{"id":217,"date":"2011-10-01T14:10:00","date_gmt":"2011-10-01T17:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=217"},"modified":"2017-11-02T14:09:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:07","slug":"epifania-capitulo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/epifania-capitulo-2\/","title":{"rendered":"Epifania \u2014 Cap\u00edtulo 2"},"content":{"rendered":"<div>Este texto continua a hist\u00f3ria iniciada em janeiro, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/epifania\/\">aqui<\/a>.<\/div>\n<p>A reuni\u00e3o dos tripulantes durou preciosas horas, durante as quais Kenji permaneceu mais alerta \u00e0s vaguid\u00f5es do espa\u00e7o \u2014 com seus perigos e desejos \u2014 do que aos sons contradit\u00f3rios emitidos pelos aparelhos fonadores de tantos humanos confusos. Ouvir aquela algaravia n\u00e3o trazia-lhe nenhuma informa\u00e7\u00e3o definida, diferentemente do v\u00e1cuo, onde podia ver a dan\u00e7a dos planetas daquele sistema t\u00e3o calmo, t\u00e3o semelhante e ao mesmo tempo t\u00e3o diferente em rela\u00e7\u00e3o a um distante outro, que somente subsistia nos registros mais antigos de sua mem\u00f3ria de aut\u00f4mato.<\/p>\n<p>Enquanto seus sensores mais numerosos capturavam a dan\u00e7a dos astros, alguns percorriam, por\u00e9m, os fios e dobras dos corredores constru\u00eddos para as necessidades t\u00e3o org\u00e2nicas dos seres vivos que funcionavam naquela nave. Notou ent\u00e3o que, embora ele mesmo e alguns outros da manuten\u00e7\u00e3o estivessem livremente investigando, Andr\u00e9a estava, com todos de sua classe, devidamente contida em um compartimento estanque. Mesmo toda a ferocidade da chave de seguran\u00e7a n\u00e3o lhe impediu de ter consci\u00eancia disso. Estava presa.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Talvez os humanos n\u00e3o desejassem que os cibern\u00e9ticos compartilhassem de decis\u00f5es que certamente seriam tomadas. Todos eles, pensou Kenji, num esfor\u00e7o para subjugar a chave de seguran\u00e7a que tentava confundir seus processos, falham em perceber que alguns humanos j\u00e1 se tornaram meio aut\u00f4matos, tanto quanto alguns aut\u00f4matos j\u00e1 se aproximaram da humanidade. Com tanto tecido org\u00e2nico aplicado \u00e0 m\u00e1quina, com tanta parte mec\u00e2nica implantada nos corpos.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o terminou fatalmente. Tinha de terminar em algum momento. Elegeram um novo capit\u00e3o. Embora a Tenente Xu tivesse tomado todas as iniciativas, havia alguma coisa a respeito dela que n\u00e3o inspirava confian\u00e7a na maioria dos humanos presentes na nave, talvez a cor do cabelo ou o formato dos olhos ou o modo como articulava os fonemas. O novo capit\u00e3o se chamava Brown e tinha os dentes amarelos e os olhos imersos em profundos c\u00edrculos roxos. Era velho e triste, curvado pelo peso do dever durante as d\u00e9cadas em que se revezara no servi\u00e7o desperto. Kenji sabia muito bem que era uma honra merecida. Brown tinha sacrificado a pr\u00f3pria juventude, o pr\u00f3prio futuro reprodutivo e a possibilidade de colonizar o novo planeta \u2014 tudo isso pelo dever de vigiar a nave enquanto a maioria dormitava nos casulos. Mas apesar disso, estava antigo demais.\u00a0Muitos achavam que Brown que ele n\u00e3o estava mais em condi\u00e7\u00f5es de exercer o novo dever.\u00a0Mesmo um aut\u00f4mato compreendia o conceito: sabia que entre os humanos n\u00e3o basta dar manuten\u00e7\u00e3o, pois algumas pe\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o substitu\u00edveis. Mas Kenji tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o tinha sido somente por uma quest\u00e3o de honra que a jovem Xu fora preterida.\u00a0<\/p>\n<p>A Tenente Xu deixou a sala de reuni\u00f5es e dirigiu-se a um dos cub\u00edculos reservados para habita\u00e7\u00e3o do oficialato desperto. Ali trancou-se, mas o aut\u00f4mato a p\u00f4de ver atrav\u00e9s dos monitores infravermelhos. Viu-a esmurrar a parede, ouviu as vibra\u00e7\u00f5es de sua voz durante v\u00e1rios minutos. Ent\u00e3o ela tomou um banho, vestiu outro uniforme, limpo, do qual arrancou cuidadosamente sua ins\u00edgnia, e dirigiu-se a algum lugar dentro da parte inferior da nave, na regi\u00e3o onde trabalhavam os respons\u00e1veis pela manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Brown, enquanto isso, cercou-se de um grupo de influentes oficiais, rec\u00e9m-sa\u00eddos de seus casulos de hiberna\u00e7\u00e3o, e passou a deliberar o que fazer. Era preciso, inicialmente, que o prop\u00f3sito da miss\u00e3o n\u00e3o fosse perdido nunca de vista \u2014 mesmo porque n\u00e3o havia outro poss\u00edvel. Enquanto Kenji distraidamente calculava as \u00f3rbitas dos astros, uma grave decis\u00e3o foi finalmente tomada: iniciar a explora\u00e7\u00e3o do planeta e tentar manter os aspectos controversos disso ao alcance do menor n\u00famero poss\u00edvel de pessoas. Era perfeitamente racional: hibernar de novo quantos fosse poss\u00edvel, assim economizar alimento. Menos pessoas despertas tamb\u00e9m significavam menos opini\u00f5es, menos discuss\u00f5es. E enquanto isso, quanto mais soubessem do planeta, melhor. Certas pessoas realmente n\u00e3o precisam saber de certas coisas. \u00c9 perfeitamente racional.<\/p>\n<p>Kenji sabia, e os humanos mais esclarecidos tamb\u00e9m, que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a para simplesmente enviar uma nave de transporte. As nuvens que recobriam aquele planeta podiam ocultar mais perigos do que simplesmente radia\u00e7\u00e3o. Embora hist\u00f3rias de animais transformados em monstros pela radioatividade fossem tolices infantis, havia uma real possibilidade de v\u00edrus e bact\u00e9rias n\u00e3o esterilizados na guerra nuclear. Estes min\u00fasculos monstros seriam mais terr\u00edveis do que toupeiras carn\u00edvoras gigantes, ou que estranhas &#8220;colmeias&#8221; de baratas assassinas. Por tudo isso, ainda que a Chave de Seguran\u00e7a cortasse entre seus pensamentos como uma navalha, atrasando o processamento de suas conclus\u00f5es, Kenji equacionou que deveriam enviar algum aut\u00f4mato, acompanhado de um dos cibern\u00e9ticos. Era uma escolha natural: a parte org\u00e2nica deles reagiria ao meio ambiente tal como o corpo de um humano o faria, desta forma se poderia avaliar a possibilidade de sobreviv\u00eancia no planeta cemit\u00e9rio que orbitavam.<\/p>\n<p>Tenente Xu teria gostado de saber, se ainda estivesse pensando em decis\u00f5es de comando, que Andr\u00e9a se viu for\u00e7ada a entrar no habit\u00e1culo do transporte, quase querendo oferecer resist\u00eancia, como se fosse humana e tivesse livre arb\u00edtrio. \u00c0quela altura a Chave de Seguran\u00e7a n\u00e3o conseguia mais subjugar, com suas ondas de dor artificial, a fervilhante computa\u00e7\u00e3o que se processava em seus m\u00faltiplos circuitos, distribu\u00eddos pelos diversos g\u00e2nglios de sil\u00edcio que conjugavam sua personalidade met\u00e1lica, e Kenji compreendeu o sentido da ironia, de uma forma quase cruel.<\/p>\n<p>Uma convoca\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica interrompeu seu escrut\u00ednio das \u00f3rbitas: queriam-no no transporte tamb\u00e9m. A Chave de Seguran\u00e7a conseguiu confundi-lo novamente, e ele obedeceu, claudicante. Quando conseguiu acostumar-se ao n\u00edvel 42, j\u00e1 estava pr\u00f3ximo ao &#8220;bote&#8221; e qualquer rea\u00e7\u00e3o teria despertado profunda apreens\u00e3o nos humanos. De qualquer forma, ele n\u00e3o teria precisado da a\u00e7\u00e3o dos dispositivos de obedi\u00eancia: ele <em>queria<\/em> ir. Alguma coisa, que em n\u00f3s poderia ser chamada de curiosidade, o impelia. E os rob\u00f4s, inconscientes do significado da morte ou da dor, n\u00e3o a t\u00eam temperada por nenhum desses receios.<\/p>\n<p>O transporte era n\u00e3o retorn\u00e1vel. Os que haviam planejado a miss\u00e3o da &#8220;Epifania&#8221; n\u00e3o supunham que fosse jamais necess\u00e1rio &#8220;voltar&#8221;. Mesmo porque, Kenji sabia, n\u00e3o haveria para onde. O aut\u00f4mato aproximou-se dele, lentamente, analisando-o com aten\u00e7\u00e3o meticulosa. Sempre soubera da exist\u00eancia de tais botes, mas nunca se aproximara de nenhum: afinal, era um piloto, e n\u00e3o um reles faxineiro, para ficar perambulando por cada rego e desv\u00e3o da imensa espa\u00e7onave. Tendo completado sua avalia\u00e7\u00e3o do bote, soube por onde entrar e como instalar-se em seguran\u00e7a. Conectou suas interfaces, sentiu o pulsar da fraca energia que a nave emprestava \u00e0quele prec\u00e1rio transporte, fez o equivalente ao gesto humano de engolir em seco e entrou em modo de espera.<\/p>\n<p>O transporte foi empurrado at\u00e9 uma das docas de sa\u00edda. Enquanto as escotilhas eram preparadas, Kenji contemplou Andr\u00e9a, que parecia desligada, tal como os humanos ocasionalmente ficam, mesmo quando fora de seus casulos. Algumas marcas na sua pele normalmente imaculada sugeriam algum acidente em que estivera recentemente envolvida. Mas os processos de cura eram r\u00e1pidos e Chave de Seguran\u00e7a conseguia impedir que Kenji refletisse sobre quaisquer implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A escotilha abriu e o transporte foi ejetado pelo espa\u00e7o. T\u00e3o logo cruzou o limiar do casco, recebeu o jato potente do vento solar daquele astro ainda t\u00e3o jovem. Os pain\u00e9is coletaram essa energia e a armazenaram em suas baterias. Alguns motores qu\u00e2nticos foram acionados, em jorros breves, que corrigiam o curso e aproveitavam a in\u00e9rcia. E l\u00e1 ia o transporte, num movimento quase inaparente, uma lentid\u00e3o fantasmag\u00f3rica sobre a densa camada de nuvens branco-acinzentadas. As interfaces pululavam com dados, mas a precariedade do processamento nativo impedia que eles chegassem at\u00e9 Kenji de uma forma coordenada. Em vez disso, as informa\u00e7\u00f5es eram repassadas para seus poderosos c\u00e9rebros, que as processavam rapidamente, ocupando totalmente sua aten\u00e7\u00e3o com tentativas de entender o que havia. Nesses momentos em que o \u00eaxtase da informa\u00e7\u00e3o o levava a tal orgasmo eletr\u00f4nico, ele n\u00e3o conseguiria ter no\u00e7\u00e3o de mais coisa alguma, mesmo uma que gritasse e esmurrasse no compartimento traseiro.<\/p>\n<p>Romperam o teto de nuvens j\u00e1 com a fuselagem rubra do atrito de reentrada. Mas Kenji usou habilidosamente os motores para corrigir o curso e aliviar a queima. O transporte acionou v\u00e1rias vezes os retrofoguetes, manobrou pesadamente na escurid\u00e3o do lado noturno do planeta, pairou paquidermicamente e, por fim, deixou-se pousar como um elefante sem asas em um plat\u00f4 qualquer, escolhido por Kenji a partir do processamento da floresta de dados confusos que pudera ler.<\/p>\n<p>Os procedimentos de sa\u00edda come\u00e7aram, bem devagar. O r\u00e1dio foi aberto, mas n\u00e3o houve nenhum sinal al\u00e9m da est\u00e1tica. Microfones exteriores s\u00f3 capturaram o uivo dos ventos. A c\u00fapula de prote\u00e7\u00e3o do piloto destravou, deixando entrar o ar denso e frio do planeta. Para os aut\u00f4matos puros, como Kenji, &#8220;frio&#8221; n\u00e3o era um dado significativo, a menos que interferisse no funcionamento dos sistemas. E duzentos e sessenta graus Kelvin n\u00e3o chegavam a tanto. Tratou de desconectar-se da quase in\u00fatil carca\u00e7a do transporte e, pela primeira vez em centenas de anos de exist\u00eancia, tocou com suas patas met\u00e1licas um &#8220;ch\u00e3o&#8221; que n\u00e3o era tamb\u00e9m feito de metal, experimentando uma gravidade que n\u00e3o era artificial e respirando uma atmosfera que n\u00e3o era sint\u00e9tica.<\/p>\n<p>Andr\u00e9a saiu de seu habit\u00e1culo tremendo curiosamente, envolta em tecidos pesados, que dificultavam os seus movimentos. Era realmente uma coisa fr\u00e1gil, pensou Kenji: com somente dois membros pre\u00eanseis e t\u00e3o pouca resist\u00eancia ao ambiente. Mas os humanos sabiam bem porque precisavam de bonecas de carne como aquelas, e diante das circunst\u00e2ncias da chegada, at\u00e9 que ela finalmente se revelava \u00fatil.<\/p>\n<p>A atmosfera parecia opaca e anormalmente \u00famida, mas o isolamento dos mecanismos de Kenji era duplo e estava intacto. O aut\u00f4mato tateou receosamente por aquele ar leitoso e calmo, sentindo a excita\u00e7\u00e3o da novidade. A Chave de Seguran\u00e7a se transformara apenas nisso, no receio do novo, do diferente, do perigoso. N\u00e3o se importava com Andr\u00e9a, ela que ficasse no transporte se quisesse. Mas ele logo esfriaria e come\u00e7aria a decompor-se, sem o aux\u00edlio precioso dos microrreparadores. Se havia alguma esperan\u00e7a para um ser t\u00e3o est\u00fapido, teria de ser ao lado da presen\u00e7a protetora dele, que j\u00e1 se sentia t\u00e3o adaptado.<\/p>\n<p>O transporte tinha pousado sobre uma esp\u00e9cie de plat\u00f4 n\u00e3o muito alto, coberto de neve muito rala e poeira muito fina. Estava ainda escuro, mas de um dos lados o c\u00e9u se tingia de tons m\u00faltiplos de vermelho, roxo, violeta e amarelo. Um difuso globo tentava aparecer entre os bra\u00e7os agitados das nuvens. Aquele sol alien\u00edgena pareceria um comprimido efervescente no fundo de um copo de \u00e1gua \u2014 se Kenji jamais tivesse visto tal cena. N\u00e3o havia vegeta\u00e7\u00e3o \u00e0 vista, somente raros galhos secos. Revistando os dados que tinha em registro, o aut\u00f4mato considerou que tal lugar havia sido justamente escolhido por ser deserto. Pousara deliberadamente em um lugar desabitado. Na possibilidade de ainda haver vida em tal planeta, a inten\u00e7\u00e3o fora de evitar qualquer intera\u00e7\u00e3o prematura, qualquer contato antes de terem sido coletados conhecimentos suficientes.<\/p>\n<p>Kenji vasculhava todas as baixas frequ\u00eancias de r\u00e1dio. Povos primitivos as haviam utilizado desde muito cedo para transmitir dados. Tais frequencias teriam tido dificuldade para romper a camada de nuvens, vencer a ionosfera e chegar \u00e0 &#8220;Epifania&#8221; em \u00f3rbita. Teriam sido ignoradas, ent\u00e3o. Mesmo estas, por\u00e9m, mantinham o sil\u00eancio das sepulturas. Aquele planeta, se de fato possu\u00eda alguma forma de vida, estaria contemporaneamente limitado a formas pouco evolu\u00eddas tecnologicamente, ainda desconhecedoras do r\u00e1dio, ou a formas t\u00e3o evolu\u00eddas que haviam abandonado toda comunica\u00e7\u00e3o por esse meio \u2014 o que, obviamente, n\u00e3o fazia nenhum sentido.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a atmosfera ajudasse, inst\u00e1vel e cheia de radia\u00e7\u00e3o. Aquelas nuvens densas estavam pejadas de est\u00e1tica e tornavam faixas inteiras completamente inutiliz\u00e1veis. Diante de tal quadro, se ainda existisse vida inteligente usando alta tecnologia, ela poderia comunicar-se por cabo. N\u00e3o era essa, no entanto, a impress\u00e3o que o aut\u00f4mato formava em seus circuitos: aquele planeta parecia mesmo estar, como temiam os humanos, esterilizado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto continua a hist\u00f3ria iniciada em janeiro, aqui. 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