{"id":2040,"date":"2014-11-30T09:23:41","date_gmt":"2014-11-30T12:23:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2040"},"modified":"2017-08-13T00:18:28","modified_gmt":"2017-08-13T03:18:28","slug":"os-oportunistas-atacam-novamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/11\/os-oportunistas-atacam-novamente\/","title":{"rendered":"Os Oportunistas Atacam Novamente"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a morte do ator e produtor mexicano Roberto G\u00f3mez Bola\u00f1os; criador dos personagens Chaves, Chespirito, Chapolin e outros menos conhecidos; a imprensa nacional ecoou uma s\u00e9rie de elogios disparatados, que n\u00e3o condizem com a import\u00e2ncia limitada do homenageado &#8212; que, malgrado seu apelido, n\u00e3o \u00e9 nenhum Shakespeare moreno. Da mesma forma, surgiram artigos pretensiosos; que n\u00e3o vou linkar e nem citar, para n\u00e3o dar holofotes a quem n\u00e3o os merece; com cr\u00edticas maliciosas ao trabalho de Bola\u00f1os, cobrando-lhe uma coer\u00eancia e uma qualidade que ele n\u00e3o apenas n\u00e3o expressou (dadas as limita\u00e7\u00f5es com que foi for\u00e7ado a trabalhar) como n\u00e3o poderia expressar (considerando a sua forma\u00e7\u00e3o e os aspectos mais, digamos, ideol\u00f3gicos, do contexto em que criou).<\/p>\n<p>\u00c9 uma bizarrice querer enxergar em Bola\u00f1os algo al\u00e9m do que ele foi: um humorista simpl\u00f3rio que apenas produziu um trabalho de relativa qualidade a partir da escassez de recursos que tinha \u00e0 m\u00e3o. Nunca \u00e9 demais lembrar que ele trabalhou em uma televis\u00e3o monopolista (a Televisa) em um regime pol\u00edtico praticamente de partido \u00fanico (o M\u00e9xico do PRI) e que ele n\u00e3o conseguiu (e nem lhe teria sido permitido) apresentar qualquer questionamento pol\u00edtico ou social relevante atrav\u00e9s de sua obra. Neste sentido, seu trabalho pode, e deve, ser reduzido ao que \u00e9: parte da cultura de entretenimento tolerada e\/ou promovida por um regime pol\u00edtico pouco democr\u00e1tico. No M\u00e9xico ele n\u00e3o \u00e9 levado a s\u00e9rio, por mais querido que seja, mas no Brasil, como se pode detectar em uma r\u00e1pida pesquisa ao Google Scholar, ele foi assunto de numerosos estudos eruditos, tais como:<\/p>\n<p>* [Representa\u00e7\u00f5es Simb\u00f3licas da Sociedade](http:\/\/www.unicesumar.edu.br\/pesquisa\/periodicos\/index.php\/iccesumar\/article\/viewArticle\/1394) por Prado, L.S.G. e Gomes, A.C.F.<br \/>\n* [Tend\u00eancias de tradu\u00e7\u00e3o de mexicanismos em roteiros e epis\u00f3dios das s\u00e9ries televisivas Chaves e Chapolin](https:\/\/repositorio.ufsc.br\/handle\/123456789\/122579) por Santos, O.M.<br \/>\n* [A Vila \u00e9 o Mundo: o seriado \u201cChaves\u201d como express\u00e3o do conceito de glocalidade](http:\/\/www.intercom.org.br\/papers\/regionais\/sudeste2012\/resumos\/R33-0943-1.pdf) por Martins, R.B.F. e Caleiro, M.M.<br \/>\n* [O seriado Chaves: da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o do povo mexicano durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980](http:\/\/periodicos.pucminas.br\/index.php\/historiaemcurso\/article\/view\/3449)<br \/>\n* [Comunica\u00e7\u00e3o e complexidade: uma leitura semiol\u00f3gica do programa do Chaves])<\/p>\n<p>Mas se tem tanta gente falando mal do Roberto Bola\u00f1os porque ele, do seu jeito simples, despretensioso e brega, parece que adquiriu relev\u00e2ncia cultural &#8212; comprovada pela profus\u00e3o de estudos citada acima.<\/p>\n<p>&#8220;Relev\u00e2ncia cultural&#8221; nada tem a ver com qualidade objetiva (e &#8220;qualidade&#8221; \u00e9, em si mesma, um conceito muito fluido). As obras de Bola\u00f1os n\u00e3o se tornaram relevantes por serem representa\u00e7\u00f5es altamente art\u00edsticas da identidade latino-americana (ainda que os eruditos sempre resistam a considerar o humorismo como uma forma elevada de arte), mas por serem representa\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas, contextualizadas e originais. Sim, originais. H\u00e1 algo na obra de Bola\u00f1os que n\u00e3o est\u00e1 no resto da produ\u00e7\u00e3o televisiva latino-americana (e muito menos est\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o televisiva brasileira). Este &#8220;algo&#8221; explica o interesse da academia por estes simpl\u00f3rios seriados.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia n\u00e3o tem a ver com altas complexidades metaf\u00edsicas, mas com o seu sucesso em expressar recortes da realidade latino-americana (mexicana em especial) de uma forma que normalmente ningu\u00e9m expressa. Em geral os produtores de conte\u00fado latino-americanos se preocupam em macaquear a Europa e os EUA ao ponto de desenvolverem uma cegueira seletiva para a pr\u00f3pria identidade, aos poucos se envergonham dela, e quando ela surge, varrem-na para debaixo do tapete. Nas novelas, brasileiras e mexicanas, as metr\u00f3poles s\u00e3o apresentadas de uma forma sanitizada, sem favelas, sem mendigos, sem crime, a n\u00e3o ser quanto estes elementos s\u00e3o necess\u00e1rios \u00e0 trama. Finge-se uma harmonia social, uma estabilidade ecol\u00f3gica e uma aus\u00eancia de v\u00edcios &#8212; j\u00e1 que estes sempre s\u00e3o apresentados como exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9, talvez, na novela brasileira que essa harmonia est\u00e1 mais pr\u00f3xima da ruptura, por causa da op\u00e7\u00e3o &#8220;realista&#8221; de nossos noveleiros dos anos 70 (op\u00e7\u00e3o esta que se explica pelo contexto da ditadura). Mas que n\u00e3o se procure isto na &#8220;grande produ\u00e7\u00e3o&#8221; cultural. Os seriados televisivos, os filmes. A n\u00e3o ser aqueles que objetivamente tratam do subdesenvolvimento, os demais o ignoram. Ignoram, principalmente, a rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o intelectual e cultural aos centros externos (Europa e EUA).<\/p>\n<p>Bola\u00f1os n\u00e3o, criou personagens miser\u00e1veis, toscos, frutos da pobreza (mas n\u00e3o da incultura, alto l\u00e1), do improviso e da fragilidade de nossa condi\u00e7\u00e3o humana colonizada. Nesse sentido eu acho que o trabalho dele ecoa, em outro contexto, mas com o mesmo tipo de mecanismo, o do Jos\u00e9 Mojica Marins (Z\u00e9 do Caix\u00e3o). Ambos foram artistas m\u00faltiplos: roteiristas, diretores, atores. Bola\u00f1os, mais competente no lado negocial, conseguiu monetizar suas cria\u00e7\u00f5es (ainda que ao custo de amizades), mas em ess\u00eancia o que ambos fizeram tem pontos de contato: sua produ\u00e7\u00e3o se baseia na ignor\u00e2ncia positiva.<\/p>\n<p>&#8220;Ignor\u00e2ncia positiva&#8221; \u00e9 a desconsidera\u00e7\u00e3o deliberada das conven\u00e7\u00f5es culturais com que os demais artistas trabalham. Em Mojica, esta ignor\u00e2ncia se reflete no desenvolvimento de t\u00e9cnicas totalmente amadoras e inovadoras para a constru\u00e7\u00e3o de roteiros e at\u00e9 para o treinamento de atores. Autodidata em tudo e ignorante de muita coisa, Mojica pode ser considerado um cineasta &#8220;na\u00eff&#8221; e o seu trabalho, por n\u00e3o partir de nenhuma li\u00e7\u00e3o can\u00f4nica de cinema, ao mesmo tempo em que recai nas mais diversas armadilhas, tamb\u00e9m encontra as mais incr\u00edveis solu\u00e7\u00f5es. No caso de Bola\u00f1os, ao jogar para o alto todas as conven\u00e7\u00f5es da televis\u00e3o mexicana e produzir um humor altamente teatral, ing\u00eanuo e amador\u00edstico (os atores dos seriados eram, todos, originalmente amadores); Bola\u00f1os conseguiu captar aquilo que a televis\u00e3o mexicana deliberadamente idealizava, escondia ou procurava perverter: a alma mexicana.<\/p>\n<p>Algo da espontaneidade de Bola\u00f1os pode ser tamb\u00e9m encontrado em alguns dos melhores momentos de &#8220;Os Trapalh\u00f5es&#8221; antes da crise entre Renato Arag\u00e3o e os demais participantes &#8212; crise esta que, curiosamente, espelha e evoca a crise entre Bola\u00f1os e alguns de seus atores, como Rub\u00e9n Aguirre (Jirafales), Mar\u00eda Antonieta de las Nieves (Chiquinha) e Carlos Villagr\u00e1n (Quico). Ali\u00e1s, entre os participantes do programa, Bola\u00f1os praticamente s\u00f3 conservou a amizade de Edgar Vivar (Senhor Barriga) e Florinda Meza (ex-mulher de Villagr\u00e1n, com quem acabou mais tarde se casando).<\/p>\n<p>Dizer que o trabalho de Bola\u00f1os entrar\u00e1 para a hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o prematuro quanto descart\u00e1-lo como irrelevante. O que \u00e9 certo \u00e9 que o sucesso duradouro de Chaves e Chapolim \u00e9 um sintoma de que o povo se identifica com estes personagens ainda, tantos anos ap\u00f3s a produ\u00e7\u00e3o destas s\u00e9ries. A persist\u00eancia desta identifica\u00e7\u00e3o, por sua vez, diz muito sobre a incapacidade de recentes produ\u00e7\u00f5es para sensibilizarem o povo da mesma forma. A morte f\u00edsica de Bola\u00f1os (artisticamente ele j\u00e1 estava aposentado h\u00e1 muito tempo) deixa um espa\u00e7o vazio que ningu\u00e9m sequer procurou preencher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a morte do ator e produtor mexicano Roberto G\u00f3mez Bola\u00f1os; criador dos personagens Chaves, Chespirito, Chapolin e outros menos conhecidos; a imprensa nacional ecoou uma s\u00e9rie de elogios disparatados, que n\u00e3o condizem com a import\u00e2ncia limitada do homenageado &#8212; que, malgrado seu apelido, n\u00e3o \u00e9 nenhum Shakespeare moreno. Da mesma forma, surgiram artigos pretensiosos; que n\u00e3o vou linkar e nem citar, para n\u00e3o dar holofotes a quem n\u00e3o os merece; com cr\u00edticas maliciosas ao trabalho de Bola\u00f1os, cobrando-lhe uma coer\u00eancia e uma qualidade que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[186],"tags":[77,97,23,85],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2040"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2040"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4671,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2040\/revisions\/4671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}