{"id":191,"date":"2011-11-17T21:29:00","date_gmt":"2011-11-18T00:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=191"},"modified":"2017-11-02T14:09:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:03","slug":"o-caminho-das-pedras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/o-caminho-das-pedras\/","title":{"rendered":"O Caminho das Pedras"},"content":{"rendered":"<p>No feriado sa\u00ed para uma caminhada em companhia de mim mesmo e, como eu sempre fa\u00e7o nessas ocasi\u00f5es, desfrutei de uma animada prosa que ningu\u00e9m ouviu e cujo registro inicial, ali\u00e1s, se perdeu gra\u00e7as aos des\u00edgnios arcanos dos arcanjos que regem a literatura. Hoje, aqui mais tranquilo, apesar de ainda sofrendo a perda daquelas palavras apagadas para sempre, sofrendo o aborto daquele texto como o de um filho aos oito meses e meio, relembro vagamente os racioc\u00ednios que me passaram pela mente.<\/p>\n<p>Escrevia eu, antes de ser t\u00e3o bruscamente interrompido pelo destino, que no dia me sentira t\u00e3o \u00e0 vontade para falar de poesia que at\u00e9 mesmo tivera ideias sobre isso. Ideias causadas pela sensa\u00e7\u00e3o de conversar com o meu alter ego, cuidadosamente sem mover os l\u00e1bios, para que as pessoas em volta n\u00e3o pensassem que, afinal, eu era mesmo louco como se diz que os poetas s\u00e3o.<\/p>\n<p>Era como estar numa roda liter\u00e1ria, dizendo todas estas coisas vazias e sem sentido que os intelectuais dizem quando n\u00e3o est\u00e3o ocupados pronunciando os nomes de outros intelectuais estrangeiros ou dizendo como o mundo antigamente era melhor. Antigamente os intelectuais n\u00e3o eram t\u00e3o metidos a bestas, como se pode ver nas obras de Foucault, Kierkgaard e R\u00edmsky-Korsakov.<\/p>\n<p>O meu interlocutor era poeta, ou assim se dizia.<a href=\"#1\"><sup>1<\/sup><\/a> Estava falando sobre simplicidades muito complicadas que me faziam a cabe\u00e7a doer e eu me sentia meio alheio \u00e0quele ninho t\u00e3o culto, eu que bebi leite de vaca quando menino e sei qual \u00e9 o cheiro que tem o capim gordura. Olhei em volta de mim mesmo, imaginariamente, vi a multid\u00e3o de gente e de carros transformar-se na plateia classuda, mas rala, de um evento cheio de grife, e tive medo de n\u00e3o saber o que dizer. A minha sorte \u00e9 que toda vez que o desconforto piorava eu abria os olhos, apertava o passo, suava mais e me confortava estar tentando atingir o quinto quil\u00f4metro, jogando as pernas em um forte passo lipol\u00edtico.<\/p>\n<p>Quando meu deram a vez de falar eu j\u00e1 estava mais calmo e gentilmente pedi desculpas a todos por n\u00e3o mais fazer poesia. Contei que havia um vizinho nosso, nos meus tempos de inf\u00e2ncia na ro\u00e7a, que zombava de sua lustrosa careca e de seu peito preto de pelagem alta dizendo que na vida dera o azar de crescer demais e passar do cabelo. Ele n\u00e3o era t\u00e3o alto, mas sempre completava dizendo que na sua fam\u00edlia o cabelo tamb\u00e9m n\u00e3o era.  E tendo arrancado alguns risos complacentes com esta hist\u00f3ria, contei-lhes que cresci demais e passei da poesia. Vinda de mim a frase soou pretensiosa, pois eu cresci at\u00e9 um metro e noventa, mas os poetas devem ter gostado, pois ficou impl\u00edcito que a poesia n\u00e3o est\u00e1 ao alcance do cocuruto de qualquer um.<\/p>\n<p>Mas sempre que um ser folcl\u00f3rico, como este ogro que aqui escreve, tem  a chance de dizer alguma coisa, os presentes, mesmo que imagin\u00e1rios, se sentem \u00e0 vontade para rir, pois ogros sempre s\u00e3o engra\u00e7ados, em  seu exotismo t\u00e3o complacente e adequado. Tudo aquilo que eu dissera  aos meus interlocutores inexistentes eu j\u00e1 dissera outras vezes, para diversos ouvidos atentos, mas as frases espeda\u00e7adas ao longo da vida,  quando reunidas com uma pretensa coer\u00eancia resultaram num atestado autenticado de \u00f3bito da poesia, da minha pelo menos.<\/p>\n<p>Mas me perguntou ent\u00e3o o meu alter ego se eu n\u00e3o poderia dar \u00e0 plateia que eu n\u00e3o via, ou que n\u00e3o havia, o prazer de explicar como eu tivera a infelicidade, ou a felicidade, dependendo de quem diga, de ter crescido demais e ultrapassado a poesia. Lembro-me de ter, ent\u00e3o, dito alguma coisa mais ou menos assim.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando come\u00e7ou, eu tinha dezoito anos. Tinha tamb\u00e9m nenhum plano, do\u00eda na alma uma coisa que eu bem sabia o que, mas que poeticamente n\u00e3o conv\u00e9m dar um nome. Ent\u00e3o, expulso da realidade, achei meu conforto no amor perfeito, o de uma morta, e escrevi-lhe trinta e nove versos cortantes que, se n\u00e3o eram afiados no romantismo, pelo menos continham l\u00e1grimas suficientes para lavar deles a tinta nova do s\u00e9culo vinte e faz\u00ea-los parecidos com desbotados faqueiros de museu. Quando eu terminei estava quase chorando, todos os meus poemas tinham esse calor que s\u00f3 se tem quando ainda \u00e9 cedo. Eram versos dispens\u00e1veis e melados, do tipo que nem a minha m\u00e3e leria, mas eu n\u00e3o tinha escrito uma Il\u00edada, apenas confessara meus pecados ao papel e para mim aqueles rabiscos tinham mais valor do que o <em>Para\u00edso Perdido<\/em>.<\/p>\n<p>O poeta estremeceu-se ao me ouvir dizer um n\u00famero t\u00e3o grande. &#8220;Trinta e nove&#8221;, quase uma blasf\u00eamia. Imagino que se eu estivesse em um debate de verdade haveria alguns vates que recuariam os seus troncos, pasmos, como eu exalasse uma pestil\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Trinta e nove versos! Eis a\u00ed um exagero! N\u00e3o me admira que lhe tenha morrido a poesia. Voc\u00ea a afogou em uma torrente de vocabul\u00e1rio, como um padre que afoga a crian\u00e7a em um lago no dia do batizado, em vez de apenas molhar-lhe a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Tive de explicar ao poeta que eu creio noutra poesia. H\u00e1 muitos poetas que pretendem um poema v\u00e1cuo, brev\u00edssimo, relampejado. Eu por\u00e9m, prefiro que seja intenso (mesmo que precise ser extenso) e sem nenhum pejo de uma voz que grite o que penso. N\u00e3o deixo flor branco nas minhas paisagens, para que os leitores usem seus l\u00e1pis de cores. Que o leitor recubra com sua tinta a cor que escolhi, gerando outro matiz, que encontre ele mesmo onde enfiar a sua flor, que arranque alguma minha se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Fazer a poesia \u00e9 como sair pelo mundo a catar poedras. Eu n\u00e3o procuro poedregulhos. H\u00e1 quem aceite at\u00e9 fezes secas, sementinhas secas. Eu procuro o que nunca foi \u00famido, porque o ressecado me entristece. N\u00e3o importo de carregar um: n\u00e3o vou polir gr\u00e3ozinhos de granito para fazer um colar que ningu\u00e9m use.<\/p>\n<p>Pois nisso morreu minha poesia. N\u00e3o morreu quando escrevi meus trinta e nove versos de amor \u00e0 minha amada morta, mas quando terminei de lapidar a obra que lhe dedicava. Eu comecei com uma poedra generosa e tanto martelei e meditei que encontrei dentro dela, timidamente, a semente de outra poedra. E ent\u00e3o descobri, na poedrinha ali oculta desde o in\u00edcio, n\u00e3o apenas uma coisa nova, mas a coisa original, perdida, eterna, que eu sempre quisera ter dito. Os versos que achei n\u00e3o apenas eram, e s\u00e3o, o resumo do conjunto de todos os outros mas, muito mais importante do que isto, s\u00e3o a express\u00e3o exata de tudo.<a href=\"#2\"><sup>2<\/sup><\/a> Foi t\u00e3o chocante a experi\u00eancia disso que eu n\u00e3o tenho mais escrito  nenhuma poesia desde o dia em que me acertou aquela poedra.<\/p>\n<p>Meu interlocutor imagin\u00e1rio ficou t\u00e3o surpreso quanto eu, exatamente tanto quanto eu. Porque de fato, naquele instante de um feriado c\u00edvico que eu nem tenho raz\u00e3o para comemorar, enquanto eu suava penosas calorias numa manh\u00e3 que prometia chuva, eu descobri uma coisa que eu n\u00e3o sabia. At\u00e9 segunda feira eu sabia que n\u00e3o escrevia poesia. Desde ter\u00e7a feira eu sei porque.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que, instintivamente, eu n\u00e3o tenho guardada em gaveta alguma a vers\u00e3o colhida, a vers\u00e3o comprida, a vers\u00e3o cheia, a vers\u00e3o original destes trinta e nove versos. Mas tenho duas vers\u00f5es mais completas, verdadeiramente poedras:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Minha morte, tua morte <br \/>Outras que vir\u00e3o. <br \/>O p\u00e1ssaro morre <br \/>Apesar da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E uma vers\u00e3o ainda mais completa:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O p\u00e1ssaro morre <br \/>Apesar da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando dei-me conta do processo inteiro, que tardou para extrair uma poedra de uma massa disforme de versos, morri com a minha poesia. N\u00e3o havia como continuar tentando, ou estaria fadado a produzir um livreto de quarenta e nove p\u00e1ginas \u2014 e ele talvez fosse mais relevante do que os outros que ainda poderei escrever. Hoje prefiro usar o meu talento para erguer frases mais cheias. Gosto de poluir o mundo com muitas palavras, cresci demais, passei da poesia.<\/p>\n<div>\n<p><a name=\"1\"><\/a><sup>1<\/sup> Dizemos que s\u00e3o poetas os escritores quando eles se ocupam em fazer livros fininhos, sem um assunto definido, muitas vezes tipograficamente compostos de uma forma estranha, cheios de desvios propositais de ortografia (que s\u00e3o sempre bons para fazer com que os involunt\u00e1rios se percam no meio) e com pref\u00e1cios, dedicat\u00f3rias, sum\u00e1rios e biografias que, juntos, perfazem mais palavras que todo o conte\u00fado.<\/p>\n<p><a name=\"2\"><\/a><sup>2<\/sup> Eu devo dizer que n\u00e3o acredito em resumos tanto quanto n\u00e3o acredito em beijos breves, em pequenas doses, em &#8220;rapidinhas&#8221; ou em livros que n\u00e3o parem de p\u00e9 na estante.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No feriado sa\u00ed para uma caminhada em companhia de mim mesmo e, como eu sempre fa\u00e7o nessas ocasi\u00f5es, desfrutei de uma animada prosa que ningu\u00e9m ouviu e cujo registro inicial, ali\u00e1s, se perdeu gra\u00e7as aos des\u00edgnios arcanos dos arcanjos que regem a literatura. 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