{"id":222,"date":"2011-09-18T23:21:00","date_gmt":"2011-09-19T02:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=222"},"modified":"2017-11-02T14:09:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:07","slug":"nao-acredito-em-sorteios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/09\/nao-acredito-em-sorteios\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Acredito em Sorteios"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 claro que eu ocasionalmente me arrisco com um bilhete de loteria (geralmente a Mega Sena), afinal n\u00e3o faz mal correr o risco de subitamente ficar milion\u00e1rio. Mas eu nunca aposto mais do que exatamente <b>um<\/b> bilhete e n\u00e3o tenho h\u00e1bito de apostar nada mais. Isto \u00e9 porque eu n\u00e3o acredito em sorteios, bingos, rifas, , milagres, t\u00edtulos de capitaliza\u00e7\u00e3o ou acasos felizes. N\u00e3o acredito porque jamais ganhei nada em minha vida. Todas as poucas coisas que tenho eu tive que comprar com dinheiro ganho trabalhando. Nunca algu\u00e9m me disse &#8220;olha, aqui tem um carro novo para voc\u00ea&#8221; ou &#8220;voc\u00ea ganhou um milh\u00e3o de reais&#8221;. Por outro lado, j\u00e1 passei por situa\u00e7\u00f5es que deixaram claro que esse neg\u00f3cio de sorteios n\u00e3o \u00e9 comigo.<\/p>\n<p>Talvez o caso mais escabroso tenha sido um daqueles bingos promovidos por clubes esportivos que andavam na moda em meados dos anos noventa. Comprei uma cartela daquelas e fui para o campo do Oper\u00e1rio de caneta na m\u00e3o, debaixo de um sol de trinta e oito graus, para ouvir algu\u00e9m gritar as dezenas sorteadas. Foram duas horas suando e sem beber \u00e1gua porque naquela \u00e9poca em que n\u00e3o havia caixa eletr\u00f4nico eu n\u00e3o tinha sacado dinheiro durante a semana. Por fim, chegou o pr\u00eamio final, o grande pr\u00eamio, um autom\u00f3vel novo (e n\u00e3o era qualquer autom\u00f3vel, mas um bom autom\u00f3vel). Os n\u00fameros se sucederam numa sequencia assombrosa que quase me fez perder o f\u00f4lego. At\u00e9 que finalmente me vi a um n\u00famero de completar a cartela. E assim fiquei por vinte e duas rodadas at\u00e9 que finalmente outra pessoa completou o bilhete e ficou com o carro.<\/p>\n<p>Alguns de meus amigos mais chegados j\u00e1 perceberam essa minha caracter\u00edstica. Os mais supersticiosos jamais me convidam para participar de um bol\u00e3o. H\u00e1 os que evitam ficar perto de mim se por acaso estivermos em uma quermesse e forem sortear um bingo ou correr uma rifa (que eu quase nunca compro, mas a minha mulher adora). Todas as vezes que as palavras &#8220;Voc\u00ea ganhou&#8221; me foram dirigidas, foram tentativas de golpe via telefone celular. Telefonemas inesperados invariavelmente s\u00e3o de credores me cobrando d\u00edvidas das quais eu n\u00e3o me lembrava. Dia desses reclamaram que deixei de pagar quatro meses de hospedagem de um site que eu cancelei h\u00e1 anos. Devem ter achado uma ficha sem cancelar no fundo de alguma gaveta e resolveram fazer uns cobres nela. Como o valor era pequenino eu preferi pagar.<\/p>\n<p>Quando um conhecido se aproxima dizendo &#8220;preciso falar com voc\u00ea em particular&#8221;, sempre \u00e9 para pedir a minha contribui\u00e7\u00e3o (monet\u00e1ria) para alguma causa. Nunca algum me chamou para dizer haviam contribu\u00eddo para a minha causa. Todas as vezes em que tentei buscar apoio na religi\u00e3o, encontrei o carn\u00ea d\u00edzimo antes de topar com alguma d\u00e1diva divina. N\u00e3o sei o que Deus espera, mas seus profetas esperam que eu pague ped\u00e1gio para sentar no banco e cantar o hino. Tanto assim que j\u00e1 cheguei a concluir que n\u00e3o quero mais religi\u00e3o. J\u00e1 que a gra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de gra\u00e7a, eu fico com o que d\u00e1 para comprar, ainda que sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>As \u00fanicas pessoas que chegaram a me dar alguma coisa foram os meus familiares, mas eles, obviamente, s\u00f3 me deram o que eles pr\u00f3prios haviam antes comprado com o seu trabalho. De forma que isso n\u00e3o invalida o fato de que nada existe em minha vida, hoje ou ontem, que n\u00e3o tenha vindo com cheiro de suor, ou com ard\u00eancia nos olhos de noites viradas a ler.<\/p>\n<p>Causa-me espanto, considerando quem eu sou e esses valores que carrego desde antanho, que tanta gente viva ativamente a esperar pela loteria. N\u00e3o falo de pessoas que ocasionalmente arriscam um bilhete, mas de gente que chega a fazer planos para depois de ganhar, gente que visita no s\u00e1bado a imobili\u00e1ria para ver pre\u00e7os de casas pensando no sorteio de logo mas \u00e0 noite. Bem, talvez n\u00e3o chegue a tanto, mas deve ser bastante grande o n\u00famero dos obcecados com sorteios, visto que este \u00e9 um dos tr\u00eas assuntos predominantes na Internet e ganhar coisas de gra\u00e7a (honestamente ou n\u00e3o) \u00e9 a raz\u00e3o de ser da maior parte das mensagens de correio eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Enquanto digo isso, analisando friamente, chego a uma conclus\u00e3o curiosa: se formos usar o spam como uma ferramenta para medir o que as pessoas s\u00e3o e pensam, temos de concluir que os grandes e mais prementes problemas da humanidade s\u00e3o, al\u00e9m dos sorteios,  disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til, p\u00eanis pequeno, vi\u00favas indefesas de milion\u00e1rios nigerianos, criancinhas americanas morrendo com c\u00e2ncer e a eterna e insaci\u00e1vel car\u00eancia de Jesus por mais amigos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 claro que eu ocasionalmente me arrisco com um bilhete de loteria (geralmente a Mega Sena), afinal n\u00e3o faz mal correr o risco de subitamente ficar milion\u00e1rio. 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