{"id":198,"date":"2011-11-05T22:00:00","date_gmt":"2011-11-06T01:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=198"},"modified":"2017-11-02T14:09:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:04","slug":"o-verdadeiro-autor-marginal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/o-verdadeiro-autor-marginal\/","title":{"rendered":"O Verdadeiro Autor Marginal"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. Acontece que ele se tornou hoje o piv\u00f4 de uma das not\u00edcias liter\u00e1rias mais interessantes do ano, ao tornar-se o autor do livro &#8220;A Trindade dos Super-Garotos, Livro I: A Busca pela \u00c1gua&#8221;. Aparentemente n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o alguma para que o caso seja &#8220;interessante&#8221;, mas o caso merece aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Antes de tudo, \u00e9 preciso dizer que a obra citada \u00e9 bem justamente o que parece: uma trilogia de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica protagonizada por jovens que salvar\u00e3o o mundo de uma cat\u00e1strofe. Mais do mesmo, \u00f3bvio. Voc\u00ea j\u00e1 leu esta hist\u00f3ria tantas vezes que n\u00e3o precisa ler mais esta para saber quase em detalhes tudo que acontecer\u00e1. Eu n\u00e3o li, mas as poucas informa\u00e7\u00f5es que pude obter sobre o livro (que n\u00e3o pretendo comprar, pois meu dinheiro n\u00e3o d\u00e1 em \u00e1rvore) me fazem supor que os jovens correspondem a todos os modelos prefabricados de personagens heroicos adolescentes que aparecem nos livros mais vendidos atualmente. Portanto, a menos que Charles Kembo seja um artista genial com as palavras, o livro dele \u00e9 provavelmente ruim. Acontece que o t\u00edtulo por ele escolhido para o primeiro volume de sua trilogia n\u00e3o sugere que ele seja.<\/p>\n<p>Ademais, o canal atrav\u00e9s do qual esta obra chegou a ser publicada n\u00e3o \u00e9 nem um pouco recomend\u00e1vel: trata-se da famigerada PublishAmerica (cujo link n\u00e3o incluo para n\u00e3o gerar receita para picaretas), famosa por ter aceitado um pastiche intitulado &#8220;Atlanta Nights&#8221;, criado por alguns autores filiados \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Americana de Autores de Fic\u00e7\u00e3o e Fantasia (SFWA), mais um programa de computador. O caso est\u00e1 arquivado <a href=\"http:\/\/www.travistea.com\/\">aqui<\/a> (em ingl\u00eas, <i>sorry<\/i>). Mas incluo um resumo abaixo, para benef\u00edcio dos que n\u00e3o sabem ingl\u00eas (e tamb\u00e9m da pregui\u00e7a peluda que em que \u00e0s vezes certos leitores se metamorfoseiam em noites de lua, cheia ou n\u00e3o, em uma estranha licantropia). Se voc\u00ea j\u00e1 conhece o caso, preferiu ler o texto que est\u00e1 no link ou se simplesmente confia em minha palavra, de que a PublishAmerica deveria chamar-se PublishIt!, salte os par\u00e1grafos comentados a seguir.<\/p>\n<blockquote><p> Muitos autores filiados \u00e0 SFWA (e tamb\u00e9m jovens autores n\u00e3o filiados, mas que buscavam conselho) reclamavam das pr\u00e1ticas da PublishAmerica, uma editora de fachada que se fazia passar por &#8220;tradicional&#8221;,  mas que apenas arrancava dinheiro dos ing\u00eanuos. Esse tipo de empresa \u00e9 chamada nos EUA de &#8220;author mill&#8221; (moinho de autores).<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>As reclama\u00e7\u00f5es variavam desde a qualidade da revis\u00e3o e do projeto gr\u00e1fico at\u00e9 \u00e0 falta de promo\u00e7\u00e3o, passando pelos altos pre\u00e7os cobrados dos autores (voc\u00ea que escreve deve ter encontrado algo parecido aqui no Brasil, n\u00e3o?). Diante da divulga\u00e7\u00e3o destas reclama\u00e7\u00f5es pela SFWA (em sua p\u00e1gina <i>Writers Beware<\/i>, ou &#8220;Aten\u00e7\u00e3o Autores&#8221;), a PublishAmerica defendeu-se atacando, de forma arrasadora, n\u00e3o apenas os autores reclamantes, mas todos os autores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia. Segundo a PublishAmerica, o insucesso dos autores n\u00e3o se devia \u00e0 falhas da editora, mas \u00e0 falta generalizada de qualidade das obras destes g\u00eaneros, que, por serem relativamente f\u00e1ceis de escrever, atraem um grande n\u00famero de incompetentes, que se escondem atr\u00e1s da fantasia para n\u00e3o terem que fazer pesquisa e nem preocupar-se com a verossimilhan\u00e7a de suas hist\u00f3rias. Ainda segundo a editora, os altos pre\u00e7os cobrados eram destinados especificamente aos autores de tais g\u00eaneros, pois em rela\u00e7\u00e3o a eles n\u00e3o havia a menor possibilidade de sucesso devido \u00e0 p\u00e9ssima qualidade das obras, e o dinheiro assim obtido seria investido nas carreiras de outros autores, mais talentosos.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Diante destas acusa\u00e7\u00f5es graves e arrasadoras (com as quais eu concordo em parte, mas n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a todo e qualquer autor de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia), a SFWA se prop\u00f4s a uma vingan\u00e7a: humilhar a PA provando que eles publicariam qualquer coisa desde que o autor estivesse disposto a pagar, e publicariam n\u00e3o apenas sem revisar, mas at\u00e9 sem ler.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os autores se propuseram a escrever um livro que n\u00e3o apenas fosse terrivelmente ruim (mal escrito e incoerente), mas tamb\u00e9m cheio de erros \u00f3bvios: dois cap\u00edtulos com a mesma numera\u00e7\u00e3o, um n\u00famero de cap\u00edtulo faltando, um cap\u00edtulo com numera\u00e7\u00e3o menor que o anterior, personagens que n\u00e3o apenas morrem e depois reaparecem, mas at\u00e9 mesmo mudam de sexo de uma p\u00e1gina para outra. Um dos cap\u00edtulos foi produzido atrav\u00e9s de um programa de computador chamado Bonsai Text Generator, que produz frases gramaticalmente corretas, mas absolutamente sem sentido, a partir de um outro texto longo dado como amostra.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>A obra assim produzida foi submetida \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o da PublishAmerica e n\u00e3o apenas foi aceita (com as congratula\u00e7\u00f5es e elogios de praxe, acompanhadas da &#8220;perspectiva de tornar-se um sucesso&#8221;) como foi  supostamente &#8220;revisada&#8221; e &#8220;formatada&#8221; para impress\u00e3o. Tendo coletado as provas (atrav\u00e9s de comunica\u00e7\u00f5es via e-mail) os autores foram aconselhados por um advogado a n\u00e3o assinar o contrato (pois incorreriam em falsidade ideol\u00f3gica) que permitiria a publica\u00e7\u00e3o (pois causariam preju\u00edzo intencional). Preferiram divulgar amplamente o caso, achando que haviam obtido sua vingan\u00e7a. <\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Infelizmente, o mundo n\u00e3o \u00e9 justo. Nasce um idiota a cada dia, e o fluxo cont\u00ednuo de idiotas mant\u00e9m a PublishAmerica funcionando e ganhando dinheiro at\u00e9 hoje. Talvez a PublishAmerica tivesse raz\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>O que torna o caso de Charles Kembo literariamente interessante n\u00e3o s\u00e3o os aspectos intr\u00ednsecos de sua obra (que \u00e9 provavelmente lixo), mas as circunst\u00e2ncias que envolvem o autor. Se voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar de &#8220;literatura marginal&#8221;, deveria engolir em seco, pois trata-se de muito mais do que isso: <a href=\"http:\/\/www.unsolvedcanada.ca\/index.php?topic=3394.15\">Charles Kembo<\/a> \u00e9 um assassino condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua por v\u00e1rios crimes ocorridos entre 2002 e 2005, um perfeito exemplar da fauna norte-americana de <i>serial killers.<\/i><\/p>\n<p>Por chocante que esta revela\u00e7\u00e3o possa parecer, ela traz \u00e0 baila um debate importante para a literatura: at\u00e9 que ponto devemos separar a vida e a obra de um indiv\u00edduo. Recentemente, no Brasil, houve um s\u00e9rio debate sobre a proibi\u00e7\u00e3o (ou pelo menos a restri\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o) da obra infantil de Monteiro Lobato porque o autor era manifestamente racista. Charles Kembo \u00e9 comprovadamente um assassino cruel e calculista, sem nenhum remorso. Isto, claro, \u00e9 muito pior do que ser meramente racista. Ainda mais: ele est\u00e1 vivo, pronto para causar mais mortes se sair da cadeia, enquanto Monteiro Lobato, do t\u00famulo, n\u00e3o pode produzir mais nenhuma frase racista al\u00e9m das que cometeu em vida. Quando do debate sobre a obra do criador do S\u00edtio do Picapau Amarelo, defendi a tese de que as obras deviam ser analisadas em seu contexto, e n\u00e3o \u00e0 luz dos defeitos do homem que as produziu, pois se formos policiar o car\u00e1ter dos indiv\u00edduos para julgar o que fazem, ent\u00e3o praticamente n\u00e3o haver\u00e1 obra neste mundo que possa ser aceita, pois todos s\u00e3o, de alguma forma, moralmente reprov\u00e1veis, ainda que apenas pelo bolinho que roubaram da vendedora ambulante quando crian\u00e7as. Mas ser\u00e1 que eu tenho a coragem de pregar o mesmo no caso de um assassino que se torna escritor?<\/p>\n<p>No caso em quest\u00e3o eu n\u00e3o preciso me preocupar, porque o livro escrito pelo <i>serial killer<\/i> \u00e9 uma porcaria \u00f3bvia. Ou melhor, pensando bem, preciso preocupar-me sim, porque a hist\u00f3ria recente nos tem mostrado que porcarias \u00f3bvias est\u00e3o se transformando em livros muito vendidos e influentes. N\u00e3o cito nomes porque n\u00e3o estou a fim de levar pedradas hoje, mas provavelmente voc\u00ea que me l\u00ea deve ter na cabeceira pelo menos uma obra que, se algum dia acumular mais leituras, se envergonhar\u00e1 de admitir que leu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se a falta de qualidade da obra n\u00e3o nos permite afastar a possibilidade de que ela fa\u00e7a sucesso (da mesma forma que a picaretice da PublishAmerica n\u00e3o a impede de continuar tendo um grande n\u00famero de clientes at\u00e9 hoje), precisamos analisar o caso com aten\u00e7\u00e3o, e tr\u00eas perguntas se configuram:<\/p>\n<p>1 &#8211; \u00c9 aceit\u00e1vel que um criminoso tente tornar-se um artista? Vivemos a ilus\u00e3o de que a cadeia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que se prop\u00f5e a regenerar o criminoso. Ao mesmo tempo convivemos com a exist\u00eancia no mundo de penas capitais e de pris\u00e3o perp\u00e9tua, que negam a possibilidade de regenera\u00e7\u00e3o de alguns criminosos ou, alternativamente, negam a aceitabilidade de que, tendo cometido certos crimes especialmente graves, algu\u00e9m tenha o direito de querer regenerar-se. Existem at\u00e9 estudos psiqui\u00e1tricos fundamentando que certos indiv\u00edduos, os tais &#8220;sociopatas&#8221; seriam criminosos incur\u00e1veis. Temos ent\u00e3o duas posi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>A primeira nos diz que o indiv\u00edduo que comete um crime, qualquer crime, tem o direito de regenerar-se e eventualmente retornar ao conv\u00edvio da sociedade, tendo cumprido sua pena. Se aceitarmos esta tese como correta, ent\u00e3o n\u00e3o podemos negar a Charles Kembo o direito de aspirar a ser um escritor. Afinal, escrever \u00e9 um tipo de trabalho (ainda que muita gente ache que n\u00e3o), inclusive um que tem grande potencial para utiliza\u00e7\u00e3o em tratamento psicoter\u00e1pico ou psiqui\u00e1trico, devido \u00e0 possibilidade que oferece de se ter acesso aos processos mentais do paciente. Permitir que um criminoso escreva \u00e9 permitir que ele produz extenso material que pode ser utilizado para analisar seu comportamento e seus processos mentais, o que pode ser \u00fatil para definir se ele pode ser ressocializado.<\/p>\n<p>A segunda posi\u00e7\u00e3o nos diz que existem certos crimes para os quais n\u00e3o h\u00e1 e nem pode haver perd\u00e3o ou regenera\u00e7\u00e3o, apenas a vingan\u00e7a. Voc\u00ea comete o tal crime e a sociedade se vinga de voc\u00ea, aprisionando-o pelo resto da vida em um cub\u00edculo, com acesso controlado a todas as coisas que definem a vida livre de um cidad\u00e3o (ar puro, sol, liberdade de express\u00e3o, direito de ir e vir etc.), ou ent\u00e3o matando-o de forma mais (enforcamento, apedrejamento, garroteamento, empalamento, linchamento, afogamento, sufocamento) ou menos (envenenamento, guilhotinamento, fuzilamento) dolorosa. Nesse caso a pretens\u00e3o liter\u00e1ria de um condenado \u00e0 pena perp\u00e9tua \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o de sua reclus\u00e3o, e deve ser impedida.<\/p>\n<p>2 &#8211; Quais os riscos envolvidos em ler uma obra produzida por um criminoso? Esta pergunta embute o conceito de que as pessoas s\u00e3o influenci\u00e1veis por aquilo que leem, o que eu acho correto, e que os autores conseguem fazer com que suas obras influenciem os leitores sempre em uma dire\u00e7\u00e3o deliberada durante o ato da escrita, o que j\u00e1 acho altamente discut\u00edvel. O grande problema com esta pergunta \u00e9 que ela ignora um fato: n\u00e3o existe fundamentalmente nada diferente na mentalidade de um delinquente que n\u00e3o tenha pelo menos uma vez passado pela mente de algu\u00e9m que nunca delinquiu.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que algumas pessoas resolvem n\u00e3o fazer certa coisa, enquanto outras resolvem fazer. Podem existir raz\u00f5es que condicionam a escolha para uma dire\u00e7\u00e3o ou para outra, mas existe tamb\u00e9m a sublima\u00e7\u00e3o: a possibilidade de converter um impulso destrutivo em uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o destrutiva. Um piroman\u00edaco pode tornar-se um especialista em efeitos especiais, a fim de saciar sua vontade de ver as coisas queimando atrav\u00e9s da encena\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios em cen\u00e1rios. E uma pessoa com tend\u00eancias s\u00e1dicas pode contentar-se em escrever livros profundamente violentos, detalhando torturas e mutila\u00e7\u00f5es espantosas. Nesse sentido, pelo pouco que li dos dois, existe mais viol\u00eancia na obra de um autor incensado, como Chuck Palahniuk, do que na t\u00edmida obra infanto-juvenil de Charles Kembo. Ent\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que o perigo de uma obra escrita por um assassino em s\u00e9rie n\u00e3o est\u00e1 no seu conte\u00fado, visto que obras ainda mais violentas podem ser produzidas por pessoas de bem, que nunca fizeram mal a uma mosca. Se chegamos a esse ponto do racioc\u00ednio, fica a d\u00favida: qual seria, ent\u00e3o a natureza do perigo envolvido na leitura de uma tal obra?<\/p>\n<p>3 &#8211; Quais as motiva\u00e7\u00f5es pelas quais Charles Kembo escreveu sua obra? Esta terceira pergunta \u00e9 a consequ\u00eancia l\u00f3gica da d\u00favida mencionada no item anterior. Se nos parece \u00f3bvio que o livro escrito por um criminoso violento e impiedoso n\u00e3o possui elementos tais, evidentemente isso se deve \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es pelas quais a obra foi escrita. Quando Charles Kembo estava matando pessoas (sempre brancas, adultas e de classe m\u00e9dia para baixo) ele tinha um determinado recado para a sociedade. Agora que ele est\u00e1 escrevendo, pode ser que ele tenha outro recado, relacionado ou n\u00e3o. Se existe um recado subjacente, ent\u00e3o existe um perigo tamb\u00e9m: poderia o autor estar querendo passar algum tipo de mensagem codificada para algu\u00e9m fora da cadeia? Ou est\u00e1 apenas querendo atrair simpatia para sua causa? N\u00e3o custa lembrar que o famoso &#8220;Man\u00edaco do Parque&#8221; p\u00f4de escolher uma esposa entre centenas de candidatas, jovens bonitas e estudadas \u2014 e n\u00e3o precisou escrever nada.<\/p>\n<p>Penso que existem no mundo muitos livros mais perigosos do que qualquer obra escrita por um assassino confesso e condenado, como Charles Kembo (por quem, admito, desenvolvi certa simpatia ao escrever estes coment\u00e1rios). O autor dos &#8220;Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o&#8221; foi um funcion\u00e1rio p\u00fablico respeit\u00e1vel, que provavelmente morreu sem saber das consequ\u00eancias nefastas de seu pat\u00e9tico esfor\u00e7o para convencer o povo russo de que todos os males do pa\u00eds eram resultado de um compl\u00f4 secreto dos judeus. \u00c9 espantoso que tal livro tenha ensejado uma guerra mundial e justificado o massacre de dezenas de milh\u00f5es de judeus ao longo do s\u00e9culo XX (n\u00e3o estou me limitando aos judeus mortos pela Alemanha nazista, mas incluindo os linchados ou executados pela URSS, pela Turquia, pelas na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes ap\u00f3s a partilha da Palestina e at\u00e9 pelos EUA). Dificilmente a obra humilde de Charles Kembo provocar\u00e1 algo de tal gravidade \u2014 e eu duvido muito que seja esta a sua inten\u00e7\u00e3o, a menos que ele tenha uma personalidade de vil\u00e3o de desenho animado.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea j\u00e1 deve ter percebido, as respostas para estas tr\u00eas perguntas s\u00e3o dif\u00edceis. Para a primeira \u00e9 poss\u00edvel simplesmente deixar que cada leitor escolha uma, de acordo com suas opini\u00f5es. Mas para as duas outras n\u00e3o h\u00e1 como achar explica\u00e7\u00e3o, somente poder\u00edamos ter resposta se pud\u00e9ssemos ler a mente do autor.<\/p>\n<p>O resultado desta falta de solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o espanto com que contemplamos o esfor\u00e7o liter\u00e1rio de um condenado por tantas mortes. Cabe perguntar que tipo de gente se interessaria em ler tal livro? Que tipo de gente l\u00ea livros apelativos, pornogr\u00e1ficos, violentos? Que tipo de gente desenvolve simpatia por criminosos (a ponto at\u00e9 de querer casar com eles)? Que mundo \u00e9 esse, meu Deus?<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 sei de uma coisa: continuo mantendo a minha opini\u00e3o. A obra \u00e9 uma coisa separada do artista. N\u00e3o me importa se quem a produziu era o maior dos depravados, desde que a obra produzida seja boa. Eu at\u00e9 acho aceit\u00e1vel rejeitar obras que tenham sido produzidas especificamente atrav\u00e9s do crime (uma obra escrita, por exemplo, com o sangue das v\u00edtimas do assassino, ou o seu di\u00e1rio &#8220;de campo&#8221; seriam totalmente inaceit\u00e1veis), mas se a obra n\u00e3o est\u00e1 diretamente conectada, na posi\u00e7\u00e3o de &#8220;resultado&#8221; com o ato do criminoso, que mal h\u00e1 nela? Muitos autores foram, em algum momento de suas vidas, condenados (alguns at\u00e9 a morte). Tal condena\u00e7\u00e3o tem efeito retroativo para desqualificar as suas obras? Ou somente as obras produzidas depois dos crimes s\u00e3o &#8220;ruins&#8221;. Uma pessoa que comete crimes (especialmente crimes em s\u00e9rie) n\u00e3o tivera sempre dentro de si o impulso para o mal?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o quisermos ter que responder a estas quest\u00f5es bizantinas, teremos que nos contentar com a solu\u00e7\u00e3o pela simplicidade: julgue a obra por si, de forma que o autor possa at\u00e9 ser elevado ou rebaixado por ela, mas n\u00e3o deixemos que os erros ou acertos do autor interfiram nos erros ou acertos de sua obra. Pois, n\u00e3o custa lembrar, aquilo que \u00e9 v\u00e1lido para o mal igualmente vale para o bem: devemos ler avidamente os livros p\u00e9ssimos escritos por pessoas de \u00f3timo car\u00e1ter?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. 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