{"id":20,"date":"2013-06-09T23:23:00","date_gmt":"2013-06-10T02:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=20"},"modified":"2017-11-02T14:08:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:19","slug":"o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-2\/","title":{"rendered":"O Cen\u00e1rio como Elemento Central da Fic\u00e7\u00e3o de Clark Ashton-Smith [2]"},"content":{"rendered":"<p>Como vimos <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-1\/\">anteriormente<\/a>, caro leitor, em nossa an\u00e1lise do conto <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/traducao-a-paisagem-com-salgueiros-clark-ashton-smith\/\">A Paisagem com Salgueiros<\/a>, as obras de Clark Ashton-Smith diferem da maior parte da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ocidental por colocarem em primeiro plano a constru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, a ponto de o autor frequentemente transformar o pr\u00f3prio cen\u00e1rio em um personagem (como no citado conto). Esta n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o exclusiva sua, mas na \u00e9poca em que escreveu ainda eram poucos os autores que compartilhavam desta escolha. Mesmo nos g\u00eaneros fant\u00e1sticos os autores, em sua ampla maioria, tendiam a dedicar mais tempo a constru\u00e7\u00e3o dos personagens e seus conflitos. Como tamb\u00e9m vimos, a \u00eanfase no cen\u00e1rio (no caso de Ashton-Smith, em detrimento dos personagens) n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma marca de boa ou m\u00e1 qualidade, apenas uma caracter\u00edstica que merece ser analisada e que, no caso dele, devido a circunst\u00e2ncias que lhe s\u00e3o muito peculiares, resulta em uma obra <em>sui generis<\/em>.<\/p>\n<p>Continuando nossa an\u00e1lise da obra de Ashton-Smith, abordaremos mais especificamente tr\u00eas contos nos quais, a exemplo de A Paisagem com Salgueiros, o cen\u00e1rio \u00e9 a pr\u00f3pria motiva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a ponto de esta prescindir de um conflito ou de uma sinopse, rompendo radicalmente com certos concietos muito arraigados da cr\u00edtica liter\u00e1ria moderna, como a jornada do her\u00f3i. Refiro-me, especificamente, a <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/traducao-uma-noite-em-malneant-c-a-smith\/\">Uma Noite em Maln\u00e9ant<\/a>, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-abandonados-em-andromeda-clark-ashton-smith\/\">Abandonados em Andr\u00f4meda<\/a> e <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-as-abominacoes-de-yondo-clark-ashton-smith\/\">As Abomina\u00e7\u00f5es de Yondo<\/a>). <span>Se ainda n\u00e3o os leu, sugiro que o fa\u00e7a agora, pois este artigo cont\u00e9m <em>spoilers<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>As inclina\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de Ashton-Smith (que se dedicou principalmente \u00e0 escultura e \u00e0 pintura durante praticamente a metade de sua vida) explicam a sua obsess\u00e3o com detalhes e nos ajudam a compreender a riqueza de cores e formas e materiais com que ele faz suas descri\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o ajudam a entender os motivos pelos quais este detalhismo raramente \u00e9 estendido ao personagem. Tenho uma teoria para isso, um tanto ousada para algu\u00e9m que n\u00e3o tem nenhuma forma\u00e7\u00e3o em psicologia ou cr\u00edtica liter\u00e1ria: o autor estava interessado em descri\u00e7\u00f5es de paisagens e lugares para compensar a pobreza de suas experi\u00eancias sensoriais.<\/p>\n<p>Como vimos na <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/a-ficcao-de-clark-ashton-smith\/\">breve biografia<\/a> que lhe escrevi, com base nos textos da Wikipedia e do <a href=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\/\">Eldritch Dark<\/a> (que, por sua vez, dependem muito reciprocamente um do outro), Ashton-Smith nasceu, viveu e morreu em uma \u00e1rea relativamente restrita nas proximidades da costa da Calif\u00f3rnia, sem jamais deixar o estado, ou mesmo aventurar-se a mais que umas dezenas de quil\u00f4metros de Auburn, onde esteve baseado durante quase toda a sua vida. A paisagem domesticada, a falta de contato com culturas estrangeiras (a n\u00e3o ser por meio de livros ou pela intera\u00e7\u00e3o com os imigrantes) e a relativa falta de acontecimentos dignos de nota em sua biografia nos fazem pensar que Smith concebeu maravilhosos cen\u00e1rios ex\u00f3ticos para vivenciar neles, por meio de seus personagens, ex peri\u00eancias que ele mesmo n\u00e3o poderia vivenciar pessoalmente, dados os recursos parcos com que tinha de viver e a sua dificuldade pessoal para interagir com pessoas (h\u00e1 ind\u00edcios de que sua excessiva timidez possivelmemte tenha sido relacionada com algum tipo de s\u00edndrome cog\u00eanere do autismo, como Asperger, ficando descartada a possibilidade de quadros de depress\u00e3o pelos fatos conhecidos de sua biografia).<\/p>\n<p>Neste sentido, alguns de seus personagens poderiam ser <em>alter egos<\/em> seus, e isso de fato ocorre com relativa frequ\u00eancia, n\u00e3o necessariamente de forma restrita \u00e0s hist\u00f3rias narradas em primeira pessoa. Entre estes personagens, Gaspard du Nord (O Colosso de Ylourgne), Phillip Hastane (A Cidade da Chama Cantante, O Devoto do Mal, Genius Loci, Os Ca\u00e7adores do Al\u00e9m) e Henry Chaldane (A Prole Abomin\u00e1vel) s\u00e3o alguns dos candidatos \u00f3bvios. Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que as hist\u00f3rias ex\u00f3ticas de Smith contenham uma quantidade expressiva de alter egos seus (de fato, na maioria delas n\u00e3o parece haver um persoangem claramente identific\u00e1vel como tal). Este fato sugere que, para al\u00e9m do escapismo, exista outro fator atuante no exotismo, e uma vez mais a chave pode estar em A Paisagem com Salgueiros<\/p>\n<p>Nesto conto temos um personagem solit\u00e1rio, vinculado a um compromisso familiar (no caso, a educa\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o menor) que lhe impede de dar curso aos pr\u00f3prios desejos. Tal personagem, o desafortunado mandarim chin\u00eas a quem Ashton-Smith chamou de Shih Liang, \u00e9 o mais perfeito <em>alter ego<\/em> do autor, pois, em vez de se dedicar \u00e0s aventuras que o autor n\u00e3o pode viver, ele se dedica exatamente a um tipo de contempla\u00e7\u00e3o art\u00edstica que n\u00e3o difere muito daquela de Ashton-Smith (que, por sua vez, n\u00e3o p\u00f4de viver livremente pela necessidade de cuidar de seus idosos e fr\u00e1geis pais). Shih Liang vive a admirar uma pintura cara, herdada de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Ashton-Smith n\u00e3o tinha tal pintura para admirar, mas cria em suas hist\u00f3rias um simulacro de paisagens fant\u00e1sticas que ele podia contemplar da mesma forma que o mandarim. Em algumas destas paisagens ele claramente poderia desejar habitar, mas em sua maioria elas s\u00e3o apenas saudades artificais que s\u00e3o, para o autor, aquilo que a paisagem com salgueiros era para o mandarim chin\u00eas.<\/p>\n<p>Quando passamos a ver os cen\u00e1rios fant\u00e1sticos da obra de Ashton-Smith com os mesmos olhos com que Shih Liang encarava a sua paisagem com salgueiros, entendemos finalmente porque as descri\u00e7\u00f5es do autor s\u00e3o t\u00e3o profusas e ganham mais relevo do que qualquer desenvolvimento de personagem: n\u00e3o se trata meramente do estabelecimento de um cen\u00e1rio para situar a a\u00e7\u00e3o, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 concebido para ser meramente um pano de fundo, mas \u00e9 a pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser da hist\u00f3ria em si.<\/p>\n<p>Transpondo esta conclus\u00e3o para uma hist\u00f3ria como <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/traducao-uma-noite-em-malneant-c-a-smith\/\">Uma Noite em Maln\u00e9ant<\/a>, podemos ver como ela explica o desenvolvimento escolhido por Ashton-Smith para todo o texto. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma localiza\u00e7\u00e3o temporal para a hist\u00f3ria (que, no entanto, evoca de forma t\u00edmida um cen\u00e1rio medieval, o que nos remete ao ciclo de Averoigne) e tudo o que sabemos \u00e9 que o personagem narrador, cujo nome n\u00e3o \u00e9 nunca revelado, padece de um profundo complexo de culpa pelo suic\u00eddio de Mariel, uma jovem com quem estivera envolvido (e cujo t\u00edtulo de donzela sugere n\u00e3o ter havido jamais qualquer consuma\u00e7\u00e3o desse envolvimento afetivo). A partir deste t\u00eanue pano de fundo o autor come\u00e7a a desenvolver uma poderosa descri\u00e7\u00e3o de uma metr\u00f3pole on\u00edrica, aparentemente empo\u00e7ada no tempo e no espa\u00e7o, eternamente dedicada a velar a falecida Mariel como se fosse uma princesa morta. \u00c0 parte as poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es deste cen\u00e1rio funeral com qualquer epis\u00f3dio da biografia do autor (e este aspecto funeral ser\u00e1 explorado em outra oportunidade), o todo da hist\u00f3ria nos sugere a constru\u00e7\u00e3o de uma obra a ser admirada fixamente. O car\u00e1ter est\u00e1tico de Maln\u00e9ant sugere ser uma descri\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio vivamente imaginado por Ashton-Smith (mais tarde, em sua vida, ele passou a se dedicar primordialmente \u00e0 pintura e \u00e0 escultura, dando forma mais tang\u00edvel \u00e0s fortes imagens mentais que concebia). O nome escolhido, por sua vez, possui v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, sendo que <i>n\u00e9ant<\/i> significa nada em franc\u00eas. Considerando o parco conhecimento que o autor teve dessa l\u00edngua, \u00e9 poss\u00edvel que ele tenha imaginado <em>Maln\u00e9ant<\/em> como significando quase nada ou mal nenhum (a tradu\u00e7\u00e3o exata depende da profundidade do referido conhecimento). A impress\u00e3o que nos resta ao final do conto \u00e9 a de total ina\u00e7\u00e3o, como se nada tivesse realmente acontecido e tudo n\u00e3o passasse de uma breve alucina\u00e7\u00e3o do personagem-narrador, consumido pelo remorso. Mas a for\u00e7a da descri\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e sobre esta impress\u00e3o de falta de sentido e o conto acaba por ficar profundamente marcado na mente de quem o l\u00ea.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno semelhante se nota em <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-as-abominacoes-de-yondo-clark-ashton-smith\/\">As Abomina\u00e7\u00f5es de Yondo<\/a>, o primeiro conto fant\u00e1stico publicado por Ashton-Smith nas revistas pulp (e por isso dotado de uma significa\u00e7\u00e3o especial). Parece haver nesse texto uma inten\u00e7\u00e3o deliberada de construir um cen\u00e1rio n\u00e3o convencional, imaginando um mundo plano (pois tem uma borda que fica em um dos cantos e que est\u00e1 por isso mais pr\u00f3xima que qualquer outro lugar dos abismos inferiores) e um cen\u00e1rio absolutamente surrealista, onde convivem ru\u00ednas de civiliza\u00e7\u00f5es esquecidas, restos de mares evaporados, criaturas mutantes (algumas possivelmente de origem alien\u00edgena) e obras de feiti\u00e7aria. No entanto, este cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 aproveitado para desenvolver qualquer tipo de conflito vis\u00edvel. Todo o conflito da hist\u00f3ria se situa fora de Yondo (nome que certamente deriva do arcaico adv\u00e9rbio yonder, que significa distante ou al\u00e9m) e a presen\u00e7a do narrador no deserto \u00e9 apenas um intervalo de uma trama da qual sabemos muito pouco. Assim, o narrador entra e sai do deserto brevemente, no espa\u00e7o de um \u00fanico dia, trombando pelo caminho com uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos inexplicados at\u00e9 finalmente decidir retroceder e acertar suas contas com os Inquisidores de Yig. Por ser um conto produzido ainda no in\u00edcio da carreira de Ashton-Smith como ficcionista, esta obra cont\u00e9m imperfei\u00e7\u00f5es gritantes, das quais a mais evidente \u00e9 a falta de coer\u00eancia dos fatos em rela\u00e7\u00e3o ao tempo-espa\u00e7o, pois o narrador leva quase um dia inteiro penetrando no deserto para depois, no espa\u00e7o de poucas horas, conseguir retornar ao ponto de partida, estando j\u00e1 cansado e faminto. A incoer\u00eancia deste retorno \u00e9 a grande frustra\u00e7\u00e3o ao final, apesar da beleza das descri\u00e7\u00f5es feitas ao longo de todo o texto.<\/p>\n<p>Mas o ponto mais alto do talento descritivo de Ashton-Smith se encontra mesmo em Abandonados em Andr\u00f4meda. Praticamente uma noveleta (por alcan\u00e7ar mais de 50 p\u00e1ginas), esta obra consegue um feito raro no \u00e2mbito da fic\u00e7\u00e3o curta: a concep\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o de todo um cen\u00e1rio alien\u00edgena. O segundo planeta de Delta Andr\u00f4meda \u00e9 descrito de forma t\u00e3o eficiente pelo autor que quase podemos nos imaginar em sua paisagem \u00e1rida e desolada, habitada por formas de vida surpreendentes e hostis. O feito ainda \u00e9 mais admir\u00e1vel pelo fato de que a hist\u00f3ria n\u00e3o se restringe a uma \u00fanica paisagem, o que j\u00e1 seria em si surpreendente, mas abarca uma sucess\u00e3o de cen\u00e1rios, que incluem at\u00e9 mesmo um tipo de floresta tropical e uma ilha no meio de um mar seco, sobre a qual existem ru\u00ednas de uma misteriosa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a dentro de uma espa\u00e7onave onde ocorreu uma tentativa de motim, e o duro capit\u00e3o Volmar decreta que os rebelados ser\u00e3o abandonados (n\u00e3o existe tradu\u00e7\u00e3o exata em portugu\u00eas para o termo marooned, que evoca um ato de pirataria) em um planeta qualquer. A a\u00e7\u00e3o transcorrida dentro da espa\u00e7onave serve apenas de pr\u00f3logo para o que se ver\u00e1 a seguir, a partir do momento em que os amotinados; Albert Adams, Chester Deming e James Roverton; s\u00e3o deixados em uma plan\u00edcie desolada no lado noturno de um planeta alien\u00edgena sem terem consigo nem armas e nem provis\u00f5es. \u00c9 neste momento que Ashton-Smith consegue se ombrear com os grandes nomes da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, criando uma atmosfera sufocante de suspense que poucos autores s\u00e3o capazes de imaginar. Este \u00e9, sem d\u00favida, o tipo de texto que motivou H.\u00a0P.\u00a0Lovecraft a elogi\u00e1-lo em O Horror Sobrenatural na Literatura, dizendo que<\/p>\n<blockquote><p>Entre os americanos mais jovens, ningu\u00e9m executa a nota de horror c\u00f3smico t\u00e3o bem quanto o poeta, artista pl\u00e1stico e ficcionista californiano Clark Ashton Smith, cuja escrita, desenhos, pinturas e hist\u00f3rias bizarras s\u00e3o um deleite para os poucos que t\u00eam sensibilidade para tal. [\u2026] Por sua ousada estranheza demon\u00edaca e a fertilidade de concep\u00e7\u00e3o, o Sr. Smith talvez n\u00e3o seja igualado por nenhum outro autor, vivo ou morto.<\/p><\/blockquote>\n<p>Diante da imensidade do terror que assola os tr\u00eas personagens, de quem, ali\u00e1s, muito pouco se falara al\u00e9m dos nomes, n\u00e3o sobra mais tempo para explorar conflitos entre eles (ali\u00e1s, \u00e9 bastante veross\u00edmil imaginar que, em tal situa\u00e7\u00e3o, tr\u00eas pessoas tendessem a agir de forma unida como fazem os protagonistas) ou para que conversem sobre antigas namoradas ou tempos de escola. A a\u00e7\u00e3o transcorre em um ritmo alucinante, interrompido apenas pela noite de sono que os protagonistas experimentam entre os pigmeus \u2014 e mesmo esta \u00e9 induzida pela bebida que tomam. Cada um dos cen\u00e1rios \u00e9 detalhadamente descrito, tornando poss\u00edvel que seja at\u00e9 mesmo tra\u00e7ado por um leitor mais dotado de talento para o desenho.<\/p>\n<p>Abandonados em Andr\u00f4meda \u00e9, ali\u00e1s, um entre muitos dos contos de Smith que adota um desenvolvimento circular, fazendo com que os personagens retornem ao ponto de partida, ainda que modificados pelas experi\u00eancias vividas. Estrutura semelhante j\u00e1 se nota nos dois outros contos comentados (Yondo e Maln\u00e9ant), mas se repete em v\u00e1rios outros, traduzidos (<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/traducao-o-demonio-da-flor-c-a-smith\/\">O Dem\u00f4nio da Flor<\/a>) ou n\u00e3o (A Ilha que N\u00e3o Estava no Mapa, Uma Aventura no Futuro, Uma Mudan\u00e7a de Estrela, As Mulheres Flor e O Colosso de Ylourgne \u2014 nesse caso o aspecto c\u00edclico apenas se insere no plano geral da hist\u00f3ria). Este car\u00e1ter circular da hist\u00f3ria serve ainda mais para enfatizar a import\u00e2ncia da experi\u00eancia em si, descrita em min\u00facias, diminuindo a import\u00e2ncia do desfecho, que serve apenas para completar o ciclo.<\/p>\n<p>Assim, quando os sobreviventes s\u00e3o resgatados pelo arrependido capit\u00e3o Volmar (cujo arrependimento, ali\u00e1s, \u00e9 motivado por raz\u00f5es pr\u00e1ticas e n\u00e3o \u00e9ticas), eles deixam o planeta sem dele levar qualquer memento a n\u00e3o ser as lembran\u00e7as (e traumas) das experi\u00eancias nele vividas. Da mesma maneira que o torturado her\u00f3i das Abomina\u00e7\u00f5es de Yondo ou o enlutado protagonista de Uma Noite em Maln\u00e9ant. O que muda \u00e9 a atitude dos protagonistas em rela\u00e7\u00e3o a esta falta. Certamente o her\u00f3i que foge de Yondo fica feliz por nada trazer, os amotinados de Andr\u00f4meda talvez futuramente se arrependam de terem desperdi\u00e7ado a oportunidade de fazer mais estudos cient\u00edficos e o visitante de Maln\u00e9nat decerto gostaria de ter trazido algo de l\u00e1.<\/p>\n<p>Em todos os tr\u00eas casos, por\u00e9m, o cen\u00e1rio em que a hist\u00f3ria se desenrola \u00e9 mais importante do que os personagens, e foi certamente concebido muito antes que eles. Prova disso \u00e9 a possibilidade de reutilizar estes cen\u00e1rios em obras derivadas (algo que, at\u00e9 o momento, s\u00f3 ocorreu com Maln\u00e9ant, revisitada por outros autores) de uma forma relativamente f\u00e1cil. Como os cen\u00e1rios n\u00e3o dependem essencialmente dos personagens, \u00e9 poss\u00edvel colocar outros personagens neles, e assim conceber hist\u00f3rias radicalmente diferentes. Eu, particularmente, gostaria muito de saber mais sobre o segundo planeta do sistema Delta Andromed\u00e6. Quem ousar\u00e1 escrever?<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como vimos anteriormente, caro leitor, em nossa an\u00e1lise do conto A Paisagem com Salgueiros, as obras de Clark Ashton-Smith diferem da maior parte da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ocidental por colocarem em primeiro plano a constru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, a ponto de o autor frequentemente transformar o pr\u00f3prio cen\u00e1rio em um personagem (como no citado conto). Esta n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o exclusiva sua, mas na \u00e9poca em que escreveu ainda eram poucos os autores que compartilhavam desta escolha. 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