mistura ac\u00e9fala de estilos, transicional entre o antigo e o novo, e que entre n\u00f3s foi chamada de &#8220;pr\u00e9-modernismo&#8221; (fen\u00f4meno \u00fanico na literatura mundial), enquanto isso Portugal j\u00e1 estava nas &#8220;dores do parto&#8221; da modernidade e a d\u00e9cada de 1910 j\u00e1 via surgir as primeiras revistas modernistas.<\/p>\n<h4>A Semana de 1922 como um Movimento Reacion\u00e1rio de Direita<\/h4>\n<p>O que estou querendo dizer aqui \u00e9 que 1922 n\u00e3o foi ruptura alguma: o parnasianismo caiu de podre, tanto quanto o classicismo ca\u00edra em 1836. Nada tendo de relevante a acrescentar,<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#9\"><sup>9<\/sup><\/a> o parnasianismo se contentava em sufocar o que poderia surgir como novidade, tornando-se uma influ\u00eancia nefasta sobre nossa cultura.<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#10\"><sup>10<\/sup><\/a> Sobre os ombros de seus pr\u00f3ceres, inclusive Olavo Bilac, repousa responsabilidade indireta pelas mortes prematuras de Augusto dos Anjos (&#8220;n\u00e3o se perde grande coisa&#8221;, disse Bilac celebremente) e Lima Barreto (acometido de depress\u00e3o no fim da vida), por exemplo, e pelas dificuldades enfrentadas por Monteiro Lobato, at\u00e9 ser vingado pelos modernistas, a quem ele, de forma paradoxal, tanto criticou. Desta forma, quando a Semana de 1922 aconteceu, dificilmente uma pessoa n\u00e3o comprometida com o <i>status quo<\/i> cultural poderia ver nela uma ruptura s\u00fabita. Vozes se antecipavam a essa ruptura desde pelo menos 1909, mas eram caladas pela atua\u00e7\u00e3o e pelo prest\u00edgio de cad\u00e1veres liter\u00e1rios insepultos, como Raimundo Correia e Olavo Bilac. Em 1922 estas vozes encontraram patroc\u00ednio entre as elites paulistas, que tinham suas raz\u00f5es (at\u00e9 pol\u00edticas) para se insurgirem contra o Rio de Janeiro, sua Academia e sua pretens\u00e3o de hegemonia.<\/p>\n<p>A Semana de 1922 aconteceu com pelo menos sessenta de atraso, se voc\u00ea quiser que ela tenha sido revolucion\u00e1ria. Aconteceu com pelo menos dez anos de atraso, se voc\u00ea quiser que ela tenha sido contempor\u00e2nea aos fatos relevantes da literatura internacional. Mas aconteceu bem a tempo de aderir justamente ao futurismo, a forma radical e extremista de est\u00e9tica liter\u00e1ria, origin\u00e1ria da It\u00e1lia, principalmente, que ansiava e celebrava o Fascismo. A Semana aconteceu no mesmo ano da Marcha Sobre Roma (ainda que sete meses antes), sintonizando-se com o momento em que Mussolini, j\u00e1 ent\u00e3o pol\u00edtico relevante e carism\u00e1tico, conseguiu acumular influ\u00eancia suficiente para chegar ao poder. E entre os grandes nomes de 1922 voc\u00ea n\u00e3o deixar\u00e1 de encontrar v\u00e1rios sobrenomes italianos, como os de Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Victor Brecheret e Di Cavalcanti. \u00c9 verdade que j\u00e1 havia alguns movimentos e eventos n\u00e3o acad\u00eamicos desde 1916, e Manuel Bandeira j\u00e1 estreara o verso livre em 1919, no seu <i>Carnaval, <\/i>mas nada disso era motivo de esc\u00e2ndalo: mais uma vez a mudan\u00e7a se fazia gradualmente, e com atraso. A Semana pretendeu romper, chutar o balde, abrir uma clareira na mata fechada do obscurantismo. Mas conseguiu?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar precisamos pensar em quem estava nessa vanguarda, inspirada grandemente em futurismo. Alguns dos mais significativos nomes de nossa literatura modernista notavelmente <b>n\u00e3o <\/b>estavam, ainda que apenas por causa de sua tuberculose. Mas Gra\u00e7a Aranha l\u00e1 estava. Monteiro Lobato, uma das personalidades mais importantes da cultura brasileira p\u00f3s-parnasiana n\u00e3o aderiu, mas o acad\u00eamico Gra\u00e7a Aranha estava l\u00e1. Sem a b\u00ean\u00e7\u00e3o de um acad\u00eamico, e as portas franqueadas do Theatro Municipal, a Semana n\u00e3o teria existido, ou n\u00e3o teria atingido seu objetivo. Portanto, analisando o contexto, percebe-se claramente que ela foi um de artistas integrantes da elite econ\u00f4mica emergente, de um estado economicamente emergente (que pretendia tomar do Rio a hegemonia cultural) e n\u00e3o necessariamente \u00e0 revelia da Academia, embora tenha havido alguma animosidade entre os mais radicais de ambas as partes e certas mudan\u00e7as (como a da <i>orthographia<\/i>) tivessem de esperar at\u00e9 morrer a maior parte dos fundadores da ABL (o mais resistente deles durou at\u00e9 1963).<\/p>\n<h4>A Academia Como Instrumento Pol\u00edtico da Direita<\/h4>\n<p>A Semana de 1922 ficou longe de ser a l\u00e1pide da influ\u00eancia classicista no Brasil, em parte gra\u00e7as \u00e0 inacredit\u00e1vel sobreviv\u00eancia do academicismo no imagin\u00e1rio popular, atrav\u00e9s de um &#8220;p\u00f3s-parnasianismo&#8221;<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/#11\"><sup>11<\/sup><\/a> encontrado na produ\u00e7\u00e3o de poetas populares, muitos de orienta\u00e7\u00e3o m\u00edstica-cat\u00f3lica. Mas marcou definitivamente o in\u00edcio de uma &#8220;troca de guarda&#8221; na literatura nacional, conclu\u00edda por dois fatos relevantes: a elei\u00e7\u00e3o de Get\u00falio Vargas em 1941, marcando definitivamente a politiza\u00e7\u00e3o fascista da Casa, e a ado\u00e7\u00e3o da Reforma Ortogr\u00e1fica, sacramentada pelo modestamente intitulado &#8220;Pequeno Vocabul\u00e1rio Ortogr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa&#8221;, atrav\u00e9s do qual a Academia, j\u00e1 ent\u00e3o abrigando nomes not\u00e1veis do Modernismo, como Menotti del Picchia e Manuel Bandeira, consolidou sua ascend\u00eancia sobre a l\u00edngua nacional.<\/p>\n<p>E assim, &#8220;nas calhas de roda&#8221;, seguiu girando, &#8220;a entreter a raz\u00e3o&#8221;, essa estrutura conservadora (por princ\u00edpio e por defini\u00e7\u00e3o), que se pinta, qual camale\u00e3o, com as cores sucessivas do progresso, de forma a sobreviver, mantendo-se relevante. Eleger membro o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica foi uma jogada de mestre, que infelizmente se revelou temer\u00e1ria com a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o faltaram nas d\u00e9cadas seguintes provas de fidelidade da Academia aos seus objetivos originais e aos seus verdadeiros patr\u00f5es: os donos do poder.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a \u00fanica conclus\u00e3o a que se pode chegar, quando analisamos que v\u00e1rios pol\u00edticos da direita. Como o pr\u00f3prio Vargas, e posteriormente Aur\u00e9lio de Lyra Tavares (qu\u00e3o conveniente eleger um general de ex\u00e9rcito rec\u00e9m-sa\u00eddo da Junta Militar!). Como Jos\u00e9 Sarney e Marco Maciel. Mas n\u00e3o procure nela qualquer nome que em qualquer momento tenha sido de esquerda, flertado com movimentos populares ou mesmo simplesmente se oposto de alguma forma (qualquer forma) ao <i>status quo<\/i>.<\/p>\n<p>A Academia tem entre seus princ\u00edpios abrigar apenas escritores:<\/p>\n<blockquote><p>O estatuto da Academia Brasileira de Letras estabelece que para algu\u00e9m candidatar-se \u00e9 preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer g\u00eanero da literatura, obras de reconhecido m\u00e9rito ou, fora desses g\u00eaneros, livros de valor liter\u00e1rio.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas isto n\u00e3o impede que ela tenha tido ou tenha em seus quadros um cineasta que jamais escreveu um livro (N\u00e9lson Pereira dos Santos), um pol\u00edtico que somente escreveu discursos (Marco Maciel), um pol\u00edtico autor de obras universalmente <a href=\"http:\/\/www2.uol.com.br\/millor\/aberto\/textos\/004\/007_02.htm\" target=\"_new\">tidas<\/a> como <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/brasillimpeza.blogspot.com\/2008\/07\/atolado-no-brejal-dos-guajas\">horr\u00edveis<\/span> (Jos\u00e9 Sarney), um cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico que somente publicou obras de cunho t\u00e9cnico (Ivo Pitanguy), um ditador fascist\u00f3ide que n\u00e3o escrevia livros (Get\u00falio Vargas), um jornalista que somente escreveu sozinho um livro e um prestidigitador liter\u00e1rio que sequer tem o dom\u00ednio pleno da norma culta (n\u00e3o nomeados por aconselhamento jur\u00eddico). Uma an\u00e1lise mais profunda revelar\u00e1 v\u00e1rios nomes irrelevantes em seus quadros. Por\u00e9m, conhece-se mais o car\u00e1ter de uma institui\u00e7\u00e3o sabendo quem nela nunca esteve. Por isso, em vez de enumerar aqueles que <i>em minha opini\u00e3o <\/i>l\u00e1 n\u00e3o mereciam estar, prefiro enumerar aqueles que, <i>na opini\u00e3o da Academia, <\/i>l\u00e1 n\u00e3o mereceram figurar. E deixo ao leitor o julgamento:<\/p>\n<ul>\n<li>Carlos Drummond de Andrade<\/li>\n<li>M\u00e1rio Quintana<\/li>\n<li>Vin\u00edcius de Moraes<\/li>\n<li>Ad\u00e9lia Prado<\/li>\n<li>Rubem Braga<\/li>\n<li>Paulo Mendes Campos<\/li>\n<li>M\u00e1rio de Andrade<\/li>\n<li>Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto<\/li>\n<li>Monteiro Lobato<\/li>\n<li>J\u00falio C\u00e9sar de Mello e Souza (<i>Malba Tahan<\/i>)<\/li>\n<li>L\u00facia Machado de Almeida<\/li>\n<li>Fernando Sabino<\/li>\n<li>Pedro Bloch<\/li>\n<li>Murilo Rubi\u00e3o<\/li>\n<li>Caio Prado J\u00fanior<\/li>\n<li>Gilberto Freyre<\/li>\n<li>Florestan Fernandes<\/li>\n<li>Maria Clara Machado<\/li>\n<li>Oswald de Andrade<\/li>\n<li>Bruno Tolentino<\/li>\n<li>Cec\u00edlia Meirelles<\/li>\n<li>Henriqueta Lisboa<\/li>\n<li>Murilo Mendes<\/li>\n<li>Clarice Lispector<\/li>\n<li>Graciliano Ramos<\/li>\n<li>L\u00facio Cardoso<\/li>\n<li>Roberto Drummond<\/li>\n<li>Pedro Nava<\/li>\n<li>Wilson Martins<\/li>\n<\/ul>\n<p>N\u00e3o considero que todos eles s\u00e3o contestadores do sistema, mas tenho absoluta certeza de que qualquer dos citados estaria acima, literariamente falando, de um grande n\u00famero de nomes que foram eleitos para a ABL. Considero, por exemplo, um acinte que a Academia n\u00e3o tenha nunca eleito Graciliano, um dos maiores prosadores da l\u00edngua portuguesa, mas tenha aceito (sem sequer ter escrito livros) o presidente da rep\u00fablica que o mandou prender e torturar (Get\u00falio Vargas, ditador fascist\u00f3ide e nome de pra\u00e7a ou avenida em quase toda cidade do Brasil).<\/p>\n<h4>No Fim das Contas<\/h4>\n<p>Todos estes tortuosos racioc\u00ednios objetivavam concluir que, no seu todo, a Academia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas conservadora (na maior parte do tempo) mas retr\u00f3grada (algumas vezes). Que se caracteriza por manter a influ\u00eancia de grandes escritores <i>depois <\/i>que eles a perderam no contexto real da literatura, tornando-os guardi\u00f5es de alguma coisa a que chamam de tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mas que, na maioria das vezes, confere tal posi\u00e7\u00e3o a escritores med\u00edocres e at\u00e9 a n\u00e3o escritores \u2014 e n\u00e3o por falta de op\u00e7\u00f5es, porque, n\u00e3o custa lembrar, Get\u00falio entrou no lugar de Graciliano, o que seria mais ou menos como indenizar o perpetrador do crime e condenar a v\u00edtima.<\/p>\n<p>Muitos escritores sonham com a legitima\u00e7\u00e3o que ela pode conferir, em parte porque ela ainda det\u00e9m certo poder e prest\u00edgio, mas se tal legitima\u00e7\u00e3o um dia acontecer com a minha obra, terei o dissabor de passar o resto de meus dias meditando se, de fato, a obra que sonhei fazer contestadora se revelou reacion\u00e1ria ou se, em algum momento, transitei da esquerda para a direita sem perceber.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o acredito que a Academia transite na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.<\/p>\n<div>\n<p><a name=\"1\"><sup>1<\/sup><\/a> Aprendi, a duras penas, que n\u00e3o se deve mencionar religi\u00e3o em um artigo a n\u00e3o ser quando religi\u00e3o for o tema principal deste, pois fan\u00e1ticos idiotas sempre aparecem para desvirtuar a discuss\u00e3o com prega\u00e7\u00f5es ou amea\u00e7as de inferno. Mas, como esse blog \u00e9 um espa\u00e7o pessoal <strong>meu<\/strong>, reservo-me ao direito de somente aceitar coment\u00e1rios que se atenham ao assunto. Portanto, se voc\u00ea for terrivelmente ofendido por algo que eu diga, sugiro que fa\u00e7a um artigo em seu pr\u00f3prio <i>blog<\/i> (de prefer\u00eancia com um link para c\u00e1\u2026) e direcione para l\u00e1 toda a diatribe.<\/p>\n<p><a name=\"2\"><sup>2<\/sup><\/a> Ainda que com desculpas nobres, era isso, na pr\u00e1tica, o que se fazia com quem era tachado de louco: botar a ferros e esperar que Deus matasse, de doen\u00e7a ou de idade.<\/p>\n<p><a name=\"3\"><sup>3<\/sup><\/a> Trof\u00e9u &#8220;joinha&#8221; para quem perguntou &#8220;que deusa?&#8221;.<\/p>\n<p><a name=\"4\"><sup>4<\/sup><\/a>Al\u00e9m da atratividade de ter um grego de plant\u00e3o, que era o equivalente renascentista a ter um <em>personal assistant.<\/em><\/p>\n<p><sup><a name=\"5\">5<\/a><\/sup> Uma breve lista de nomes de academias surgidas nesta \u00e9poca: <i>Academia dos Intrusos, Academia dos Vinhateiros, Academia da Virtude, Academia dos Intr\u00e9pidos, Academia dos Iluminados, Academia dos Animados, Academia das Noites Vaticanas, Academia dos Ordenados, Academia dos Fant\u00e1sticos, Academia dos Im\u00f3veis, Academia dos Diabos, Academia dos Abor\u00edgines, Academia dos Infecundos, Academia dos Ocultos, Academia dos Incultos e Academia dos Revoltados.<\/i><\/p>\n<p><sup><a name=\"6\">6<\/a><\/sup> Se algum dia voc\u00ea tiver acesso a uma m\u00e1quina do tempo e retornar \u00e0 Europa entre a segunda metade do s\u00e9culo XVI e a primeira metade do s\u00e9culo XVIII, jamais questione os artistas (e seus patr\u00f5es) quanto ao que tinham como &#8220;fato&#8221;: a continuidade do renascimento. N\u00e3o importava a mudan\u00e7a da orienta\u00e7\u00e3o, de humanismo para misticismo, de sobriedade para ornamenta\u00e7\u00e3o, de subst\u00e2ncia para forma, de leveza para riqueza etc. Duvidar do car\u00e1ter renascentista do mais barroco dos barrocos era como n\u00e3o chamar de &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o&#8221; o nosso <i>putsch <\/i>se voc\u00ea voltasse a 1967 e estivesse diante de um milico.<\/p>\n<p><a name=\"7\"><sup>7<\/sup><\/a> N\u00e3o pretendo que este breve trecho esteja correto segundo a ortografia etimol\u00f3gica, pr\u00e9-1910, apenas escrevi desta forma para dar uma ideia geral de como ter\u00edamos que escrever se as academias nunca tivessem sido desafiadas.<\/p>\n<p><a name=\"8\"><sup>8<\/sup><\/a> Talvez por n\u00e3o conseguir nenhuma cr\u00edtica favor\u00e1vel aos seus poemas de inspira\u00e7\u00e3o classicista.<\/p>\n<p><a name=\"9\"><sup>9<\/sup><\/a> \u00c9 fato not\u00e1vel que <strong>todas<\/strong> as obras liter\u00e1rias relevantes produzidas no Brasil entre a virada do s\u00e9culo e a Semana de Arte Moderna tenham sido produzidas exatamente por aqueles que o academicismo realista-parnasiano mais combatia: os simbolistas (&#8220;decadentes&#8221;, &#8220;loucos&#8221;) e os pr\u00e9-modernos. Homens como Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa e Pedro Kilkerry poderiam ter dado uma contribui\u00e7\u00e3o muito maior \u00e0 cultura nacional se n\u00e3o tivessem enfrentado em vida a pilha de preconceitos de classe e de cor que se somava ao preconceito lingu\u00edstico e cultural da academia, que via com desconfian\u00e7a sua literatura espont\u00e2nea e sintonizada com o povo.<\/p>\n<p><a name=\"10\"><sup>10<\/sup><\/a>Boa parte da culpa pelos trinta e seis anos de atraso que o Brasil levou, com grande preju\u00edzo de nossa educa\u00e7\u00e3o, para aderir \u00e0 reforma ortogr\u00e1fica deve ser atribu\u00edda \u00e0 forte influ\u00eancia da Academia, que contava com nomes como Olavo Bilac (m. 1918), Alberto de Oliveira (m. 1937), Afonso <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/010306\/millor\">&#8220;Porque me Ufano de meu Pa\u00eds&#8221;<\/span> Celso (m. 1938), Carlos de Laet (m. 1925),  Lu\u00eds Murat (m. 1920), Filinto de Almeida (m. 1945), Carlos de Azeredo (m. 1963) e Cl\u00f3vis Bevilacqua (m. 1944).<\/p>\n<p><a name=\"11\"><sup>11<\/sup><\/a>Na verdade o termo &#8220;neo-parnasianismo&#8221; (que n\u00e3o \u00e9 de uso corrente ou frequente em cr\u00edtica liter\u00e1ria) \u00e9 mais usado para a segunda gera\u00e7\u00e3o modernista, que buscou recuperar o apuro formal, ou mais propriamente usado para os autores da segunda gera\u00e7\u00e3o realista-parnasiana (atuantes nas primeiras duas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX), por isso aqui preferi o termo &#8220;p\u00f3s-parnasianos&#8221;, no sentido dos praticantes tardios desta escola liter\u00e1ria, numa \u00e9poca em que ela perdera a hegemonia. No caso destes autores, a perman\u00eancia de tal influ\u00eancia reflete, geralmente, um atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as sociais e culturais pelas quais o Brasil passava.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Houve uma \u00e9poca, h\u00e1 n\u00e3o muitos s\u00e9culos, em que o termo &#8220;academia&#8221; tinha um prest\u00edgio inabal\u00e1vel. Era, tamb\u00e9m, um tempo no qual as pessoas se sentiam muito identificadas com a monarquia, por raz\u00f5es as mais diversas, principalmente religiosas.1 Eram tempos brutos, nos quais a fogueira ou os instrumentos de tortura (quando n\u00e3o ambos) eram o destino de pessoas que n\u00e3o pensavam de acordo com a regra dominante. Eram tempos nos quais uma pessoa poderia passar a vida inteira em uma pris\u00e3o para doentes mentais2 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[67,77,55,17],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=187"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5298,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions\/5298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}