{"id":1881,"date":"2014-09-20T22:25:09","date_gmt":"2014-09-21T01:25:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1881"},"modified":"2017-11-02T14:08:09","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:09","slug":"ninguem-tem-o-direito-de-nunca-ser-ofendido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/09\/ninguem-tem-o-direito-de-nunca-ser-ofendido\/","title":{"rendered":"Ningu\u00e9m Tem o Direito de Nunca Ser Ofendido"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O Romance da Universit\u00e1ria Ot\u00e1ria&#8221; foi um grande sucesso da Banda Blitz nos anos 80. Falando sobre uma jovem sem rumo na vida que se envolve com um fala-mansa chamado &#8220;Abreu&#8221;, a can\u00e7\u00e3o inclu\u00eda uma estrofe que ficou marcada para mim at\u00e9 hoje: &#8220;Todo mundo quer ir pro c\u00e9u, mas ningu\u00e9m quer morrer.&#8221; A frase foi usada para ironizar a Aparecida (a tal universit\u00e1ria) que escolhia cursos como quem escolhe roupas e pensava mais nos diplomas do que nos estudos.<\/p>\n<p>A frase tamb\u00e9m serve para a maioria dos jovens autores que postam seus textos em blogs e no Facebook.<\/p>\n<p>Eles querem ir para o c\u00e9u (tornar-se escritores publicados), mas n\u00e3o querem morrer (enfrentar cr\u00edticas, rejei\u00e7\u00f5es, contesta\u00e7\u00f5es e decep\u00e7\u00f5es). Acima de tudo eles n\u00e3o gostam de ser &#8220;ofendidos&#8221; &#8212; e que coisa mais dif\u00edcil \u00e9 n\u00e3o ofender um jovem que se acha predestinado a abalar as estruturas da literatura universal.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil evitar ofend\u00ea-los porque, inseguran\u00e7a t\u00edpica da adolesc\u00eancia, eles consideram a literatura como algo extremamente pessoal. Acredito que a maioria dos autores come\u00e7ou pensando assim, e eu mesmo juro que foi assim que eu mesmo comecei. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em ter uma rela\u00e7\u00e3o muito pessoal com o texto. Mas uma rela\u00e7\u00e3o &#8220;muito pessoal&#8221; deveria incluir sigilo, n\u00e3o? Se o texto \u00e9 t\u00e3o pessoal, ele n\u00e3o deveria ser exposto.<\/p>\n<p>Assim como n\u00e3o expomos as partes sens\u00edveis de nossos corpos. A principal fun\u00e7\u00e3o das roupas n\u00e3o \u00e9, contrariamente ao que se pensa, proteger a moral e os bons costumes, mas proteger lugares de nossos corpos que nos causariam dor, desconforto ou doen\u00e7a se expostos \u00e0s intemp\u00e9ries, aos insetos e a objetos contundentes, como paus e pedras. Sociedades guerreiras ensejam roupas cada vez mais pesadas, armaduras at\u00e9. O nudismo \u00e9 caracter\u00edstico de povos pac\u00edficos, que vivem a salvo de estrangeiros violentos.<\/p>\n<p>Um texto muito pessoal \u00e9 como se fosse uma parte sens\u00edvel de nosso corpo: ou nunca o publicamos (&#8220;Obras P\u00f3stumas&#8221; existem para isso) ou s\u00f3 o publicamos depois de termos desenvolvido certa toler\u00e2ncia a agress\u00f5es. Retiramos o curativo da ferida somente quando cicatriza.<\/p>\n<p>Normalmente as cr\u00edticas que s\u00e3o feitas ao que escrevemos refletem o gosto de quem critica. Gosto \u00e9 como [&#8230;], cada um tem um e ningu\u00e9m acha o do outro bonito, embora ningu\u00e9m tenha orgulho do seu. Ningu\u00e9m gosta da ideia de que sua cr\u00edtica \u00e9 apenas quest\u00e3o de gosto, todos queremos pensar que temos uma r\u00e9gua para medir o mundo. Mas um autor n\u00e3o tem o direito de achar que a sua r\u00e9gua \u00e9 a mais reta, e nem de baixar a cabe\u00e7a para as avalia\u00e7\u00f5es alheias.<\/p>\n<p>Algumas cr\u00edticas s\u00e3o feitas de forma injusta. Algumas s\u00e3o desastradas. Algumas interpretamos mal. Para quem quer se ofender, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a alguma. Tanto faz um agressor, uma pessoa que escolheu mal as palavras ou a pr\u00f3pria dificuldade para entender o que pode ter sido dito de forma complexa. Somente n\u00e3o h\u00e1 controv\u00e9rsia quando o texto elogia. Ningu\u00e9m rejeita nem discute elogios recebidos. Deveriam. Elogios s\u00e3o f\u00e1ceis de fazer, por isso costumam ser superficiais.<\/p>\n<p>O texto posto no papel nunca ser\u00e1 plenamente compreendido por quem o l\u00ea. Existe uma barreira intranspon\u00edvel entre a idealiza\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o. Todos somos melhores escritores em nossos sonhos do que diante da p\u00e1gina em branco. Acredito que todo autor imagina que seu texto seja melhor que \u00e9. A n\u00e3o ser os que padecem de autoconfian\u00e7a fr\u00e1gil, e tendem a achar fraco qualquer esfor\u00e7o que levem adiante. Duvido muito de autores que sabem avaliar a qualidade de seus textos. Em literatura, a objetividade \u00e9 uma ilus\u00e3o mesmo no outro. Em si mesmo, \u00e9 uma quim\u00e9rica ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto \u00e9 natural que os leitores vejam qualidades que n\u00e3o planejamos, apontem defeitos que n\u00e3o vimos, valorizem o que achamos secund\u00e1rio, desconsiderem o que mais gostamos. Uma amiga minha certa vez se ofendeu comigo porque eu lhe disse que achava o seu melhor texto um que misturava magos, t\u00e9dio e uma embalagem de pl\u00e1stico bolha. Era um conto despretensioso, engra\u00e7ado e f\u00e1cil de ler. Mas n\u00e3o era o que ela <em>queria<\/em> escrever. Por isso, na mente dela, meu elogio a esse texto (&#8220;escrito em trinta minutos&#8221;) era simultaneamente a deprecia\u00e7\u00e3o de seus melhores esfor\u00e7os. Ela parece n\u00e3o ter me perdoado at\u00e9 hoje por esse elogio. O que s\u00f3 prova que n\u00e3o \u00e9 preciso criticar acerbamente um texto para que o autor se ofenda.<\/p>\n<p>Mais natural ainda \u00e9 que n\u00f3s, autores, interpretemos errado as opini\u00f5es dos leitores, especialmente porque elas s\u00e3o escritas rapidamente. N\u00f3s podemos dedicar dias e semanas melhorando o texto at\u00e9 que fique do jeito que temos coragem de publicar. Nossos leitores o ler\u00e3o em uma pequena fra\u00e7\u00e3o desse tempo e os seus coment\u00e1rios ser\u00e3o escritos ainda mais r\u00e1pido. N\u00e3o podemos exigir do leitor a mesma compet\u00eancia que nos atribu\u00edmos na escrita. O coment\u00e1rio do leitor tende a ser superficial, exceto se formos agraciados com um leitor sobrenaturalmente cuidadoso.<\/p>\n<p>Para piorar ainda mais tudo isso: o leitor tende a ser ainda mais superficial ao criticar o que n\u00e3o gostou, e especialmente se foi obrigado a ler. Cr\u00edticas positivas tendem a ser melhor elaboradas. Cr\u00edticas negativas expressam a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter achado no texto o prazer de ler.<\/p>\n<p>O autor tem de desenvolver maturidade suficiente para passar ao largo disso. N\u00e3o pode se abater somente porque um leitor ou outro o criticou. Se n\u00e3o \u00e9 capaz de suportar que digam os defeitos da obra que considera perfeita, ent\u00e3o n\u00e3o deveria compartilh\u00e1-la com ningu\u00e9m, porque n\u00e3o \u00e9 justo e nem razo\u00e1vel esperarmos que o mundo s\u00f3 nos reserve aplauso. Mesmo os grandes sofrem com algum tipo de ataque. Ataque que pode, muitas vezes, originar-se de outro escritor, ser movido pela inveja, ou pode ser a mais pura verdade, sob o ponto de vista espec\u00edfico de quem o escreveu.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 especialmente verdadeiro nos desafios da comunidade EntreContos. Eu tenho a m\u00e1 fama de ogro por ocasionalmente criticar certos textos com uma for\u00e7a &#8220;excessiva&#8221; aos olhos dos autores. Nunca foi minha inten\u00e7\u00e3o. Nunca faltei com o respeito a ningu\u00e9m. Mas as pessoas se ofendem quando o que recebem de volta n\u00e3o \u00e9 o que sonharam.<\/p>\n<p>Uma coisa, por\u00e9m, estes autores nunca pensaram: que as cr\u00edticas negativas que recebem, de mim ou de outros, s\u00e3o, muito provavelmente, provenientes de leitores que n\u00e3o os leriam se pudessem escolher. Sim, \u00e9 verdade. Os desafios da EntreContos obrigam os participantes a ler os textos alheios. Normalmente o primeiro par\u00e1grafo j\u00e1 \u00e9 suficiente para perceber se um texto tem qualidade ou n\u00e3o, e com tr\u00eas par\u00e1grafos, no m\u00e1ximo, o autor j\u00e1 nos fisgou ou nos fez desistir. Mas nos desafios da EntreContos voc\u00ea \u00e9 obrigado a ler at\u00e9 o fim, mesmo sem gostar, porque n\u00e3o pode simplesmente dizer: &#8220;li este texto&#8221; e cumprir com a obriga\u00e7\u00e3o de ler e  comentar todos os participantes. Quem n\u00e3o o fa\u00e7a, poder\u00e1 ser eliminado do desafio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando um autor critica, ele provavelmente \u00e9 um leitor que aquele texto nunca teve.  N\u00e3o vamos gastar adrenalina com isso, gente! Uma cr\u00edtica \u00e9 s\u00f3 uma cr\u00edtica. Principalmente se dirigida ao texto. O texto pode ser imbecil, mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. O texto pode carecer de mais estudo, mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 analfabeto. O texto pode ser rude, mas voc\u00ea pode ser educado. N\u00e3o passe recibo, n\u00e3o solte merda no ventilador s\u00f3 porque algu\u00e9m viu defeito no que voc\u00ea faz. Voc\u00ea p\u00f5e o que \u00e9 naquilo que faz, mas voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 o que faz.<\/p>\n<p>Ofender-se \u00e9 in\u00fatil, s\u00f3 cria constrangimentos e divis\u00f5es. Forte abra\u00e7o a todos que me leem, e levem uma vida leve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Romance da Universit\u00e1ria Ot\u00e1ria&#8221; foi um grande sucesso da Banda Blitz nos anos 80. Falando sobre uma jovem sem rumo na vida que se envolve com um fala-mansa chamado &#8220;Abreu&#8221;, a can\u00e7\u00e3o inclu\u00eda uma estrofe que ficou marcada para mim at\u00e9 hoje: &#8220;Todo mundo quer ir pro c\u00e9u, mas ningu\u00e9m quer morrer.&#8221; A frase foi usada para ironizar a Aparecida (a tal universit\u00e1ria) que escolhia cursos como quem escolhe roupas e pensava mais nos diplomas do que nos estudos. 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