{"id":203,"date":"2011-10-31T19:30:00","date_gmt":"2011-10-31T22:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=203"},"modified":"2017-11-02T14:09:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:05","slug":"carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-1\/","title":{"rendered":"Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque &#8211; Parte 1"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-indice\/\">Voltar ao \u00cdndice<\/a><\/div>\n<p>Discutir o tema &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; \u00e9 clamar por encrenca. Como toda &#8220;buzzword&#8221; da era da internet, &#8220;e-book&#8221; \u00e9 um conceito que adquiriu uma aura de dogma e qualquer tentativa de dissens\u00e3o resulta em an\u00e1tema. Ali\u00e1s, qualquer pessoa que se preocupe com &#8220;firulas&#8221; como &#8220;privacidade&#8221; e &#8220;direitos&#8221; acaba sendo tachada de coisas horr\u00edveis, tal como fazem com o Richard Stallman \u2014 um sujeito brilhante, embora pouco h\u00e1bil para cativar as pessoas pela simpatia, ingenuamente imaginando que as pessoas s\u00e3o racionais e compreendem argumentos l\u00f3gicos. Richard Stallman \u00e9 uma verdadeira geni da era da Internet, tudo porque h\u00e1 trinta anos ele se insurge contra praticamente tudo quanto \u00e9 novidade alardeada pelo &#8220;mercado&#8221;. At\u00e9 hoje ele esteve certo todas as vezes. E eu, como n\u00e3o me incomodo em perder mais dois ou tr\u00eas de meus leitores, ouso aqui entrar em mais um terreno pantanoso.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>O principal texto de Stallman que interessa ao tema se chama <a href=\"http:\/\/www.gnu.org\/philosophy\/right-to-read.pt-br\">&#8220;The Right to Read&#8221; (&#8220;O Direito de Ler&#8221;)<\/a>. Trata-se de um conto de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no qual um jovem apaixonado por uma colega de classe pobre enfrenta um dilema existencial: ajud\u00e1-la a estudar para a prova, emprestando-lhe seus livros eletr\u00f4nicos (e assim cometendo um crime), ou negar-se a isso, cumprir a lei e perder a oportunidade de cativar a garota de seus sonhos. Sob a capa deste dilema t\u00e3o comezinho est\u00e1 a quest\u00e3o do &#8220;Gerenciamento de Direitos Digitais&#8221; (ou &#8220;Digital Rights Management \u2014 DRM&#8221;, como preferem os angl\u00f3filos): ao impedir a c\u00f3pia de um arquivo digital, n\u00e3o fica apenas impedida a difus\u00e3o sem pagamento das obras publicadas, mas fica tamb\u00e9m impossibilitada uma tradi\u00e7\u00e3o de s\u00e9culos: o empr\u00e9stimo e\/ou doa\u00e7\u00e3o de livros. Na escola do futuro descrita no conto de Stallman, os alunos precisam pagar por todos os livros pedidos no curr\u00edculo. N\u00e3o existe para eles a op\u00e7\u00e3o de ir \u00e0 biblioteca da escola e consult\u00e1-los l\u00e1, gratuitamente.<\/p>\n<p>A leitura desta hist\u00f3ria, em 2002, deixou uma impress\u00e3o forte em mim. Primeiro porque sou f\u00e3 de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desde meus tempos de moleque, quando assisti, cheio de l\u00e1grimas nos olhos, &#8220;Contatos Imediatos do Terceiro Grau&#8221;. Segundo porque, sendo eu um usu\u00e1rio de Linux, as ideias de Stallman est\u00e3o muito mais pr\u00f3ximas de mim do que de um usu\u00e1rio comum de Windows: Linux n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sistema operacional, mas uma ideologia sobre como deveria ser o mundo. A ideologia foi dada justamente por Stallman, em 1984, quando abandonou o emprego no MIT para criar um sistema operacional inteiramente livre, dando origem, assim, \u00e0 FSF (&#8220;Free Software Foundation&#8221; \u2014 &#8220;Funda\u00e7\u00e3o em prol do Software Livre&#8221;). Muita \u00e1gua rolou de l\u00e1 para c\u00e1 sob a ponte.<\/p>\n<p>Uma ideia \u00e9 algo muito poderoso. Depois que voc\u00ea tem contato com ela, depois que voc\u00ea a entende e assimila, ser\u00e1 preciso muito mais do que um argumento racional para retir\u00e1-la de seu castelo no fundo de sua alma. Porque ideias n\u00e3o plantam apenas conceitos, mas desconfian\u00e7as. Stallman plantou em mim a salutar desconfian\u00e7a de que as poucas e poderosas empresas que dominam o mercado mundial de computadores e de programas para computadores n\u00e3o est\u00e3o interessadas em construir uma democracia mais bonita, um mundo de fartura e alegria, etc. Empresas est\u00e3o interessadas em dinheiro, e sem a focinheira do Estado em suas bocas, elas comer\u00e3o tudo. N\u00e3o foi um comunista barbudo que disse que &#8220;n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis&#8221;, mas um expoente do pensamento liberal, Milton Friedman. Stallman \u00e9 barbudo e suas ideias muitas vezes tangenciam o comunismo, mas ele concorda com Friedman: tudo que existe de gra\u00e7a relacionado a computadores est\u00e1 interessado em conhecer e controlar voc\u00ea. Com esse conhecimento e esse controle \u00e9 que as empresas ganham rios de dinheiro.<\/p>\n<p>O mundo j\u00e1 foi um lugar mais simples para os escritores. A chance de ser publicado era \u00ednfima, claro, mas o mundo era mais livre, pois cada um era dono do pr\u00f3prio caderno e da pr\u00f3pria m\u00e1quina de escrever. N\u00e3o era preciso pagar aluguel pelo uso da estante, nem temer que um texto pela metade evaporasse sem rem\u00e9dio por causa da falha de um programa mal escrito. E quando o autor chegava a ter seu livro publicado, tinha a garantia de que ele existiria fisicamente por d\u00e9cadas a frente, que n\u00e3o desapareceria se simplesmente a editora se arrependesse de t\u00ea-lo publicado. Para quem chegava a obter o sucesso, especialmente nos pa\u00edses mais est\u00e1veis, como os Estados Unidos, d\u00e9cadas de direitos autorais poderiam assegurar a profissionaliza\u00e7\u00e3o. Era um mundo excludente, que s\u00f3 funcionava para poucos, mas ningu\u00e9m acha a loteria injusta s\u00f3 porque os vencedores s\u00e3o raros.<\/p>\n<p>Acontece que este mundo, bom ou mau, est\u00e1 caqu\u00e9tico, prestes a perder os \u00faltimos dentes. Dentro de poucos anos ser\u00e1 inimagin\u00e1vel esperar ter uma carreira como a de um Stephen King ou mesmo a de um Graham Greene. Isto ocorre porque o &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; (ou &#8220;e-book&#8221;, como preferem os angl\u00f3filos) possui um car\u00e1ter totalmente diferente do livro tradicional, tal como a fotografia \u00e9 outra coisa, quando comparada com a pintura a \u00f3leo sobre tela, que era a principal express\u00e3o art\u00edstica mundial antes do s\u00e9culo XX. Vivemos agora a transi\u00e7\u00e3o entre os dois mundos, n\u00e3o temos ainda como prever como ser\u00e1 o futuro &#8220;fotogr\u00e1fico&#8221; da literatura, mas j\u00e1 sabemos que n\u00e3o ser\u00e1 como o passado, e que isso n\u00e3o ser\u00e1 necessariamente bom.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima postagem continuarei destrinchando este tema, abordando a quest\u00e3o do &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; como um conceito repressivo, comparado com o tradicional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar ao \u00cdndice Discutir o tema &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; \u00e9 clamar por encrenca. Como toda &#8220;buzzword&#8221; da era da internet, &#8220;e-book&#8221; \u00e9 um conceito que adquiriu uma aura de dogma e qualquer tentativa de dissens\u00e3o resulta em an\u00e1tema. 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