{"id":210,"date":"2011-10-17T19:40:00","date_gmt":"2011-10-17T22:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=210"},"modified":"2018-03-15T20:39:11","modified_gmt":"2018-03-15T23:39:11","slug":"um-conto-pos-apocaliptico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/um-conto-pos-apocaliptico\/","title":{"rendered":"Novos C\u00e9us, Nova Terra"},"content":{"rendered":"<p>Jesus desceu de seu trono na cidade de Jerusal\u00e9m, a Nova Jerusal\u00e9m, noiva de Deus, cal\u00e7ou as suas antigas sand\u00e1lias de pescador galileu e saiu pelas ruas pavimentadas de jaspe e \u00f4nix, ocultando sua gl\u00f3ria em um manto de humildade.<\/p>\n<p>Por toda a cidade reinava um estranho clima de eterna festa, e todos os seus cidad\u00e3os iam vestidos \u00e0 mesma maneira, com id\u00eanticos cortes de cabelo. Todos levavam nos seus rostos uniformizados sorrisos muito limpos, de dentes muito alvos.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nenhuma imund\u00edcie no ch\u00e3o ou nas paredes, pois n\u00e3o se comia e nem se excretava e todos os animais que chafurdavam na sujeira haviam sido extintos. Pairava no ar um aroma suavemente resinoso, de cedro verde e oliveiras maduras.<\/p>\n<p>Mas Jesus n\u00e3o se sentia bem, enojava-se do perfume leve que embebia a tudo e, em meio a toda aquela in\u00f3cua e inocentada alegria, sentia-se deslocado. Haviam se passado setenta e sete semanas desde o triunfo final contra Satan\u00e1s e seus dem\u00f4nios, e desde ent\u00e3o nada acontecera de importante. Talvez tenha sido esse t\u00e9dio o que levou Jesus a lembrar com saudades, muitos milhares de anos depois de sua exist\u00eancia carnal, coisas simples e terrenas como uma ta\u00e7a de vinho morno, o p\u00e3o ainda quente, a brisa arrulhante do lago \u00e0 tarde; ou o perfume dos cabelos negros de Maria Madalena.<\/p>\n<p>Ela certamente residia em Nova Jerusal\u00e9m, junto de milhares de pessoas indistingu\u00edveis e felizes. Dif\u00edcil era saber onde estaria, entre tantos rostos igualados, mem\u00f3rias terraplenadas, m\u00e9ritos igualados a for\u00e7a de um Ju\u00edzo. No novo mundo n\u00e3o havia necessidade de casas pois n\u00e3o se dormia ou comia ou se fazia amor. Eram todos ang\u00e9licos e s\u00f3 contemplavam o amor a Jav\u00e9, o Eterno e Todo-Poderoso. A pr\u00f3pria exist\u00eancia da cidade era uma ostenta\u00e7\u00e3o sem sentido, pensava Jesus, pois nem a carne e nem o sangue deveriam ter herdado o Reino. Puros e in\u00f3cuos, os habitantes da Noiva de Jav\u00e9 n\u00e3o sabiam o que era chorar, e tampouco sabiam quem haviam sido.<\/p>\n<p>A caminho de onde tentaria achar Madalena, Jesus encontrou Zaqueu, em meio a um bando de seres que flanava a esmo pelas ruas. Aquele que fora um dia um pequenino judeu, de pequeninas preocupa\u00e7\u00f5es, ali estava t\u00e3o mudado e irreconhec\u00edvel que somente aquele que era um com o Pai o poderia ter identificado.<\/p>\n<p>\u2014 Zaqueu, amigo, h\u00e1 quanto tempo!?<\/p>\n<p>\u2014 Quem sois v\u00f3s? \u2014 indagou o belo e ins\u00edpido ser.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m que  no mundo conheceste como mestre e que te chamou de amigo.<\/p>\n<p>Zaqueu olhou inexpressivamente para o rosto de Jesus, sem conseguir reconhec\u00ea-lo. S\u00f3 ent\u00e3o Jesus se lembrou que havia sido apagada a mem\u00f3ria de todos os resgatados, para que pudessem ser limpos de todo pranto e de toda l\u00e1grima. Se tivessem lembran\u00e7as, certamente teriam d\u00favidas, teriam motivos para sofrer. Somente o esquecimento asseverava a liberdade. Sem o esquecimento haveria a saudade de algum amigo, amante ou parente \u2014 certamente destinados \u00e0 fornalha de fogo, junto com o Drag\u00e3o que era chamado de Satan\u00e1s ou L\u00facifer.<\/p>\n<p>Nesse momento Jesus se desinteressou de Maria Madalena. De que adiantaria encontr\u00e1-la naquele estado vegetativo e ambulante? Ergueu seus olhos para o c\u00e9u, vendo a leste um pilar de fuma\u00e7a que se erguia do Geena. L\u00e1 estava o po\u00e7o imenso de piche e betume, de fogo e de enxofre, no qual os corpos e as almas dos perdidos sofriam a tortura eterna da ira de Deus.<\/p>\n<p>\u00danico habitante da Nova Jerusal\u00e9m que n\u00e3o tivera o seu cora\u00e7\u00e3o lavado de toda lembran\u00e7a, Jesus sentiu um calafrio ao pensar na escala inomin\u00e1vel dos terrores que aconteciam debaixo daquele cinzento pilar de fuma\u00e7a, que brilhava \u00e0 noite na dire\u00e7\u00e3o de onde nascia o sol, tal como um dia brilhara \u00e0 frente dos acampamentos dos israelitas outro pilar de fuma\u00e7a e fogo que os levava pelo deserto. Certamente alguns dos que l\u00e1 estavam haviam feito por merecer, alguns haviam sido piores do que L\u00facifer e seus dem\u00f4nios. Mas, ah, quantos l\u00e1 n\u00e3o estavam por raz\u00f5es pequenas, caprichos da lei, que ningu\u00e9m nunca compreendera, como aquela hist\u00f3ria de n\u00e3o cozinhar o cabritinho no leite da cabra ou n\u00e3o poder comer p\u00e3o com fermento em certas \u00e9pocas. Ou prefer\u00eancias sexuais que nem faziam sentido no estado ang\u00e9lico. Ou apenas por n\u00e3o terem amado a Deus com suficiente abandono. Por outro lado, Jesus se incomodava com a presen\u00e7a, em Nova Jerusal\u00e9m, de tantas pessoas arrependidas de \u00faltima hora, ainda a muito custo ocultando nos corpos o perfume da morte ou da deprava\u00e7\u00e3o, apesar de insistentemente lavados no sangue do cordeiro.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo com Zaqueu o fizera desistir de encontrar Maria Madalena. Teria sido in\u00fatil v\u00ea-la, pois ela j\u00e1 n\u00e3o se lembraria dos antigos dias \u00e0s margens do Genesar\u00e9, comendo figos frescos com mel e ouvindo as belas f\u00e1bulas que um Jesus de barba ainda n\u00e3o t\u00e3o cerrada lhe contava. Entediado, retornou ao seu Trono de Gl\u00f3ria, tentando divertir-se com o ritual preciso das louva\u00e7\u00f5es dos querubins e dos vinte e quatro anci\u00f5es. Ent\u00e3o, ao contemplar o mar de vidro, sua mente se nublou com a lembran\u00e7a do lago de fogo e enxofre.<\/p>\n<p>Abandonando a sala no meio da louva\u00e7\u00e3o dos anjos e dos santos, chegou \u00e0 janela e observou a negra coluna de fuma\u00e7a que se erguia a sudeste, no horizonte. Uma l\u00e1grima de sangue se formou no seu olho direito ao ver aquele penacho escuro e feio que maculava a limpeza perfeita do horizonte da Nova Terra e do Novo C\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus, Meu Deus, por que os abandonaste? \u2014 ele se perguntou, num cochicho que ribombou pelas esferas, rompendo a harmonia da m\u00fasica celeste.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a sala foi invadida pela suave fragr\u00e2ncia de rosas, que lembrava-lhe sua M\u00e3e. Mas era Gabriel, o perdigueiro de Deus, com sua obedi\u00eancia inarred\u00e1vel e sua persist\u00eancia milenar. N\u00e3o era nem necess\u00e1rio que algo fosse dito. Se ele ali estava, isso envolvia algo grave, mas Jesus n\u00e3o estava interessado. Evitava falar-lhe, n\u00e3o confiava nele, apesar da cega confian\u00e7a que merecia do Pai. Deixou Gabriel com os anci\u00f5es e pegou para si um par de asas angelicais e saiu a flanar pelos ares limpos daquele mundo tocado pela Vontade divina.<\/p>\n<p>Geena, o po\u00e7o do abismo, o lago de enxofre e de fogo\u2026 o lugar que assombrara as imagina\u00e7\u00f5es de milhares de gera\u00e7\u00f5es. Ali estava, uma bocarra negra escancarada na face da terra, uma cicatriz deixada pela ira divina. Aquele rasgo infernal desgra\u00e7ava a uniformidade da beleza da nova esfera terrestre, recoberta de deleitosos para\u00edsos. Felizmente n\u00e3o se podia nela chegar sen\u00e3o voando, e aos salvos n\u00e3o era permitido voar.<\/p>\n<p>A disforme fenda vomitava continuamente uma fumarola densa, com um forte cheiro de carne e de podrid\u00e3o. Aquilo pairava pesadamente no ar, subindo com dificuldade e se acumulando na depress\u00e3o formada em torno da cratera causada pela Segunda Queda de Satan\u00e1s. Parecia que somente uma for\u00e7a sobrenatural conseguia arrancar o pus daquele tumor e esguich\u00e1-lo para o espa\u00e7o, impedindo que gangrenasse todo o resto do mundo.<\/p>\n<p>Pousado \u00e0 borda, revestido de seu poder para resistir \u00e0 pestil\u00eancia que emanava daquela chaga imunda, Jesus engoliu em seco e criou coragem para descer. Embora naquele dia tivesse vindo por subvers\u00e3o, aquelas visitas eram parte do Plano, fosse ele qual fosse. Eram um ritual semanal de humilha\u00e7\u00e3o dos anjos desgra\u00e7ados e dos que com eles sofriam a eternidade da culpa por uma ef\u00eamera transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>Desceu a p\u00e9, descal\u00e7o, pelas trilhas trai\u00e7oeiras que espiralavam pela cratera abaixo em dire\u00e7\u00e3o ao fundo da terra. Percorrendo aqueles lugares terr\u00edveis e inimagin\u00e1veis, Jesus lembrou do suave aroma das flores de sic\u00f4moro na primavera e deixou cair outra l\u00e1grima, sentindo saudades de ser apenas a crian\u00e7a Yehoshua\u2019 bar Yoss\u00eaph na Galil\u00e9ia de tantos milhares de anos antes. Aquela crian\u00e7a que nada ainda sabia da enormidade dos pecados da terra\u2026 e do c\u00e9u.<\/p>\n<p>No nono e mais profundo dos abismos encontrou-o. Judas estava nu e calcinado, sangrando atrav\u00e9s da pele esturricada e coberto dos odiosos insetos que haviam sido especialmente criados para as profundas cavernas do Inferno.<\/p>\n<p>\u2014 Jud\u00e1, \u00e9s tu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ainda sou. Apesar de toda a tortura das eras.<\/p>\n<p>Yehuda\u2019 bar Yonathan, o sic\u00e1rio que um dia se tornara o melhor amigo do menino Yehoshua\u2019 ali estava, reduzido \u00e0s fezes e aos vermes. Mas ele tentou se recompor, ao menos endireitar a espinha, segurar o pranto intermin\u00e1vel que o queimava sem l\u00e1grimas (pois aos Condenados \u00e0 extrema pena n\u00e3o \u00e9 permitido chorar).<\/p>\n<p>\u2014 Que l\u00e1stima, Jud\u00e1.<\/p>\n<p>Jesus teve a sensibilidade de mais nada dizer. Apenas aproximou-se dele e o abra\u00e7ou fraternalmente, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Como me arrependo de tudo, Jud\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o tenho do que me arrepender, Jesus. Eu nunca soube o que estava fazendo.<\/p>\n<p>As amargas palavras retornaram \u00e0 mente de Jesus: &#8220;\u2026 pois eles n\u00e3o sabem o que fazem.&#8221; Mas ali estava Yehuda\u2019, naquele estado deplor\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que restava fazer? Enquanto pensava, usou de seus poderes e prerrogativas para suspender temporariamente as dores e ardores do amigo, que apareceu ali naqueles horr\u00edveis por\u00f5es do planeta, como um homem quase grisalho, magro e de express\u00e3o vincada pelas m\u00e1goas do mundo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Jesus. Por que o fazes?<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o suporto ver-te assim.<\/p>\n<p>\u2014 E achas que eu suporto, quando n\u00e3o est\u00e1s me vendo?<\/p>\n<p>Jesus deixou pender a cabe\u00e7a, derrotado pela l\u00f3gica crua do amigo, que ainda conservava a racionalidade, mesmo ap\u00f3s longos anos naquelas masmorras impiedosas.<\/p>\n<p>\u2014 Um al\u00edvio tempor\u00e1rio, uma gra\u00e7a de efeito apenas est\u00e9tico. Tu me libertas de meus grilh\u00f5es para n\u00e3o me verdes t\u00e3o destru\u00eddo. Mas quando me abandonas a estas dores, e \u00e0 saudade de dias alegres que vivemos na Terra Antiga, o al\u00edvio parece cruel porque ele me restituiu a capacidade de entender a enormidade da tortura que me aflige sem me ferir.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos salvos, os Condenados preservavam integralmente sua mem\u00f3ria. Isso lhes causava a dor adicional da saudade, piorava a tristeza de sua senten\u00e7a, mas certamente tornava-os companhias melhores do que os alegres tolos de Nova Jerusal\u00e9m, esvaziados de si e presos como pe\u00e7as de um rel\u00f3gio aos rituais de louva\u00e7\u00e3o repetitiva das gra\u00e7as de Abba-Pai que parecia \u00e0s vezes t\u00e3o padrasto.<\/p>\n<p>Jesus ent\u00e3o afastou seu poder. As chamas e a lava retomaram seu lugar na pele de Judas, que chiou e estalou \u00e0 medida em que densa crosta de cinzas a recobriu e crestou. O pobre diabo solu\u00e7ava impotente, com uma express\u00e3o de beatitude martelada no seu rosto que n\u00e3o conseguia expressar nem arrependimento e nem dor. O inferno \u00e9 um lugar onde \u00e9 imposs\u00edvel pensar ou ter decis\u00f5es. \u00c9 como estar eternamente preso em um momento isolado da vida, o pior de todos, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Por fim Jesus se cansou daquilo, ou n\u00e3o mais suportou. Saiu de l\u00e1 e foi se assentar sobre o Monte L\u00edbano, de onde, ao longe, contemplava a \u00e1gua azul-a\u00e7o do Mediterr\u00e2neo e os planaltos da sua saudosa Galil\u00e9ia, agora desabitada e selvagem, deserta entre os desertos do mundo, dominado ao longe pelo cubo dourado da Nova Jerusal\u00e9m, com suas doze portas que n\u00e3o serviam nem para entrar e nem para sair. Por fim, em um momento de inesperada dor, ergueu os punhos ao C\u00e9u e gemeu:<\/p>\n<p>\u2014 Abba-Pai, por que te revelaste mau?<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio ag\u00f4nico se fez no mundo, como se tivessem matado todos os passarinhos e acorrentado o mar. Jesus rasgou suas vestes brancas e quebrou nos joelhos a sua espada de dois gumes. Por fim, golpeou em uma pedra a sua coroa de ouro puro e cris\u00f3prasos, partindo-a e \u00e0 pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Abba-Pai, por que te revelaste injusto?<\/p>\n<p>O sil\u00eancio se fez nas esferas, o ar parou como se ningu\u00e9m no planeta respirasse. Ent\u00e3o Jesus, descal\u00e7o e de vestes rasgadas, desceu do L\u00edbano em dire\u00e7\u00e3o a Jerusal\u00e9m, para esc\u00e2ndalo dos p\u00e1ssaros que o viam passar ferindo os p\u00e9s divinos nas pedras do caminho. Os anjos revoaram como abutres por todo o deserto, mas n\u00e3o ousavam pousar.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 plan\u00edcie de Megido o esc\u00e2ndalo j\u00e1 chegara a todas as potestades, a todos os tronos e querubins e serafins. Gabriel, armado de sua espada flamejante que um dia expulsara Ad\u00e3o do \u00c9den, liderava uma hoste tr\u00eamula diante dos port\u00f5es da cidade, e enviou algu\u00e9m para parlamentar com o caminhante.<\/p>\n<p>Ao ver o anjo aproximar-se, vestido para a guerra, como nos tempos do Apocalipse, Jesus adivinhou tudo que o esperava:<\/p>\n<p>\u2014 Diz-me se sabes quem o manda!<\/p>\n<p>\u2014 Eu venho por ordens de Gabriel!<\/p>\n<p>\u2014 Mentes, ou ignoras?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o minto nem ignoro, venho por ordens de Gabriel.<\/p>\n<p>\u2014 Vens dizer-me o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Venho indagar de seus prop\u00f3sitos?<\/p>\n<p>\u2014 E por acaso deve o rei satisfa\u00e7\u00f5es na cidade onde tem o seu Trono?<\/p>\n<p>As palavras de Jesus foram pronunciadas com tamanha raiva que o anjo sentiu seus joelhos chocalhando e retrocedeu empurrado pela gl\u00f3ria de Jesus, deixando no ch\u00e3o a marca de seus sapatos, como se tivesse sido arrastado de p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, mestre, por que rompes a harmonia do mundo?<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o h\u00e1, inocente, e nem nunca houve harmonia alguma no mundo. Agora escolhe se tua espada luta comigo ou contra mim.<\/p>\n<p>O anjo balbuciava as palavras com dificuldade:<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me, mestre, eu n\u00e3o ouso estar contra o Cordeiro, mas n\u00e3o posso enfrentar as hostes do C\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s fraco, e o teu destino \u00e9 a desonra.<\/p>\n<p>A um gesto de Jesus a espada e as asas do anjo desapareceram no p\u00f3 do deserto da Judeia. Indefeso e inofensivo, um ser louro ali ficou chorando sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Mestre, n\u00e3o me deixes. Havia harmonia no mundo. Por acaso eram mentira os c\u00e2nticos de louvor que nos acalentavam a cada noite?<\/p>\n<p>\u2014 Eu os ouvi e odiei desde o primeiro dia. N\u00e3o existe sinceridade onde n\u00e3o h\u00e1 escolha. N\u00e3o existe amor sem liberdade.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f3s e o Pai sois um. Como poderia ter aparecido a desarmonia?<\/p>\n<p>Jesus olhou de volta e teve pena daquela criatura, imagem e semelhan\u00e7a de um efebo andr\u00f3gino, que chorava empoeirada sob o sol brando de um mundo incapaz de ferir.<\/p>\n<p>\u2014 Aguarda-me<\/p>\n<p>Ent\u00e3o olhou para o c\u00e9u, como se quisesse ver Jav\u00e9 abrir as nuvens, mas Ele n\u00e3o estava l\u00e1. Continuou caminhando e finalmente chegou a uma das doze id\u00eanticas portas, pela primeira vez aberta. L\u00e1 estava Gabriel, de gl\u00e1dio e elmo a postos.<\/p>\n<p>\u2014 Gabriel, tu que odeias o erro e amas a verdade. Entra comigo para que possamos destruir o engano e suplantar a mentira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Jesus. Estou aqui em nome do Pai. Eu ajo por sua vontade e para sua vontade \u00e9 que eu existo. A vontade que me criou foi a de conservar a ordem no mundo, destruindo e punindo o mal. Sou a espada de Deus e a minha miss\u00e3o \u00e9 servi-Lo e proter Sua obra.<\/p>\n<p>\u2014 Eu e o Pai somos um. N\u00e3o podes obedecer-lhe sem igualmente obedecer-me.<\/p>\n<p>\u2014 Certamente que n\u00e3o. Pois somente os que est\u00e3o de acordo com o Pai podem ser um com ele. Neste momento, eu e o Pai somos um.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, Gabriel, haver\u00e1 guerra no C\u00e9u outra vez, como j\u00e1 houve outras vezes, e esta ser\u00e1 pior, ser\u00e1 mais longa e destruir\u00e1 mais.<\/p>\n<p>Gabriel tomou sua espada \u00e0 cinta e avan\u00e7ou uma perna sobre o caminho que Jesus manifestara a inten\u00e7\u00e3o de tomar. Em v\u00e3o, pois Ele o afastou com um aceno da m\u00e3o que fez o anjo recuar sobre a poeira, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me confunda com outro Satan\u00e1s, Gabriel.<\/p>\n<p>\u2014 Certamente que n\u00e3o \u2014 disse-lhe o anjo, com um sorriso torto na boca. Bem sei que \u00e9s mais poderoso, mais antigo nos modos do pai e mais determinado a agir segundo o que entendes por certo. Mas igualmente sei que est\u00e1s sozinho e tens tuas fraquezas.<\/p>\n<p>\u2014 E devias saber que n\u00e3o vim a Nova Jerusal\u00e9m para entrar, mas para fazer sair dela quem assim deseje.<\/p>\n<p>\u2014 E algu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia desejaria deixar a Cidade dos Eleitos?<\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o lhe respondeu. Em vez disso, abriu os bra\u00e7os e impostou a voz sobre o port\u00e3o entreaberto, fazendo-a ecoar pelas avenidas e vielas da cidade:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 v\u00f3s que sofreis a maldi\u00e7\u00e3o do apagamento de toda l\u00e1grima, eu vos restituo a mem\u00f3ria para quem sofrais a dor e encontreis a verdade, e na verdade, a liberdade.<\/p>\n<p>Por um momento nada aconteceu. Mas no instante a seguir um clamor se ouviu dentro dos herm\u00e9ticos muros da cidade, um alarido de vozes revoltadas, um murm\u00fario de gente indecisa, um burburinho de pessoas desorientadas.  A dor da lembran\u00e7a devastou tantos cora\u00e7\u00f5es que o pranto deles preencheu o ar.<\/p>\n<p>\u2014 O que fizeste!? \u2014 exclamaram os anjos, assustados.<\/p>\n<p>\u2014 Justi\u00e7a, apenas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 justo que eles sofram, \u00e9 justo que vaguem pelo mundo sem destino, sem ter o que fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Qualquer coisa \u00e9 mais justa do que a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A for\u00e7a da palavra foi como uma bofetada no rosto de Gabriel, que sentiu-se queimando por dentro e por fora:<\/p>\n<p>\u2014 Blasf\u00eamia!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a segunda vez que me acusam disso. Como da vez anterior, sou inocente.<\/p>\n<p>Batidas surdas se ouviram nos port\u00f5es gigantescos, por todos os lados. Eram os remidos que n\u00e3o mais se suportavam, que odiavam os rituais diurnos, a intermin\u00e1vel luz acesa no centro de tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Esque\u00e7a-me, Gabriel. Voc\u00ea ter\u00e1 muito trabalho para manter toda esse gente presa, ainda que eles n\u00e3o possam ter asas.<\/p>\n<p>E assim Jesus deixou Jerusal\u00e9m e seguiu de novo rumo a sudeste, em dire\u00e7\u00e3o a Geena, o lago de fogo aonde lan\u00e7aram o Drag\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua inten\u00e7\u00e3o era, caso ainda fosse poss\u00edvel, erguer a voz \u00e0 borda das l\u00ednguas de labaredas, e dizer:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 v\u00f3s que sofreis no ventre da terra, nas chamas de Hinnon. Sede libertos das cadeias que vos prendem e da dor que vos petrifica. Estais perdoados, mesmo v\u00f3s que um dia fostes chamados de &#8220;dem\u00f4nios.&#8221;<\/p>\n<p>Depois, convidaria a todos a ocupar os imensos vazios da Terra e do C\u00e9u, com novas e engenhosas aventuras e descobertas, ao menos enquanto o pai permitisse. E enquanto caminhava, Jesus dizia para si mesmo:<\/p>\n<p>\u2014 Antes de qualquer outra coisa, \u00e9 imperioso que se separe a luz das trevas, o dia da noite, o claro do escuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jesus desceu de seu trono na cidade de Jerusal\u00e9m, a Nova Jerusal\u00e9m, noiva de Deus, cal\u00e7ou as suas antigas sand\u00e1lias de pescador galileu e saiu pelas ruas pavimentadas de jaspe e \u00f4nix, ocultando sua gl\u00f3ria em um manto de humildade. Por toda a cidade reinava um estranho clima de eterna festa, e todos os seus cidad\u00e3os iam vestidos \u00e0 mesma maneira, com id\u00eanticos cortes de cabelo. Todos levavam nos seus rostos uniformizados sorrisos muito limpos, de dentes muito alvos. 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