{"id":211,"date":"2011-10-11T22:28:00","date_gmt":"2011-10-12T01:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=211"},"modified":"2017-11-02T14:09:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:06","slug":"nao-vamos-as-estrelas-baby","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/nao-vamos-as-estrelas-baby\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Vamos \u00e0s Estrelas, Baby\u2026"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos um par\u00e1grafo escrito por Howard Phillips Lovecraft n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a. J\u00e1 o devo ter traduzido uma dezena de vezes, para postar em duas ou tr\u00eas dezenas de lugares. Aqui vai a d\u00e9cima primeira tradu\u00e7\u00e3o, como introito deste artigo que, mais uma vez, me alijar\u00e1 de alguns amigos e leitores:<\/p>\n<blockquote><p>A coisa mais misericordiosa no mundo, creio, \u00e9 a incapacidade da mente humana para interligar todos os seus conhecimentos. Vivemos em uma pl\u00e1cida ilha de ignor\u00e2ncia em meio aos mares negros do infinito, e n\u00e3o fomos feitos para ir muito longe. As ci\u00eancias, cada qual puxando em uma dire\u00e7\u00e3o, at\u00e9 agora nos causaram pouco mal, mas um dia a montagem de todo o conhecimento desconexo abrir\u00e1 tais terr\u00edveis vis\u00f5es da realidade, e de nossa prec\u00e1ria posi\u00e7\u00e3o nela, que enlouqueceremos com a revela\u00e7\u00e3o ou fugiremos da luz fatal, para a seguran\u00e7a e a paz de uma nova idade das trevas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Lovecraft escreveu no entre-guerras, uma \u00e9poca em que o mundo estava muito pessimista \u2014 e com plena raz\u00e3o: treze anos ap\u00f3s terem sido escritas estas palavras o mundo mergulhou na pior guerra de todos os tempos, uma que, em seus efeitos de longo prazo, praticamente destruiu a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Por paradoxal que isso possa parecer, a orgia de massacres e destrui\u00e7\u00e3o da Pior de Todas as Guerras deu ao mundo um otimismo tal como nunca se vira, e a humanidade embarcou num sonho de grandeza extraordin\u00e1rio: sonhamos em conquistar as estrelas, colonizar sistemas solares, ser mestres de gal\u00e1xias. L\u00eanin n\u00e3o dizia que o capitalismo, se pudesse, anexaria os planetas? Pois bem, a utopia do s\u00e9culo XX sonhava exatamente com isso.<\/p>\n<p>Mas as palavras de Lovecraft, mesmo esquecidas de quase todos, continuavam profeticamente denunciando a vaidade de nossos sonhos. E cada nova descoberta da ci\u00eancia foi pondo uma p\u00e1 de cal a mais na cova da utopia. Sonhamos, sim, com as estrelas, mas elas est\u00e3o distantes de nossas m\u00e3os, somos crian\u00e7as brincando numa po\u00e7a, sonhando agarrar as estrelas que se refletem na \u00e1gua. Sonhamos com uma maravilhosa m\u00e1quina prateada que nos eleve e nos leve al\u00e9m de nossos horizontes cinzentos, tal como na can\u00e7\u00e3o do Hawkwind:<\/p>\n<blockquote><p>Acabei de passear em uma M\u00e1quina Pratada \/ e ainda estou me sentindo tonto. \/ Voc\u00ea gostaria de tamb\u00e9m ver-se transportado \/ ao outro lado do c\u00e9u? \/ Eu tenho uma M\u00e1quina Prateada \/ que voa diagonalmente no tempo. \/ \u00c9 um aparelho eletrizante \/ vindo exatamente de meu signo do zod\u00edaco. \/ Tenho uma M\u00e1quina Prateada \/ Tenho uma M\u00e1quina Prateada<\/p><\/blockquote>\n<p>Que tal can\u00e7\u00e3o tenha feito grande sucesso nos anos setenta n\u00e3o \u00e9 nenhum espanto: era o auge do del\u00edrio espacial do homem.<\/p>\n<p>Se todos n\u00f3s pud\u00e9ssemos ajuntar os cacos partidos do conhecimento humano, j\u00e1 ter\u00edamos visto a enormidade do desafio: a extens\u00e3o do cosmos vai muito al\u00e9m do que o intelecto med\u00edocre pode conceber, mas no jarg\u00e3o dos f\u00e3s de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fala-se em anos luz como se fossem \u00abquil\u00f4metros espaciais\u00bb. De certa forma, s\u00e3o, mas n\u00f3s somos para tal quil\u00f4metro fant\u00e1stico menos do que formigas na estrada. Estrelas compar\u00e1veis ao sol existem nas nossas proximidades, a meros anos luz. Elas parecem, no entanto, min\u00fasculas e frias porque meros anos luz transformam o Sol em uma estrela a mais. A maioria das \u00abestrelas\u00bb que vemos no c\u00e9u s\u00e3o super gigantes, agrupamentos de estrelas ou at\u00e9 gal\u00e1xias distantes. Como pudemos sonhar romper estas dist\u00e2ncias que transformam s\u00f3is em velas? Somente com ingenuidade, e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas a orgia de tal sonho teve um fim: o mundo de hoje n\u00e3o consegue mais reunir tantos excedentes e obter verbas em escalas suficientes para desenvolver projetos semelhantes ao que levou o homem \u00e0 Lua. Com a tecnologia que temos, a repeti\u00e7\u00e3o do feito seria quase trivial: os computadores de bordo das naves Apollo n\u00e3o tinham a capacidade de uma calculadora cient\u00edfica de hoje. Ir \u00e0 Lua seria f\u00e1cil, mas ainda n\u00e3o temos nada de \u00fatil para fazer l\u00e1. Ent\u00e3o o projeto espacial se torna obsoleto, desnecess\u00e1rio. As dist\u00e2ncias s\u00e3o muito grandes, o espa\u00e7o \u00e9 muito frio. N\u00f3s fomos l\u00e1 fora, vimos os mares negros do infinito e estamos presos na praia. S\u00e3o v\u00e1rios os fatores que nos limitam: nossas almas, nossos corpos, nossa tecnologia, nossa finitude. <\/p>\n<p>As leis da f\u00edsica est\u00e3o contra n\u00f3s: basta fazer uma conta simples, como a que fez Poul Anderson, em seu romance \u00abTau Zero\u00bb. Mesmo sem a resist\u00eancia oferecida pelo ar, mesmo ainda beneficiados pela in\u00e9rcia, no espa\u00e7o n\u00f3s precisamos de quantidades imensas de energia para empurrar nossas naves mete\u00f3ricas. Cada acelera\u00e7\u00e3o adicional exige mais energia, uma dose de energia que cresce exponencialmente a cada acr\u00e9scimo aritm\u00e9tico da velocidade. A energia necess\u00e1ria para acelerar da metade a dois ter\u00e7os da velocidade da luz \u00e9 maior do que toda a energia necess\u00e1ria para chegar \u00e0 primeira. E uma vez tendo chegado a 90% (algo que ningu\u00e9m mais cr\u00ea ser poss\u00edvel) qualquer acelera\u00e7\u00e3o adicional j\u00e1 exigiria uma quantidade praticamente infinita de energia. Mais do que isso, devido \u00e0 relatividade do espa\u00e7o-tempo, uma nave tal, supondo que seja poss\u00edvel a um objeto f\u00edsico real acelerar a tanto, estaria de tal forma afetada pela velocidade que no espa\u00e7o de uns poucos anos para seus tripulantes transcorreria um tempo maior que a atual idade do universo. Nossas almas ficariam para tr\u00e1s, ainda que nossos fr\u00e1geis corpos resistissem a tudo isso.<\/p>\n<p>E falando de fr\u00e1geis corpos, n\u00e3o cessam de acumular dados sobre os efeitos negativos da perman\u00eancia no espa\u00e7o. Passada a fase rom\u00e2ntica em que era interessante usar toneladas de explosivos para atirar fora da atmosfera fr\u00e1geis bolhas de metal e vidro levando corajosos (ou loucos?) indiv\u00edduos que sonhavam com a posteridade, hoje n\u00e3o parece haver muito sentido em expor corpos humanos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da \u00f3rbita: os ossos se fragilizam, os m\u00fasculos definham, o labirinto se atrofia, o sangue fica estranho. N\u00e3o faz um ano descobriu-se que os astronautas que permanecem no espa\u00e7o mais do que alguns dias retornam com a vis\u00e3o afetada tamb\u00e9m. Quanto resistiria o fr\u00e1gil corpo humano em uma viagem realmente dura, de anos ou d\u00e9cadas pelo espa\u00e7o vazio, rumo ao nada? Chegar\u00edamos sem ossos, sem m\u00fasculos, cegos, desequilibrados. Cegos e desequilibrados talvez j\u00e1 estejamos.<\/p>\n<p>Existem tecnologias te\u00f3ricas que poderiam vencer tais obst\u00e1culos. Fala-se em hiperespa\u00e7o, buracos de minhoca, gravidade artificial. Fala-se de tais coisas tal como na idade m\u00e9dia se falava em carruagens m\u00e1gicas, feiti\u00e7os do tempo, pedra filosofal, panaceia universal. Tal como naquela \u00e9poca, falamos destas coisas sem ter a m\u00ednima ideia de como poderiam ser obtidas. Sob certo aspecto, o romance medieval de cavalaria mencionando o b\u00e1lsamo cura tudo e o fogo grego \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica t\u00e3o leg\u00edtima quanto uma moderna, que fale sobre viagens por buracos de minhoca, em naves maravilhosas, rumo a planetas desconhecidos. A vassoura m\u00e1gica de uma feiticeira em seu sab\u00e1 \u00e9 t\u00e3o cient\u00edfica quanto o disco voador do alien\u00edgena (bom ou mau) que aparece do nada, para punir ou pregar. Cada idade tem seus dem\u00f4nios e seus deuses, e como disse Clarke, tecnologia suficientemente mais avan\u00e7ada n\u00e3o se distingue de m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Sim, meus amigos. Lovecraft tinha raz\u00e3o. N\u00e3o fomos feitos para ir muito longe. Sonhamos apenas com isso, e nossos sonhos hoje n\u00e3o s\u00e3o mais com anjos que nos levem para ouvir a m\u00fasica das esferas, mas com inventos fant\u00e1sticos que nos levem desse mundo cada vez mais vazio. Mas n\u00e3o adianta sair: este \u00e9, ainda, o \u00fanico mundo que n\u00f3s temos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 anos um par\u00e1grafo escrito por Howard Phillips Lovecraft n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a. J\u00e1 o devo ter traduzido uma dezena de vezes, para postar em duas ou tr\u00eas dezenas de lugares. Aqui vai a d\u00e9cima primeira tradu\u00e7\u00e3o, como introito deste artigo que, mais uma vez, me alijar\u00e1 de alguns amigos e leitores: A coisa mais misericordiosa no mundo, creio, \u00e9 a incapacidade da mente humana para interligar todos os seus conhecimentos. Vivemos em uma pl\u00e1cida ilha de ignor\u00e2ncia em meio aos mares negros do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[92,91,77,32,60,12,28,57],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=211"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5317,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions\/5317"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}