{"id":233,"date":"2011-08-30T23:45:00","date_gmt":"2011-08-31T02:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=233"},"modified":"2017-11-02T14:09:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:08","slug":"nao-me-pecam-que-salve-a-nossa-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/nao-me-pecam-que-salve-a-nossa-cultura\/","title":{"rendered":"N\u00e3o me Pe\u00e7am que Salve a Nossa Cultura"},"content":{"rendered":"<p>Sou um escritor amador. Isto significa que me acomete uma s\u00e9rie de dificuldades no exerc\u00edcio do que, para mim, est\u00e1 limitado a mero <em>hobby<\/em>. E mesmo assim ainda tenho de ouvir certas opini\u00f5es espantosas. O escritor \u2014 inclusive o amador \u2014 tornou-se subitamente um ser incensado com grandes responsabilidades: \u00e9 ele quem deve dar continuar a tradi\u00e7\u00e3o da &#8220;l\u00edngua p\u00e1tria&#8221;, construir a &#8220;identidade nacional&#8221;, oferecer &#8220;bons exemplos para os estudantes&#8221; etc. \u00c9 muita atribui\u00e7\u00e3o para algu\u00e9m que s\u00f3 tem algum respeito quando ganha muito dinheiro. Porque em rela\u00e7\u00e3o a escritores, o povo respeita os que ganham dinheiro. E respeita o dinheiro, n\u00e3o os livros escritos e vendidos, que viraram esse dinheiro. Dinheiro. E antes que eu me esque\u00e7a: dinheiro.<\/p>\n<p>A primeira grande barreira diante do escritor amador \u00e9 o tempo. Ser amador significa ter de dedicar as melhores horas do dia a uma atividade produtiva. A esta atividade devem ser dedicadas as melhores energias tamb\u00e9m, visto que \u00e9 nela que o escritor amador ganha o seu sustento e o respeito da sociedade. Terminado o dia \u2014 com os bra\u00e7os cansados, os olhos do\u00eddos, os dedos duros e as costas ardendo \u2014 o escritor amador ter\u00e1 de olhar para suas paredes e encontrar nelas ind\u00edcios de inspira\u00e7\u00e3o para produzir uma p\u00e1gina que seja. Se n\u00e3o o faz por um tempo muito longo, os seus amigos blogueiros dir\u00e3o que est\u00e1 &#8220;perdendo a m\u00e3o&#8221; e suspeitam que em breve abandonar\u00e1 o of\u00edcio.<\/p>\n<p>A segunda grande barreira \u00e9 o tempo. Ser amador significa ocupar a maioria das horas do dia em uma atividade &#8220;s\u00e9ria&#8221;. N\u00e3o basta que sejam as melhores horas, estamos obrigados a ocupar tamb\u00e9m a maioria delas. Oito ou nove horas por dia, no m\u00ednimo e com alguma sorte, estaremos ocupados com o vil metal e as prosaicas preocupa\u00e7\u00f5es com o mingau nosso de cada dia, que Deus n\u00e3o nos d\u00e1, mas vende. Terminado o dia \u2014 j\u00e1 cansado e j\u00e1 vendo todas as portas descendo e todas pessoas entrando em seus \u00f4nibus \u2014 o escritor amador ter\u00e1 de fazer &#8220;atividades de divulga\u00e7\u00e3o&#8221;, tais como ir a escolas mostrar seus livros, ir a livrarias mascatear seu produto, ir a feiras, exposi\u00e7\u00f5es, fantasias, mercados diversos. Deve tamb\u00e9m atualizar seu blogue, contactar seus contatos no Facebook e quejandos. Com alguma sorte ainda se lembrar\u00e1 da ideia que teve \u00e0s nove da manh\u00e3 e mal teve tempo de prender num peda\u00e7o de papel solto.<\/p>\n<p>A terceira grande barreira \u00e9 o tempo. O escritor, amador ou n\u00e3o, compete com uma s\u00e9rie de outras coisas pela aten\u00e7\u00e3o de seu leitor. Algumas coisas s\u00e3o \u00f3bvias, como o nada. N\u00e3o ler nada \u00e9 sempre mais atraente, para muita gente, do que ler qualquer coisa. Ler cansa, ler \u00e9 um saud\u00e1vel &#8220;exerc\u00edcio&#8221;. Mas se existe um p\u00fablico que supera esta barreira, o amador ter\u00e1 que vencer, antes de atingir a este grupo, uma s\u00e9rie menos \u00f3bvia de coisas que competem pelo tempo do leitor poss\u00edvel: outros escritores, amadores e profissionais, inclusive os mortos de v\u00e1rios s\u00e9culos, que continuam vendendo, e vendendo barato, gra\u00e7as a n\u00e3o cobrarem mais direitos autorais e serem exigidos em vestibulares e concursos, o que motiva grandes edi\u00e7\u00f5es baratas, e geralmente porcas.<\/p>\n<p>E o escritor amador, que j\u00e1 poderia se sentir um quase h\u00e9rcules por vencer estres tr\u00eas trabalhos que valem por doze, descobre, ent\u00e3o, estupefato, que h\u00e1 quem ponha a culpa pela falta de leitura desse povo justamente nos escritores que s\u00e3o &#8220;elitistas&#8221;, que n\u00e3o &#8220;v\u00e3o at\u00e9 onde o povo est\u00e1&#8221; ou que n\u00e3o &#8220;divulgam ativamente o seu trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>Com todo respeito, gostaria de dizer algo a quem me diz isso: tudo \u00e9 f\u00e1cil para quem n\u00e3o tem de fazer. Eis o segredo do pensamento positivo ditado pelos gurus da auto-ajuda: falar \u00e9 f\u00e1cil. Tem quem ache gelo mole porque morde \u00e1gua.<\/p>\n<p>Em um mundo ideal, costureiras costuram, construtores constroem, consertadores consertam. Mec\u00e2nicos (pelo menos os id\u00f4neos) n\u00e3o saem pela rua &#8220;ca\u00e7ando oportunidades&#8221; para mostrar seu talento. Costureiras n\u00e3o saem de agulha e dedal \u00e0 m\u00e3o esperando vestidos rasgarem na rua. Construtores n\u00e3o passam perguntando se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 precisando aumentar um puxadinho na casa. Escritores tamb\u00e9m n\u00e3o deveriam sair de livro na m\u00e3o perguntando se algu\u00e9m n\u00e3o quer ler suas hist\u00f3rias. Quem faz isso \u00e9 pastor na pra\u00e7a, n\u00e3o autor. N\u00e3o autor que se respeite. N\u00e3o autor que se d\u00ea ao respeito.<\/p>\n<p>Escritores deveriam, principalmente, escrever. J\u00e1 existe muita coisa impedindo que o pobre do escritor amador escreva. Se ele sair pela rua rodando poesia pelas esquinas em busca de clientes isso lhe roubar\u00e1 tempo em que poderia estar produzindo, aprimorando, tornando-se melhor escritor.<\/p>\n<p>N\u00e3o recrimino quem mascateia o que escreve. Cada um sabe quanto pesa a sua cruz. Muitas vezes somos for\u00e7ados a fazer coisas que n\u00e3o queremos ou que n\u00e3o dever\u00edamos fazer, apenas pela necessidade do dinheiro. Quantas vezes um autor que anda pela rua montando banca para vender livro n\u00e3o pensou: &#8220;eu poderia estar em casa terminando aquele conto ou revisando aquela novela&#8221;. Mascatear pode ser bom para desovar uma caixa de livros, mas \u00e9 tempo gasto em coisas secund\u00e1rias.<\/p>\n<p>Afinal, quem tem a responsabilidade de despertar o gosto pela leitura \u00e9 a escola, quem tem que construir a identidade nacional \u00e9 a sociedade e quem deve continuar a tradi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua p\u00e1tria \u00e9 o povo. O escritor at\u00e9 pode querer fazer um pouco disso, como o passarinho da f\u00e1bula, levando gotas d&#8217;\u00e1gua para apagar o inc\u00eandio da floresta. Mas n\u00e3o lhe exijam isso, amigos. N\u00e3o ponham nas costas destas pessoas que voc\u00eas, de fato, n\u00e3o respeitam, a responsabilidade de tanta coisa. Em um mundo ideal haveria demanda por poesia. E os poetas n\u00e3o precisariam convencer as pessoas da necessidade de ler, mas da prefer\u00eancia de l\u00ea-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou um escritor amador. Isto significa que me acomete uma s\u00e9rie de dificuldades no exerc\u00edcio do que, para mim, est\u00e1 limitado a mero hobby. E mesmo assim ainda tenho de ouvir certas opini\u00f5es espantosas. O escritor \u2014 inclusive o amador \u2014 tornou-se subitamente um ser incensado com grandes responsabilidades: \u00e9 ele quem deve dar continuar a tradi\u00e7\u00e3o da &#8220;l\u00edngua p\u00e1tria&#8221;, construir a &#8220;identidade nacional&#8221;, oferecer &#8220;bons exemplos para os estudantes&#8221; etc. \u00c9 muita atribui\u00e7\u00e3o para algu\u00e9m que s\u00f3 tem algum respeito quando ganha muito dinheiro. 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