{"id":1905,"date":"2014-09-29T23:06:17","date_gmt":"2014-09-30T02:06:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1905"},"modified":"2017-08-13T00:21:23","modified_gmt":"2017-08-13T03:21:23","slug":"o-derretimento-irreversivel-de-um-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/09\/o-derretimento-irreversivel-de-um-passado\/","title":{"rendered":"O Derretimento Irrevers\u00edvel de um Passado"},"content":{"rendered":"<p>> O teu futuro \u00e9 duvidoso<br \/>\n> Eu vejo grana, eu vejo dor<br \/>\n> No para\u00edso perigoso<br \/>\n> Que a palma da tua m\u00e3o mostrou.<br \/>\n>       &#8212; Cazuza (&#8220;Bete Balan\u00e7o&#8221;)<\/p>\n<p>Setembro de 2014 marca o fim de um momento na hist\u00f3ria da internet, e da cultura pop como um todo: desaparece o Orkut, a primeira das redes sociais a ganhar tra\u00e7\u00e3o e estabelecer padr\u00f5es de comportamento on-line. Com o seu fim o Google est\u00e1 enterrando para sempre, de forma irrepar\u00e1vel, uma s\u00e9rie de momentos, cria\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as de milh\u00f5es de pessoas que atrav\u00e9s dele conheceram amigos, estabeleceram contatos profissionais ou simplesmente aprenderam a se divertir de um jeito novo.<\/p>\n<p>\u00c9 triste que isto aconte\u00e7a, que um verdadeiro mundo de experi\u00eancias se desmaterialize assim, mas talvez seja um fato educativo para todos n\u00f3s que o vivemos: quando o Orkut se for, ele talvez nos ensine uma maneira de manter resguardadas as nossas lembran\u00e7as e as nossas amizades. Se isto acontecer, ter\u00e1 sido uma li\u00e7\u00e3o aproveitada. Embora eu tema que n\u00e3o aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Antes do Orkut a internet era uma experi\u00eancia dif\u00edcil para os usu\u00e1rios. Havia milhares de portais de entrada, cada provedor de internet queria ter o seu, e o usu\u00e1rio contemplava o oceano de informa\u00e7\u00e3o como algu\u00e9m que chega \u00e0 beira da praia e tenta adivinhar que peixes nadar\u00e3o no oceano. O conceito novo de &#8220;rede social&#8221; subverte isto: embora tenhamos pensado sempre que a rede social organiza relacionamentos, o fato mais impactante \u00e9 que ela organiza a experi\u00eancia do navegador do oceano de informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 isto que a tornou revolucion\u00e1ria, e n\u00e3o a sua capacidade de agregar pessoas conhecidas. O &#8220;social&#8221; da rede logo ensejou novas categorias de relacionamentos, deixando claro que as meras rela\u00e7\u00f5es de conhecimento, inicialmente pensadas pelos seus desenvolvedores, eram muito limitantes.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o Orkut foi criado para testar a [teoria dos seis graus de separa\u00e7\u00e3o](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teoria_dos_seis_graus_de_separa%C3%A7%C3%A3o), mas ele permitiu o florescimento do personagem falso (&#8220;fake&#8221;), que j\u00e1 existia desde os tempos dos f\u00f3runs de internet, e isso subverteu a l\u00f3gica dos seis graus.<\/p>\n<p>O Orkut representou, para seus usu\u00e1rios, uma forma r\u00e1pida e eficaz de encontrar pessoas com gostos afins (n\u00e3o com parentescos ou semelhan\u00e7as) e compartilhar nas &#8220;comunidades&#8221; criadas para reunir tais tribos virtuais os conte\u00fados espec\u00edficos de suas \u00e1reas de interesse ou atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o mais turistas indefesos contemplando um oceano, mas utilizadores capazes de encontrar o que queriam nos muitos compartimentos organizados oferecidos atrav\u00e9s das comunidades.<\/p>\n<p>No come\u00e7o pareceu uma coisa boa. A organiza\u00e7\u00e3o de algo originariamente ca\u00f3tico *sempre* nos parece um progresso. Mas as redes sociais, das quais o Orkut foi o pioneiro, produziram logo uma transforma\u00e7\u00e3o profunda na maneira como os seres humanos n\u00e3o s\u00f3 se relacionam entre si como tamb\u00e9m na forma de interagirem com a informa\u00e7\u00e3o. Esta mudan\u00e7a n\u00e3o foi neutra.<\/p>\n<p>O Orkut, por ser pioneiro e ainda um tanto ing\u00eanuo, ofereceu ferramentas poderosas para a organiza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado pelos pr\u00f3prios usu\u00e1rios. &#8220;Moderadores&#8221; de comunidades podiam atuar em conjunto para estabelecer regras e construir um cen\u00e1rio pulsante de criatividade e cultura. Algumas comunidades se tornaram lend\u00e1rias pela sua capacidade de criar e produzir conte\u00fado de qualidade, seja no aspecto jornal\u00edstico (&#8220;F\u00f3rmula 1 Brasil&#8221;), seja na literatura (&#8220;Novos Escritores do Brasil&#8221;), na educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (&#8220;Evolucionismo versus Criacionismo&#8221;), no debate religioso (&#8220;Contradi\u00e7\u00f5es da B\u00edblia&#8221;), na filosofia (&#8220;Ci\u00eancia e Filosofia&#8221;, &#8220;C\u00e9ticos S.A.&#8221;, &#8220;Sociedade da Terra Redonda&#8221;), no humorismo (&#8220;Piores Perfis do Orkut&#8221;, &#8220;Traumas de Adolesc\u00eancia&#8221;) ou at\u00e9 grupos de auto-ajuda. Havia, claro, os grupos sem sentido, que prefiro n\u00e3o citar, e grupos irrelevantes, mas o que mais marcou foram os grupos de qualidade, onde, devido \u00e0s caracter\u00edsticas que o Orkut herdou dos f\u00f3runs e dos BBS, era poss\u00edvel ter discuss\u00f5es, arquivar conte\u00fado e montar grandes debates. Sob esse aspecto o Orkut foi imensamente criativo, e deve ter produzido toda uma gera\u00e7\u00e3o de humoristas, jornalistas, escritores e pensadores. Eu mesmo me julgo um deles, porque, embora eu j\u00e1 tivesse mais de trinta ao criar meu perfil, desenvolvi imensamente minha personalidade e minha capacidade argumentativa e de escrita participando de debates e desafios propostos nas comunidades.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a parte do Orkut que vai deixar saudades, mas os que viveram aquela fase sabem que este mundo r\u00f3seo e azul j\u00e1 n\u00e3o existia h\u00e1 algum tempo. Faz pelo menos dois anos que o Orkut se transformou em um mero simulacro do que fora, cad\u00e1ver adiado de si mesmo.<\/p>\n<p>Seus sucessores n\u00e3o mantiveram as caracter\u00edsticas que o tornaram criativo, preferiram buscar caminhos de maior rentabilidade e de maior poder, o que se fez, claro, removendo do usu\u00e1rio, mesmo os &#8220;administradores&#8221;, o poder de organizar e manusear o conte\u00fado. Nas redes sociais p\u00f3s-Orkut o usu\u00e1rio \u00e9 passivo, sua capacidade de controlar o que v\u00ea e de difundir o que produz \u00e9 muito limitada. Talvez somente no [Vkontakte](http:\/\/www.vk.com) um pouco disso esteja preservador, mas ainda \u00e9 dif\u00edcil dizer porque quase ningu\u00e9m que importa est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>A parte do Orkut que sempre foi preocupante, mas que a gente nunca pensava em denunciar, envolve mudan\u00e7as sutis para pior.<\/p>\n<p>1. As pessoas deixaram de se preocupar com o &#8220;site&#8221;, pois a porta de entrada passou a ser a rede social. J\u00e1 nos prim\u00f3rdios do Orkut se percebia que as pessoas n\u00e3o mais se lembravam de seus *links* favoritos, mas coletavam as informa\u00e7\u00f5es de uma maneira descontrada na pr\u00f3pria rede. O Orkut substitu\u00eda a navega\u00e7\u00e3o. As pessoas selecionavam um conjunto de comunidades a seu gosto e experimentavam somente o que estas comunidades filtravam, atrav\u00e9s de seus membros atuantes e de seus moderadores.<\/p>\n<p>2. A produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado passou a ocorrer dentro da pr\u00f3pria rede, de forma isolada em rela\u00e7\u00e3o aos endere\u00e7os externos (a &#8220;blogosfera&#8221;, por exemplo, come\u00e7ou a perder espa\u00e7o). Uma das primeiras v\u00edtimas foram os f\u00f3runs de debates, que em pouco tempo ficaram \u00e0s moscas e hoje est\u00e3o francamente a caminho da extin\u00e7\u00e3o. Esta mudan\u00e7a foi um passo natural, se pensarmos que havia uma diferen\u00e7a sutil de qualidade de conte\u00fado entre postar a hiperliga\u00e7\u00e3o para um conte\u00fado invis\u00edvel ou copiar o conte\u00fado no t\u00f3pico. O *link* logo se tornou um mero detalhe, uma defer\u00eancia, uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, para agradecer ao criador do conte\u00fado origin\u00e1rio. Mas tudo isso significa que se tornou sup\u00e9rfluo e logo o pr\u00f3prio Orkut come\u00e7a a ter conte\u00fado que n\u00e3o vinha de fora, mas que ali mesmo anscia.<\/p>\n<p>3. O isolamento do resto da internet concentrou o poder de influ\u00eancia e tornou os sites dependentes das migalhas de conte\u00fados origin\u00e1rios de &#8220;dentro&#8221; do cercadinho das redes sociais. Pesquisas mostram que, atualmente, menos de 1% do tr\u00e1fego de um blog \u00e9 referido por redes sociais (todas elas, em conjunto), mas, ao mesmo tempo, sem, participar de uma rede social os sites e blogs n\u00e3o t\u00eam visibilidade e n\u00e3o atraem visitantes. No caso do Orkut o poder de isolamento ainda era relativo porque a maioria dos internautas tinha pr\u00f3ximo o costume de ainda buscar suas refer\u00eancias externas. Mas este processo se completou atualmente, e j\u00e1 havia quem falasse em [morte da blogosfera](http:\/\/scienceblogs.com\/principles\/2008\/11\/10\/imminent-death-of-the-blogosph\/) desde 2008. <\/p>\n<p>4. Isto obrigou a m\u00eddia tradicional e at\u00e9 os sites independentes a criarem perfis nas redes sociais, acelerando a migra\u00e7\u00e3o do processo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado para dentro do controle de umas poucas empresas. Ent\u00e3o o florescimento da rede social significa o surgimento de um tipo de oligop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o, com a maior parte do conte\u00fado sendo produzido e distribu\u00eddo atrav\u00e9s de um poucos *players* do mercado (atualmente Facebook, Twitter e Google+). Os governos logo perceberam a utilidade destas redes e passaram a utiliz\u00e1-las como meio de coleta e organiza\u00e7\u00e3o de dados sobre seus cidad\u00e3os, em alguns cados chegando \u00e0s raias da espionagem. As revela\u00e7\u00f5es feitas por Edward Snowden sobre o [acesso irrestrito](http:\/\/www.theguardian.com\/world\/2013\/jun\/06\/us-tech-giants-nsa-data) que a NSA tinha \u00e0 redes sociais ajudaram a cimentar a ideia de que toda liberdade existente nelas \u00e9 cuidadosamente controlada e vigiada pelos olhos atentos do Grande Irm\u00e3o. Assim, a utiliza\u00e7\u00e3o de redes sociais para organizar protestos pol\u00edticos n\u00e3o deve ser vista como algo revolucin\u00e1rio, mas como um instrumento dos interesses dos governos que controlem estas redes. Faz sentido, portanto, que o governo da R\u00fassia tenha se apressado a obter o controle do Vkontakte, antes que ele &#8220;fugisse&#8221; do pa\u00eds, como j\u00e1 havia feito o Yandex.<\/p>\n<p>5. As empresas controladoras das principais redes sociais (atualmente Facebook, Twitter e Google) governam o fluxo de informa\u00e7\u00f5es segundo seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios, nem sempre claros. \u00c9 bem verdade que este fluxo n\u00e3o existiria sem as redes sociais, mas ele n\u00e3o aumenta a difus\u00e3o democr\u00e1tica de informa\u00e7\u00e3o: em vez disso dilapida outros meios de produ\u00e7\u00e3o, armazenamento e difus\u00e3o de conte\u00fado. E no fim de contas aqui estamos n\u00f3s, dependentes dos servi\u00e7os gratuitos e discricion\u00e1rios de uma empresa privada para exercermos, supostamente, nossa liberdade de express\u00e3o. Ocorre que, sendo este um servi\u00e7o provido por uma companhia comercial, \u00e9 controverso se os nossos direitos s\u00e3o t\u00e3o extensos quanto seriam se est\u00edvessemos em um servi\u00e7o p\u00fablico. N\u00e3o s\u00f3 pelos poss\u00edveis limites que os servi\u00e7os em si oferecem, mas pelas consequencias de quando estes possam ser interrompidos.<\/p>\n<p>6. E a interrup\u00e7\u00e3o se torna o grande problema. Ela pode ser um ato discricion\u00e1rio e violento, como quando S\u00e9rgio Sinki me expulsou da &#8220;Novos Escritores do Brasil&#8221; deletando em um apertar de bot\u00e3o todas as minhas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0quela comunidade, ou como quando o Facebook desativa perfis ou remove conte\u00fados por &#8220;viola\u00e7\u00f5es&#8221; de suas &#8220;regras de comunidade&#8221;, ou pode ser algo mais escatol\u00f3gico e sutil, como quando a empresa decide mudar o tipo de servi\u00e7o ou acabar com ele. Em ambos os casos, as letras el\u00e9tricas se desmancham no ar e toda uma fase da vida de um cidad\u00e3o \u00e9 destinada ao [buraco da mem\u00f3ria](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Memory_hole).<\/p>\n<p>Enquanto hoje lamentamos o desaparecimento do Orkut, mas n\u00e3o de todos os seus fluidos e miasmas, convido voc\u00ea, amigo leitor, orkuteiro ou n\u00e3o, a se perguntar que tipo de restos poder\u00e3o ser estudados pelos historiadores do futuro quando tentarem compreender a nossa cultura. Cada vez mais a informa\u00e7\u00e3o se desloca da celulose para o sil\u00edcio, da tinta para a eletricidade. Isso quer dizer que a informa\u00e7\u00e3o com que lidamos se tornou imensamente prec\u00e1ria e, quando a transi\u00e7\u00e3o estiver completa, se ocorrrer uma falha universal da tecnologia subjacente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao armazenamento desse conte\u00fado, corremos o risco de sermos subitamente arremessados de volta \u00e0 Idade M\u00e9dia num piscar de olhos.<\/p>\n<p>Cazuza estava certo, esse \u00e9 um futuro perigoso, de grana e de dor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> O teu futuro \u00e9 duvidoso > Eu vejo grana, eu vejo dor > No para\u00edso perigoso > Que a palma da tua m\u00e3o mostrou. > &#8212; Cazuza (&#8220;Bete Balan\u00e7o&#8221;) Setembro de 2014 marca o fim de um momento na hist\u00f3ria da internet, e da cultura pop como um todo: desaparece o Orkut, a primeira das redes sociais a ganhar tra\u00e7\u00e3o e estabelecer padr\u00f5es de comportamento on-line. 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