{"id":230,"date":"2011-09-05T22:02:00","date_gmt":"2011-09-06T01:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=230"},"modified":"2017-11-02T14:09:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:08","slug":"mortos-nao-dao-unfollow","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/09\/mortos-nao-dao-unfollow\/","title":{"rendered":"Mortos N\u00e3o D\u00e3o Unfollow"},"content":{"rendered":"<p>Fila de banco. Detesto, como muita gente. E como todo mundo tenho que ir. Ali\u00e1s, eu devia agradecer por haver fila de banco no mundo: ningu\u00e9m sobreviveria na minha profiss\u00e3o sem poder relaxar durante uma hora aguardando o atendimento. Antigamente era ruim, hoje tem at\u00e9 banquinho acolchoado para a gente sentar. Da\u00ed eu posso apenas ligar o som no meu telefone e ficar ouvindo alguma coisa dentro da minha cabe\u00e7a, me injetando ritmo enquanto os caixas matraqueiam com os dedos nos teclados baratos.<\/p>\n<p>Fila de banco. Proibiram agora o uso de aparelhos celulares. \u00c9 uma merda. N\u00e3o posso mais nem ficar com os malditos plugues no ouvido. As pessoas ficam olhando torto, achando que fa\u00e7o parte de alguma quadrilha. Merda! Tenho que desligar toda vez que entro, e ficar quase uma hora sentado olhando para as caras dos outros clientes. Raramente aparece uma mo\u00e7a bonita que valha a pena olhar. Mas ainda mais ramente ela permite que eu olhe sem come\u00e7ar a me ver torto tamb\u00e9m, me achando um estuprador. Fila de banco. Detesto, como quase todo mundo.<\/p>\n<p>Estou sonolento hoje, dormi mal e dormi tarde. Acordei cedo para trabalhar, como quase todo mundo. Estou aqui meio zumbi. As pessoas veem meus \u00f3culos escuros e me acham com pinta de maconheiro. Fila de banco \u00e9 um lugar onde se concentram todas as fobias e caretices da humanidade.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Os caixas est\u00e3o lentos hoje. Teria sido um \u00f3timo dia para m\u00fasica. Dava para ter ouvido quase um \u00e1lbum cheio. Mas tenho que ficar em vez disso olhando para os lados, tentando evitar que meus olhos incomodados retornem \u00e0 orelha daquela mo\u00e7a. Porra, at\u00e9 que ela \u00e9 bem gatinha, mas usa um enorme alargador auricular. Imagino que dentro de dois ou tr\u00eas anos ter\u00e1 uma orelha deformada e com aro grande o bastante para eu passar meu punho. Igual o l\u00e1bio do Raoni. Eu sou meio careta com essas coisas. Fico pensando se d\u00f3i. Uma tatuagem j\u00e1 me bastou. Nunca mais banco o macho deixando que me enfiem agulhas. S\u00f3 de inje\u00e7\u00e3o, e por necessidade. N\u00e3o curto dor. N\u00e3o curto ficar aqui parado esperando a vez e olhando para a orelha daquela mo\u00e7a e pensando nela mocr\u00e9ia com quarenta anos e o l\u00f3bulo todo fodido.<\/p>\n<p>De repente o telefone toca. Metade da fila me olha como se eu estivesse cometendo um assassinado ou comendo uma crian\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 nada demais, s\u00f3 uma mensagem de texto. Algu\u00e9m tuitou que vai ter uma festa-surpresa. Adoro essas festas mal organizadas. Geralmente a bebida \u00e9 quente e ruim, o lugar \u00e9 uma porcaria e a pol\u00edcia aparece descendo o cassetete em todo mundo. Mas sempre aparece muita gente diferente. Se n\u00e3o houvesse essas festas malucas seria at\u00e9 dif\u00edcil fazer amizades fora do bairro. Talvez eu nem tivesse amizades: como voc\u00ea puxa assunto com essa gente na rua, todos andando olhando para frente e preocupados com suas bolsas, olhando para mim como se eu fosse um marginal de estilete na m\u00e3o, pronto para cortar algu\u00e9m. O telefone tocou convidando para uma festa dessas. Eu vou, claro. Eu sempre vou, ainda mais que o convite vem do T\u00f5ezinho. Faz quase um ano que n\u00e3o vejo o verme.<\/p>\n<p>Quando consigo sair do banco eu respondo via SMS perguntando onde. A resposta vem minutos depois: Fenelon Guimar\u00e3es 80. Nunca ouvi falar. Essa cidade \u00e9 bem grande, e tem tanta rua quanto voc\u00ea tem veias. Voc\u00ea n\u00e3o sabe o nome de todas as suas veias, n\u00e3o estranho n\u00e3o saber onde fica essa rua maldita. Respondo de novo: preciso de um GPS ou de uma indica\u00e7\u00e3o no Google Maps. T\u00f5ezinho responde em tr\u00eas tempos: veio o mapa com um percevejo verde marcando a rua. Gandaia, l\u00e1 vou eu. Beber muito u\u00edsque paraguaio com energ\u00e9tico e beijar garotas com cheiro de patchouli e batom verde.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o quase cinco da tarde quando chego de volta ao servi\u00e7o. Tempo para jogar uma cantada tosca na telefonista, bater o cart\u00e3o e sair. Meu velho Chevette 76 me leva mansamente para casa, espargindo pelo ar um leve odor de gasolina e silicone. Hoje \u00e9 sexta feira, eu mandei lavar, polir, lubrificar. O carrinho est\u00e1 manso e liso como uma mulher que sai do banho. Ser sobrinho de mec\u00e2nico tem suas vantagens: o motor ronrona gostoso como uma namorada gozando na cama e as molas macias como um colch\u00e3o de motel nem me deixam sentir os buracos do asfalto.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e quer que eu coma em casa. Isso \u00e9 absurdo. Sexta feira n\u00e3o \u00e9 dia de ficar em casa depois que anoitecer. Tem que haver algum lugar qualquer para ir, algum lugar que n\u00e3o seja debaixo da saia da m\u00e3e. Ela me xinga enquanto eu tomo banho, meu pai ronca deitado no sof\u00e1, pronto para um enfarte, e nem liga quando saio. O velho ainda vai engasgar na pr\u00f3pria banha qualquer dia desses. Tenho pena de minha m\u00e3e: ela era uma menina bonita quando se casou com esse gordo in\u00fatil, que s\u00f3 serve para ganhar uma aposentadoria por invalidez, t\u00e3o gorda quanto ele.<\/p>\n<p>A turma se encontra no posto de gasolina da BR. Digo que \u00e9 &#8220;a turma&#8221; para dar uma boa impress\u00e3o, mas somos s\u00f3 tr\u00eas. Os &#8220;mortos de fome do BNH&#8221;, como a Dolores nos chamava nos tempos de escola. Dolores era uma vadia, dava para um dono de loja rico e andava mais emperiquitada que uma dan\u00e7arina de filme franc\u00eas. Casou com ele gra\u00e7as \u00e0 barriga e a habilidades orais. Hoje dirige um carro importado preto e n\u00e3o nos conhece mais quando passa por n\u00f3s. Imagino que ela acharia engra\u00e7ado nos ver bebendo cerveja barata sentados no cap\u00f4 de um Chevette 76, no estacionamento de um posto de gasolina \u00e0 margem da BR, numa sexta feira \u00e0s sete e meia. Somos tr\u00eas perdedores.<\/p>\n<p>\u2014 Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de festa, Miguel?<\/p>\n<p>\u2014 T\u00f4 de falando, recebi o recado do T\u00f5ezinho hoje \u00e0 tarde. N\u00e3o sei se \u00e9 ele que t\u00e1 organizando, mas com ele n\u00e3o tinha furo: toda festa que ele convidava ficava dez. Eu vou, nem que seja no inferno.<\/p>\n<p>\u2014 Assim \u00e9 que se fala, camarada, segura a capetinha pelos chifres para ela te chupar gostoso!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m passando pelo asfalto a cento e vinte por hora teria entendido a gargalhada dos tr\u00eas idiotas montados no Chevette marrom.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do posto cerca das dez da noite. Deixei o Vav\u00e1 dirigir porque ele n\u00e3o pode beber. Dentre as muitas ziquizilas que ele tem est\u00e1 uma alergia forte ao \u00e1lcool. Ele compensa de outras formas, claro, mas d\u00e1 para dirigir bem. Vav\u00e1 \u00e9 um fresco, criado a leite de pera e ovomaltino, ele nunca pegou uma mulher, mas jura que n\u00e3o \u00e9 veado. Hoje n\u00f3s vamos dar um jeito de arranjar uma vadia bem doida para ver se ele deixa de ser caba\u00e7o. Mas ele n\u00e3o sabe ainda.<\/p>\n<p>\u2014 Aonde \u00e9 esse raio de lugar onde v\u00e3o fazer a festa?<\/p>\n<p>Pego o telefone do bolso e lhe mostro no mapa.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 longe pacas, Miguel. Tem gasolina nesse gamb\u00e1 aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Tem sim, claro. Olha a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Parou de funcionar de novo o marcador de gasolina. Por que voc\u00ea n\u00e3o vende essa merda de carro?<\/p>\n<p>\u2014 E compro o que com o dinheiro? Uma mobilete?<\/p>\n<p>Vav\u00e1 n\u00e3o tem argumentos. Com menos de tr\u00eas mil reais eu comprei um Chevette velho, que eu mesmo retifiquei e reformei, com a ajuda de meus tios, que s\u00e3o mec\u00e2nicos, tanto o irm\u00e3o do meu pai quanto o da minha m\u00e3e. Eles s\u00e3o s\u00f3cios. E s\u00e3o mais pais para mim do que o gord\u00e3o que passa o dia vendo televis\u00e3o e vira a noite assistindo porn\u00f4 sueco.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o mais de nove da noite quando come\u00e7o a ficar preocupado. A festa parece cada vez mais distante. O centro da cidade j\u00e1 ficou para tr\u00e1s h\u00e1 muito tempo. E olhe que n\u00f3s sa\u00edmos da periferia, passamos por dentro e estamos quase saindo do outro lado. Se o od\u00f4metro funcionasse eu saberia o quanto rodamos. Deve ter sido muito.<\/p>\n<p>As ruas s\u00e3o mal iluminadas e vazias. N\u00e3o tem nem birosca aberta. \u00c9 um bairro industrial, d\u00e1 para ver pelos imensos edif\u00edcios em formato de caixote, alguns com chamin\u00e9s do s\u00e9culo passado. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade, parece um filme americano de terror, daqueles com gangues de psicopatas sobre motos, matando os rivais arrastando pela rua. Eu vi um filme assim uma vez quando era bem molequinho.<\/p>\n<p>Direita, esquerda, esquerda, direita e esquerda. De esquina e esquina vamos nos perdendo mais at\u00e9 que, de repente, encontramos uma placa indicativa. Estamos na esquina da Fenelon Guimar\u00e3es com a Juv\u00eancio Estrada. Duas ruas estreitas e perdidas, onde parece que n\u00e3o mora nem alma penada. N\u00e3o tem ningu\u00e9m na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Caralho, Miguel. Te passaram um trote dessa vez. N\u00e3o tem nenhuma merda de festa rolando por aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser num desses galp\u00f5es a\u00ed. Tipo, dessa vez resolveram fazer organizado. Puseram isolamento ac\u00fastico para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o e fizeram num lugar sem vizinho chato para chamar a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu acho que a gente devia voltar\u00a0\u2014 diz o Vitinho, pela primeira vez dando uma opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, a gente volta. Mas primeiro vamos descer e procurar o n\u00famero oitenta e ver o que tem l\u00e1. Depois a gente vai at\u00e9 para a puta que pariu se for preciso.<\/p>\n<p>Concordamos e vamos procurando o 80. O Chevette vai devagarinho, como um gato se esgueirando pelo muro. Achar vai ser Tarefa dif\u00edcil porque n\u00e3o tem ningu\u00e9m na rua e nem os pr\u00e9dios tem n\u00famero. Somente um imenso port\u00e3o de ferro se destaca. N\u00e3o sei porque raz\u00e3o eu imaginei que ali poderia ser o lugar. Estranha premoni\u00e7\u00e3o. Era l\u00e1.<\/p>\n<p>L\u00e1 era um cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Meus amigos desgra\u00e7am a rir enquanto eu quase me cago de medo.<\/p>\n<p>\u2014 Miguel, acho que voc\u00ea devia entrar, deve ter uma capetinha a\u00ed dentro pronta para te chupar!\u00a0\u2014 o veado do Vav\u00e1 se aproveita para zombar de mim. Logo ele que nem deve saber do que est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se brinca com uma coisa dessas\u00a0\u2014 diz o Vitinho, j\u00e1 beijando seu crucifixo de prata, presente da av\u00f3 siciliana.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa de ser medroso, Vitinho. Vamos entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Entrar!?\u00a0\u2014 o instinto fresco do Vav\u00e1 se manifesta.<\/p>\n<p>\u2014 Uai, e por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Por que sim, voc\u00ea quis dizer! Para que diabo a gente vai entrar no cemit\u00e9rio hoje, logo na quaresma, Miguel. N\u00e3o tem nenhuma porra de festa por aqui, nem num raio de vinte quil\u00f4metros. Vambora pegar um cinema que ainda d\u00e1 para pegar uma sess\u00e3o de meia noite.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me conformo de ter sido passado para tr\u00e1s. Pego o telefone e envio de volta um SMS furibundo: &#8220;o in\u00fatil que me convidou aqui hoje vai aparecer ou n\u00e3o \u00e9 macho para isso?&#8221;\u00a0<\/p>\n<p>Tenho vontade de jogar longe o telefone. Pena que ainda estou pagando. Pena que preciso e gosto dessa merdinha dif\u00edcil. Tenho mais amigos me seguindo nele do que na vida real. Se eu tivesse comido metade das mulheres que se dizem minhas f\u00e3s no Orkut eu me sentiria um artista. N\u00e3o vou jogar fora o telefone, queria era sentar a m\u00e3o na cara do veado que me sacaneou.<\/p>\n<p>Vamos voltando para o carro, desolados, quando o telefone toca de novo. T\u00f5ezinho de novo. A mensagem de texto diz simplesmente: &#8220;Eu estou aquii&#8221;. \u00a0Um leve sopro de vento arrepia minhas orelhas.\u00a0Olho para tr\u00e1s e vejo uma luz vaga dentro do cemit\u00e9rio, vindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u2014 Corre, diabo!<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que foi que tinha no tom da minha voz que os dois entenderam como se fosse um abracadabra. Nem sei como entramos dentro do carro. Lembro-me vagamente de um vidro quebrando e estou com uns arranh\u00f5es na barriga e a cabe\u00e7a me doi muito. Por sorte sou sobrinho de mec\u00e2nico e meu carro velho vive com o motor regulado. Sa\u00edmos de l\u00e1 cuspindo fagulha pelo escapamento, que assobiava como um apito de Satan\u00e1s. Se morava algu\u00e9m naquele bairro, deve ter acordado. Talvez at\u00e9 os defuntos tenham se incomodado. Sei que algu\u00e9m chamou a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Meu pai veio me tirar da delegacia no dia seguinte. Pagou a fian\u00e7a, soltou o carro. Vav\u00e1 perdeu doze pontos na carteira e eu vou gastar uma grana boa pondo outro vidro traseiro. Eu n\u00e3o respondo quando me perguntam o que aconteceu, como foi que quebrei o vidro ou que cortei a testa. As pessoas n\u00e3o v\u00e3o acreditar. Ali\u00e1s, nem eu vou acreditar se eu me contar. Pode ter sido s\u00f3 a lanterna do zelador, ou uma capa de chuva iluminada pela lua. Ou pode ter sido qualquer outra coisa.\u00a0<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 sei que foi s\u00f3 no s\u00e1bado de tarde que eu lembrei de uma coisa que tinha me passado despercebida: T\u00f5ezinho morreu, faz um m\u00eas, em um acidente de carro na BR, dizem que tava tirando pega usando um Dodginho envenenado. Mas ele me mandou a mensagem. Ou roubaram sua senha para me sacanear. Mortos n\u00e3o d\u00e3o <em>unfollow<\/em>. Sei l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fila de banco. Detesto, como muita gente. E como todo mundo tenho que ir. Ali\u00e1s, eu devia agradecer por haver fila de banco no mundo: ningu\u00e9m sobreviveria na minha profiss\u00e3o sem poder relaxar durante uma hora aguardando o atendimento. Antigamente era ruim, hoje tem at\u00e9 banquinho acolchoado para a gente sentar. Da\u00ed eu posso apenas ligar o som no meu telefone e ficar ouvindo alguma coisa dentro da minha cabe\u00e7a, me injetando ritmo enquanto os caixas matraqueiam com os dedos nos teclados baratos. 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