{"id":2142,"date":"2014-12-15T07:43:45","date_gmt":"2014-12-15T10:43:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2142"},"modified":"2017-11-02T14:08:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:08","slug":"pastel-de-queijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/pastel-de-queijo\/","title":{"rendered":"Pastel de Queijo"},"content":{"rendered":"<p>Sete horas e trinta e oito minutos de segunda feira. Um novo dia de trabalho me espera, eu espero. Tenho a pressa urbana que aprendi desde cedo: saio de casa ainda penteando o cabelo com um pente de bolso e arrastando uma maleta como se fosse uma bola de ferro. Hoje, como tantas vezes, nem deu tempo de tomar o desjejum com Patr\u00edcia e as crian\u00e7as: perdi a hora e preciso vencer a dist\u00e2ncia antes do tr\u00e2nsito se tornar o inferno.<\/p>\n<p>Trabalho aqui, tenho certeza. Cheguei h\u00e1 menos de dez minutos, tenho de subir ao d\u00e9cimo quinto andar antes das oito. Nesse intervalo estreito eu pedi um pingado com p\u00e3o com manteiga e fiquei namorando o \u00faltimo pastel de queijo na vitrina t\u00e9rmica e sonhando com outros dias, outras emo\u00e7\u00f5es. Val\u00e9rias, Renatas e Janices que n\u00e3o verei nunca mais.<\/p>\n<p>Foi quando ele apareceu, voc\u00ea o viu, n\u00e3o adianta negar. Eu vi quando voc\u00ea o espantou com um palavr\u00e3o, e naquele momento eu at\u00e9 tive pena do imbecil. N\u00e3o consigo me lembrar direito do seu rosto, talvez porque n\u00e3o quis erguer a cabe\u00e7a e encarar seus olhos: lembro-me mais de sua barriga, e veja l\u00e1 que forma absurda de se lembrar um homem. Ele chegou por tr\u00e1s de mim, quase silenciosamente, interrompendo meu minuto matinal de desconcentra\u00e7\u00e3o. Quando percebi, estava ao meu lado, vestindo uma cal\u00e7a jeans surrada e um moletom cinzento. A barriga, ligeiramente protuberante, e o suor mal percept\u00edvel sugeriam uma vida de razo\u00e1vel conforto. No m\u00e1ximo um cara que atravessara a noite, uma alma perdida na segunda feira.<\/p>\n<p>&#8212;  Voc\u00ea poderia me pagar um pastel de queijo, amigo?<\/p>\n<p>Seu pedido interrompeu meus devaneios, e isso sempre me irrita. Era como se a sua presen\u00e7a me intimasse a subir para o d\u00e9cimo quinto andar, eis que a hora chegava, preparar a mesa e come\u00e7ar o dia. Minutos ex\u00edguos de relaxo definitivamente terminados.<\/p>\n<p>&#8212;  N\u00e3o lhe pagarei nada, camarada! Volta para casa!<\/p>\n<p>Foi nesse momento que voc\u00ea o expulsou, como se ele fosse um inc\u00f4modo antigo, eu arranquei do bolso tr\u00eas notas de dois reais e paguei a minha conta. Havia, sim, uma maleta comigo, preta, de couro, leve pois s\u00f3 continha poucos pap\u00e9is, cart\u00f5es de visita, agenda, calculadora cient\u00edfica e outras coisas leves.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o&#8230; Para onde foi o pedinte? Ficou misterioso agora, de repente h\u00e1 coisas que parecem vistas atrav\u00e9s da cerra\u00e7\u00e3o desta manh\u00e3 de inverno. Uma cerra\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sobe, e j\u00e1 s\u00e3o quase oito horas. Eu devia subir por algum lugar, mas n\u00e3o tenho crach\u00e1 que me permita atravessar o port\u00e3o de ferro, esqueci o meu em casa, esqueci a casa em algum lugar, onde estou eu mesmo agora, quem sou sem a maleta e o crach\u00e1 e a mesa com janela para o Parque Municipal?<\/p>\n<p>Ele disse alguma coisa antes de sair, eu juro. Aquela mulher ouviu, ela riu, ela o conheceu, ela zombou de sua ira dizendo alguma coisa sobre impossibilidade qu\u00e2ntica! Essa gente da Universidade, \u00e0s vezes, traz para a rua suas discuss\u00f5es de coisas que n\u00e3o se entende. Eu sei, seira est\u00fapido esperar que um dono de bar retivesse palavras que est\u00e3o al\u00e9m da compreens\u00e3o at\u00e9 mesmo deste engenheiro. N\u00e3o se ofenda: eu n\u00e3o entenderia nada de sua conversa com os cozinheiros, que de cozinha eu s\u00f3 me lembro de fritar ovo e fazer caf\u00e9. Cada um na sua, a vida segura e saud\u00e1vel deveria ser assim: eu na minha mesa, voc\u00ea me vendendo um pingado com p\u00e3o e manteiga, a mo\u00e7a da universidade zombando de um pedinte que usava moletom cinzento.<\/p>\n<p>Mas agora tudo est\u00e1 borrado, a mo\u00e7a foi embora sem sair, tenho fome como se nunca tivesse comido nenhum p\u00e3o, voc\u00ea me olha com essa express\u00e3o de enfado e eu tenho vergonha de pedir ao gordo professor, com \u00f3culos pesados de sabedoria, que me ceda pelo menos esse pastel barato para matar a minha fome, ou n\u00e3o posso voltar para casa, tr\u00f4pego que estou, para rever Patr\u00edcia e reconectar as pontas soltas desta segunda feira que de repente redemoinhou em torno de mim e me fez cair.<\/p>\n<p>&#8212;  N\u00e3o lhe pagarei nada, amigo! Volta para casa!<\/p>\n<p>De repente um frio sai da neblina e penetra em mim. Come\u00e7o a esquecer coisas, lembrar de outras. A frase que o pedinte dissera: ser\u00e1 poss\u00edvel mesmo viajar no tempo? N\u00e3o me expulse ainda, Juca, eu preciso perguntar a esse imbecil se ele falava em s\u00e9rio! Preciso saber se esse pesadelo aconteceu, se algu\u00e9m me espera&#8230;<\/p>\n<p>Sozinho e humilhado, na cal\u00e7ada, vejo passarem sombras cada vez mais vagas de rostos que foram meus colegas de trabalho. O homem gordo paga sua conta e atravessa a rua em sua vida roubada. Antes de entrar pelo port\u00e3o sul da Universidade ele me olha com uma express\u00e3o maligna e d\u00e1 dois tapas em uma maleta de couro preto, mas a essa altura eu n\u00e3o entendo mais o que isto significa, s\u00f3 sei que preciso pegar um \u00f4nibus de volta ao sub\u00farbio, e esperar sem esperan\u00e7a que eu ainda tenha o meu emprego.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sete horas e trinta e oito minutos de segunda feira. Um novo dia de trabalho me espera, eu espero. Tenho a pressa urbana que aprendi desde cedo: saio de casa ainda penteando o cabelo com um pente de bolso e arrastando uma maleta como se fosse uma bola de ferro. Hoje, como tantas vezes, nem deu tempo de tomar o desjejum com Patr\u00edcia e as crian\u00e7as: perdi a hora e preciso vencer a dist\u00e2ncia antes do tr\u00e2nsito se tornar o inferno. Trabalho aqui, tenho certeza. 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