{"id":1928,"date":"2014-10-05T21:00:48","date_gmt":"2014-10-06T00:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1928"},"modified":"2017-08-13T00:21:22","modified_gmt":"2017-08-13T03:21:22","slug":"o-ano-do-gato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/10\/o-ano-do-gato\/","title":{"rendered":"O Ano do Gato"},"content":{"rendered":"<p>> Minha \u00faltima participa\u00e7\u00e3o no desafio EntreContos (aqui repostado com algumas corre\u00e7\u00f5es de erros percebidos ap\u00f3s a inscri\u00e7\u00e3o). O tema do m\u00eas era &#8220;hist\u00f3rias baseadas em m\u00fasica&#8221; e eu o ataquei utilizando como base para um conto a letra de &#8220;Year of the Cat&#8221;, sucesso de Al Stewart em 1975. Fiz isso porque a letra, em si, j\u00e1 continha o embri\u00e3o de uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>> N\u00e3o \u00e9 um texto de que eu particularmente me orgulhe (e eu nunca o antologizarei porque tenho s\u00e9rias d\u00favidas sobre o status legal dos direitos autorais), mas ele recebeu alguns elogios surpreendentes dos leitores, embora as cr\u00edticas fossem as de sempre e as notas, idem.<\/p>\n<p>> Ao final deixo notas mais profundas sobre o contexto do conto.<\/p>\n<p>### 6<\/p>\n<p>Amanheceu no filme desbotado de um pa\u00eds ex\u00f3tico. Ca\u00eda uma chuva fina e lenta, que arrulhava como uma distante fonte e tocava os vidros da pesada janela de madeira. Abriu os olhos bem devagar, tentando fugir daquela luz difusa que ensopava o ar, notou a l\u00e2mpada deixada acesa, sentiu-se pequeno em uma cama grande e ao se virar de lado encontrou a janela entreaberta, por onde entrava o sopro fresco da manh\u00e3. Todo o ru\u00eddo da cidade parecia distante, engarrafado, amortecido.<\/p>\n<p>Estava nu em uma cama desarrumada, em um quarto de paredes r\u00fasticas, adornado de tape\u00e7aria, cujos cantos repousavam sobre colunas grossas como contrafortes de um pal\u00e1cio oriental antigo. Estava s\u00f3 e tudo se apagava em uma calmaria matinal assustadora. As gotas de chuva ainda tamborilavam na vidra\u00e7a de caixilhos, parecendo ecoar no apartamento em outro gotejar mais denso e lento. Logo n\u00e3o era mais chuva, era um outro ru\u00eddo, e a janela n\u00e3o tinha nada a ver com isso.<\/p>\n<p>Seus primeiros pensamentos detestaram a ideia de estar ali. Amargava a boca com o gosto de bebida barata ou de outra coisa e aquela brisa pincelada lhe trazia uma sensa\u00e7\u00e3o, ou um receio, de suave desespero.<\/p>\n<p>Continuou deitado e sem coragem de escorregar para fora dos len\u00e7\u00f3is. A manh\u00e3 cresceu devagar, ralentando a chuva e trazendo um burburinho de gente que passava em outras l\u00ednguas pelas cal\u00e7adas, gente que n\u00e3o parecia existir\u2026 Tudo aquilo remetia a uma ressaca que a boca seca n\u00e3o deixava mentir\u2026 Levantou o bra\u00e7o em busca do rel\u00f3gio, mas ele n\u00e3o estava l\u00e1. Foi s\u00f3 ent\u00e3o que se deu conta de que estava realmente s\u00f3 e indefeso, metido naquele lugar alheio como um bichano preso num apartamento.<\/p>\n<p>Seu primeiro instinto, ent\u00e3o, foi o de precaver-se e fugir. Levantou-se desastrado, procurando as roupas, trope\u00e7ou nos len\u00e7\u00f3is e caiu pelo ch\u00e3o. Por fim achou roupa, rel\u00f3gio, carteira e tudo o mais que pensava que teriam roubado. Retomou o autocontrole proverbial de seus antepassados, abotoou a gola da camisa, passou o rapidamente um pente no cabelo, amarrou os sapatos e deu o primeiro passo para fora do quarto. Ao sair, deparou-se com o calend\u00e1rio pendente da parede. Tinha doze meses, como deve ser, mas os nomes estavam em uma l\u00edngua estranha e se distribu\u00edam em torno da figura estilizada de um gato antropom\u00f3rfico, em tra\u00e7os e trajes orientais.<\/p>\n<p>Viu tamb\u00e9m o rel\u00f3gio: &#8220;Nove horas. Deus, t\u00e3o tarde!&#8221;<\/p>\n<p>### 1<\/p>\n<p>O \u00f4nibus invadiu na cidade sem pedir licen\u00e7a, como um h\u00f3spede que j\u00e1 se acostumou com a casa e busca o pr\u00f3prio ch\u00e1. A crian\u00e7ada corria em volta em permanente algazarra e a multid\u00e3o se afastava como as \u00e1guas do Mar Vermelho diante da buzina. Para a maioria dos transeuntes era s\u00f3 mais uma tarde de inc\u00f4modo: logo os estranhos iam embora e a vida continuava.<\/p>\n<p>Havia uma pracinha elegante no fim da rua. O \u00f4nibus estacionou nela, os turistas desceram fotografando as fachadas antigas, cobertas pela poeira de muitos invernos. Cinco tamareiras emolduravam o cen\u00e1rio, e logo foram convertidas em fundo para auto-retratos trocados. A pra\u00e7a tamb\u00e9m tinha canteiros onde haviam plantado laranjeiras mirradas que resistiam bravamente ao clima, embora dessem frutas amargas.<\/p>\n<p>Os turistas desceram ressabiados, curiosos de estarem em um pa\u00eds que parecia contar o tempo para tr\u00e1s e onde tudo se parecia tanto com um filme antigo que Humphrey Bogart poderia sair de um bar envergando o sobretudo c\u00e1qui, acender o cigarro entre as m\u00e3os, numa despedida sem l\u00e1grimas, depois tomar o rumo do aeroporto em busca da guerra. Ou se poderia ver 007 derrapar o Aston Martin numa esquina, fugindo para a Am\u00e9rica com segredos russos.<\/p>\n<p>Em vez disso, o que havia eram s\u00f3 crian\u00e7as ruidosas, gente vivendo a vida leve e lenta \u00e0 sombra das tamareiras e dos toldos coloridos que sombreavam as casas. Aquela gente tinha a manha de viver em cores, o turista tirava fotos de tantos sorrisos, mas n\u00e3o entendia. A alegria clara, essa ningu\u00e9m estuda.<\/p>\n<p>Logo que se viu na Plaza, pedro percebeu alguma coisa diferente, que poderia ser o cheiro de laranjas, a maresia do mar n\u00e3o t\u00e3o distante, ou algum outro cheiro trancado na mem\u00f3ria. Aventurou-se um pouco at\u00e9 a esquina, procurando alguma coisa no ar, sem saber o que era. Tinha a vaga impress\u00e3o de estar refazendo passos que pisara um dia, e todo aquele burburinho evocava um dia esquecido. At\u00e9 a l\u00edngua, rascante e sonora, soava conhecida, uma cantiga de ninar ou barcarola ouvida em uma outra vida.<\/p>\n<p>&#8220;Mas que bruxaria \u00e9 esta?&#8221;<\/p>\n<p>Naquele momento ainda n\u00e3o se chamava Pedro, ou n\u00e3o sabia disso. Tudo ainda tinha os nomes certos e ele nem sonhava entender todas aquelas sensa\u00e7\u00f5es: provavelmente s\u00f3 o fasc\u00ednio da primeira vez nas terras do meio-dia. Assustava-se, claro, com a sensa\u00e7\u00e3o de quem reconstitui um crime e com a for\u00e7a de cada nova cor ou forma, cada qual criando seu &#8220;dej\u00e0 vu&#8221;, mas repetia racionalmente para si que tudo era apenas uma falha de sua mente em processar tantos dados novos num instante.<\/p>\n<p>Entrou em um bar de duas portas. Atr\u00e1s de um balc\u00e3o de madeira negra e diante de prateleiras de bebida que subiam at\u00e9 o teto achava-se um comerciante gordo, com uma boina escura na cabe\u00e7a e um largo bigode. Pelo menos os pre\u00e7os eram baratos. Tirou do bolso uma nota amassada, entregou ao bigodudo e lhe apontou o an\u00fancio de cerveja irlandesa na parede direita. O pobre cartaz estava desbotado e gasto, parecia ter uns vinte anos de parede. O homem despejou-lhe em cima o que pareceu um engarrafamento de vogais e estalos de l\u00edngua e n\u00e3o deu ind\u00edcio de que fosse se mexer. Com esfor\u00e7o, Pedro pronunciou &#8220;cerveza&#8221; entre os dentes e aparentemente se fez entender. Ao menos foi o que o sorriso largo e desdentado lhe sugeriu.<\/p>\n<p>\u2014 Una cerveza cualquiera \u2014 disse.<\/p>\n<p>O bigodudo curvou-se sobre um refrigerador horizontal e extraiu dele uma lata verde-escura contendo uma pinta de cerveja preta.<\/p>\n<p>\u2014 Son tres.<\/p>\n<p>Acrescentou mais uma nota \u00e0s duas que j\u00e1 repousavam no balc\u00e3o e logo rompeu o lacre da lata, deliciosamente envolta em uma geada graciosa que prometia prazer.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos esquecer as bruxarias. Um brinde \u00e0 velha Inglaterra!&#8221;<\/p>\n<p>Virou a lata de cerveja de uma vez, algo f\u00e1cil que o costume ensina. O l\u00edquido gelado j\u00e1 lhe deu uma alegria instant\u00e2nea, antes at\u00e9 que o \u00e1lcool surtisse algum efeito. Logo via o sol mais limpo, lembrou sem saudade da lareira crepitando no inverno e quis que o mundo acabasse numa praia, entre ton\u00e9is de stout ale e peixe frito.<\/p>\n<p>### 2<\/p>\n<p>Ela ent\u00e3o apareceu. N\u00e3o como quem emerge da multid\u00e3o, e sim como uma figura que nasce do pincel veloz de um estudante. Apareceu como quem subitamente est\u00e1 onde nada havia, ou como quem reduz a nada tudo que houvera antes. Ela navegava pelas sombras sob os toldos segurando as dobras de um vestido branco contemplado com formas floridas e quando atravessava os raios do sol parecia aben\u00e7oada por uma aura delicada, branca e leve como um v\u00e9u de cascata. A sua pele tinha a limpidez de uma est\u00e1tua e o seu cabelo dan\u00e7ava em torno de sua cabe\u00e7a, com luzes azuis retintas.<\/p>\n<p>Ela dominava as sombras e refulgia ao sol, dona do claro e do escuro naquela manh\u00e3. O sol, o ch\u00e3o, o mundo, a pra\u00e7a\u2026 Tudo parecia parte de uma vinheta em aquarela derramada sobre um papel em branco, e n\u00e3o um acontecimento. Quando ela se moveu, foi como o escorrer de tinta, que borra a imagem porque o desastroso artista deixou \u00e1gua demais no pincel. Teria sido bastante belo se n\u00e3o se mexesse nunca, se ficasse para sempre im\u00f3vel naquela inocente beleza, de seda e sol\u2026 Mas ela n\u00e3o sa\u00edra \u00e0 rua para deleitar os olhos de Pedro, mas para comprar os legumes do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>### 3<\/p>\n<p>Um amigo o interrompeu: estavam perdendo a visita a alguma catedral. Saiu ao sol apertando os olhos e seguiu a voz familiar. A cabe\u00e7a lhe ardia, e o ambiente cavernoso por dentro do templo medieval ofereceu conforto provis\u00f3rio para a catacumba dos seus sonhos. Era melhor que relaxasse, esquecesse as impress\u00f5es e terminar o passeio intacto. Na vida h\u00e1 mesmo esses momentos indecisos em que balan\u00e7amos ao sabor do vento. Ter car\u00e1ter \u00e9 resistir a isso.<\/p>\n<p>Dentro do calabou\u00e7o sagrado, vazado de pequenas e in\u00fateis janelas, a sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o o abandonou. A guia pronunciava as indica\u00e7\u00f5es usando um sotaque macarr\u00f4nico, que n\u00e3o ajudava a esquecer o estranhamento que sentira na &#8220;plaza&#8221;. Faziam um percurso circular em torno das paredes e dos nichos de onde as horrendas imagens, desbotadas e atulhadas de adornos pesados, contemplavam-nos com fisionomias duras. Apenas reis e fantasmas sagrados habitavam aquelas reentr\u00e2ncias escuras, era at\u00e9 dif\u00edcil imaginar que um povo t\u00e3o colorido comparecesse a tal igreja, em luminosas manh\u00e3s de domingo, para adorar tais cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Pedro examinou a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, esquecida sobre o peito, mas a megera que os guiava percebeu o movimento de seus dedos e o atalhou, com a sua voz irritantemente cantada. No se permiten fotos, se\u00f1or. N\u00e3o? Que horr\u00edvel a ideia de levar de lembran\u00e7a os feios postais que vendiam na entrada!<\/p>\n<p>Por fim, enfadou-se de ver alturas escuras, vitrais escurecidos e as faces rijas dos reis e dos santos, com suas barbas de peruca e olhos de vidro. Estavam todos mortos, nenhum deles notaria sua aus\u00eancia no arremedo de prociss\u00e3o que faziam em torno daquele mausol\u00e9u feioso.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso de ar.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 passando bem, Pete?<\/p>\n<p>\u2014 Estou, estou, deve ser alguma coisa na \u00e1gua ou um tipo de alergia. Ou talvez seja s\u00f3 a chatice desse lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Espere-nos no adro. N\u00e3o devemos demorar.<\/p>\n<p>Sair daquele sepulcro de almas at\u00e9 pareceu um renascimento. Respirou fundo quando pisou os degraus e viu o ver\u00e3o queimar deliciosamente a pra\u00e7a. Outra aquarela toda colorida passou sorrindo, mas n\u00e3o aquela, e nenhuma outra servia.<\/p>\n<p>A luz lhe irritou novamente os olhos, a pele formigou com os raios e o suor come\u00e7ou a se formar na testa. Mesmo assim saiu da sombra onde se sentira seguro e come\u00e7ou a imaginar por onde fora sua musa. Todas as cores de seu vestido ainda estavam marcadas com um odor antigo na mem\u00f3ria, as formas dela apareciam como um sabor de frutas na pele, a impress\u00e3o de seu cheiro lhe causava cores nas ideias.<\/p>\n<p>Entrou no meio da multid\u00e3o, pedindo licen\u00e7as cheias de sotaque. Pela rua esquerda ao lado de uma fileira de laranjeiras. O cheiro forte e cor escura das folhas lhe pareciam algo de outro mundo. Catou uma no caminho e come\u00e7ou a descascar enquanto andava. N\u00e3o a chuparia porque o suco amargo lhe estragaria a boca para o almo\u00e7o, mas s\u00f3 o odor da casca j\u00e1 lhe ati\u00e7ava o olfato, ajudava a ter a impress\u00e3o de que tudo era verdade, e n\u00e3o um sonho depois de ler uma revista de viagens.<\/p>\n<p>### 4<\/p>\n<p>Foi por acaso, talvez perversidade do destino, que conseguiu rev\u00ea-la saindo de uma peixaria, trazendo uma sacola de mariscos e um sorriso de cinema italiano. Apertando o passo para ombrear com ela, passou a imaginar o que dizer. Era uma loucura o que pretendia, e n\u00e3o o teria feito se fosse outro dia, mas aquele sol estrangeiro e aquele sal na brisa marinha lhe afetavam de um jeito oposto ao de Mersault\u2026<\/p>\n<p>Aproximou-se dela cauteloso, como um elefante numa loja de cristais: trope\u00e7ando na cal\u00e7ada e trombando nos transeuntes. A custo conseguiu t\u00ea-la ao alcance do bra\u00e7o, tentou toc\u00e1-la para chamar sua aten\u00e7\u00e3o de qualquer jeito. N\u00e3o soube se conseguira, pois eram tantos corpos num espa\u00e7o estrito que o bra\u00e7o ro\u00e7ado entre seus dedos poderia ser outro qualquer. Mas ela sentiu algo, talvez pelo sexto sentido feminino, e se voltou assustada, segurando a bolsa contra o peito e fechando-lhe o sorriso. Despejou um destampat\u00f3rio de palavras, voc\u00e1licas e cheias de agressividade. Pedro s\u00f3 ergueu os bra\u00e7os, como quem se desculpa, com as palavras ardendo nas orelhas como uma reprimenda de m\u00e3e.<\/p>\n<p>A l\u00edngua lhe saltou \u00e0 mente com um sabor meridional e conhecido, com a impress\u00e3o de uma m\u00edstica antiga. De repente deu-se conta de saber, ou achar saber, algumas palavras, mem\u00f3rias instintivas que brotavam, incertas, tal impress\u00f5es de outra encarna\u00e7\u00e3o em outro s\u00e9culo, e logo apareceram em sua pr\u00f3pria l\u00edngua palavras parecidas. Usou-as logo em autodefesa, mantendo as m\u00e3os \u00e0 frente do rosto, como quem se protege do sol. A mulher parou de gritar. Pedro abriu os olhos e a viu, toda im\u00f3vel, com o cenho franzido e a boca entreaberta. Um segundo depois ela j\u00e1 lhe dizia alguma outra coisa, agora devagar e polindo na boca cada palavra, de um jeito que ningu\u00e9m de verdade fala. As impress\u00f5es de Pedro pareceram ainda mais fortes. A mulher ergueu os dois bra\u00e7os e sorriu, deixando aparecer um dente torto, que n\u00e3o prejudicava nada sua beleza.<\/p>\n<p>\u2014 \u00a1Qu\u00e9 guay! \u00bfMe entiendes? \u00bfQu\u00e9 quieres?<\/p>\n<p>A surpresa dela era t\u00e3o grande quanto a sua. Mas Pedro acreditou nos poderes do sorriso e a saudou de volta com um seu, enquanto repetia, em movimentos lentos, algum gesto amplo que deveria ser amistoso. Os olhos dela seguiram as palmas de suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 \u00bfC\u00f3mo te llamas, cari\u00f1o?<\/p>\n<p>Era Pedro. Definitivamente Pedro. Nunca se sentira t\u00e3o Pedro na vida e nem t\u00e3o certo de que o mundo era mesmo um lugar estranho. Ou era o seu pa\u00eds?<\/p>\n<p>Por fim a mulher soltou os bra\u00e7os, num gesto de desapego, parecendo, enfim, descrer de qualquer amea\u00e7a. N\u00e3o foi preciso ci\u00eancia e nem uma poesia para que ela sentisse que ele estava confuso e apaixonado. Na verdade ela o sentiu antes que ele tivesse certeza. Bandeira branca, ele se rendeu quando ela lhe estendeu um bra\u00e7o e o puxou por entre a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando viraram a primeira esquina ela a puxou. Ela permitiu. Ficaram face a face pela primeira vez e ele tentou falar de novo, hesitante, duro. Ela despejou um derramamento de vers\u00edculos de antigas odes, de voc\u00e1bulos extra\u00eddos de odres de vinho e frases vibradas em cordas de ala\u00fades. Pedro n\u00e3o entendia tudo, mas sentia o pulso da beleza que a voz dela desprendia, perfumando a rua, o mundo, o momento todo, para calar qualquer outro odor, como o de mariscos. Quando tentou dizer o que sentia, ela levou o dedo ao l\u00e1bio, trouxe o seu corpo para ainda mais perto, fazendo-o sentir nas carnes que estava seguro, e era bom estar vivo.<\/p>\n<p>\u2014 No te enfades. D\u00e9jate libre, oye! Estamos en el a\u00f1o del gato. Nada de malo o bueno pude hacernos sufrir.<\/p>\n<p>Nada de mau ou bom. Nada de s\u00e9rio. Ofereceu-lhe um bra\u00e7o, ela acatou o convite. Pegou a bolsa de compras, apesar do asco do odor marinho, e a seguiu pela cidade torta, pelas ruas curvas, pelas vielas que se enredavam e partiam como as veias de um labirinto. Foi com ela ate o sentido de orienta\u00e7\u00e3o desistir. E que boa a sensa\u00e7\u00e3o de se perder. A vida era bela, e estavam no ano do gato, ora que coisa!<\/p>\n<p>### 5<\/p>\n<p>No fim de uma rua de casas antigas, de paredes azulejadas e telhados vermelhos, perdida entre mercados e feiras, havia uma porta estreita que se abriu como por m\u00e1gica. Dentro havia uma escurid\u00e3o doce com um perfume de madeira do oriente. Pedro abra\u00e7ou o escuro em um mergulho cego no oceano, sabendo que havia perigo, mas tamb\u00e9m a del\u00edcia. Deus ao Mar o Perigo e o Abismo deu, mas nele que espelhou o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Ela voltou a falar. Dizia algo sobre mandalas e vidas, que desistira de planejamentos incessantes e que a vida era um rio fluido, que vai em frente entre as pedras e os montes, e que coisa boa era se deixar levar. Ent\u00e3o Pedro sentiu no corpo um calor antigo e fechou os olhos para n\u00e3o ter nenhum controle ao penetrar, por fim, pela porta aberta de um del\u00edrio, pela manh\u00e3 do dia primeiro do ano do gato.<\/p>\n<p>\u2014 \u00bfEn qu\u00e9 a\u00f1o naciste, cari\u00f1o?<\/p>\n<p>Pedro pensou um pouco. J\u00e1 quase n\u00e3o sabia. &#8220;1987&#8221;. Ela entendeu? Deu para ver que sim. Ela levou as m\u00e3os ao rosto, gesto de quase crian\u00e7a surpresa, e disse que era estranho, que ele nascera, como ela, em um ano do gato.<\/p>\n<p>\u2014 E isso \u00e9 bom?<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o disse que sim e nem que n\u00e3o. N\u00e3o existe bem ou mal, existe a vida, lenta ou l\u00e9pida, e alguns seguem o ritmo do gato.<\/p>\n<p>Ela lhe pediu licen\u00e7a, foi para a cozinha. Provavelmente usaria para uma &#8220;paella&#8221; todos aqueles mariscos e outras coisas que comprara. Na sala, Pedro se sentiu perdido entre imensas prateleiras de madeira e almofadas coloridas. As janelas estavam cerradas por cortinas densas de tecidos bordados com figuras e padr\u00f5es complexos, o ch\u00e3o era todo coberto de tapetes grossos, t\u00e3o bonitos que teve pena de pisar neles com os p\u00e9s que trouxera da rua. Tirou os sapatos junto \u00e0 soleira bem antes de se aventurar numa das almofadas, onde se sentou sem jeito e fechou os olhos. O apartamento tinha um cheiro forte de incenso e de patchuli e cada sombra deitada pelas cortinas e paredes era habitada por um luzir m\u00edstico de cristais.<\/p>\n<p>Logo ela voltou, vestindo um avental longo a ocultar pouca roupa que agora usava. Ainda n\u00e3o passara a sensa\u00e7\u00e3o. O perfume do lugar tinha, talvez, o efeito de aumentar isso. As pupilas dela nadavam como duas luas novas em um entardecer nublado e ela tinha um olhar difuso como o brilho das gemas que enfeitavam as prateleiras.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 en el horno. \u00bfHas comido ya?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Nunca. Nada parecido. Ela se ajoelhou entre as almofadas. Pedro viu que trocara o vestido por uma camiseta, e s\u00f3. Abra\u00e7ou seu corpo, anoitecendo o mundo, e a abriu para ver o que havia dentro. Queria a surpresa. Era o ano do gato, nada de mau aconteceria, e nem de bom.<\/p>\n<p>### 7<\/p>\n<p>Nove horas! Que absurdo! O \u00f4nibus se fora com os turistas e ele, sem ju\u00edzo, ainda estava naquele apartamento, que \u00e0 luz do segundo dia se parecia muito com milhares de outros. A m\u00e1gica descera, s\u00f3 restava o cheiro doce de ess\u00eancias e a ard\u00eancia inferior, que ainda amarrava a sua alma. Ainda tinha a passagem em algum lugar, ou n\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o teve certeza ou escolha. Teria de ficar e se entender com a vida. Encarar a ressaca de um dia de sol e um vestido de seda.<\/p>\n<p>Mas alguma coisa dos tambores noturnos ainda restava no peito, dando um ritmo melhor \u00e0s cores mortas do dia que nascera. Seria enxaqueca, ou um resto do fasc\u00ednio que n\u00e3o morrera?<\/p>\n<p>Saiu do quarto ainda envergonhado com alguma coisa que n\u00e3o sabia bem o que poderia ser, ouviu um chiado de chuveiro e adivinhou que havia algu\u00e9m. Era ela mesma, mas algo t\u00e3o diferente do sonho parecia mudar suas cores e aromas. Talvez fosse a nudez: sem o vestido n\u00e3o tinha a luz da tarde a lhe servir. Em vez disso, parecia ter doze anos mais, de corpo e alma, mas conservava uma beleza que j\u00e1 falhava, mas ainda encantava.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora impress\u00e3o: fora mem\u00f3ria. Quando ela lhe falou, ele entendeu mesmo a l\u00edngua que fora sua, nesta mesma inf\u00e2ncia ou em outra antes. N\u00e3o a falava, mas ainda sentia. E ela chamava para partilhar da \u00e1gua da banheira, que estava &#8220;blanda y tibia.&#8221;<\/p>\n<p>No instante se sentiu menos menino, deixou cair as cal\u00e7as e arrancou de si o resto da roupa. Logo estava com ela na \u00e1gua e os dois riam a mesma gargalhada de quem est\u00e1 em casa. Ah, era isso! Ele sabia que a deixaria um dia, ou que ela em breve o faria, mas por enquanto ambos continuavam, e como queriam! Ent\u00e3o ficava mais um dia ou dois, com a passagem escondida na carteira, esperando ser usada ou perdida, como a vida preferisse. Esticou as pernas e sentiu-se flutuar com ela. As pernas dela tamb\u00e9m apareceram fora espuma, as unhas dos p\u00e9s pintadas de vermelho deram a impress\u00e3o de um ramalhete murcho atirado ao rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o estamos no ano do gato\u2026<\/p>\n<p>Ela apenas lhe sorriu, disse que o sotaque era atroz e o vocabul\u00e1rio era o de um av\u00f4. Pedro ofendeu-se disso, mas ela calou sua culpa com um beijo depois de lhe dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Nac\u00ed tambi\u00e9n en el a\u00f1o del gato.<\/p>\n<p>**********************************<\/p>\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o: &#8220;Year of the Cat&#8221; (Ano do Gato), de Al Stewart (1976).<\/p>\n<p>No hor\u00f3scopo do Vietn\u00e3 o gato \u00e9 um animal cuja personalidade se caracteriza por um misto de indol\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o. Acredita-se que os anos do gato s\u00e3o de grande tranquilidade e poucas altera\u00e7\u00f5es (m\u00e1s ou boas). Os nascidos no ano do gato s\u00e3o pessoas que se estressam pouco, que est\u00e3o dispostas a aventuras, desde que n\u00e3o envolvam grandes esfor\u00e7os, e s\u00e3o muito vol\u00faveis no amor. N\u00e3o h\u00e1 nada mais frustrante, para quem n\u00e3o compartilha a mesma personalidade, do que se envolver com um &#8220;gato&#8221;. E n\u00e3o h\u00e1 nada de mais gratificante, para quem tamb\u00e9m nasceu felino.<\/p>\n<p>O gato corresponde ao coelho do hor\u00f3scopo chin\u00eas (todo ano do gato \u00e9 tamb\u00e9m um ano do coelho no zod\u00edaco chin\u00eas). A mudan\u00e7a de animal reflete a personalidade mais pr\u00e1tica e anal\u00edtica do povo vietnamita, que n\u00e3o podia aceitar que o coelho e o rato, ambos roedores sem rivalidade na natureza, pudessem ser &#8220;opostos&#8221; no zod\u00edaco.<\/p>\n<p>Para o caso de voc\u00ea estar curioso, os \u00faltimos anos do gato foram 1963, 1975, 1987, 1999 e 2011 (ano em que se passa esta hist\u00f3ria). O pr\u00f3ximo ser\u00e1 2023. Para quem esteja curioso de saber a minha identidade, n\u00e3o, eu n\u00e3o nasci no ano do gato, mas do touro, que, ali\u00e1s, \u00e9 o mesmo signo que tenho no hor\u00f3scopo ocidental. Mas n\u00e3o acredito nisso de astrologia: taurinos como eu s\u00e3o c\u00e9ticos por natureza\u2026<\/p>\n<p>&#8220;The Year of the Cat&#8221; foi o quinto trabalho de est\u00fadio lan\u00e7ado pelo cantor escoc\u00eas Al Stewart. Produzido por Alan Parson, teve a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios membros do futuro Alan Parsons Project e \u00e9 considerado obra-prima de Stewart e um dos melhores discos produzidos por Parsons (que, para fins de compara\u00e7\u00e3o, trabalhara antes com os Beatles e o Pink Floyd). A can\u00e7\u00e3o t\u00edtulo \u00e9 a que fecha o \u00e1lbum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Minha \u00faltima participa\u00e7\u00e3o no desafio EntreContos (aqui repostado com algumas corre\u00e7\u00f5es de erros percebidos ap\u00f3s a inscri\u00e7\u00e3o). O tema do m\u00eas era &#8220;hist\u00f3rias baseadas em m\u00fasica&#8221; e eu o ataquei utilizando como base para um conto a letra de &#8220;Year of the Cat&#8221;, sucesso de Al Stewart em 1975. Fiz isso porque a letra, em si, j\u00e1 continha o embri\u00e3o de uma hist\u00f3ria. > N\u00e3o \u00e9 um texto de que eu particularmente me orgulhe (e eu nunca o antologizarei porque tenho s\u00e9rias d\u00favidas sobre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[22,109,40,148,11],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1928"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1928"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1928\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4677,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1928\/revisions\/4677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}