{"id":219,"date":"2011-09-25T20:13:00","date_gmt":"2011-09-25T23:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=219"},"modified":"2017-11-02T14:09:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:07","slug":"coisas-de-minha-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/09\/coisas-de-minha-terra\/","title":{"rendered":"Coisas de Minha Terra"},"content":{"rendered":"<p>Apontamentos avulsos e incompletos encontrados datilografados sobre o verso de p\u00e1ginas contendo alguns poemas. Tanto os poemas quanto esses apontamentos haviam desaparecido de minha lembran\u00e7a. A data (dos poemas) \u00e9 1994, a destes apontamentos deve ser um pouco depois (um ano, no m\u00e1ximo). Trata-se aqui do texto mais antigo cuja forma original n\u00e3o tem influ\u00eancia alguma de revis\u00f5es posteriores. Uma verdadeira rel\u00edquia da \u00e9poca em que eu ainda estava aprendendo a tentar escrever. Mais do que isso, parecem ser apontamentos para um gloss\u00e1rio que ficaria como ap\u00eandice de um romance que, sob certos aspectos, evoca muito o \u00abSerra da Estrela\u00bb. Por uma dessas estranhas coincid\u00eancias que a vida tem, meu pai encontrou essas folhas soltas no meio de um monte de papel velho que ia queimar, e salvou para mim.<\/p>\n<dl>\n<dt>Benzinho<\/dt>\n<dd>Planta rasteira cujas sementes s\u00e3o envoltas por uns espinhos terr\u00edveis que se curvam ao entrar na pele, tornando dif\u00edcil e dolorosa a retirada. Talvez o s\u00e1bio homem do campo tenha visto nesta ades\u00e3o teimosa uma met\u00e1fora para o amor obstinado, que machuca a carne, \u00e9 dif\u00edcil de largar e deixa uma inflama\u00e7\u00e3o persistente depois que \u00e9 arrancado.<\/dd>\n<dt>Quinze Bandas<\/dt>\n<dd>Em Minas Gerais as dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o coincidem com os pontos cardeais, n\u00e3o s\u00e3o as oito da rosa dos ventos: s\u00e3o quinze, que incluem acima, abaixo, para l\u00e1, para c\u00e1, desse lado, daquele, antes, depois etc. A semente do quinze bandas (um outro espinheiro da regi\u00e3o) s\u00e3o recobertas de espinhos orientados para todos os lados (ou &#8220;bandas&#8221;, como se diz por aqui).<\/dd>\n<dt>Mo\u00e7a Velha<\/dt>\n<dd>Trata-se de uma flor cujo tra\u00e7o peculiar \u00e9 a falta de vi\u00e7o: as p\u00e9talas parecem um papel crepom sem brilho, \u00e1spero, o talo \u00e9 grosso, mas tem uma consist\u00eancia murcha e \u00e9 recoberto de pelinhos. As folhas s\u00e3o escuras e molengonas. As flores, por sua vez, s\u00e3o de muitas cores poss\u00edveis: vermelhas, amarelas, alaranjadas, rosadas, violetas, brancas e acastanhadas. As p\u00e9talas s\u00e3o radiadas e algumas plantas t\u00eam flores com dupla camada.<\/dd>\n<dt>Cora\u00e7\u00e3o da \u00cdndia<\/dt>\n<dd>N\u00e3o consegui apurar com certeza o motivo do nome po\u00e9tico dessa fruta, parecida com uma pinha. Sua polpa \u00e9 delicada e doce, de cor branca semitransparente e consist\u00eancia de geleia, mas o cheiro \u00e9 forte e resinoso. O formato lembra vagamente um cora\u00e7\u00e3o, mas casca \u00e9 verde.<\/dd>\n<dt>Ch\u00e1 da Meia Noite<\/dt>\n<dd>Dito zombeteiro muito comum nas hist\u00f3rias de nossas av\u00f3s, que relatavam hist\u00f3rias de esposas maltratadas por maridos violentos que encontraram a sua liberta\u00e7\u00e3o fazendo-os beber o dito ch\u00e1. Na l\u00edngua do povo as mortes s\u00fabitas de pessoas relativamente jovens e aparentemente saud\u00e1veis eram atribu\u00eddas a feiti\u00e7o, veneno ou &#8220;artes de mulher&#8221;, um termo obscuro que engloba principalmente a exaust\u00e3o do parceiro no amor. Mas o ch\u00e1 da meia noite, por ser meio menos sacrificado, era o preferido. Muitas plantas nativas de Minas Gerais s\u00e3o venenosas, e algumas podem agir em doses relativamente pequenas.<\/dd>\n<dt>Os Misteriosos Efeitos da Apari\u00e7\u00e3o do Diabo<\/dt>\n<dd>Consta que o diabo era visitante regular de uma certa sede de fazenda, cujo antigo dono, sacr\u00edlego e assassino, morrera sem extrema un\u00e7\u00e3o. O fantasma do velho  ainda se arrastava pelas ru\u00ednas da fazenda abandonada, t\u00e3o apegado \u00e0s suas posses que nem o diabo conseguia tir\u00e1-lo de l\u00e1 e levar para o Inferno. As apari\u00e7\u00f5es do diabo eram saudadas por uma sucess\u00e3o de eventos antinaturais: peixes que sa\u00edam da \u00e1gua para respirar, ratos ca\u00e7ando gatos, vacas montando nos bois, frutas subindo de volta para as \u00e1rvores e\u2026 o mais extraordin\u00e1rio de todos: a troca de crias entre duas esp\u00e9cies inusitadas. Mesmo o fantasmas sendo invis\u00edvel e o diabo n\u00e3o fazendo nenhuma quest\u00e3o de aparecer para mais ningu\u00e9m, era f\u00e1cil detectar a presen\u00e7a demon\u00edaca pela vis\u00e3o de uma porca que dava de mamar a uma ninhada de pintinhos e de uma galinha que chocava uma ninhada de porquinhos. Ou vice-versa, isso depende de quem conta.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Al\u00e9m desses trechos, estou expandindo uma outra hist\u00f3ria contida no mesmo manuscrito, que postarei na quarta feira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apontamentos avulsos e incompletos encontrados datilografados sobre o verso de p\u00e1ginas contendo alguns poemas. Tanto os poemas quanto esses apontamentos haviam desaparecido de minha lembran\u00e7a. A data (dos poemas) \u00e9 1994, a destes apontamentos deve ser um pouco depois (um ano, no m\u00e1ximo). Trata-se aqui do texto mais antigo cuja forma original n\u00e3o tem influ\u00eancia alguma de revis\u00f5es posteriores. Uma verdadeira rel\u00edquia da \u00e9poca em que eu ainda estava aprendendo a tentar escrever. 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