{"id":235,"date":"2011-08-28T19:20:00","date_gmt":"2011-08-28T22:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=235"},"modified":"2017-11-02T14:09:09","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:09","slug":"raso-largo-estreito-profundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/raso-largo-estreito-profundo\/","title":{"rendered":"Raso, Largo, Estreito, Profundo?"},"content":{"rendered":"<p>A falta de profundidade \u00e9 uma necessidade quando se escreve para p\u00f4r no Orkut, onde textos mais complexos geram coment\u00e1rios depreciativos de pessoas que os consideram\u2026 complexos demais. Felizmente j\u00e1 h\u00e1 um bom tempo em que eu n\u00e3o levo o Orkut t\u00e3o a s\u00e9rio e brindo-o apenas com meus rascunhos, para talvez detectar pontos potenciais que possam ser melhorados.<\/p>\n<p>Cheguei a essa conclus\u00e3o porque entendi que os leitores daqui n\u00e3o apreciar\u00e3o o que eu escrevo de jeito nenhum. Nem quando eu estiver dentro do tema, nem quando estiver fora, nem quando o texto for complexo, nem quando for simples, nem quando eu tiver levado quatro meses escrevendo, feito revis\u00e3o e usado leitores beta, nem quando tiver escrito em sete minutos e postado assim mesmo (como foi o caso desse). N\u00e3o sei se isso \u00e9 por eu um dia ter sido moderador da NEB, ou talvez por eu tentar dar ao meu texto uma seriedade e um car\u00e1ter tradicional, ou por talvez n\u00e3o ser loiro o bastante, ou por n\u00e3o me chamar Johnny\u2026<\/p>\n<p>Um dos problemas aqui do Orkut \u00e9 a falta de profundidade. As pessoas querem o infinito em trinta segundos. Querem o imponder\u00e1vel em vinte gramas. Querem o indescrit\u00edvel em poucas palavras. Por\u00e9m h\u00e1 coisas que n\u00e3o cabem aqui, ou cabem mal. Tolice \u00e9 tentar pegar o martelo e fazer caber. Alguns j\u00e1 nascem no tamanho certo, outros n\u00e3o v\u00e3o aceitar encolher, outros n\u00e3o conseguir\u00e3o esticar.<\/p>\n<p>O outro problema \u00e9 que nem todos que aqui est\u00e3o se adequam. Eu, por exemplo, n\u00e3o me adequo. Eu sou um dinossauro, sou do tempo da m\u00e1quina de escrever e do mime\u00f3grafo. Sou do tempo do telex e da loja de fotoc\u00f3pia. Tenho arquivos datilografados ainda. Tenho uma biblioteca em casa. Desconfio do Kindle e de outros quejandos. Eu ainda uso palavras como &#8220;quejandos&#8221; \u2014 e as pessoas me acham pretensioso por escrever assim, sendo que isso \u00e9 natural para mim.<\/p>\n<p>Enfim, desde o final do ano passado que eu j\u00e1 sabia que esses concursos nunca funcionariam para mim. Amadores julgando sempre tender\u00e3o a colocar o n\u00edvel de excel\u00eancia pr\u00f3ximo do n\u00edvel que conseguem. Por isso as aprecia\u00e7\u00f5es feitas pelos grandes nomes da literatura costumam ser surpreendentemente diferente das feitas pelos cr\u00edticos de jornal\u00e3o e por isso a opini\u00e3o da cr\u00edtica diverge da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Todo concurso \u00e9 furado, isso todo mundo sabe. Envolve interesses que v\u00e3o al\u00e9m da mera &#8220;qualidade liter\u00e1ria&#8221; (conceito que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 discut\u00edvel). Esse ano, por exemplo, teve o &#8220;Esc\u00e2ndalo do Jabuti&#8221;, no qual Chico Buarque ganhou o Grande Pr\u00eamio sem ter vencido nenhuma categoria, por exemplo, o que acabou levando a Editora Record a retirar-se de futuras edi\u00e7\u00f5es do pr\u00eamio, em protesto. E nunca custa lembrar que Fernando Pessoa n\u00e3o venceu o \u00fanico concurso que disputou em vida\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o que eu me considere um autor desse naipe todo, mas com certeza n\u00e3o alimento de ilus\u00f5es de que concursos ser\u00e3o o caminho atrav\u00e9s do qual obterei &#8220;reconhecimento&#8221; e &#8220;carreira art\u00edstica&#8221;. Muito menos um concurso de Orkut, no qual existem press\u00f5es muitos novas (para mim) e muito diferentes do tipo de demanda a que a literatura tradicional estaria preparada (e minha literatura \u00e9 bastante tradicional).<\/p>\n<p>E fica pior quando voc\u00ea considera que o Orkut encolhe a cada dia em termos de qualidade (para quem n\u00e3o lembra, leia &#8220;<a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/11\/a-diferenca-entre-crescer-inflar-e-inchar\/\">a diferen\u00e7a entre crescer, inflar e inchar<\/a>&#8220;, um artigo provocativo que eu pus no meu blog h\u00e1 quase um ano). As comunidades n\u00e3o andam t\u00e3o vibrantes quanto j\u00e1 foram, nem mesmo esta. E nos outros sites de relacionamento as coisas n\u00e3o fluem como um dia flu\u00edram por aqui. Talvez seja o momento de reconhecer que, como diz meu amigo Ronaldo Roque, &#8220;ningu\u00e9m mais l\u00ea ningu\u00e9m, s\u00f3 por obriga\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A falta de profundidade \u00e9 uma necessidade quando se escreve para p\u00f4r no Orkut, onde textos mais complexos geram coment\u00e1rios depreciativos de pessoas que os consideram\u2026 complexos demais. Felizmente j\u00e1 h\u00e1 um bom tempo em que eu n\u00e3o levo o Orkut t\u00e3o a s\u00e9rio e brindo-o apenas com meus rascunhos, para talvez detectar pontos potenciais que possam ser melhorados. Cheguei a essa conclus\u00e3o porque entendi que os leitores daqui n\u00e3o apreciar\u00e3o o que eu escrevo de jeito nenhum. 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