{"id":236,"date":"2011-08-27T17:40:00","date_gmt":"2011-08-27T20:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=236"},"modified":"2017-11-02T14:09:09","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:09","slug":"uma-tarde-no-hospital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/uma-tarde-no-hospital\/","title":{"rendered":"Uma Tarde no Hospital"},"content":{"rendered":"<p>Amanheci com n\u00e1useas. N\u00e3o \u00e9 infrequente que isso aconte\u00e7a comigo: mesmo depois de ter removida a ves\u00edcula eu ainda passo por esses perrengues ocasionais. Especialmente depois de comer chocolate, ou frituras. Mas quem disse que eu vou deixar de comer um belo pastel de queijo s\u00f3 por causa de um f\u00edgado? Pois \u00e9, rendi-me \u00e0 gula e amanheci mareado como um marujo de primeira viagem.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o vomitei. Talvez tenha sido o meu azar: os males materiais, tanto quanto os espirituais, nos deixam de atormentar quanto &#8220;postos para fora&#8221;. Uma confiss\u00e3o de culpa, um pedido de perd\u00e3o, uma diarreia ou um berro pelo Juca. Todas s\u00e3o formas de purifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas melhorei um pouco depois de tomar um sal de fruta e um comprimido para enjoo e fui trabalhar. M\u00e1 ideia, m\u00e1 ideia. Passei a manh\u00e3 com calafrios, uma ligeira dor de cabe\u00e7a, dificuldade para ficar de p\u00e9 sem tontear e uma vaga vontade de algo que eu n\u00e3o sabia o que poderia ser. L\u00e1 pelas onze e quarenta da manh\u00e3 eu desisti. Antes de sair para almo\u00e7ar comuniquei ao gerente que eu positivamente n\u00e3o estava bem e que estava indo ao m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Sexta-feira, puxa vida! Coisa mais dif\u00edcil \u00e9 achar m\u00e9dico hoje! A n\u00e3o ser pelos que est\u00e3o nos plant\u00f5es, os outros certamente j\u00e1 est\u00e3o viajando ou ent\u00e3o com consult\u00f3rios lotados. Mas tudo bem, para isso existe o pronto socorro e eu n\u00e3o estou exatamente morrendo neste momento. Depois de me certificar que a carteirinha do plano de sa\u00fade estava no bolso, encarei a subida.<\/p>\n<p>Disse &#8220;subida&#8221; porque o hospital \u00e9 conveniente situado no alto de um morro bem alto. Quem n\u00e3o tem dinheiro para t\u00e1xi s\u00f3 chega l\u00e1 se for de ambul\u00e2ncia ou a p\u00e9, subindo uma escadaria maior que a que Jac\u00f3 sonhou que levava ao c\u00e9u. Pelo menos \u00e9 o que voc\u00ea sente quando est\u00e1 passando mal e tentando galgar aqueles malditos degraus. Eu poderia ter ido de t\u00e1xi, mas meu orgulho macho me impedia de pagar oito reais para um deslocamento de apenas duzentos e vinte e metros, ainda que fosse praticamente na vertical.<\/p>\n<p>Meu primeiro desafio foi adivinha onde deveria me apresentar para o atendimento. Cada vez que venho aqui me indicam uma porta diferente. S\u00e3o apenas duas entradas, mas eu consigo sempre escolher da primeira vez a porta errada. N\u00e3o \u00e9 curioso isso? Parece que, como a maioria dos humanos, eu s\u00f3 fa\u00e7o a coisa certa depois de esgotadas as outras possibilidades. Pensando bem o mundo seria um lugar melhor se n\u00e3o houvesse tantas op\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 mal conseguia falar quando entreguei meus documentos para a recepcionista. Por sorte ela conseguiu compreender os meus grunhidos. Ou talvez ela apenas tenha tido a intelig\u00eancia de imaginar que eu estava ali procurando atendimento. Digo &#8220;intelig\u00eancia&#8221; porque houve outras vezes e lugares em que eu n\u00e3o tive a sorte de ser compreendido com tanta facilidade.<\/p>\n<p>Esperei cerca de duas revistas semanais inteiras. Duas vezes me apresentei de novo ao balc\u00e3o, para espanto da recepcionista: &#8220;Mas voc\u00ea n\u00e3o foi atendido ainda? Aguarde s\u00f3 mais um momento que eu vou verificar se o Doutor j\u00e1 pode receb\u00ea-lo&#8221;. Mesmo com vontade de vomitar no sagu\u00e3o eu conseguia achar estranho que ela colocasse os pronomes com tanta compet\u00eancia.<\/p>\n<p>Por fim me vi diante do m\u00e9dico. Imagino que ele deve encarar umas trinta pessoas por semana sentindo o mesmo que eu. Para um m\u00e9dico experiente certos males devem quase deixar uma etiqueta na testa do paciente. P\u00e1lido, esverdeado, reclamando dor de cabe\u00e7a, querendo vomitar mas n\u00e3o conseguindo, zonzo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Muito bem, meu filho, voc\u00ea comeu alguma coisa estranha ontem?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Lembro vagamente de ter comido um pastel de queijo, doutor.<\/p>\n<p>Ele me recriminou com um olhar penetrante:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Foi s\u00f3 isso?<\/p>\n<p>Diante da arg\u00facia quase sacerdotal daquele homem eu tive de confessar:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tamb\u00e9m uns biscoitos recheados de chocolate. Mea culpa, mea grandissima culpa.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea devia saber que n\u00e3o deve abusar. Seu f\u00edgado n\u00e3o aguenta tudo isso, meu filho.<\/p>\n<p>Ele rabiscou seus hier\u00f3glifos nos formul\u00e1rios e me indicou a uma enfermeira. Ela, por\u00e9m, se limitou a me instalar em uma cama na enfermaria. Deitei-me ainda cal\u00e7ado de sapatos, com a gravata afrouxada, a carteira no bolso da camisa, o rel\u00f3gio no bra\u00e7o, o celular no bolso esquerdo da cal\u00e7a e o chaveiro no direito.<\/p>\n<p>Longos minutos depois apareceu um enfermeiro para me p\u00f4r no soro. N\u00e3o gostei. De alguma forma sempre acho que as agulhadas dadas pelas enfermeiras doem menos. Ele at\u00e9 que tentou facilitar as coisas, contando umas piadinhas e tentando fingir que me conhecia de algum lugar, mas eu quase lhe mandei para aquele lugar quando ele enfiou a agulha no dorso da m\u00e3o. Detesto agulhas, detesto inje\u00e7\u00e3o, detesto soro, detesto coleta de amostras, detesto tudo isso. E n\u00e3o detesto por frescura, mas por excessivo costume.<\/p>\n<p>Ele queria tamb\u00e9m que eu mijasse num potinho para fazer o exame de urina. Confesso que nunca na minha vida mijei na frente de um homem. Deve ter tido uma vez ou duas em que fiz isso diante de uma mulher \u2014 e nem assim gostei. De qualquer forma eu n\u00e3o tinha nada na bexiga ainda, porque meu est\u00f4mago andava t\u00e3o embrulhado que at\u00e9 \u00e1gua me fazia enjoar. Ele ent\u00e3o me disse que voltaria quinze minutos depois para colher sangue e eu teria uma segunda chance. N\u00e3o me empolguei com essa perspectiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi ele que voltou, foi um enfermeiro com cara de lutador de jiu-jitsu. O tamanho do bra\u00e7o do cara me fez tremer mais do que o meu f\u00edgado empesteado. S\u00f3 de pensar que seria ele a colher amostra do meu sangue eu tive vontade de levantar da cama, dizer que j\u00e1 estava bom e rolar morro abaixo at\u00e9 em casa.<\/p>\n<p>Meu bra\u00e7o esquerdo estava com o soro, por isso ele resolveu fazer a coleta no direito. Como a cama ficava encostada na parede e a posi\u00e7\u00e3o ficava meio desajeitada, ele resolveu o problema simplesmente eguendo-a, comigo em cima, e deslocando um metro para o lado, sem sequer fazer careta. Depois disso pegou a seringa e se preparou para coletar o sangue. Eu devia estar passando mal a ponto de estar fora de meu ju\u00edzo, pois nesse momento ao escrever eu tenho mais medo do que senti na cena ao vivo. Mas ele tinha uma m\u00e3o surpreendentemente leve, e colheu o sangue sem que eu quase sentisse. Muita mocinha bonita de sorriso meigo me causou mais dor do que aquele homem que erguera uma cama de ferro com meus cem quilos em cima. Mesmo assim, quando ele me perguntou se eu j\u00e1 estava pronto para a amostra de urina eu disse que n\u00e3o. Jurei que n\u00e3o. Por nada nesse mundo admitiria que sim.<\/p>\n<p>O soro estava previsto para vinte minutos. Durou quarenta e cinco. Em parte porque eu mesmo, prevendo que iam demorar a me visitar de novo, fui ajustando as gotas para diminu\u00edrem de ritmo. Mas acabei cochilando e quando acordei o meu sangue havia subido at\u00e9 a metade do tubo. N\u00e3o havia campainha ali, nem qualquer meio para chamar socorro. Fechei rapidamente o torniquete e levantei da cama para buscar algu\u00e9m. O corredor da enfermaria estava vazio, a n\u00e3o ser por dois pedreiros fazendo uma reforma. Alguns pacientes e seus acompanhantes murmuravam nos outros quartos.<\/p>\n<p>Deitei de novo, por alguns minutos, e ent\u00e3o a bexiga come\u00e7ou a me incomodar. Olhei no rel\u00f3gio, j\u00e1 eram quase duas horas da tarde, o soro tinha acabado quase quarenta minutos antes. Peguei o potinho de pl\u00e1stico e me arrastei at\u00e9 o banheiro carregando o poste do soro. Urinei uma amostra e tentei acertar o resto no vaso, mas molhei a m\u00e3o, o pote, o tubo de soro e o meu sapato. E ainda sobrou um pouco para a cueca. Sempre sobra. Lavei as m\u00e3os na pia, tentei limpar a cal\u00e7a e n\u00e3o me incomodei nem com o inalcan\u00e7\u00e1vel sapato e nem com o tubo do soro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me dirigi ao balc\u00e3o, onde a enfermeira distra\u00edda preenchia uma ficha. Eu tinha chamado tantas vezes e ela n\u00e3o me ouvira. Por sorte meu caso n\u00e3o era grave, ou ela s\u00f3 teria ouvido o choro da fam\u00edlia no dia seguinte. Entreguei-lhe o pote todo molhado de urina, com a metade de um sorriso no rosto. Uma doce vingan\u00e7a. Ela me fuzilou com os olhos e eu comecei a ter dificuldades para segurar o resto do riso.<\/p>\n<p>No meio do caminho at\u00e9 o quarto encontrei o primeiro enfermeiro, o que me pusera no soro. Ao ver minha situa\u00e7\u00e3o ele me pediu calma e disse que iria logo me tirar daquela situa\u00e7\u00e3o. O &#8220;logo&#8221; demorou quase um quarto de hora. Mas enfim ele tirou a agulha da minha m\u00e3o, n\u00e3o sem outro xingamento abafado de minha parte.<\/p>\n<p>O doutor estava ocupado. Me pediram que aguardasse, pois o exame de sangue ficaria logo pronto. Dentro de uma hora mais ou menos eu saberia se n\u00e3o estava com dengue ou alguma &#8220;virose&#8221; e poderia ir para casa. Ainda estava enjoado, bastante enjoado, e sentia uma forte dor de cabe\u00e7a. Mas tudo isso acompanhado de uma sonol\u00eancia intensa, e a cabe\u00e7a n\u00e3o do\u00eda quando eu fechava os olhos. A consequ\u00eancia natural desse conjunto de sintomas foi eu dormir logo, t\u00e3o logo me vi sem soro no bra\u00e7o para me incomodar. Aninhei-me no leito em posi\u00e7\u00e3o fetal e dormi de babar na fronha do travesseiro.<\/p>\n<p>Quando acordei a luz morti\u00e7a do entardecer entrava obliquamente pela janela. Pardais chilreavam nas \u00e1rvores pr\u00f3ximas \u00e0 janela. Assustei-me com a hora. Ser\u00e1 que me fariam passar a noite? Sa\u00ed ao corredor em busca de respostas e fiquei ainda mais estupefato de saber que ningu\u00e9m da turma que me atendera estava ainda por l\u00e1. O m\u00e9dico era outro, inclusive um velho conhecido meu, as enfermeiras eram outras. Eles me viram at\u00e9 com certa surpresa, como se eu fosse uma esp\u00e9cie de apari\u00e7\u00e3o. Por um momento eu tive a vaga impress\u00e3o de que eles n\u00e3o sabiam quem eu era e o que eu estava fazendo ali. Se eu n\u00e3o estivesse amarrotado da soneca eles talvez achassem que eu estava chegando. Ou talvez ainda assim achassem, pois b\u00eabados costumam chegar amarrotados.<\/p>\n<p>Depois que me expliquei com o m\u00e9dico, quase pedindo desculpas, ele finalmente achou meu prontu\u00e1rio, mas n\u00e3o conseguiu saber o que fazer comigo. N\u00e3o sei se foi porque n\u00e3o leu os hier\u00f3glifos do outro ou se os registros estavam incompletos. Os exames ainda n\u00e3o estavam prontos \u00e0quela hora, ou estavam, n\u00e3o sei. Ele tampouco. Chamou-me ao consult\u00f3rio, mediu-me a press\u00e3o e a temperatura e me fez algumas perguntas, sempre insistindo em perguntar se eu estava me sentindo bem, afinal. Respondi que sim em duas das tr\u00eas vezes e ele concluiu, ent\u00e3o, que eu devia ir embora.<\/p>\n<p>Sa\u00ed pela porta da frente do hospital, cambaleando como quem sai de uma festa sozinho. Desci o morro com cuidado para n\u00e3o trope\u00e7ar e enfim cheguei em casa. Houve um tempo em que morar perto do hospital j\u00e1 foi considerado um conforto. Tomei um banho r\u00e1pido, porque ainda me sentia tonto de ficar em p\u00e9, e ca\u00ed na cama para dormir ainda mais. Quem me curou foi o tempo: amanheci melhor no dia seguinte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanheci com n\u00e1useas. N\u00e3o \u00e9 infrequente que isso aconte\u00e7a comigo: mesmo depois de ter removida a ves\u00edcula eu ainda passo por esses perrengues ocasionais. Especialmente depois de comer chocolate, ou frituras. Mas quem disse que eu vou deixar de comer um belo pastel de queijo s\u00f3 por causa de um f\u00edgado? Pois \u00e9, rendi-me \u00e0 gula e amanheci mareado como um marujo de primeira viagem. S\u00f3 n\u00e3o vomitei. 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