{"id":1978,"date":"2014-11-03T22:04:29","date_gmt":"2014-11-04T01:04:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1978"},"modified":"2019-06-06T09:06:52","modified_gmt":"2019-06-06T12:06:52","slug":"colonizacao-cultural-um-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/11\/colonizacao-cultural-um-debate\/","title":{"rendered":"Coloniza\u00e7\u00e3o Cultural &#8211; Um Debate"},"content":{"rendered":"<p>Anteontem come\u00e7ou uma longa discuss\u00e3o no Facebook sobre uma tal &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221;. O ponto de partida foi um &#8220;meme&#8221; do Dr. House (um \u00edcone cultural do colonizador, vejam s\u00f3) com a frase seguinte:<\/p>\n<p>\u00c9 de se imaginar o furor que a frase provocou, pois ela ataca a jugular dos jovens escritores brasileiros, sem lhes deixar chance de defesa. Nada afaga mais o ego juvenil do que a doce ilus\u00e3o de ser especial, e nada o ataca com mais for\u00e7a do que a lembran\u00e7a de que &#8220;todos escolheram usar jeans&#8221;.[^1]<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es vieram de forma quase autom\u00e1tica, irrefletida. Algumas evidenciando uma necessidade de autoafirma\u00e7\u00e3o maior do que a de compreender o que se argumentava. Este artigo apresenta temas e ideias extra\u00eddos do debate. Os autores dos argumentos foram devidamente protegidos, por raz\u00f5es mais que \u00f3bvias (por favor, n\u00e3o venham reivindicar suas carapu\u00e7as). Honestamente advirto que escolhi os argumentos de forma a organizar o debate para apontar para a conclus\u00e3o final.<\/p>\n<p>&gt; A hist\u00f3ria \u00e9 minha e eu escrevo onde quiser, e isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenho criatividade.<\/p>\n<p>Observe como o jovem autor deseja expressar sua possessividade em rela\u00e7\u00e3o ao argumento que desenvolve. &#8220;A hist\u00f3ria \u00e9 minha&#8221;. Ele nem p\u00e1ra a pensar que, talvez, a &#8220;sua&#8221; hist\u00f3ria seja um clich\u00ea cultural. O come\u00e7o do argumento est\u00e1 em reafirmar sua posse sobre o que escreve. Em seguida parte-se para a reivindica\u00e7\u00e3o do livre arb\u00edtrio, o &#8220;escrevo onde quiser&#8221;, que quase equivale ao jovem vestido de jeans, entre milhares de outros tamb\u00e9m vestidos assim, dizer que &#8220;usa o que quer&#8221;.<\/p>\n<p>&gt; Ter refer\u00eancias n\u00e3o significa n\u00e3o ter criatividade e sim ter repert\u00f3rio. Transforma-los em boas ideias \u00e9 ter criatividade.<\/p>\n<p>Novamente tergiversando, outro autor, n\u00e3o sei se inconscientemente ou de prop\u00f3sito, ignora que o t\u00f3pico era justamente sobre falta de repert\u00f3rio e afirma que &#8220;ter refer\u00eancias&#8221; \u00e9 &#8220;ter repert\u00f3rio&#8221;. Mesmo que as refer\u00eancias sejam quase sempre as mesmas. Usar tr\u00eas acordes em vez de trezentos e noventa tamb\u00e9m dever ser &#8220;ter repert\u00f3rio&#8221; na vis\u00e3o desse autor. Obviamente ele n\u00e3o parou a pensar no que escrevia, tal como n\u00e3o para a pensar nas influ\u00eancias que recebe.<\/p>\n<p>&gt; Legal que agora voc\u00ea n\u00e3o pode escrever se baseando na idade m\u00e9dia que te apontam o dedo pra falar que n\u00e3o tem criatividade&#8230; <\/p>\n<p>Mais um que erra o alvo, n\u00e3o sei se de prop\u00f3sito ou por distra\u00e7\u00e3o. Confunde a acusa\u00e7\u00e3o de &#8220;criatividade colonizada&#8221; com &#8220;falta de criatividade&#8221;, o que \u00e9 mais ou menos como confundir &#8220;dor de est\u00f4mago&#8221; com &#8220;n\u00e3o ter est\u00f4mago&#8221; (literalmente).<\/p>\n<p>O mesmo autor da frase acima, n\u00e3o satisfeito em cometer este belo espantalho, ainda afunda mais o p\u00e9 na jaca ao dizer:<\/p>\n<p>&gt; Acho que temos que valorizar outras culturas tamb\u00e9m (gosto muito da ind\u00edgena, por exemplo) mas \u00e9 que agora parece que quem escreve uma hist\u00f3ria medievalista est\u00e1 sempre sendo criticado.<\/p>\n<p>Ou, como diz uma jovem, com sangue nos olhos e um cabresto na boca:<\/p>\n<p>&gt; Imagina que triste reduzir as possibilidades de escrita s\u00f3 porque voc\u00ea \u00e9 um brasileiro que vive no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Como essas pessoas conseguem associar um convite \u00e0 abertura de horizontes tem\u00e1ticos a supostamente &#8220;reduzir possibilidades&#8221;? S\u00e3o passarinhos que acham que a ideia de deixar a gaiola \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 sua liberdade.<\/p>\n<p>Como ele consegue ignorar que o prop\u00f3sito do t\u00f3pico era justamente valorizar &#8220;outras culturas&#8221; em vez dos cen\u00e1rios europeus medievais ou pseudomedievais citados? Como consegue ignorar que a cr\u00edtica n\u00e3o se dirige ao fato de haver gente escrevendo hist\u00f3rias de ambienta\u00e7\u00e3o medieval, mas ao fato de haver **tanta gente** de fora da Europa escrevendo sobre Europa medieval? <\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a cr\u00edtica do t\u00f3pico tem seu flanco esquerdo descoberto, como veremos ao final, por ignorar longos s\u00e9culos em que a literatura ocidental esteve sob a \u00e9gide de uma influ\u00eancia estrangeira uniforme. Mas \u00e9 verdade, tamb\u00e9m, que ningu\u00e9m aponta para esse lado.<\/p>\n<p>O primeiro comentarista a dizer algo respeit\u00e1vel no t\u00f3pico foi um tal Paulo Henrique, que ironizou a imagem do Dr. House:<\/p>\n<p>&gt; Vamos pegar um personagem estrangeiro e fazer um meme reclamando de coloniza\u00e7\u00e3o europeia [&#8230;] e imperialismo norte americano. \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>Marshall McLuhan concebeu a ideia da &#8220;aldeia global&#8221;, que compartilharia elementos culturais comuns e uma mesma infraestrutura de comunica\u00e7\u00e3o. Talvez PH n\u00e3o tenha lido &#8220;A Gal\u00e1xia de Gutenberg&#8221;, mas sua cutucada deveria ter provocado o debate para o lado da necessidade de realmente questionar essa hegemonia, n\u00e3o pela rejei\u00e7\u00e3o do estrangeiro, mas pela busca de nossa voz e nossa identidade na aldeia global. Por que, afinal, na roda de causos em torno da fogueira h\u00e1 alguns que tanto falam e n\u00f3s falamos t\u00e3o pouco?<\/p>\n<p>Ocorre, por\u00e9m, que o PH n\u00e3o faria tal questionamento porque ele n\u00e3o considera nada errado uma parte da turma bloquear a outra:<\/p>\n<p>&gt; As pessoas precisam de uma invas\u00e3o alien\u00edgena para perceberem que vivemos no mesmo planeta, e que podemos dar prefer\u00eancia a qualquer cultura que desejamos. At\u00e9 l\u00e1 vai ser sempre assim, discursos nacionalistas e regionalistas. E viva a briga eterna de opini\u00f5es. <\/p>\n<p>Esse falso internacionalismo (n\u00e3o custa lembrar que os povos que originam a cultura predominante na aldeia global s\u00e3o fortemente nacionalistas) \u00e9 uma ideologia que serve ao interesse de quem pretende silenciar as vozes discordantes. PH pode n\u00e3o perceber, mas o debate n\u00e3o \u00e9 liter\u00e1rio, *\u00e9 pol\u00edtico.*[^2]<\/p>\n<p>Digo que \u00e9 um debate pol\u00edtico porque a coloniza\u00e7\u00e3o cultural n\u00e3o tem a ver com quem escrever\u00e1 as obras de maior qualidade liter\u00e1ria, mas quais culturas dar\u00e3o sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia global. O que \u00e9 uma forma de indagar quais culturas sobreviver\u00e3o \u00e0 &#8220;geleia geral&#8221;, ainda que modificadas. O posicionamento &#8220;apol\u00edtico&#8221; expresso pela cita\u00e7\u00e3o acima revela, na verdade, \u00e9 um desprezo pela identidade brasileira, vista como sup\u00e9rflua diante do poder avassalador da m\u00eddia de massa. Tanto isso \u00e9 verdade que s\u00e3o v\u00e1rios os comentaristas que citam a &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221; como um caminho de menor resist\u00eancia:<\/p>\n<p>&gt; Se algu\u00e9m quer escrever pra ganhar dinheiro no s\u00e9c XXI, \u00e9 bem mais f\u00e1cil utilizando a rota europeia\/americana.<\/p>\n<p>N\u00e3o que o debate tenha flu\u00eddo no escuro. Foram v\u00e1rios os comentadores que tentaram esclarecer que n\u00e3o se tratava de &#8220;cagar regra&#8221; e nem de &#8220;proibir&#8221; os outros de escreverem. Na verdade, estas tentativas de esclarecimento pareciam irritar ainda mais os que pretendiam recha\u00e7ar a frase-tema do t\u00f3pico, que chegaram ao ponto do nihilismo:<\/p>\n<p>&gt; Expor opini\u00f5es faz tanto sentido quanto n\u00e3o expor opini\u00f5es. Essa \u00e9 minha conclus\u00e3o. <\/p>\n<p>Afinal, quando percebiam que estavam dizendo bobagens baseadas em uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o de *duas* m\u00edseras frases, s\u00f3 restava tentar desqualificar o debate em si. Ou inund\u00e1-lo em ondas e mais ondas de interven\u00e7\u00f5es que o desviavam ligeiramente do foco at\u00e9 recair numa dicotomia entre &#8220;autores experientes desestimulando fr\u00e1geis jovens talentos que podem nunca mais escrever s\u00f3 porque um malvado criticou o que ele gosta&#8221;. E tanto capim no mundo!<\/p>\n<p>Exemplos de interven\u00e7\u00f5es conciliadoras:<\/p>\n<p>&gt; Eu j\u00e1 cansei de repetir nessa vida que voc\u00ea criticar uma determinada postura n\u00e3o significa que voc\u00ea queira **proibir** essa determinada postura.<\/p>\n<p>Mais adiante o mesmo comentarista, j\u00e1 exasperado, repete:<\/p>\n<p>&gt; N\u00e3o, voc\u00ea ser\u00e1 criativo se utilizar sua coloniza\u00e7\u00e3o cultural para escrever suas hist\u00f3rias. Ningu\u00e9m disse, tamb\u00e9m, que uma criatividade colonizada n\u00e3o \u00e9 criatividade em absoluto. \u00c9 criatividade, ainda. Colonizada, por\u00e9m.<\/p>\n<p>Ou esta ador\u00e1vel interven\u00e7\u00e3o de uma mo\u00e7a que tem talento para a diplomacia:<\/p>\n<p>&gt; Acho que a cr\u00edtica \u00e9 totalmente v\u00e1lida em alguns casos.Se \u00e9 uma prefe\u00adr\u00eancia pessoal, e a pessoa conhece do assunto que vai escrever e acha que sua criatividade flui melhor, quer seja Europa ou Brasil, ent\u00e3o a cr\u00edtica n\u00e3o se aplica. Agora, se uma pessoa s\u00f3 escreve sobre a Europa Medieval, Estados Unidos e coloca nomes estrangeiros nos seus personagens s\u00f3 porque acha que sua obra perderia qualidade e seria inferior se tudo fosse mais &#8220;abrasileirado&#8221;, a\u00ed sinto muito dizer que essa pessoa precisa repensar o conceito de literatura de qualidade. Ou seja, cada caso, um caso.<\/p>\n<p>Mas mesmo esta ador\u00e1vel simpatia falhou em convencer aos garotos revoltados. Eles persistiram na ilus\u00e3o de que &#8220;escolhem&#8221; seguir a modinha do momento, al\u00e9m de se deixarem influenciar por conceitos idealizados, extra\u00eddos de cita\u00e7\u00f5es de autores famosos que n\u00e3o parecem ter seguido o que ensinaram.[^4] Como explicar que depois e 200 coment\u00e1rios algu\u00e9m ainda diga uma platitude do tipo:<\/p>\n<p>&gt; Minha opini\u00e3o sobre o assunto \u00e9 bem clara: cada um escreve a hist\u00f3ria que &#8220;precisa&#8221; escrever, independente do cen\u00e1rio, contexto, personagens, nomenclatura e etc. <\/p>\n<p>N\u00e3o nos parece curioso que tanta gente &#8220;precise&#8221; escrever a mesma hist\u00f3ria, tirando ou pondo um detalhe aqui ou ali? <\/p>\n<p>Eu me estenderia por horas citando a manivela de debulhar argumentos e n\u00e3o se chegaria a um acordo. Voc\u00ea, leitor, sabe qual \u00e9 o meu lado neste debate desde o princ\u00edpio e eu n\u00e3o tenho nenhuma necessidade de esconder. Acredito que confrontar ideias \u00e9 salutar, especialmente para aqueles que se revoltam com a ideia de possam existir no mundo pessoas que pensem diferente. A menos que o indiv\u00edduo seja mais tapado que uma mula, ele ser\u00e1 tocado pelos argumentos e absorver\u00e1 alguma coisa deles. No fundo, cada um de n\u00f3s se torna como o &#8220;outro&#8221; que encara.[^3] <\/p>\n<p>Meu pensamento pode ser condensado num par\u00e1grafo: Coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221; n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de &#8220;exotismo&#8221;. Este \u00e9 uma escolha. O autor colonizado n\u00e3o escolhe, faz inconscientemente (n\u00e3o percebe que \u00e9 colonizado) ou conscien\u00adte\u00admente acha que \u00e9 o jeito certo de fazer. &#8220;Ser colonizado&#8221; n\u00e3o quer dizer ser mau escritor. James Joyce, W. B. Yeats, Franz Kafka, William Beckford, todos foram &#8220;colonizados&#8221; culturalmente. Os dois primeiros, irlandeses, escreveram em ingl\u00eas, o terceiro, judeu tcheco, escreveu em alem\u00e3o, e o quarto, ingl\u00eas, escreveu em franc\u00eas. Levantar a bola da &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221; n\u00e3o tem a ver com &#8220;escrever melhor&#8221;, \u00e9 um posicionamento **pol\u00edtico**. N\u00e3o se trata de encontrar a melhor t\u00e9cnica de escrita, mas uma posi\u00e7\u00e3o de relev\u00e2ncia cultural.<\/p>\n<p>A cultura globalizada se baseia, inequivocamente, em centros hegem\u00f4nicos de produ\u00e7\u00e3o, em ind\u00fastrias que reproduzem n\u00e3o s\u00f3 ideologia mas tamb\u00e9m estruturas de domina\u00e7\u00e3o. Estruturas s\u00e3o ideologias, como nos lembra Marshall McLuhan ao dizer que &#8220;o meio \u00e9 a mensagem&#8221;. Os meios s\u00e3o a ind\u00fastria do best-seller, conectada com a de cinema, com a de moda e com todos os aparelhos atrav\u00e9s dos quais se constr\u00f3i a chamada &#8220;cultura globalizada&#8221;. Sob uma \u00f3tica nacionalista (seja de esquerda ou direita), o artista deve resistir a isto e tentar propor uma alternativa baseada na identidade p\u00e1tria. Mas a \u00f3tica que predomina \u00e9 a do mercado de massas, a aldeia global \u00e9 um redil, e a emula\u00e7\u00e3o que buscamos \u00e9 a de nos tornarmos iguais, em vez de excepcionais, derrotando a expectativa de Nietzsche que sonhava que f\u00f4ssemos, a essa altura, verdadeiros sobre-humanos.<\/p>\n<p>A escolha sempre \u00e9 a grande t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o dos que rejeitam opini\u00f5es contr\u00e1rias. Voc\u00ea pensa assim, mas eu sou livre para pensar diferente. Mas fica tudo muito estranho quando a opini\u00e3o \u00e9 uma defesa da liberdade, e a contesta\u00e7\u00e3o prop\u00f5e o direito de permanecer cativo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, que os jovens parecem n\u00e3o entender, \u00e9 que a pobreza n\u00e3o est\u00e1 em escolher uma ambienta\u00e7\u00e3o estrangeira (a \u00f3pera &#8220;Carmem&#8221;, do franc\u00eas Georges Bizet, se passa na Espanha, onde Bizet nunca pusera os p\u00e9s), mas em fazer isso de forma servil, sem liberdade.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nenhuma rela\u00e7\u00e3o colonialista entre a Espanha e a Fran\u00e7a na \u00e9poca de Bizet. Ent\u00e3o o exotismo da \u00f3pera Carmem \u00e9 fruto da liberdade criativa do compositor. Isso \u00e9 diferente do exotismo da garotada que acha que precisa escrever em certos cen\u00e1rios americanos ou ingleses para estar na moda.<\/p>\n<p>Fazer o que se quer \u00e9 liberdade. Seguir o que a maioria faz, achando que \u00e9 preciso seguir, \u00e9 servid\u00e3o. O debate nem precisaria existir se todos dessem uma risadinha torta e n\u00e3o ficassem tentando arrancar a carapu\u00e7a da cabe\u00e7a, com couro cabeludo e tudo se preciso.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s, individualmente, tem excelentes e pessoais motivos para ser o que \u00e9. S\u00f3 que fica estranho quando nos analisamos em conjunto e descobrimos que nossas individualidades se enquadram em umas poucas categorias. Para algumas pessoas isso \u00e9 um lembrete de humildade. Para outras, \u00e9 uma ofensa. As ovelhas se ofendem quando s\u00e3o lembradas da materialidade da cerca. Com o tempo, o cativo aprende a amar a seguran\u00e7a de suas cadeias.<\/p>\n<p>O contexto cultural nos educa para desprezar o nacional, visto como &#8220;limitado&#8221; ou &#8220;arcaico&#8221;, e abra\u00e7ar o global, o &#8220;primeiro mundo&#8221;, o &#8220;progresso&#8221;. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno recente, esta \u00e9 a hist\u00f3ria da maior parte da nossa literatura, inclusive da que os nacionalistas citam com orgulho. N\u00f3s nunca nos questionamos se o &#8220;global&#8221; \u00e9 neutro ou se baseia em um nacional alheio. Temos a ilus\u00e3o de que a l\u00edngua predominante da vez, seja o franc\u00eas, o alem\u00e3o ou o ingl\u00eas, expressa a &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, e n\u00e3o a vis\u00e3o e a cultura de quem, no momento, pretende dirigir o mundo, ou tanto mundo quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Em lugar deste questionamento, a firme e ing\u00eanua cren\u00e7a de que n\u00e3o a mal nenhum em se deixar guiar:<\/p>\n<p>&gt; Estou falando de forma geral. N\u00e3o acho que vou perder minha identidade cultural ao escrever uma hist\u00f3ria baseada na Europa Medieval.<\/p>\n<p>Colonizados que somos, estamos t\u00e3o acostumados a ver deceparem nossos her\u00f3is (Zumbi, Tiradentes, Lampi\u00e3o, Get\u00falio, Jango, Juscelino) que desenvolvemos uma avers\u00e3o a ter ideias, buscamos o conforto do pros\u00e9lito. O passarinho eternamente desconfia que pode haver uma atiradeira fora da gaiola. A ideia da Europa como foco de civiliza\u00e7\u00e3o aparece assim como um cen\u00e1rio seguro, tal como, nos anos 70, era seguro fingir-se americano e cantar letras em ingl\u00eas para n\u00e3o ter problemas com a censura.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa escolha covarde nunca \u00e9 totalmente inocente. E as pessoas n\u00e3o gostam de serem lembradas disso. Por isso se ofendem, sentem-se  pessoalmente atingidas e partem para o confronto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m aceita que pessoas diferentes possam ter valores diferentes porque todos sabem, instintivamente, que os valores verdadeiros se sobressaem diante dos falsos. E aqueles que n\u00e3o t\u00eam convic\u00e7\u00e3o se sentem amea\u00e7ados por qualquer posicionamento diferente. Em um debate como esse, a arenga n\u00e3o \u00e9 entre os defensores de opini\u00f5es diferentes, mas entre os comprometidos com posi\u00e7\u00f5es opostas. <\/p>\n<p>Se fosse apenas o caso de alguns gostarem do azul e outros do amarelo n\u00e3o haveria briga. O problema \u00e9 que alguns se pintaram de uma cor e outros da outra e precisam que a sua triunfe. Os vers\u00e1teis aparecem ent\u00e3o como os grandes inimigos. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 comprometido com um lado, ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 duplamente falso.<\/p>\n<p>O brasileiro parece detestar democracia. O fato de haver algu\u00e9m que pensa diferente lhe causa irrita\u00e7\u00e3o, vontade de xingar, de dar golpe de estado at\u00e9. Mas a rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior contra os lim\u00edtrofes, contra os que querem transitar livremente dos dois lados da fronteira. Na vida e na arte.<\/p>\n<p>Seria mais f\u00e1cil se as pessoas defendessem seus valores praticando-os em obras liter\u00e1rias extraordin\u00e1rias, mas elas preferem dirigir ofensas m\u00fatuas porque n\u00e3o querem ser criticadas. N\u00e3o podem suportar a ideia de que, talvez, a obra a que tanto se dedicaram tenha falhas. Ou que toda a sua carreira seja um auto-engano.<\/p>\n<p>**P\u00f3s-Escrito**: Eu de fato n\u00e3o acho que a tem\u00e1tica medieval seja t\u00e3o predominante, mas as rea\u00e7\u00f5es ao coment\u00e1rio foram sintom\u00e1ticas de muita imaturidade que esses jovens ainda precisam superar. Espero que o debate tenha ajudado a abrir mentes, questionar &#8220;vacas sagradas&#8221; e criar coragem para que ousem. A vida \u00e9 muito curta para se gastar tempo escrevendo livros sem ter ousadia.<\/p>\n<p>[^1]: Nos anos 50 a 70, a preponder\u00e2ncia do *jeans* como roupa de escolha da ampla maioria da juventude evoca a idiossincrasia do jovem que, ao mesmo tempo que afirma sua individualidade *contra* a gera\u00e7\u00e3o anterior, tem uma profunda necessidade de pertencimento.<\/p>\n<p>[^2]: A arte \u00e9 muitas vezes tida e havida como um campo refrat\u00e1rio \u00e0 pol\u00edtica, mas essa opini\u00e3o \u00e9 fruto da castra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica promovida em nosso pa\u00eds por uma ditadura que durou 21 anos e se dedicou diuturnamente a destruir o pensamento nacional.<\/p>\n<p>[^3]: Como talvez diria Nietzsche: &#8220;o abismo tamb\u00e9m nos contempla&#8221;.<\/p>\n<p>[^4]: Duvido muito que Pablo Neruda levasse a s\u00e9rio seu conselho sobre escrever, aquele que recomenda &#8220;comece com uma mai\u00fascula, termine com um ponto final e no meio ponha ideias.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anteontem come\u00e7ou uma longa discuss\u00e3o no Facebook sobre uma tal &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o cultural&#8221;. O ponto de partida foi um &#8220;meme&#8221; do Dr. House (um \u00edcone cultural do colonizador, vejam s\u00f3) com a frase seguinte: \u00c9 de se imaginar o furor que a frase provocou, pois ela ataca a jugular dos jovens escritores brasileiros, sem lhes deixar chance de defesa. Nada afaga mais o ego juvenil do que a doce ilus\u00e3o de ser especial, e nada o ataca com mais for\u00e7a do que a lembran\u00e7a de que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1979,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[13,77,40,288,23,68,114],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1978"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6739,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978\/revisions\/6739"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}