{"id":228,"date":"2011-09-07T15:57:00","date_gmt":"2011-09-07T18:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=228"},"modified":"2017-11-02T14:09:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:08","slug":"nao-me-pecam-de-graca-o-que-tenho-para-vender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/09\/nao-me-pecam-de-graca-o-que-tenho-para-vender\/","title":{"rendered":"N\u00e3o me Pe\u00e7am de Gra\u00e7a o que Tenho para Vender"},"content":{"rendered":"<p>Reza uma lenda urbana que um certo cantor ga\u00facho certa vez entrou em um boteco e encontrou um palha\u00e7o comendo uma coxinha com Coca-Cola. Um palha\u00e7o desses que animam festa infantil e vendem bal\u00f5es na pra\u00e7a. Dizem que o famoso cantor, b\u00eabado ou drogado (sabe-se l\u00e1), implicou com palha\u00e7o dizendo-lhe: &#8220;Ei, palha\u00e7o, faz uma palha\u00e7ada para a gente a\u00ed&#8221;. O palha\u00e7o, talvez j\u00e1 de paci\u00eancia esgotada por aguentar crian\u00e7as, ou por n\u00e3o ser a primeira vez que lhe provocavam, deixou a coxinha sobre o balc\u00e3o e sentou a m\u00e3o na cara do cantor, que saiu rodopiando e caiu de cara na cal\u00e7ada, para gargalhadas gerais dos frequentadores do lugar, e arrematou: &#8220;Sou palha\u00e7o para quem me paga.&#8221;<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria \u2014 verdadeira, segundo juram os alfarr\u00e1bios da m\u00fasica brasileira \u2014 encerra uma importante moral, ali\u00e1s, duas importantes morais. A primeira \u00e9 que as pessoas n\u00e3o costumam ser em sua vida pessoal a mesma coisa que em sua vida profissional. Aquele palha\u00e7o era um anjo de paci\u00eancia com as crian\u00e7as porque ganhava a vida suportando-as, mas n\u00e3o tinha nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de ser paciente com b\u00eabados, mesmo que famosos ou pseudo-famosos. A segunda li\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 uma ofensa pedir ao profissional que fa\u00e7a de gra\u00e7a para voc\u00ea algo que ele faz por dinheiro. O palha\u00e7o ganhava a vida fazendo palha\u00e7adas, mas cobrava por isso. Fazer uma palha\u00e7ada para o cantor ver seria rid\u00edculo.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Acredito que todo profssional tem a sua dignidade, mesmo aqueles a que as pessoas costumam dar valor \u2014 como palha\u00e7os e escritores. Seja l\u00e1 o que for que o sujeito fa\u00e7a para ganhar a vida, se n\u00e3o \u00e9 crime e n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m, \u00e9 um meio honrado de ganhar a vida. Merece respeito. N\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea pinta a cara com uma maquiagem engra\u00e7ada que voc\u00ea passa a ser uma pessoa inferior. E nem porque sua arte \u00e9 ing\u00eanua e aparentemente f\u00e1cil (digo aparentemente, porque n\u00e3o \u00e9 realmente f\u00e1cil fazer uma crian\u00e7a feliz).<\/p>\n<p>Mas em geral as pessoas tendem a achar que as pessoas que fazem arte n\u00e3o precisam ou n\u00e3o est\u00e3o interessadas em dinheiro. Pedem uma &#8220;palhinha&#8221; para o amigo m\u00fasico, acham feio o amigo escritor querer vender-lhes o seu livro em vez de dar de presente, querem que o humorista conte suas piadas na mesa do bar. Dizem que o falecido comediante Bussunda certa vez protagonizou um caso desses, ainda no come\u00e7o da carreira, quando a sua fama de mal-humorado ainda era pouco conhecida. Um parente de um amigo a quem foi apresentado pediu-lhe para ver se ele era mesmo engra\u00e7ado, pediu-lhe que contasse uma piada. Bussunda se prontificou a contar a piada, mas antes pediu licen\u00e7a ao novo conhecido porque precisava de um favor. Sabendo que o sujeito era m\u00e9dico, come\u00e7ou a descrever-lhe uma s\u00e9rie de sintomas e a pedir-lhe opini\u00f5es sobre medicamentos. O homem o interrompeu dizendo que n\u00e3o poderia dar uma resposta ali no palco e o convidou para ir ao seu consult\u00f3rio. Bussunda, ent\u00e3o, retrucou que n\u00e3o poderia faz\u00ea-lo rir ali e o convidou para ir assistir ao espet\u00e1culo que estava fazendo (&#8220;A Noite dos Leopoldos&#8221;) ou comprar um dos livros que fizera ou ent\u00e3o assistir ao programa na televis\u00e3o (na \u00e9poca acho que ainda era o &#8220;D\u00f3ris Para Maiores&#8221;).<\/p>\n<p>Essas hist\u00f3rias me chegaram, todas, por e-mail. Enviadas por conhecidos, alguns escritores outros n\u00e3o, quando chegou-lhes ao conhecimento que eu estou com meu primeiro livro publicado. Alguns ainda me criticaram por publicar quase tudo que escrevo neste blog.<\/p>\n<blockquote><p>Se voc\u00ea vendesse salgadinho na rua, n\u00e3o sairia dando quibe de presente. Mas voc\u00ea escreve fic\u00e7\u00e3o, e fica distribuindo de gra\u00e7a no blog. Voc\u00ea n\u00e3o deveria dar de gra\u00e7a aquilo que voc\u00ea tem para oferecer.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tudo isso me faz pensar, especialmente considerando a amea\u00e7a que a internet realmente representa para o futuro da arte. Um m\u00fasico pode dar de gra\u00e7a as suas grava\u00e7\u00f5es e tentar viver de suas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Mas se eu dou de gra\u00e7a as minhas &#8220;escreve\u00e7\u00f5es&#8221;, onde vou me apresentar ao vivo como escritor para ganhar a vida? Ali\u00e1s, o que seria a apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo de um escritor, seria eu me sentar na pra\u00e7a com um laptop e escrever as hist\u00f3rias das pessoas que passarem? Algu\u00e9m vai parar para ver? Algu\u00e9m vai pagar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reza uma lenda urbana que um certo cantor ga\u00facho certa vez entrou em um boteco e encontrou um palha\u00e7o comendo uma coxinha com Coca-Cola. Um palha\u00e7o desses que animam festa infantil e vendem bal\u00f5es na pra\u00e7a. Dizem que o famoso cantor, b\u00eabado ou drogado (sabe-se l\u00e1), implicou com palha\u00e7o dizendo-lhe: &#8220;Ei, palha\u00e7o, faz uma palha\u00e7ada para a gente a\u00ed&#8221;. 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