{"id":197,"date":"2011-11-06T07:30:00","date_gmt":"2011-11-06T10:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=197"},"modified":"2017-11-02T14:09:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:04","slug":"carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-4\/","title":{"rendered":"Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque &#8211; Parte 4"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-indice\/\">Voltar ao \u00cdndice<\/a><\/div>\n<p>Voc\u00eas devem estar imaginando, ent\u00e3o, que eu sou mais um que celebra o futuro esfuziante que vem a\u00ed. Que sou contra as ferramentas de controle do conte\u00fado, mas que abra\u00e7o entusiasticamente o mundo eletr\u00f4nico. Nem t\u00e3o depressa assim, motorista, pare o \u00f4nibus do futuro, pois quero descer.<\/p>\n<p>Quero voltar para minha casa, achar meu pr\u00f3prio arm\u00e1rio debaixo da escada, ali me esconder, com minha velha m\u00e1quina de escrever, e ent\u00e3o, de dentro da escurid\u00e3o desse meu canto, oferecer-lhes meu vislumbre desse futuro. Uma resposta algo po\u00e9tica demais (e hoje em dia a poesia se tornou algo pejorativo), por\u00e9m somente com poesia se atinge a contund\u00eancia. N\u00e3o me acusem de dramalh\u00e3o, falo em nome de valores que muita gente n\u00e3o entende, falo do ponto de vista de quem est\u00e1 acuado no quarto debaixo da escada. O que para voc\u00eas pode parecer casca, para mim \u00e9 a medula.<\/p>\n<p>Eu sou o ego. Eu sou a ambi\u00e7\u00e3o do ego. Eu falo em nome dos desejos do ego. Eu n\u00e3o acho que o ego seja ruim.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>\u00c9 errado supor que o ego seja ego\u00edsta. O ego\u00edsmo \u00e9 uma pervers\u00e3o t\u00e3o grande quanto a total aus\u00eancia de amor por si. Eu n\u00e3o sou ego\u00edsta, apenas aprecio ser quem sou, apenas aprecio a ideia de poder ser quem quero ser. Sei que muitas coisas que eu sou, ou sei, resultam do am\u00e1lgama de coisas que foram ditas, ou feitas, por outras pessoas. Resultam de coisas que vi, ouvi, e copiei. Mas todas as coisas que fazem parte de mim, quando n\u00e3o foram simplesmente se instalando, como mofo numa toalha, s\u00e3o escolhas que eu fiz. Ningu\u00e9m me imp\u00f4s que eu escrevesse, por exemplo, ningu\u00e9m conscientemente me fez ver que h\u00e1 mais beleza na mulher morena do que na loura.<\/p>\n<p>O Ego \u00e9 bom. Penso, logo existo \u2014 ele diz. &#8220;Penso&#8221; n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno coletivo. &#8220;Penso&#8221; \u00e9 uma ilus\u00e3o de individualidade que nos torna saud\u00e1veis. &#8220;Penso&#8221; \u00e9 a felicidade.<\/p>\n<p>No mundo eletr\u00f4nico, o ego est\u00e1 sob ataque. Movem guerra nuclear contra ele. Uma guerra cuja primeira batalha foi travada, d\u00e9cadas antes do primeiro chip de computador, quando algu\u00e9m teve a ideia de que os livros escritos pelos autores n\u00e3o eram bons o bastante, que era necess\u00e1rio haver um &#8220;profissional&#8221; capaz de ensinar o escritor a escrever.<\/p>\n<p>O nome desta profiss\u00e3o \u00e9 &#8220;censura&#8221; e o seu fruto \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do ego. O autor n\u00e3o tem a &#8220;permi\u00e7\u00e3o&#8221; de escrever com c\u00ea-cedilha, a n\u00e3o ser em contextos muito limitados. Tal como atores de novelas n\u00e3o podem falar com outro sotaque que n\u00e3o o de Capacabana, a n\u00e3o ser em contextos muito limitados, como novelas regionais caricatas. O nome desta profiss\u00e3o \u00e9 &#8220;censura&#8221; e a sua marca \u00e9 a soberba.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que escritores escreviam, revisores revisavam e editores editavam. Hoje escritores escrevem, revisores reescrevem, editores mandam reescrever. No fim do processo &#8220;interativo&#8221; a obra que chega a ser publicada j\u00e1 foi expurgada dos defeitos do autor. Todo autor tem defeitos, os \u00fanicos perfeitos s\u00e3o os editores e os revisores.<\/p>\n<p>Mas esse tema \u00e9 t\u00e3o complexo que tenho que deixar para semana que vem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar ao \u00cdndice Voc\u00eas devem estar imaginando, ent\u00e3o, que eu sou mais um que celebra o futuro esfuziante que vem a\u00ed. Que sou contra as ferramentas de controle do conte\u00fado, mas que abra\u00e7o entusiasticamente o mundo eletr\u00f4nico. Nem t\u00e3o depressa assim, motorista, pare o \u00f4nibus do futuro, pois quero descer. Quero voltar para minha casa, achar meu pr\u00f3prio arm\u00e1rio debaixo da escada, ali me esconder, com minha velha m\u00e1quina de escrever, e ent\u00e3o, de dentro da escurid\u00e3o desse meu canto, oferecer-lhes meu vislumbre desse futuro. 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