{"id":1942,"date":"2014-10-09T21:24:48","date_gmt":"2014-10-10T00:24:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1942"},"modified":"2017-12-12T23:17:11","modified_gmt":"2017-12-13T02:17:11","slug":"traducao-um-exemplar-de-burns-clark-ashton-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/10\/traducao-um-exemplar-de-burns-clark-ashton-smith\/","title":{"rendered":"Um Exemplar de Burns"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Original de Clark Ashton-Smith.<br \/>\nTraduzido a partir da vers\u00e3o online em <a href=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\">Eldritch Dark<\/a>.<\/div>\n<p>Andrew McGregor e seu sobrinho, John Malcolm, eram precisamente id\u00eanticos, salvo um particular. Ambos eram inconfundivelmente escoceses, de tal forma que chegavam \u00e0 caricatura: caras longas e l\u00e1bios fechados, esguios e pobres ao ponto da pen\u00faria, ambos amavam de uma forma rude o solo \u00e1spero das vizinhan\u00e7as de seus ranchos em El Dorado. A diferen\u00e7a estava em que McGregor, nativo de Ayrshire, era fantasticamente obcecado pela poesia de Burns, que citava em toda ocasi\u00e3o poss\u00edvel, fosse o verso apropriado ou n\u00e3o. Mas o jovem Malcolm, californiano de nascimento, tinha um secreto desd\u00e9m por qualquer coisa que fosse em rima ou metro, e encarava o entusiasmo liter\u00e1rio de seu tio como uma estranha falha de um car\u00e1ter que era em outros aspectos s\u00f3lido e admir\u00e1vel. Tal opini\u00e3o, por\u00e9m, sempre tivera o cuidado de esconder do velho, ainda que as suas raz\u00f5es para tanto n\u00e3o estivessem relacionadas ao respeito por um idoso ou a afei\u00e7\u00e3o por um parente.<\/p>\n<p>McGregor j\u00e1 passara bastante dos oitenta, e uma vida de labor rigoroso tinha curvado suas costas e consumido a sua vitalidade. No espa\u00e7o de uns poucos meses a sua sa\u00fade se deteriorara e ele ficou bastante fr\u00e1gil. Esperava-se que deixaria seu bem-cuidado pomar, bem como um polpudo saldo no banco em Placerville ao seu sobrinho, John Malcolm, filho de sua irm\u00e3 Elizabeth, em vez dos seus pr\u00f3prios filhos, George e Joseph, que tinham se cansado do trabalho no campo h\u00e1 muito tempo e prosperavam a seu modo em Sacramento. O jovem Malcolm certamente merecia e o rancho que lhe fora deixado por seus pais tinha um solo pior que o de McGregor e nunca lhe dava mais que uma subsist\u00eancia magra, apesar dos esfor\u00e7os de seus donos.<\/p>\n<p>Um dia McGregor mandou buscar seu sobrinho. O jovem encontrou o anci\u00e3o sentado em uma poltrona junto \u00e0 lareira, miseravelmente fraco. Seus dedos tremiam sem cessar enquanto viravam as p\u00e1ginas gastas do exemplar de Burns que segurava. Sua voz era um sussurro rouco e fino.<\/p>\n<p>\u2014 Minha hora est\u00e1 por chegar, John \u2014 ele disse \u2014 mas eu quero lhe dar um presente de minhas pr\u00f3prias m\u00e3os antes de rebentar. Toma este exemplar de Burns. Eu lhe recomendo que o manuseie com muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Malcolm, um pouco surpreso, aceitou o presente com os agradecimentos apropriados e com todas as express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade de seu tio. Levou o livro para casa e o p\u00f4s em uma prateleira que continha um almanaque, uma B\u00edblia e dois cat\u00e1logos de vendas por via postal. Depois disso esqueceu dele.<\/p>\n<p>Uma semana depois Andrew McGregor morreu. Depois de enterrado no cemit\u00e9rio de Georgetown, iniciou-se a busca por um testamento. Nunca o encontraram e, no devido tempo, seus filhos obtiveram a propriedade. Logo depois eles a venderam, n\u00e3o se importando de conserv\u00e1-la para si mesmos.<\/p>\n<p>John Malcolm engoliu seu desapontamento em um sil\u00eancio obstinado e continuou arando sua escapa rochosa de vinhas e pereiras. Consegui economizar um pouco de dinheiro, comprou um pouco mais de terra e por fim se achou em uma posi\u00e7\u00e3o de conforto um pouco mais toler\u00e1vel, que s\u00f3 podia se manter, no entando, \u00e0 custa de trabalho incessante. Casou-se e teve uma filha. Deu-lhe o nome de sua m\u00e3e, Elizabeth. Vinte anos depois, as longas horas de labuta alquebrante e o v\u00edcio da aguardente de El Dorado finalmente completaram seu trabalho. Prematuramente envelhecido antes dos cinquenta, John Malcolm agonizava. Acometido de uma pneumonia dupla, o m\u00e9dico n\u00e3o lhe deu esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A esposa e a filha de Malcolm estavam \u00e0 sua cabeceira durante sua agonia. Usualmente calado, o del\u00edrio soltara a sua l\u00edngua e ele falava por horas a fio. Principalmente ele falava do dinheiro e da propriedade que um dia sonhara em herdar do tio, e da m\u00e1goa por sua perda, misturada a ofensas ao velho. O testamento perdido estava esquecido de todos h\u00e1 muito tempo, e ningu\u00e9m supunha que ele ainda se importava tanto, ou mesmo que tivesse se lembrado do assunto por tantos anos.<\/p>\n<p>Sua esposa e filha ficaram chocadas com o seu deblaterar. E num esfor\u00e7o para ocupar a mente, Elizabeth tomou da prateleira um livro, o exemplar de Burns que McGregor uma vez dera ao sobrinho, e come\u00e7ou a ler poemas salteados, um aqui outro ali, virando as p\u00e1ginas febrilmente. Subitamente ela achou uma folha solta, cortada exatamente do tamanho das folhas do livro, inserida e colada de forma t\u00e3o minuciosa que ningu\u00e9m teria detectado a sua presen\u00e7a sem abrir o livro no lugar certo. Nesta folha, em tinta desbotada, estava escrito o testamento de Andrew McGregor, em que ele deixava toda a sua propriedade mundana a John Malcolm.<\/p>\n<p>Silenciosamente a menina mostrou o livro \u00e0 m\u00e3e. Quando as duas se curvaram sobre a p\u00e1gina amarelada, o moribundo cessou seus murm\u00farios.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 isso? \u2014 ele perguntou, fixo na esposa.<\/p>\n<p>Naquele momento ele estava evidentemente consciente de sua situa\u00e7\u00e3o, e parecia ter recobrado a sanidade. Elizabeth, inocentemente, foi at\u00e9 a cabeceira e lhe disse que havia encontrado o testamento.<br \/>\nEle nada disse, mas a sua face ficou cinzenta e vazia, com uma express\u00e3o de desespero irrepar\u00e1vel. N\u00e3o voltou a falar. Morreu antes de trinta minutos. Possivelmente a sua morte foi acelerada em muitas horas pelo choque.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Original de Clark Ashton-Smith. Traduzido a partir da vers\u00e3o online em Eldritch Dark. Andrew McGregor e seu sobrinho, John Malcolm, eram precisamente id\u00eanticos, salvo um particular. Ambos eram inconfundivelmente escoceses, de tal forma que chegavam \u00e0 caricatura: caras longas e l\u00e1bios fechados, esguios e pobres ao ponto da pen\u00faria, ambos amavam de uma forma rude o solo \u00e1spero das vizinhan\u00e7as de seus ranchos em El Dorado. 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