{"id":22,"date":"2013-06-03T18:30:00","date_gmt":"2013-06-03T21:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=22"},"modified":"2018-11-26T23:07:54","modified_gmt":"2018-11-27T02:07:54","slug":"a-serpente-com-asas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/a-serpente-com-asas\/","title":{"rendered":"A Serpente com Asas"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Dedicado a <a href=\"http:\/\/plus.google.com\/102048567868295207858\" target=\"_blank\">+F\u00e9lix Maranganha<\/a><\/div>\n<p>Confesso que tive durante muito tempo uma certa resist\u00eancia  preconceituosa contra a tatuagem. Coisa de marinheiros, de presidi\u00e1rios, de maconheiros, de nefelibatas, de mafiosos japoneses que amputam os pr\u00f3prios dedos. Nada que caiba no quadrado perfeito em que inscrevo minhas opini\u00f5es. O tempo, por\u00e9m, foi me educando mais a  respeito do tema e eu fui percebendo que h\u00e1 tatuagens e tatuagens\u2026 Algumas eu posso apensa desconsiderar, outras s\u00e3o realmente desprez\u00edveis, algumas eu devo temer e a maioria \u00e9 simplesmente sem sentido.<\/p>\n<p>Mas eu comecei a perder meu preconceito gra\u00e7as a Fernanda. Eu tinha vinte e cinco anos de sonho e de sangue e de Am\u00e9rica do Sul quando ela anoiteceu na minha vida, com seus cabelos longos, seu nariz comprido, seu olhar perdido e seu pesco\u00e7o&nbsp; grosso entre os ombros. Tinha tamb\u00e9m uma tatuagem de uma lua crescente no bra\u00e7o direito, justo sobre a marca da vacina da var\u00edola, &#8220;para disfar\u00e7ar que a cicatriz \u00e9 muito feia&#8221;. Eu teria dito que feia era a tatuagem, mas s\u00f3 fui saber dela quando meu ju\u00edzo j\u00e1 se perdera por Fernanda, e ent\u00e3o eu j\u00e1 n\u00e3o acharia feio nada que existisse nela.<\/p>\n<p>Certa vez, era tardinha, tom\u00e1vamos uma cerveja ao anoitecer de sexta feira, l\u00e1 no D&#8217;\u00c2ngelo, quando ouvimos falar do pr\u00eamio alto que pagariam na loteria. Ela me ati\u00e7ou a apostar:<\/p>\n<p>\u2014 Um bilhete s\u00f3, querido. Exponha-se ao azar de ficar milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, Fernanda, ficar rico \u00e9 muito bom, mas \u00e9 algo que se deve fazer sem testemunhas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se preocupe, \u00e9 s\u00f3 dizer a todo mundo que o bilhete premiado da cidade n\u00e3o foi o seu.<\/p>\n<p>Assim, de brincadeira, fomos parar na casa lot\u00e9rica e eu peguei um volante para marcar seis n\u00fameros aleat\u00f3rios. N\u00e3o vale a pena descrever os m\u00e9todos heterodoxos para escolha das dezenas, mas resultou um palpite que nunca mais esqueci: 11, 13, 31, 43, 45, 54. Feita a aposta, enquanto entr\u00e1vamos no carro para ir embora jantar em casa, ela me perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Vai conseguir guardar de todo mundo o segredo? Aguenta segurar a not\u00edcia por quanto tempo?<\/p>\n<p>Naquele momento, sem pesar muito o que estava dizendo, eu fiz um coment\u00e1rio leviano:<\/p>\n<p>\u2014 Consigo guardar o segredo por toda uma vida se eu encontrar uma forma de cont\u00e1-lo para todo mundo, o tempo todo. E poderei contar, se for de uma maneira que ningu\u00e9m entenda.<\/p>\n<p>\u2014 Tente pichar a confiss\u00e3o em b\u00falgaro no muro de sua casa.<\/p>\n<p>\u2014 Tem que ser algo melhor do que isso, nunca se sabe quando um b\u00falgaro aparecer\u00e1 nesta cidade. Tenho uma ideia melhor: se ganhar prometo que fa\u00e7o em meu bra\u00e7o a tatuagem de uma cobra com asas.<\/p>\n<p>Fernanda caiu na gargalhada, aquela gargalhada sem freios que ela tinha e que me assustava, aquele jeito de espojar-se no riso como uma vil\u00e3 de contos de fada. Vestida de preto e cheia de maquiagem como estava, parecia ainda mais bruxa m\u00e1.<\/p>\n<p>Ela nunca acreditou em mim, achava-me careta demais. Meu palpite n\u00e3o foi premiado naquela semana, nem na seguinte. Se ela chegou a contar para algu\u00e9m a hist\u00f3ria, mesmo depois de terminarmos, \u00e9 certo que ningu\u00e9m mais se lembrava do caso, de forma que eu mesmo n\u00e3o me lembrava dele, a n\u00e3o ser quando repetia a aposta, geralmente nas ocasi\u00f5es em que o pr\u00eamio acumulava. Mas ent\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Era de manh\u00e3 e eu acordara sonolento e pregui\u00e7oso. Estava cochilando na rede cochilando quando um vento ainda mais frio soprou da rua, balan\u00e7ando as folhas das \u00e1rvores. Senti a pele encolher em v\u00e3o, os m\u00fasculos repuxaram e os dentes bateram.<\/p>\n<p>Levantei sobressaltado e fui para dentro de casa preparar-me um caf\u00e9 para espantar a sonol\u00eancia. Sentado \u00e0 mesa, contemplava alternadamente a paisagem das montanhas, na estreita janela da \u00e1rea de servi\u00e7o, filtrada pelo vapor que subia do caneco de alum\u00ednio em que estava fervendo a \u00e1gua. No vapor come\u00e7ou a se desenhar, lentamente, a figura de um bicho com asas largas, asas de pomba, mas um corpo comprido e saliente, corpo de serpente.<\/p>\n<p>Esfreguei os olhos e a serpente voadora n\u00e3o estava mais l\u00e1. Olhei o rel\u00f3gio e vi que eram apenas dez da manh\u00e3. Ainda dava tempo. Tomei aquele caf\u00e9 com pressa e p\u00e3es de queijo, vesti-me e fui ao centro da cidade marcar meu bilhete.<\/p>\n<p>\u00c0 noite vi embascado o notici\u00e1rio da televis\u00e3o anunciar meus n\u00fameros. N\u00e3o fora nada t\u00e3o extraordin\u00e1rio quanto ganhar sozinho um concurso acumulado, ficar rico de ter dezenas de milh\u00f5es, mas eram 12 respeit\u00e1veis pacotes, mais dinheiro do que eu conseguiria carregar.<\/p>\n<p>Certa  vez, de brincadeira, enquanto marcava um bilhete de loteria na presen\u00e7a  de uma namorada, eu tinha dito que, se ganhasse, mandaria tatuar no meu  bra\u00e7o uma cobra com asas. Ela nunca me perguntou o porqu\u00ea e nem eu refleti muito sobre, at\u00e9 aquele dia em que vira a sombra de uma serpente alada no vapor da \u00e1gua do caf\u00e9. Devia ter dito a Fernanda que eu queria desmentir que Deus n\u00e3o d\u00e1 asas a cobra.<\/p>\n<p>Desliguei a televis\u00e3o e me enrolei nas cobertas, sem conseguir dormir. Meus olhos estavam arreganhados, vidrados, e enxergavam no escuro fant\u00e1sticas sombras que voejavam, compridas e ondulantes, pelas paredes e sombras do quarto e do mundo.<\/p>\n<p>Virei para um lado, puxei a coberta e rolei para o outro lado, puxei e rolei de volta, prendendo-a dos dois lados debaixo do meu corpo, apertando. Ergui os p\u00e9s, deixei que a ponta sobrasse debaixo dos meus calcanhares. Estava empacotado como um picol\u00e9 dentro do inv\u00f3lucro. Pernas e bra\u00e7os estendidos, duros, dentro daquele casulo cil\u00edndrico formado pela coberta em torno de meu corpo. De repente tive vontade de erguer novamente as pernas, e de abaixar, e de rolar para o lado, e para o outro, cair da cama, sair do quarto, seguir o mundo, mas n\u00e3o tinha asas.<\/p>\n<p>Dormi uma noite de sonho inquieto, represando sentimentos contradit\u00f3rios, querendo morder minha pr\u00f3pria l\u00edngua, que secava no ar enquanto o sil\u00eancio da noite ia enchendo os meus ouvidos.<\/p>\n<p>Por fim, l\u00e1 pela madrugada velha, compreendi o que devia fazer:<\/p>\n<p>\u2014 Segunda feira, em vez de trabalhar, passo no tatuador e fa\u00e7o essa da promessa.<\/p>\n<p>E ri, quase engasgando em meu pr\u00f3prio veneno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dedicado <a href=\"http:\/\/plus.google.com\/102048567868295207858\" target=\"_blank\">+F\u00e9lix Maranganha<\/a>Confesso que tive durante muito tempo uma certa resist\u00eancia  preconceituosa contra a tatuagem. Coisa de marinheiros, de presidi\u00e1rios, de maconheiros, de nefelibatas, de mafiosos japoneses que amputam os pr\u00f3prios dedos. Nada que caiba no quadrado perfeito em que inscrevo minhas opini\u00f5es. O tempo, por\u00e9m, foi me educando mais a  respeito do tema e eu fui percebendo que h\u00e1 tatuagens e tatuagens\u2026 Algumas eu posso apensa desconsiderar, outras s\u00e3o realmente desprez\u00edveis, algumas eu devo temer e a maioria \u00e9 simplesmente sem sentido.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[30,24,148,15,9],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6130,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions\/6130"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}