{"id":196,"date":"2011-11-08T07:30:00","date_gmt":"2011-11-08T10:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=196"},"modified":"2017-11-02T14:09:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:04","slug":"carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-5\/","title":{"rendered":"Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque &#8211; Parte 5"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-indice\/\">Voltar ao \u00cdndice<\/a><\/div>\n<p>A era eletr\u00f4nica, o para\u00edso do editor. Ou melhor, do censor. Antigamente se poderia bem dizer que &#8220;livro \u00e9 como passarinho&#8221;, depois que saiu da prateleira da livraria ningu\u00e9m mais controla. Hoje em dia \u00e9 poss\u00edvel revogar a publica\u00e7\u00e3o do livro, apagar do dispositivo chique o arquivo ofensivo que n\u00e3o deveria ter sa\u00eddo. Mas, acima de tudo, hoje em dia \u00e9 poss\u00edvel fazer as &#8220;corre\u00e7\u00f5es&#8221; na reda\u00e7\u00e3o do escritor-aluno at\u00e9 que seja aceit\u00e1vel no contexto da edi\u00e7\u00e3o-escola. Onde foi que esqueceram pelo caminho a ideia de que o escritor \u00e9 um adulto livre para ousar, diante de quem a sociedade reverente espera? Ah, bem.<\/p>\n<p>Os editores celebram no livro eletr\u00f4nico justamente isso que ele tem de monstruoso: a facilidade de um trabalho colaborativo. Trabalho colaborativo \u00e9 o meu \u2026 de \u00f3culos. O nome dessa colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 censura pr\u00e9via: voc\u00ea s\u00f3 chega a ser aceito se voc\u00ea se tornar do jeito que o &#8220;mercado&#8221; quer. Vimos isso ao vivo na televis\u00e3o, em um programa chamado &#8220;Fama&#8221;. Cantores de diversos estilos e personalidades foram amestrados durante semanas at\u00e9 que todos passassem a cantar de forma curiosamente parecida. O mercado quer produtos em s\u00e9rie, embalados a v\u00e1cuo, todos de formato igual. Parab\u00e9ns a voc\u00ea que tem o formato certo ou que \u00e9 male\u00e1vel o suficiente para entrar na forma e ficar parecido. Eu pretendo endurecer aqui de meu lado.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>As mutila\u00e7\u00f5es digitais n\u00e3o deixam marcas. Os originais nunca existiram mesmo! S\u00e3o apenas arquivos vagos, nuvens de el\u00e9trons circulando por circuitos. Esse trabalho colaborativo \u00e9 uma ferramenta quase stalinista, mas est\u00e1 usada pelo capitalismo. No fundo, os totalitarismos se servem dos mesmos instrumentos, variando a dose, ou a maneira como s\u00e3o consorciados.<\/p>\n<p>N\u00e3o me acusem de estar preso ao s\u00e9culo XX, de ser um arauto do passado. Prefiro ser arauto de coisas que entendo, do que papagaio de palavras vagas, cujo impacto ainda est\u00e1 al\u00e9m de minha ideia. Oh, n\u00e3o, lamento dizer que voc\u00eas talvez n\u00e3o entendam o que acham que entendem. Hoje em dia as pessoas s\u00e3o muito curtas e superficiais. Hoje em dia os intelectos s\u00e3o pontos. Ningu\u00e9m faz an\u00e1lises de longo prazo, afinal o ano fiscal termina em dezembro. Com o tempo come\u00e7am a achar que o mundo come\u00e7ou em janeiro.<\/p>\n<p>O novo n\u00e3o \u00e9 sempre bom. Certas coisas horr\u00edveis que aconteceram no passado foram novidade quando apareceram: o amianto, a s\u00edfilis, o comunismo, a peste negra, os aditivos \u00e0 base de chumbo para a gasolina. Precisamos ser cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o ao novo, talvez mais at\u00e9 do que em rela\u00e7\u00e3o ao velho. Ser profeta do passado \u00e9 muito f\u00e1cil: esticar um longo dedo para os erros de nossos pais e av\u00f3s \u00e9 algo que n\u00e3o custa muita ousadia, pois os resultados, muitas vezes, s\u00e3o conhecidos. Dif\u00edcil \u00e9 ser c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao canto da sereia do futuro. Todos temos a ingenuidade de crer que o nosso futuro \u00e9 a reden\u00e7\u00e3o de todos os nossos pecados.<\/p>\n<p>Mas o futuro \u00e9 perigoso.<\/p>\n<p>Hoje existem tecnologias fant\u00e1sticas, inimagin\u00e1veis h\u00e1 quarenta anos. Ferramentas fant\u00e1sticas, mas com dois gumes. Certamente fazem coisas inimagin\u00e1veis em 1971, mas temo que nem todas estas coisas sejam, al\u00e9m de inimagin\u00e1veis, desej\u00e1veis. Ferramentas que nos d\u00e3o a impress\u00e3o de que no futuro n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma forma de arte, e muito menos de artista, um futuro que me parece desinteressante. Um futuro de informa\u00e7\u00e3o precarizada, controlada e impessoal. Nesse futuro tampouco haver\u00e1 liberdade de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, se algum autor deseja ser dono exclusivo de sua obra, tem ferramentas para publica\u00e7\u00e3o independente \u2014 dizem os editores, sugerindo que somente os que topam abrir m\u00e3o de parte de sua autoria poder\u00e3o deixar de ser &#8220;independentes&#8221;. Os editores querem matar o autor, ao que parece.<\/p>\n<p>Acontece que a publica\u00e7\u00e3o independente sempre foi a exce\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria da literatura. Relegar a ela todos os que n\u00e3o aceitem conformar-se significa fechar as portas do grande mercado aos que n\u00e3o desejam submeter-se a imposi\u00e7\u00e3o do coletivo. E pensar que houve uma \u00e9poca em que as pessoas achavam a URSS monstruosa porque impunha a coletiviza\u00e7\u00e3o de fazendas, a servi\u00e7o &#8220;do povo&#8221;. Hoje as editoras, que desejam coletivizar a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, a servi\u00e7o do lucro, s\u00e3o &#8220;cool&#8221;. Sabemos, mas, por\u00e9m, no entanto e todavia, que o mercado \u00e9 ditador. Portanto, &#8220;a porta da rua \u00e9 serventia da casa&#8221; para quem acha que pode escrever o que quer. Tal como \u00e9 serventia da casa para o rep\u00f3rter que n\u00e3o quer difundir a agenda do patr\u00e3o, para o pol\u00edtico que se filia na legenda sem querer se render \u00e0s &#8220;pr\u00e1ticas normais&#8221; do meio.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer ser um autor &#8220;muderno&#8221; precisa &#8220;reconhecer que faz parte de uma equipe cocriadora, na qual cada um contribui com o que sabe fazer melhor e trabalha em consenso com os demais&#8221;. Imagino que rea\u00e7\u00e3o teriam os membros de uma &#8220;equipe cocriadora&#8221; dessas diante dos \u00edcones de nossa literatura. &#8220;Consenso&#8221;, teu nome \u00e9 &#8220;censura&#8221;. Estes conceitos revelam que para a maioria das editoras, livro \u00e9 como p\u00e3o de forma, cortado e ensacado e vendido a peso exato. O p\u00e3o do esp\u00edrito em formato adequado para armazenar em prateleira, e com prazo de validade compat\u00edvel.<\/p>\n<p>E \u00e9 por causa disso que n\u00f3s, os criadores de conte\u00fado, n\u00e3o podemos ter ilus\u00f5es quanto \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de quem capitaneia esse barco avariado. Eles chamam aos outros de piratas apenas porque eles t\u00eam cartas de corso. \u00c9 por isso que n\u00f3s, os criadores de conte\u00fado, devemos ansiar e at\u00e9 trabalhar, para que v\u00e1 abaixo todo esse edif\u00edcio, que se destrua toda a atual estrutura de comando e controle do conte\u00fado, com seu arcabou\u00e7o legal e suas pr\u00e1ticas corriqueiras. Somente destruindo essas empresas de forma definitiva e irrepar\u00e1vel haver\u00e1 possibilidade de salvar o futuro. Certamente n\u00e3o conseguiremos salvar um futuro parecido com o passado que havia, quarenta anos atr\u00e1s, mas numa hora dessas n\u00e3o podemos ser ego\u00edstas: se pensarmos apenas em nossos direitos autorais podemos terminar com uma sociedade na qual n\u00e3o teremos quase direitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar ao \u00cdndice A era eletr\u00f4nica, o para\u00edso do editor. Ou melhor, do censor. Antigamente se poderia bem dizer que &#8220;livro \u00e9 como passarinho&#8221;, depois que saiu da prateleira da livraria ningu\u00e9m mais controla. Hoje em dia \u00e9 poss\u00edvel revogar a publica\u00e7\u00e3o do livro, apagar do dispositivo chique o arquivo ofensivo que n\u00e3o deveria ter sa\u00eddo. Mas, acima de tudo, hoje em dia \u00e9 poss\u00edvel fazer as &#8220;corre\u00e7\u00f5es&#8221; na reda\u00e7\u00e3o do escritor-aluno at\u00e9 que seja aceit\u00e1vel no contexto da edi\u00e7\u00e3o-escola. 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