{"id":2173,"date":"2014-12-22T20:00:33","date_gmt":"2014-12-22T23:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2173"},"modified":"2017-08-13T00:16:49","modified_gmt":"2017-08-13T03:16:49","slug":"a-fazenda-da-serpente-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/a-fazenda-da-serpente-8\/","title":{"rendered":"A Fazenda da Serpente, 8"},"content":{"rendered":"<p>> Parte da s\u00e9rie [A Fazenda da Serpente](\/lit\/2014\/10\/nova-serie-a-fazenda-da-serpente) <\/p>\n<p>As chances n\u00e3o pareciam boas. Dem\u00f3stenes e seus homens conheciam os arredores e certamente a fuga de Rufino n\u00e3o era a primeira. Mas o tenente n\u00e3o queria se entregar t\u00e3o f\u00e1cil, nem deixar tantas boas armas e muni\u00e7\u00f5es nas m\u00e3os daqueles mise\u00adr\u00e1veis. A um aceno Maneco o seguiu, mesmo ainda n\u00e3o entendendo nada, porque adquirira a sabedoria que o medo ensina nessas horas.<\/p>\n<p>Correram pelos fundos da casa, mas Rufino sentia nos ossos que seriam cercados. Lembrou ent\u00e3o dos espinheiros: n\u00e3o os temeria, lembrou da inf\u00e2n\u00adcia na caatinga correndo atr\u00e1s de gado com os empre\u00adga\u00addos da fazenda, aferrou os punhos e se atirou nos bra\u00ad\u00e7os dolorosos daquele abrigo. Maneco hesi\u00adtou, mas enten\u00addeu, e pulou atr\u00e1s, atirando o improvisado saco antes de si.<\/p>\n<p>Logo ouviram assobios vindos do quarto, e pios de curi\u00adan\u00adgos vindo do terreiro. Sinais combinados entre os capangas, que j\u00e1 nem precisavam de palavras. Pouco depois passaram dois grupos de homens em armas, vindos de lados opostos da casa, como Rufino temera. No escuro a sensa\u00e7\u00e3o de sua pre\u00adsen\u00e7a era ainda mais assustadora do que teria sido a sua ima\u00adgem \u00e0 luz da lua.<\/p>\n<p>Mas a sorte estava do lado de Rufino. A lua come\u00e7ava a aparecer, t\u00edmida, entre as nuvens que se abriam. Ouviu-se um relin\u00adcho na cocheira e todos partiram precipitadamente para l\u00e1, por certo imaginando que os fugitivos tentavam recuperar os seus cavalos para ganhar o mundo. Nesse momento a lua clareou em torno da casa exatamente o suficiente para Rufino ter certeza de que ningu\u00e9m ficara para tr\u00e1s a vigiar. Saiu ent\u00e3o de seu esconderijo e apontou para o mato: <\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem jeito, Maneco. N\u00e3o d\u00e1 para pegar os cavalos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas vamos tentar, pelo menos, seguir na dire\u00e7\u00e3o da estrada. Tentar voltar ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acho boa ideia. \u00c9 exatamente essa a dire\u00e7\u00e3o que eles v\u00e3o seguir amanh\u00e3, em nossa procura. Vamos entrar mais para dentro de Minas Gerais, vamos tentar achar outra fazenda que nos abrigue por um dia ou dois.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m conhecido de Dem\u00f3stenes nos dar\u00e1 abrigo, a n\u00e3o ser para nos entregar.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, mas se pudermos achar a fam\u00edlia do Jacinto.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 louco, Tenente? Bem se v\u00ea que o senhor nunca esteve nos Sert\u00f5es do Leste. Aqui n\u00e3o \u00e9 como em Per\u00adnam\u00adbuco, com tantas vilas e fazendas perto da costa. Aqui se pode andar dezenas de l\u00e9guas sem encontrar uma viva alma. Ou pior, encontrando \u00edndios.<\/p>\n<p>\u2014 O que sugere, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Precisamos de cavalos, Tenente. No m\u00ednimo, n\u00f3s pre\u00adcisamos de cavalos.<\/p>\n<p>Os dois correram pelo emaranhado da capoeira, nunca perdendo a casa de vista. Do alto do morro, \u00e0 luz do luar que j\u00e1 se deitava sem cortes sobre a terra, viram o rebuli\u00e7o dos homens de Dem\u00f3stenes, preocupados com os cavalos. Depois eles se separaram, com alguns grupos percorrendo novamente o entorno do terreiro, em busca de pegadas.<\/p>\n<p>\u2014 Foi mesmo boa ideia de saltar no espinheiro, Rufino. N\u00e3o nos escondemos s\u00f3 da vista, nossos rastos tamb\u00e9m fica\u00adram confusos com os deles. N\u00e3o t\u00eam como saber por onde vie\u00admos. Para todo efeito \u00e9 como se tiv\u00e9ssemos voado.<\/p>\n<p>\u2014 Maneco, n\u00e3o tem jeito \u2014 interrompeu Rufino em um sussurro \u2014 eles deixaram sentinelas na cocheira.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pense bestagem, homem. Podemos matar esses tr\u00eas, mas tem muitos outros al\u00e9m. N\u00e3o adianta matar ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, disso j\u00e1 discordo. Mesmo sem levarmos cavalos, diminuir o n\u00famero de m\u00e3os que podem nos matar.<br \/>\nRufino assentiu. Retiraram os mosquetes do embrulho e perfilaram-nos sobre uma pedra. <\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que d\u00e1 para acertar daqui?<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas tiros, apenas. Mais que isso e podem come\u00ad\u00e7ar a adi\u00advinhar de onde estamos atirando.<\/p>\n<p>Rufino disparou primeiro. O estrondo e a fuma\u00e7a assusta\u00adram cavalos e c\u00e3es, e a bala atingiu um dos homens, que caiu com as m\u00e3os sobre o peito. Os outros dois, que n\u00e3o pareciam ter muita experi\u00eancia de tiro ou de briga, pensaram primeiro em ampar\u00e1-lo, virando alvo f\u00e1cil de Maneco, que disparou o segundo tiro. O segundo homem caiu de bru\u00e7os sobre o pri\u00admeiro, sem nem estrebuchar, como se a bala tivesse atingido cabe\u00e7a. Rufino atirou pela segunda vez, mas o disparo mas\u00adcou. Maneco pegou outro mosquete e atirou, mas a bala se per\u00addeu, provavelmente atingindo o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Os outros todos correram pelo terreiro e se esconderam na quina da casa, sem se aproximarem da cocheira. Era evi\u00addente que n\u00e3o eram t\u00e3o ignorantes quanto Maneco e Rufino haviam suposto, pois perceberam de onde os disparos estavam vindo e se protegeram bem. Tamb\u00e9m n\u00e3o esperdi\u00e7aram balas atirando no mato sem alvo. O terceiro sentinela da cocheira enfim se deu conta de sua estupidez e correu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa. Rufino pegou seu terceiro mosquete e atirou, mais de tro\u00e7a do que em s\u00e9rio, mirando no ponto futuro da corrida. A bala n\u00e3o o acertou, mas o homenzinho deu uns saltos c\u00f4micos e se estatelou no ch\u00e3o, levantando depois e finalmente encon\u00adtrando abrigo.<\/p>\n<p>\u2014 E agora? N\u00e3o podemos ficar no mato de tocaia. Logo que o dia amanhecer eles nos acham.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, como eu queria um cavalo.<\/p>\n<p>\u2014 Espera, homem. Lembra da carro\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Sim!<\/p>\n<p>\u2014 Vamos roubar aquela carro\u00e7a. <\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos! Mas antes vamos deixar uma brinca\u00addeira para aqueles miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os dois embrulharam de novo as armas nos uniformes e retornaram pelo mesmo trilho, rumo aos espinheiros, dei\u00adxando o isqueiro aceso sobre a pedra. Era uma pena aban\u00addo\u00adn\u00e1-lo, mas havia preju\u00edzos piores na situa\u00e7\u00e3o. Chegando aos espinheiros, sal\u00adtaram sobre eles e logo seus passos coincidiam com o pisoteio dos capangas que haviam circulado a sede. Do outro lado da casa ouviram tiros. A chama cumpria sua fun\u00ad\u00e7\u00e3o. Decerto os homens de Dem\u00f3stenes imaginavam que os fugitivos estavam usando a luz para recarregarem as armas.<\/p>\n<p>Apesar da pressa, Rufino percebeu a tempo que a carro\u00e7a n\u00e3o estava abandonada. Dois homens. Um \u00e0 boleia, preparado para conduzi-la, e um segundo que terminava de atirar outro fardo para dentro dela.<\/p>\n<p>\u2014 Sil\u00eancio, Maneco. Esta n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o para mos\u00adquete e nem pistola.<\/p>\n<p>Rufino desembainhou a peixeira com carinho. Guardava-a por dentro do uniforme, escondida, aproveitava-se da sua con\u00addi\u00e7\u00e3o de oficial para esconder uma arma irregular. Entre\u00adgou a Maneco o seu sabre de oficial e os dois seguiram pela sombra do telhado, deixando o pacote atr\u00e1s de si. O homem que deixara o fardo subiu \u00e0 boleia junto com o outro. Era a hora, ou nunca mais. Rufino acenou a Maneco que fosse pela direita. Os dois se moveram r\u00e1pido, aproveitando o gramado baixo. Seus passos foram ouvidos, os dois se voltaram para ver, mas antes que pudessem dizer qualquer coisa j\u00e1 n\u00e3o era pos\u00ads\u00edvel dizerem coisa alguma. A peixeira de Rufino entrou por debaixo das costelas do condutor, fazendo seu grito agar\u00adrar na garganta, enquanto o sabre nas m\u00e3os de Maneco atingia o pesco\u00e7o do outro com tanta for\u00e7a que a l\u00e2mina praticamente o decapitou. Um instante depois e os dois guardas j\u00e1 tinham removido dos mortos os seus capotes de chuva e seus chap\u00e9us e estavam \u00e0 boleia.<\/p>\n<p>\u2014 Para onde, Rufino?<\/p>\n<p>Em vez de dar uma resposta, o tenente tocou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada que levava para o interior de Minas Gerais. Antes, por\u00e9m, de chegar at\u00e9 ela, divisaram o terreiro todo por detr\u00e1s de si, e Rufino girou a cabe\u00e7a para matar a curiosidade sobre a figura misteriosa. Ela n\u00e3o estava l\u00e1 mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Parte da s\u00e9rie [A Fazenda da Serpente](\/lit\/2014\/10\/nova-serie-a-fazenda-da-serpente) As chances n\u00e3o pareciam boas. Dem\u00f3stenes e seus homens conheciam os arredores e certamente a fuga de Rufino n\u00e3o era a primeira. Mas o tenente n\u00e3o queria se entregar t\u00e3o f\u00e1cil, nem deixar tantas boas armas e muni\u00e7\u00f5es nas m\u00e3os daqueles mise\u00adr\u00e1veis. A um aceno Maneco o seguiu, mesmo ainda n\u00e3o entendendo nada, porque adquirira a sabedoria que o medo ensina nessas horas. Correram pelos fundos da casa, mas Rufino sentia nos ossos que seriam cercados. 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