{"id":2247,"date":"2014-12-21T11:44:03","date_gmt":"2014-12-21T14:44:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2247"},"modified":"2017-08-13T00:16:50","modified_gmt":"2017-08-13T03:16:50","slug":"12-verdades-doidas-57-meses-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/12-verdades-doidas-57-meses-depois\/","title":{"rendered":"12 Verdades Do\u00eddas &#8211; 57 meses depois"},"content":{"rendered":"<p>Em mar\u00e7o de 2010 eu publiquei aqui um artigo intitulado [12 Verdades Do\u00eddas e uma Confiss\u00e3o Desesperada](\/lit\/2010\/03\/12-verdades-doidas-e-uma-confissao-desesperada), no qual refleti, com certa amargura, sobre uma s\u00e9rie de debates sobre literatura em comunidades de redes sociais &#8212; e como isso me havia afetado. Hoje me deparei de novo com ele e resolvi analisar em que pontos minha opini\u00e3o mudou, e em que outros ela permaneceu.<\/p>\n<p>1 &#8211; Escrever \u00e9 um privil\u00e9gio e n\u00e3o um direito. Hoje continuo pensando mais ou menos a mesma coisa, mas com uma diferen\u00e7a fundamental: eu n\u00e3o acho que esse privil\u00e9gio tenha tanto a ver com talento inato, mas com as oportunidades que a pessoa tem durante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia. Se ela n\u00e3o usufruir de experi\u00eancias que lhe favore\u00e7am o desenvolvimento da escrita, n\u00e3o chegar\u00e1 a escrever bem. Isso vale para tudo na vida, n\u00e3o s\u00f3 escrever. A pedagogia ensina que existe uma idade adequada para a alfabetiza\u00e7\u00e3o, para o come\u00e7o do estudo da m\u00fasica, para aprender a primeira l\u00edngua estrangeira, etc.<\/p>\n<p>2 &#8211; N\u00e3o existe pseudo-intelectual. Acho que este \u00e9 o ponto menos compreendido de todos que eu apontei. Ningu\u00e9m at\u00e9 hoje entendeu que eu quis dizer que as pessoas tidas como &#8220;pseudo-intelectuais&#8221; de fato possuem uma cultura bastante extensa e portanto n\u00e3o podemos atribuir-lhes o adjetivo &#8220;pseudo&#8221;. Podemos discordar delas ou at\u00e9 julgar que sua cultura  \u00e9 insuficiente mas chamar de &#8220;pseudo-intelectual&#8221; \u00e9 como dizer que certo m\u00fasico &#8220;n\u00e3o \u00e9 m\u00fasico&#8221; apenas porque n\u00e3o toca t\u00e3o bem.<\/p>\n<p>3 &#8211; Motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 algo interno, n\u00e3o externo. N\u00e3o retiro uma v\u00edrgula disso. As pessoas que desejam escrever precisam desejar isso com for\u00e7a, n\u00e3o podem desanimar na primeira cr\u00edtica. Tamb\u00e9m acredito que isso vale para tudo na vida: temos de ter for\u00e7a de vontade para buscar o que queremos.<\/p>\n<p>4 &#8211; Tudo que voc\u00ea escreve \u00e9 porcaria. Eu quis aqui quebrar o excesso de autoconfian\u00e7a que os iniciantes costumam ter (e at\u00e9 2010 eu ainda tinha). Hoje eu penso que devemos ter uma rela\u00e7\u00e3o desapaixonada com o pr\u00f3prio texto, em vez de defend\u00ea-lo zelosamente como uma cadela protegendo sua ninhada.<\/p>\n<p>5 &#8211; Seus amigos s\u00f3 te elogiam porque s\u00e3o seus amigos. Eu jamais seria rigoroso ao criticar um texto de um amigo. Amigos s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis de fazer que n\u00e3o vale a pena a gente perder por causa de um texto mal escrito. Acredito que o mesmo fazem os outros. Claro que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre evitar comentar (e criticar) e fazer elogios rasgados e insinceros, mas estes existem tamb\u00e9m. Mas o que eu quis dizer, e hoje preciso clarear um pouco melhor, \u00e9 que os melhores leitores de nossa obra s\u00e3o pessoas que n\u00e3o nos conhecem &#8212; e que, por isso, podem nos julgar com isen\u00e7\u00e3o. Inclusive porque os amigos, por ocasionalmente terem as mesmas experi\u00eancias que n\u00f3s, ter\u00e3o mais facilidade para interpretar coisas que seriam obscuras para leitores desconhecidos. Por isso n\u00e3o acho bom usar amigos como leitores beta.<\/p>\n<p>6 &#8211; N\u00e3o existem &#8220;cr\u00edticas construtivas&#8221;, apenas cr\u00edticas. Na \u00e9poca eu escrevi isso num contexto muito espec\u00edfico. Alguns jovens participantes de alguns grupos liter\u00e1rios do Orkut ignoravam cr\u00edticas que n\u00e3o lhes agradavam dizendo que n\u00e3o eram construtivas. O que eu quis dizer \u00e9 que o autor tem que considerar todas as cr\u00edticas, mesmo as que sejam destrutivas. N\u00e3o que precise se guiar por toda cr\u00edtica, mas que devem analis\u00e1-las sem raiva. N\u00e3o podemos achar que s\u00f3 porque a cr\u00edtica nos ofendeu ela est\u00e1 errada. Hoje em dia eu n\u00e3o concordo exatamente com isso, porque sei que muita gente critica para ofender gratuitamente, mas ainda acho que \u00e9 melhor ser ofendido do que ignorado. Paulo Coelho e Draccon que o digam.<\/p>\n<p>7 &#8211; O seu esfor\u00e7o n\u00e3o vale, me mostre o que voc\u00ea fez. Embora eu n\u00e3o seja mais t\u00e3o agressivo, ainda acho que o autor n\u00e3o deve fazer propaganda de seu esfor\u00e7o, mas de seus resultados. A obra deve falar por si. Mencionar o longo tempo gasto para faz\u00ea-la, ou a trabalhosa pesquisa que requereu, \u00e9 apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>8 &#8211; Se voc\u00ea fosse um g\u00eanio, algu\u00e9m j\u00e1 teria percebido. G\u00eanios s\u00e3o precoces. Eles publicam cedo e cedo s\u00e3o elogiados. A maioria dos autores publica tarde e evolui devagar, muitos s\u00f3 s\u00e3o reconhecidos ap\u00f3s a morte &#8212; e muitos que foram mesmo geniais e morreram cedo s\u00f3 s\u00e3o aceitos no s\u00e9culo seguinte. Ent\u00e3o eu quis sacudir de mim o peso da ideia da genialidade. Eu larguei m\u00e3o do sonho de ser reconhecido e resolvi escrever do jeito que queria, sem me cobrar nada demais. Acho que todos n\u00f3s devemos ter essa rela\u00e7\u00e3o desapaixonada com o que escrevemos. Ningu\u00e9m deve querer ser g\u00eanio &#8212; e muito menos comportar-se como se fosse.<\/p>\n<p>9 &#8211; N\u00e3o existem hist\u00f3rias originais, apenas hist\u00f3rias bem escritas. Nenhuma v\u00edrgula a alterar.<\/p>\n<p>10 &#8211; Esque\u00e7a Paulo Coelho. Agora que outros raios ca\u00edram no mesmo lugar, eu j\u00e1 discordo disso. Parece que h\u00e1 uma demanda de mercado pelo tipo de literatura que o mago faz. Ent\u00e3o provavelmente seja uma boa ideia lembrar Paulo Coelho, se voc\u00ea v\u00ea a literatura apenas como best-seller.<\/p>\n<p>11 &#8211; N\u00e3o Imite Best-Sellers, Imite o que os autores deles leram. Essa frase n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 do Kurt Vonnegut, e \u00e9 muito citada por autores famosos. Imitar os best-sellers \u00e9 diluir. <\/p>\n<p>12 &#8211; A Norma culta n\u00e3o existe para humilhar ningu\u00e9m. Nenhuma v\u00edrgula a mudar. Eu raramente vejo um post escrito em bom portugu\u00eas que contenha cr\u00edticas arrasadoras \u00e0 norma culta. No m\u00e1ximo o que vejo s\u00e3o posts em bom portugu\u00eas que argumentam que o dom\u00ednio da norma culta n\u00e3o \u00e9 o dom\u00ednio da l\u00edngua em si, mas de um c\u00f3digo que \u00e9 t\u00e3o leg\u00edtimo quanto o coloquial. Continuo achando que a pol\u00eamica da norma culta \u00e9 mais forte \u00e0 medida em que o autor tem mais dificuldade. O \u00f3dio \u00e9 algo que dedicamos ao inimigo. Quem precisa lutar contra a norma culta \u00e9 que a odeia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mar\u00e7o de 2010 eu publiquei aqui um artigo intitulado [12 Verdades Do\u00eddas e uma Confiss\u00e3o Desesperada](\/lit\/2010\/03\/12-verdades-doidas-e-uma-confissao-desesperada), no qual refleti, com certa amargura, sobre uma s\u00e9rie de debates sobre literatura em comunidades de redes sociais &#8212; e como isso me havia afetado. Hoje me deparei de novo com ele e resolvi analisar em que pontos minha opini\u00e3o mudou, e em que outros ela permaneceu. 1 &#8211; Escrever \u00e9 um privil\u00e9gio e n\u00e3o um direito. 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