{"id":188,"date":"2011-11-26T14:24:00","date_gmt":"2011-11-26T17:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=188"},"modified":"2017-11-02T14:09:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:03","slug":"autores-embriagados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/autores-embriagados\/","title":{"rendered":"Autores Embriagados"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Notas para minha participa\u00e7\u00e3o na mesa redonda sobre o tema &#8220;A embriaguez como inspira\u00e7\u00e3o art\u00edstica ainda se justifica?&#8221;, ocorrida no dia 11 de novembro de 2011 no III Festival Liter\u00e1rio de Cataguases. Esta postagem ocorre com tamanho atraso porque, em virtude de problemas que eu estava enfrentando com o meu computador, perdi duas vezes o texto revisado que j\u00e1 estava quase pronto para postar.<\/div>\n<hr \/>\n<p>A Licen\u00e7a Po\u00e9tica basicamente significa que o autor tem a prerrogativa de escrever como queira, sobre o que desejar. Ent\u00e3o o debate se o artista de hoje ainda pode tomar a embriaguez como inspira\u00e7\u00e3o me parece um pouco fora de lugar: \u00e9 \u00f3bvio que ele pode. Talvez o que a gente deva discutir seja outra coisa: a relev\u00e2ncia de uma abordagem assim autodestrutiva. Porque embriagar-se \u00e9 uma forma suave de autodestruir-se. Nesse ponto eu tenho duas opini\u00f5es:<\/p>\n<p>Primeira,quanto ao assunto: N\u00e3o acho que escrever sobre drogas (l\u00edcitas ou n\u00e3o) seja t\u00e3o relevante quanto muitas pessoas creem. Possui uma certa relev\u00e2ncia, mas quando um artista se restringe a esse assunto, recai em uma f\u00f3rmula que j\u00e1 est\u00e1 bastante estabelecida e j\u00e1 tem at\u00e9 mesmo uma tradi\u00e7\u00e3o. Existe um g\u00eanero de &#8220;literatura drogada&#8221; tal como existe um g\u00eanero de hist\u00f3rias de vampiros ou de contos er\u00f3ticos estilo revista masculina. Ou seja: \u00e9 uma ilus\u00e3o imaginar que uma abordagem autodestrutiva possua novidade ou seja uma maneira genuinamente &#8220;revoltada&#8221; para expressar desencanto com a sociedade e a cultura em que vivemos. Ao fezer isso o autor apenas adere a um g\u00eanero, tal como os autores de historinhas de vampiro, ou os magos com seus livros que ensinam a fazer chover. Acredito que o valor da obra n\u00e3o est\u00e1 na &#8220;atitude&#8221;, mas na compet\u00eancia. Bons livros transcendem seus limites e autores realmente talentosos devem ser vers\u00e1teis, capazes de abordar diversos temas com desenvoltura.<\/p>\n<p>Segunda,quanto \u00e0 abordagem: N\u00e3o acho que embriagar-se (seja qual for a qu\u00edmica envolvida) seja favor\u00e1vel \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Um artista b\u00eabado dirige a sua &#8220;pena&#8221; (hoje de forma metaf\u00f3rica) tal e qual um motorista b\u00eabado dirige o seu autom\u00f3vel. Voc\u00ea n\u00e3o escreve melhor porque bebe, a verdade \u00e9 que voc\u00ea certamente escreve pior. Mesmo que consiga escrever coisas interessantes enquanto b\u00eabado, ter\u00e1 conseguido <i>apesar<\/i> da embriaguez, n\u00e3o por causa dela. Quando pensamos por tal lado, vemos que embriagar-se n\u00e3o \u00e9 um imperativo da arte, mas algo que brota da personalidade do artista.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup> \u00c9 o artista que se embriga, n\u00e3o \u00e9 a arte que lhe exige isso.<\/p>\n<p>Tendo feito estas duas considera\u00e7\u00f5es iniciais, que praticamente resumem tudo que preciso dizer, passo a fazer alguns detalhamentos tamb\u00e9m interessantes, embora n\u00e3o acrescentem muito \u00e0s teses dispostas acima. N\u00e3o os fa\u00e7o para expandir, mas para refor\u00e7ar. Mas eu gostaria de desviar ligeiramente o tema desta mesa-redonda. Ligeiramente apenas: o desvio logo voltar\u00e1 ao tema. Prometo.<\/p>\n<h3>A Embriaguez Enquanto Rea\u00e7\u00e3o Al\u00e9rgica \u00e0 Cultura<\/h3>\n<p>Acredito que todos aqui saber\u00e3o de algum nome t\u00e9cnico para esta &#8220;necessidade&#8221; de embriaguez. Nossa sociedade hoje tem um nome t\u00e9cnico e at\u00e9, talvez, um comprimido, para cada estado de alma poss\u00edvel. Cada indiv\u00edduo porta pelo menos um diagn\u00f3stico. Cabe muito bem investigar n\u00e3o a droga, n\u00e3o a bebida, n\u00e3o a erva, mas a figura da pessoa que se relaciona com tais subst\u00e2ncias, como e porque. N\u00e3o investigar pelo lado direto e quase pornogr\u00e1fico, mas pelo lado filos\u00f3fico. Eu poderia citar aqui alguns autores famosos sobre isso, como Durkheim ou at\u00e9 Proust, mas n\u00e3o desejo tornar este artigo penoso de ler e nem acomet\u00ea-lo da soberba que aprendi a desprezar nos outros. Limito-me a dizer que h\u00e1 muito tempo \u00e9 consenso entre cabe\u00e7as pensantes que o impulso que nos leva \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o \u00e9, possivelmente, a \u00fanica quest\u00e3o filos\u00f3fica realmente interessante. Dizendo em curtas e brutas palavras: qual o sentido da vida, afinal?<\/p>\n<p>Quando o autor se embriaga ele n\u00e3o est\u00e1 pensando na arte, mas em sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade. A pr\u00f3pria cita\u00e7\u00e3o de Baudelaire, usada como chamamento para essa troca de ideias aqui \u00e9 bem expl\u00edcita: ele dizia embebedar-se para suportar &#8220;o horr\u00edvel fardo do Tempo&#8221; que atinge o homem e lhe &#8220;quebra os ombros e o curva para o ch\u00e3o&#8221;. Baudelaire confessa claramente que n\u00e3o \u00e9 um ideal art\u00edstico que o motivava, mas uma esp\u00e9cie de mal-estar social. N\u00e3o custa lembrar que o poeta foi contempor\u00e2neo de Schopenhauer e Nietzsche \u2014 e voc\u00ea precisa conhecer esses dois para entender melhor as tenta\u00e7\u00f5es suicidas das grandes figuras da arte.<\/p>\n<p>\u00c9 nisso que eu pretendo come\u00e7ar o desvio. Existe um mito fort\u00edssimo, bastante difundido entre n\u00f3s, provavelmente presente em outros povos tamb\u00e9m, de que a cultura \u00e9 uma forma de decad\u00eancia em vez de progresso. As pessoas parecem pensar que a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos debilita, em vez de fortalecer, desune em vez de unir. Assim, o &#8220;homem perfeito&#8221; teria de ser algu\u00e9m &#8220;simples decora\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;pobre de esp\u00edrito&#8221;.<\/p>\n<p>Este conceito \u00e9 bem antigo, por isso o chamei de mito. Fazendo uma r\u00e1pida digress\u00e3o hist\u00f3rica, vamos lembrar que na mitologia grega havia a figura do profeta cego Tir\u00e9sias, um vision\u00e1rio cego, vejam que interessante. Ou Cincinato, o rude fazendeiro que salvou a Rep\u00fablica Romana. Ou Maom\u00e9, supostamente analfabeto e autor do Alcor\u00e3o, o &#8220;livro perfeito&#8221;. Estes homens fortes e simples (<em>sancta simplicitas<\/em>, dizia o ditado latino) conseguiram impressionar e liderar porque n\u00e3o tinham as hesita\u00e7\u00f5es que somente a maturidade traz. A ignor\u00e2ncia pode n\u00e3o ser uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas ela permite atos de loucura, a que a posteridade chamar\u00e1 de hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>O contraponto a esse homem &#8220;forte&#8221; porque simples, s\u00e1bio porque ignorante \u00e9 justamente o homem fr\u00e1gil porque culto, louco por ter estudado demais. Quem estuda demais enlouquece, como nos diz a &#8220;sabedoria popular&#8221;. A civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe teria entrado em decad\u00eancia porque assimilou demais as culturas &#8220;decadentes&#8221; do mundo helen\u00edstico. Li esse absurdo num livro de Hist\u00f3ria. Provavelmente o autor pensou que os mu\u00e7ulmanos teriam dominado o mundo inteiro no s\u00e9culo VIII se n\u00e3o tivessem estudado filosofia. Vai saber.<\/p>\n<p>O homem que se torna maduro e culto sofre logo com a descoberta daquilo que j\u00e1 foi chamado de &#8220;mal estar da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Como dizia Arist\u00f3teles: &#8220;experimentar \u00e9 sofrer&#8221;. Ou, como disse H. P. Lovecraft:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A coisa mais misericordiosa do mundo, eu acho, \u00e9 a incapacidade da mente humana para correlacionar todo o seu conte\u00fado. Vivemos em uma pl\u00e1cida ilha de ignor\u00e2ncia em meio aos mares negros do infinito e n\u00e3o nos foi dado viajar para muito longe. As ci\u00eancias, cada qual puxando em sua dire\u00e7\u00e3o, at\u00e9 agora nos causaram pouco mais; mas algum dia a montagem do quebra-cabe\u00e7as de conhecimentos espeda\u00e7ados abrir\u00e1 t\u00e3o terr\u00edveis vis\u00f5es da realidade e de nossa horr\u00edvel posi\u00e7\u00e3o nela que enlouqueceremos com a revela\u00e7\u00e3o ou ent\u00e3o fugiremos da mort\u00edfera luz para a paz e seguran\u00e7a de uma nova idade das trevas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aquele que aprende, deixa um pouco de si \u00e0 medida em que incorpora algo do outro, ent\u00e3o o aprendizado produz uma incompletude do ego ao mesmo tempo em que o expande com elementos do outro. Esse processo talvez seja o que Marshall McLuhan chamou de &#8220;destribaliza\u00e7\u00e3o&#8221; e outros chamaram de &#8220;desenraizamento&#8221;. Hoje, mais do que nunca, n\u00f3s somos criaturas hidrop\u00f4nicas, isoladas da terra que nos deu origem.<\/p>\n<h3>Estudar Enlouquece, Aprenda Isso<\/h3>\n<p>O fen\u00f4meno descrito acima foi percebido muito cedo pela humanidade, que tratou de desenvolver em torno dele um complexo sistema de atenuamento. Ao longo de um processo milenar, surgiu a cren\u00e7a na sobreviv\u00eancia da alma, surgiram as religi\u00f5es e seus sistemas de controle, surgiram, cedo, as drogas. \u00c9 uma vaidade louca tentar acabar com o tr\u00e1fico de drogas: ele n\u00e3o existiria se as subst\u00e2ncias psicoativas n\u00e3o fossem \u00fateis. Em todas as \u00e9pocas existiram pessoas que precisavam da fuga, da anestesia, da aniquila\u00e7\u00e3o. Em todas as \u00e9pocas existiram pessoas que precisavam do suic\u00eddio. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje, neste mundo apinhado de gente, onde mal se pode urinar na hora em que a natureza chama, o suic\u00eddio deixou de ser um trato pessoal com o destino e passou a ser um fen\u00f4meno coletivo, posto que ter\u00e1 testemunhas, herdeiros, sofredores.<\/p>\n<p>Nesse sentido a religi\u00e3o encontrou um terreno f\u00e9rtil para transformar-se em uma for\u00e7a social permanente. Dependendo da \u00e9poca e da cultura, a religi\u00e3o pode dar um sentido ao suic\u00eddio, reduzindo o sofrimento da fam\u00edlia do falecido, ou p\u00f4r um freio no ato, ao dar um sentido \u00e0 vida daqueles que n\u00e3o veem mais sentido algum. Para que estes processos funcionem \u00e9 preciso que as pessoas aceitem o pacote da religi\u00e3o, e esta aceita\u00e7\u00e3o depende da suspens\u00e3o da cr\u00edtica, o mesmo fen\u00f4meno que permite ao leitor de uma obra fant\u00e1stica aceitar, &#8220;em tese&#8221; e para fins meramente de divers\u00e3o, a exist\u00eancia de duendes, elfos, drag\u00f5es ou at\u00e9 deuses. Por isso as religi\u00f5es e as filosofias t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o conturbada. Em geral os fil\u00f3sofos s\u00f3 aceitam a religi\u00e3o quando eles pr\u00f3prios desenvolvem filosofias que legitimam a religi\u00e3o. A religi\u00e3o, por sua vez, discrimina entre os fil\u00f3sofos aqueles que s\u00e3o tachados de &#8220;niilistas&#8221; e os condena do alto de seus p\u00falpitos.<\/p>\n<p>O cristianismo, em especial, desconfia da sabedoria, e desconfia com for\u00e7a. Est\u00e1 no Novo Testamento que a<i> sabedoria do homem \u00e9 loucura para Deus<\/i>, e vice-versa. Estudar \u00e9 tornar-se louco aos olhos de Deus. Tornar-se s\u00e1bio no mundo \u00e9 afastar-se da salva\u00e7\u00e3o. Quem estuda se afasta das respostas prontas dadas pela religi\u00e3o, e no perigoso p\u00e2ntano do pensamento (oh, a horr\u00edvel liberdade!) pode concluir por valores reprov\u00e1veis perante a sociedade e seu c\u00e3o de guarda, o sacerdote.<\/p>\n<p>Sobre estudar demais e ficar doido, nossa cidade teve um personagem m\u00edtico,o j\u00e1 falecido professor Geraldo Barbosa, que muitos aqui devem ter conhecido. N\u00e3o vou dizer que era louco, o que me importa nesse ponto \u00e9 mais o que diziam dele, do que o que ele realmente era. Diziam que ele, de tanto estudar, teria ficado louco.<\/p>\n<p>No meu tempo de crian\u00e7a havia conhecidos meus, pessoas adultas,inclusive de minha fam\u00edlia, que me citavam o Geraldo Barbosa para me convencer que n\u00e3o estudasse &#8220;demais&#8221;. Davam-me como exemplo primos e parentes, que ganhavam a vida j\u00e1, sem terem grandes estudos,enquanto eu ainda n\u00e3o tinha profiss\u00e3o e nem &#8220;futuro&#8221; (essa arma abstrata com que os mais velhos atiram nos sonhos dos jovens). O dinheiro adquiriu tal import\u00e2ncia entre n\u00f3s que passou a definir, de forma exclusiva, o sucesso ou o fracasso. Houve uma \u00e9poca em que os homens ricos em dinheiro n\u00e3o tinham poder, mas sim os ricos em terras e em seguidores. Hoje em dia todos os bens somente t\u00eam valor enquanto possam traduzir-se em dinheiro \u2014 embora, curiosamente, o dinheiro em si seja uma abstra\u00e7\u00e3o, tal como bem definiu o chefe Seattle, em sua carta ao presidente americano: <i>somente depois que a \u00faltima \u00e1rvore for cortada, o \u00faltimo peixe for pescado e o \u00faltimo rio for envenenado o homem branco perceber\u00e1 que n\u00e3o pode comer dinheiro.<\/i><\/p>\n<p>Seria o professor Geraldo Barbosa louco? Machado de Assis, em sua espetacular noveleta <i>O Alienista, <\/i>j\u00e1 nos mostrou o quanto \u00e9 t\u00eanue e arbitr\u00e1ria esta linha marcada entre a normalidade e o desvio. Mas supondo ainda que fosse mesmo &#8220;louco&#8221;, mesmo que apenas em tese, seria ele louco por ter estudo em excesso?<\/p>\n<h3>A Pol\u00edtica da Loucura<\/h3>\n<p>O povo inculto, de um modo geral, teme e odeia os seus l\u00edderes desde h\u00e1 milhares de anos. Desde a Sum\u00e9ria e o Egito, quando a escrita foi inventados, os homens que leem e escrevem s\u00e3o vistos como controladores de for\u00e7as terr\u00edveis, MAL\u00c9FICAS. S\u00e3o for\u00e7as mal\u00e9ficas porque a elite oprime o povo. Logo, as tecnologias da elite, entre elas a escrita e a leitura, s\u00e3o contr\u00e1rias ao bem do povo. \u00c9 significativo que ainda sobreviva em nosso meio um fil\u00e3o de filmes de terror focado em Livros Malditos.<\/p>\n<p>Mas o povo precisa de auto-estima, n\u00e3o pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do &#8220;pre\u00e7o que a bruxaria cobra&#8221;. Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mist\u00e9rios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido \u00e0s experi\u00eancias que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido \u00e0s priva\u00e7\u00f5es de sono e de alimento,enxergavam mal devido a &#8220;for\u00e7ar a vista&#8221; em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solit\u00e1rio prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldi\u00e7oado. Salutar e bom \u00e9 o vigoroso homem do povo, isento da corrup\u00e7\u00e3o do passado, cheio da verdade simples e direta que brota da terra.<\/p>\n<p>A figura do artista maldito, degradado, b\u00eabado, drogado etc. nada mais \u00e9 do que uma varia\u00e7\u00e3o do Professor Geraldo Barbosa, que estudou tanto que enlouqueceu. Estes artistas t\u00eam exposi\u00e7\u00e3o intensa na m\u00eddia, desproporcional at\u00e9, porque eles atendem a um modelo, a um arqu\u00e9tipo. Com j\u00e1 disse, as pessoas acreditam que a ignor\u00e2ncia \u00e9 &#8220;pura&#8221;, que a sabedoria &#8220;corrompe&#8221;. Ent\u00e3o, as pessoas acreditam que o artista \u00e9 mais natural, mais espont\u00e2neo, quando se exibe louco, entorpecido, deca\u00eddo. Por ser uma pessoa mais &#8220;sens\u00edvel&#8221; (seja l\u00e1 o que for que o povo ache que &#8220;sensibilidade&#8221; \u00e9), o artista seria por natureza uma criatura fr\u00e1gil. Ent\u00e3o fecha-se um c\u00edrculo e pessoas interessadas em ser ou <i>parecer <\/i>artistas seguem esses modelos de comportamento fr\u00e1gil-drogado achando que se tornam mais artistas por causa disso. \u00c9 aqui que a frase do Chesterton entra como uma luva. Ou seja, tem gente que acha que \u00e9 o rabo que abana o cachorro. H\u00e1 pessoas que acreditam que ter\u00e3o os acertos de uma outra pessoa se copiarem os seus erros.<\/p>\n<p>J\u00e1 vimos antes que o conhecimento exp\u00f5e o homem ao confronto com for\u00e7as que est\u00e3o al\u00e9m de sua compreens\u00e3o e que nem todos est\u00e3o preparados para sair ilesos de tal combate. Voltamos, ent\u00e3o, ao tema da embriaguez.<\/p>\n<p>Para mim, tudo o que embota a mente, l\u00edcito ou il\u00edcito no C\u00f3digo Penal, tem a mesma fun\u00e7\u00e3o: produzir ignor\u00e2ncia artificial. Uma vez que as pessoas, de forma t\u00e3o prevalente, apreciam a ignor\u00e2ncia, o artista se atenua, entorpece, anestesia, a fim de produzir uma obra menos refinada, menos pensada, mais rude, visceral. Todo artista tem que ir aonde o povo est\u00e1. O artista maldito \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o, aos olhos do povo, que a sabedoria \u00e9 perigosa, que o conhecimento corrompe. O homem s\u00e1bio \u00e9 ambicioso, tenta construir a Torre de Babel, termina confuso.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o do artista como um ser autodestrutivo \u00e9 uma maneira de desqualificar socialmente. O artista \u00e9 mostrado como um doid\u00e3o, n\u00e3o algu\u00e9m que merece respeito. Isso me lembra um amigo virtual, que postou no Facebook um epis\u00f3dio de sua vida real: quando disse que era m\u00fasico, lhe perguntaram em que ele trabalhava. N\u00e3o se concebe que algu\u00e9m possa ser &#8220;escritor&#8221;, ou &#8220;m\u00fasico&#8221;, ou &#8220;artista&#8221;. Ali\u00e1s, na linguagem do povo, &#8220;artista&#8221; \u00e9 ator da novela.<\/p>\n<p>No Brasil n\u00f3s temos um outro interessante paradigma disso. Na sociedade coronelista, que n\u00e3o superamos totalmente, o coronel, geralmente um homem de pouco ou nenhum estudo, contratava servi\u00e7os especializados de gente diplomada: m\u00e9dico, contador, advogado, engenheiro, professor. Todos lhe eram submissos pela l\u00f3gica do poder. Ent\u00e3o ficava o estigma de que um diploma apenas habilitava o portador a ser subalterno do poder. Posi\u00e7\u00e3o desej\u00e1vel por homens pobres, mas vista como degradante para os descendentes das fam\u00edlias quatrocentonas.<\/p>\n<p>Por isso, filhos das classes mais altas, mesmo quando se formavam, preferiam a pol\u00edtica: o diploma era s\u00f3 perfumaria, s\u00f3 para n\u00e3o ficarem abaixo de seus subalternos. Exercer a profiss\u00e3o era algo indigno de algu\u00e9m oriundo de uma fam\u00edlia poderosa. Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es formou-se m\u00e9dico mas jamais clinicou. Quando algu\u00e9m de origem socialmente alta realmente exercia sua profiss\u00e3o, isso era um sinal de incapacidade ou impossibilidade de manter e expandir o poder herdado. &#8220;Pai fazendeiro, filho doutor, neto pescador&#8221; \u2014 diz o ditado mineiro. Deixar o poder e dedicar-se a uma carreira \u00e9 uma decad\u00eancia.<\/p>\n<h3>N\u00e3o Sejamos Moralistas<\/h3>\n<p>Escritores se embriagam. Sim, eles s\u00e3o seres humanos e vivem tudo que os humanos vivem. <i>Sendo humano, dedico-me \u00e0 viver tudo que \u00e9 da natureza humana, <\/i>teria dito um devasso imperador romano. Mas os escritores ainda vivem algo mais, que lhes \u00e9 peculiar: a experi\u00eancia da escrita. Quando um estivador, um lixeiro ou um m\u00e9dico se torna alco\u00f3latra, isso n\u00e3o cria um debate sobre estivadores, lixeiros ou m\u00e9dicos alco\u00f3latras. Mas quando as pessoas pensam nos escritores que se drogam (nos artistas, tamem, de uma forma geral), elas logo fazem um &#8220;salto l\u00f3gico&#8221; de supor que a embriaguez seria uma caracter\u00edstica do of\u00edcio. Por isso, creio que talvez seja errado considerar a embriaguez t\u00e3o definidora de caracter\u00edsticas liter\u00e1rias para que nos dediquemos tanto a ela. O que j\u00e1 dedicamos me parece muito.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o disso com a minha digress\u00e3o sobre o s\u00e1bio louco e o ignorante vigoroso \u00e9 que conviver com esse arqu\u00e9tipo \u00e9 penoso. H\u00e1 uma s\u00e9rie de dificuldades adicionais que o escritor precisa vencer para dedicar-se \u00e0 sua atividade. Estas dificuldades, por si, podem afastar o escritor do conv\u00edvio de outras pessoas, porque escrever demanda, principalmente, tempo e sil\u00eancio. E parece ser uma caracter\u00edstica quase universal das culturas contempor\u00e2neas a valoriza\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo, da experi\u00eancia coletiva. Diante das teletelas reais vivemos nossos momentos de \u00f3dio e de amor sempre na companhia do outro, cidad\u00e3os de um admir\u00e1vel mundo novo que somos, obrigados a sorrir e a amar quase como por dever c\u00edvico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o,quando voc\u00ea junta a persist\u00eancia do arqu\u00e9tipo de que cultura enlouquece, a necessidade de relativa solid\u00e3o para poder produzir e mais os problemas (psicol\u00f3gicos ou sociais) de que ningu\u00e9m est\u00e1 inteiramente livre, o que obt\u00e9m? Se o escritor recair em algum v\u00edcio voc\u00ea obter\u00e1 uma s\u00e9rie de obras dedicadas ao v\u00edcio porque, em geral, o grande assunto do autor \u00e9 a sua pr\u00f3pria vida, que ele pode desnudar diretamente em uma autobiografia ou meramente transferir de forma sublimada para cen\u00e1rios de suposta fantasia. Ser\u00e1, por\u00e9m, que estas obras indicam algum valor no v\u00edcio?<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas do viciado, do &#8220;adicto&#8221;, como se diz hoje, \u00e9 negar que seja viciado. Quem tem parente alco\u00f3latra sabe muito bem como inventam desculpas, hist\u00f3rias, explica\u00e7\u00f5es. Imagine que desculpas, hist\u00f3rias e explica\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o inventadas por um alco\u00f3latra que tenha talento com as palavras? Sempre, claro, com o objetivo de glorificar o pr\u00f3prio v\u00edcio.<\/p>\n<p>Ainda mais porque o v\u00edcio, sendo algo que pode acometer qualquer pessoa, acaba por servir de tra\u00e7o de uni\u00e3o entre o estranho, o homem das letras supostamente elevado e incompreens\u00edvel, e o normal, as pessoas que vivem vidas naturais, sem preocupa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Papo de b\u00eabado \u00e9 sempre igual. Beber, ent\u00e3o, pode ser uma forma de o escritor mostrar-se acess\u00edvel, criar uma imagem que o grande p\u00fablico n\u00e3o rejeite. Ele tinha talento, mas tinha uma fraqueza. Ningu\u00e9m suporta os perfeitinhos. Quer dizer que al\u00e9m de ser rico e talentoso ele tamb\u00e9m era abst\u00eamio? Ah, alguma podrid\u00e3o ele deve ter!<\/p>\n<h3>Perigos Modernos<\/h3>\n<p>Existe um outro aspecto a se considerar sobre a embriaguez: hoje em dia ela deixou de ser um ato de contesta\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 parte do grande processo de banaliza\u00e7\u00e3o de tudo, fruto de nossa sociedade que produz tudo em escala industrial, inclusive sofrimento e estupidez.<\/p>\n<p>Quando Baudelaire e seus amigos se reuniam nos clubes de comedores de \u00f3pio em Paris, eles o faziam como uma afronta \u00e0 sociedade &#8220;certinha&#8221; de seu tempo. Eles se sentiam meio mortos naquele mundo de conven\u00e7\u00f5es e limites, queriam romper suas amarras e ver coisas novas. N\u00e3o se sabia, ainda, o quanto as drogas eram ruins. Havia uma certa ingenuidade no mundo, naquela \u00e9poca. N\u00e3o custa lembrar que at\u00e9 os anos vinte ainda se vendia pastilhas de coca\u00edna e vinho com hero\u00edna.<\/p>\n<p>As pessoas foram descobrindo aos poucos que certas subst\u00e2ncias eram perigosas, e reagiram histericamente quando isso caiu no dom\u00ednio p\u00fablico. Proibiu-se um monte de coisa que n\u00e3o precisaria ter sido proibida, e muita coisa que tinha de ter sido continuou legal. Ent\u00e3o a embriaguez voltou \u00e0 moda. Nada mais contestador nos EUA da Lei Seca do que ser um pudim de cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que este aspecto &#8220;contestador&#8221; da embriaguez perdeu seu sentido. Hoje em dia est\u00e1 tudo normatizado e tolerado, inclusive a rebeldia em n\u00edvel individual. Voc\u00ea pode se vestir como quiser, tatuar-se aonde quiser, espetar-se com o que quiser, maquiar-se como quiser, talvez at\u00e9 botar um parafuso na cabe\u00e7a. Ent\u00e3o quando voc\u00ea enche a cara, est\u00e1 apenas alimentando mais uma ind\u00fastria, que \u00e9 parte do sistema. A rebeldia, hoje em dia, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a estabilidade do conjunto. A rebeldia idiota, ou seja, a rebeldia do indiv\u00edduo isolado. Porque a rebeldia coletiva merece g\u00e1s de pimenta, cassetetada no lombo e ordens judiciais de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Enquanto voc\u00ea estiver sozinho contra o Leviat\u00e3 voc\u00ea tem a liberdade de dizer e fazer muita coisa, mas ao reunir-se diante dele o resultado \u00e9 todos serem pisoteados.<\/p>\n<p>Veja bem, n\u00e3o estou aqui sendo moralista. Cada um tem o direito de ser o que quiser. N\u00e3o sou pol\u00edcia do corpo e nem da alma alheia. O que me incomoda \u00e9 existir a est\u00e9tica da arte como algo &#8220;sujo&#8221;, do artista como necessariamente algu\u00e9m que &#8220;peca&#8221;. N\u00e3o me incomoda porque seja contra isso, mas porque o estere\u00f3tipo ocupa praticamente todo espa\u00e7o. Parece que as pessoas acham que o artista \u00e9 de alguma forma ileg\u00edtimo se ele n\u00e3o se tatuar, n\u00e3o brigar com a fam\u00edlia,n\u00e3o cometer algum crime, n\u00e3o tiver uma vida antissocial, etc.  Esse artista que n\u00e3o agride a sociedade \u00e9 tachado de &#8220;conformista&#8221;, &#8220;nerd&#8221;, &#8220;workaholic&#8221; etc., quando n\u00e3o apenas ignorado.<\/p>\n<p>Mas todas estas coisas que alguns artistas fazem n\u00e3o s\u00e3o a arte em si. S\u00e3o idiossincrasias do artista que, muitas vezes, afetam negativamente a arte, mas algumas podem afetar positivamente tamb\u00e9m. Quantos poetas malditos que se mataram cedo n\u00e3o poderiam ter vivido at\u00e9 uma maturidade muito mais significativa artisticamente? Quantos roqueiros mortos de overdose n\u00e3o poderiam ter feito m\u00fasica ainda melhor se n\u00e3o tivessem partido aos vinte e poucos? Para cada conto de Poe, para cada poema de Coleridge, deve haver uma infinidade de composi\u00e7\u00f5es de Hendrix.<\/p>\n<p>De fato, s\u00e3o poucos os escritores que bebem para escrever. S\u00e3o muitos os que bebem, claro, mas a ideia de que algu\u00e9m enche a cara de cacha\u00e7a e diz, &#8220;agora, ent\u00e3o, eu estou pronto para escrever&#8221; \u00e9 uma coisa irreal. Escrever exige concentra\u00e7\u00e3o, coordena\u00e7\u00e3o motora, certo dom\u00ednio dos sentidos. Uma quantidade moderada de \u00e1lcool, ou qualquer entorpecente, pode n\u00e3o ser suficiente para impedir, mas dificulta. Uma dose maior simplesmente impede o ato criativo. Veja os famosos <i>shows<\/i> com m\u00fasicos drogados, aqueles caras cantando com voz arrastada, errando notas na guitarra, trope\u00e7ando no palco. Algo parecido acontece com o escritor. Sua voz arrastada \u00e9 a dificuldade para lembrar vocabul\u00e1rio, seus erros de notas s\u00e3o as omiss\u00f5es de palavras ou pontua\u00e7\u00e3o, seus trope\u00e7os s\u00e3o as perdas de sequencia l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Minha experi\u00eancia pessoal com a rela\u00e7\u00e3o entre a escrita e a bebida foi sempre negativa. Embora eu at\u00e9 tenha escrito textos interessantes sobre a embriaguez, ou at\u00e9 em estado de embriaguez, a verdade \u00e9 que embriagar-me me retira toda a vontade de escrever. A embriaguez induz \u00e0 pregui\u00e7a e abole o racioc\u00ednio l\u00f3gico. Escrita de artista embriagado \u00e9 como papo de b\u00eabado. Tem quem goste, mas \u00e9 perfeitamente explic\u00e1vel que tanta gente n\u00e3o goste.<\/p>\n<p>Uma coisa diferente \u00e9 escrever posteriormente sobre a experi\u00eancia dita durante a embriaguez. Mas nesse caso a escrita n\u00e3o tem nenhum ingrediente diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 de algu\u00e9m que n\u00e3o bebeu, a n\u00e3o ser o assunto, que o autor vai conhecer em primeira m\u00e3o. Mas \u00e9 um assunto t\u00e3o importante assim?<\/p>\n<h3>Bebendo Para Ganhar o Nobel<\/h3>\n<p>A\u00ed chegamos ao ponto crucial, que \u00e9 o da anula\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, o est\u00e1gio superior da ignor\u00e2ncia. Algumas pessoas, mais do que se anularem, mais do que se estupidificarem, querem cancelar-se definitivamente, querem matar-se. As raz\u00f5es que levam algu\u00e9m a se matar s\u00e3o t\u00e3o complexas que v\u00e1rios fil\u00f3sofos dedicaram livros inteiros a isso. Schopenhauer dizia que o suic\u00eddio era a \u00fanica quest\u00e3o filos\u00f3fica relevante e Durkheim escreveu um famoso ensaio sobre o tema. Hoje sabemos que o suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica, mas um problema de sa\u00fade p\u00fablica, que at\u00e9 pode ser tratado com comprimidos, na maioria dos casos.<\/p>\n<p>Mas continua sendo um fen\u00f4meno real. E justamente um fen\u00f4meno que afeta muito mais as pessoas de certa cultura. Nietzsche dizia que um povo \u00e9 somente uma maneira que a natureza tem para produzir grandes homens e livrar-se deles depois. Nossa cultura, que produz artistas, malditos ou n\u00e3o, ao mesmo tempo em que lhes d\u00e1 origem, os devora.<\/p>\n<p>E dos americanos ganhadores do Nobel de literatura somente um n\u00e3o foi alco\u00f3latra ou drogado. Ser\u00e1 isto um indicativo de que bebendo se escreve melhor, ou um sintoma da doen\u00e7a cultural do ocidente (e dos Estados Unidos especificamente) que faz as pessoas &#8220;sens\u00edveis&#8221; tenderem \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>E sempre precisamos ter muito cuidado com a personalidade do artista pois, como cruelmente disse G. K. Chesterton: <em>temperamento art\u00edstico \u00e9 coisa de amadores.<\/em>&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Notas para minha participa\u00e7\u00e3o na mesa redonda sobre o tema &#8220;A embriaguez como inspira\u00e7\u00e3o art\u00edstica ainda se justifica?&#8221;, ocorrida no dia 11 de novembro de 2011 no III Festival Liter\u00e1rio de Cataguases. Esta postagem ocorre com tamanho atraso porque, em virtude de problemas que eu estava enfrentando com o meu computador, perdi duas vezes o texto revisado que j\u00e1 estava quase pronto para postar. A Licen\u00e7a Po\u00e9tica basicamente significa que o autor tem a prerrogativa de escrever como queira, sobre o que desejar. 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