{"id":2162,"date":"2014-12-16T23:14:00","date_gmt":"2014-12-17T02:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2162"},"modified":"2017-11-02T14:08:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:08","slug":"a-dificil-facilidade-da-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/a-dificil-facilidade-da-escrita\/","title":{"rendered":"A Dif\u00edcil Facilidade da Escrita"},"content":{"rendered":"<p>Escrever n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Se fosse f\u00e1cil, reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria o terror dos estudantes. E n\u00e3o \u00e9 que a l\u00edngua portuguesa seja mais dif\u00edcil que as demais (nada \u00e9 f\u00e1cil para quem n\u00e3o domina), mas, sim, que o dom\u00ednio funcional da l\u00edngua n\u00e3o implica em dom\u00ednio criativo: este \u00e9 o mais alto dos n\u00edveis de profici\u00eancia em qualquer idioma, f\u00e1cil ou dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Portanto, fazer literatura, embora pare\u00e7a &#8220;f\u00e1cil&#8221; ao olhar leigo, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto pintar, consertar autom\u00f3veis ou dan\u00e7ar bal\u00e9: todas estas atividades requerem forma\u00e7\u00e3o, treinamento, for\u00e7a de vontade e uma dose vari\u00e1vel de <em>talento<\/em> inato (n\u00f3s n\u00e3o somos todos iguais, por mais que esta no\u00e7\u00e3o de individualidade seja desagrad\u00e1vel a certos pedagogos).<\/p>\n<p>Quando me refiro a tal dificuldade, n\u00e3o quero me remeter \u00e0 dificuldade de se produzir obras primas &#8212; isto n\u00e3o \u00e9 nem necess\u00e1rio discutir, e ningu\u00e9m come\u00e7a a pintar sonhando que vai se tornar um novo Degas. A genialidade n\u00e3o \u00e9 <em>intencional<\/em>: aquilo que intencionalmente se pretende como genialidade possui um nome \u00f3bvio: &#8220;pretens\u00e3o&#8221;). O tipo de dificuldade a que me refiro \u00e9 a mera dificuldade de produzir um texto liter\u00e1rio coeso.<\/p>\n<p>Por &#8220;coes\u00e3o&#8221; pode-se entender muita coisa, mas eu estou sendo modesto: quero dizer apenas a qualidade que o texto deve possuir, minimamente, para n\u00e3o ser apenas uma composi\u00e7\u00e3o escolar do ensino fundamental. Um texto, para ser chamado de liter\u00e1rio precisa se realizar at\u00e9 o fim. \u00c9 isso que separa os homens dos meninos e as mulheres das meninas em termos liter\u00e1rios: \u00e9 a passagem da vaga ideia rascunhada em uma folha ou duas para a produ\u00e7\u00e3o de algo plenamente desenvolvido.<\/p>\n<p>Muitos jovens autores com quem me deparo acreditam que a dificuldade est\u00e1 na l\u00edngua &#8212; e de fato muitos deles sofrem para utiliz\u00e1-la, e  a fazem sofrer &#8212; e at\u00e9 sonham com a ideia de escrever em ingl\u00eas (os que sabem) para libertar-se das &#8220;amarras&#8221; de nosso idioma. Em geral eles n\u00e3o parecem ser capazes de dar o salto de qualidade, independente de que l\u00edngua usem &#8212; o que s\u00f3 torna ris\u00edvel sua ideia de que seria mais f\u00e1cil migrar literariamente para outro idioma, eles que mal se entendem com o portugu\u00eas que mamaram das suas m\u00e3es.<\/p>\n<p>Refiro-me, claro, ao deserto de ideias que eles apresentam. Nossos jovens de hoje est\u00e3o submetidos a um bombardeio de informa\u00e7\u00e3o que nunca foi experimentado por nenhuma outra gera\u00e7\u00e3o. Eles t\u00eam na ponta dos dedos mais dados que os mais informados fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XVIII tiveram em anos inteiros de suas vidas, e n\u00e3o fazem porra nenhuma com isso.<\/p>\n<p>Dados desorganizados n\u00e3o valem nada. O valor est\u00e1 em transformar esta massa bruta em &#8220;conhecimento&#8221;, mas isto nem sempre acontece porque a juventude, apesar da imensa variedade de informa\u00e7\u00f5es a que tem acesso, de fato vive uma limita\u00e7\u00e3o muito gritante de suas experi\u00eancias. A informa\u00e7\u00e3o que recebe \u00e9 sempre &#8220;mais do mesmo&#8221;, pois chega sempre atrav\u00e9s de uma variedade ex\u00edgua de meios: televis\u00e3o, <em>smartphones<\/em>, computadores e outros aparatos eletr\u00f4nicos de cunho predominantemente visual\/auditivo. A informa\u00e7\u00e3o a que t\u00eam acesso n\u00e3o t\u00eam cores naturais, n\u00e3o tem cheiro, n\u00e3o tem calor ou frio, n\u00e3o trepida e n\u00e3o contamina.<\/p>\n<p>Este tipo de contato n\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia &#8212; e por n\u00e3o ser experi\u00eancia, n\u00e3o traz conhecimento real, n\u00e3o marca e n\u00e3o educa. Continuam com aquele vazio, preenchido por coisas massivas, mas que n\u00e3o nutrem o pensamento.<\/p>\n<p>Da\u00ed quando este jovem pretende escrever &#8212; porque leu um livro que lhe agradou, ou porque ouviu falar que gente que escreve tamb\u00e9m ganha fama e dinheiro &#8212; ele se depara com o fantasma da falta de assunto. Escrever o que, se n\u00e3o viveu muita coisa? Que sofrimentos e del\u00edcias o marcaram, o sufocaram, o fizeram querer expelir em palavras os tremores da alma? A pouca vida que teve, ele aprendeu desde cedo a considerar desprez\u00edvel, pois a cultura de massas que consome est\u00e1 focada num ideal pasteurizado e estrangeiro (que sequer reflete de forma fiel o estrangeiro real e quente).<\/p>\n<p>Talvez por isso tantos deles buscam que lhe digam o que deve ser escrito. Como n\u00e3o h\u00e1 nada que lhes remeta a uma lembran\u00e7a forte, a algo que tenha um significado, fica-lhes o desconforto de observar o mundo como uma imensa massa de objetos cinzentos e de formas parecidas, entre os quais <em>n\u00e3o sabem escolher<\/em>.<\/p>\n<p>A falta de vida plena est\u00e1 matando a alma de nossos garotos e garotas, e os jovens escritores que, conforme a sintaxe da vida, s\u00e3o jovens antes de escreverem, parecem cada vez mais ocos e cada vez t\u00eam menos o que dizer. Aquilo que pretendem escrever \u00e9 um eco de opini\u00f5es alheias, terceirizadas, ou o decalque deformado de modelos importados, porque n\u00e3o conseguem criar ou interagir com algo propriamente seu e nosso.<\/p>\n<p>Esta literatura sem ossos e sem alma est\u00e1 a se criar nas redes sociais, e j\u00e1 chegou \u00e0s editoras, na forma de best-sellers atrozes que reciclam refer\u00eancias da cultura pop e se justificam na for\u00e7a da grana &#8212; posto que escrever \u00e9 s\u00f3 mais uma atividade para se ganhar dinheiro (e de fato \u00e9 pena que se ganhe t\u00e3o pouco).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Se fosse f\u00e1cil, reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria o terror dos estudantes. E n\u00e3o \u00e9 que a l\u00edngua portuguesa seja mais dif\u00edcil que as demais (nada \u00e9 f\u00e1cil para quem n\u00e3o domina), mas, sim, que o dom\u00ednio funcional da l\u00edngua n\u00e3o implica em dom\u00ednio criativo: este \u00e9 o mais alto dos n\u00edveis de profici\u00eancia em qualquer idioma, f\u00e1cil ou dif\u00edcil. Portanto, fazer literatura, embora pare\u00e7a &#8220;f\u00e1cil&#8221; ao olhar leigo, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto pintar, consertar autom\u00f3veis ou dan\u00e7ar bal\u00e9: todas estas atividades requerem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[77,54,27,114,7],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2162"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2162"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4682,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2162\/revisions\/4682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}