{"id":24,"date":"2013-06-02T12:27:00","date_gmt":"2013-06-02T15:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=24"},"modified":"2017-11-02T14:08:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:19","slug":"o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-1\/","title":{"rendered":"O Cen\u00e1rio como Elemento Central da Fic\u00e7\u00e3o de Clark Ashton-Smith [1]"},"content":{"rendered":"<p>Tem-se por inquestion\u00e1vel verdade que a concep\u00e7\u00e3o dos personagens \u00e9 o elemento central da literatura de fic\u00e7\u00e3o em qualquer g\u00eanero. Sem personagens dotados de credibilidade e de moti\u00adva\u00e7\u00f5es a hist\u00f3ria, por boa que seja, tende a fluir de uma maneira desconexa, de forma que os acontecimentos n\u00e3o apresentam sequencia l\u00f3gica. Tanto \u00e9 assim que n\u00e3o \u00e9 raro que cer\u00adtos personagens adquiram um relevo cultural muito maior do que o das obras em que apa\u00adreceram originalmente. Exemplos desse fen\u00f4meno s\u00e3o Romeu e Julieta, Hamlet, Cyrano de Bergerac, Tartufo, Garg\u00e2ntua e Pantagruel, Lolita, Sherlock Holmes, Bentinho e Capitu, Fausto, Madame Bovary etc. Alguns personagens possuem uma for\u00e7a pr\u00f3pria t\u00e3o intensa que transcende os limites das obras individuais e os traz de volta n\u00e3o s\u00f3 em outras obras do mesmo autor mas at\u00e9 em obras de outros autores.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, de uma forma geral, tem certa dificuldade para construir per\u00adso\u00adna\u00adgens dota\u00addos de for\u00e7a semelhante pois, em sua ess\u00eancia, possui uma outra din\u00e2\u00admica. Enquanto nas hist\u00f3rias realistas o elemento de interesse se encontrar\u00e1 sempre na excen\u00adtricidade do per\u00adsonagem ou no inusitado de uma ou mais circunst\u00e2ncias nas quais eles se inserem, na fic\u00ad\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica j\u00e1 existe um tal n\u00famero de elementos povoando o texto, entre eles a cons\u00adtru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio e a concep\u00e7\u00e3o da trama, que o desenvolvimento de per\u00adsonagens ricos pode significar uma extens\u00e3o extraordin\u00e1ria do texto ou, pior, em pre\u00adju\u00ad\u00edzo \u00e0 legi\u00adbilidade. Dife\u00adrentemente do autor de fic\u00e7\u00e3o realista, que parte de ele\u00admen\u00adtos que s\u00e3o conhecidos do lei\u00adtor, ou sobre os quais poder\u00e1 se informar com relativa facilidade, o autor de fic\u00e7\u00e3o fan\u00adt\u00e1s\u00adtica concebe uma s\u00e9rie de elementos que n\u00e3o fazem parte da experi\u00eancia imediata do lei\u00adtor e sobre os quais ele, na maioria das vezes, n\u00e3o tem nenhum meio para informar-se. Cabe, ent\u00e3o, ao autor de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica prover ao leitor a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para vislumbrar adequadamente estes elementos, sob pena de n\u00e3o conseguir o desejado efeito. S\u00e3o v\u00e1rios os estratagemas empregados pelos autores de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica para abreviar a quan\u00adtidade de informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso transmitir. <\/p>\n<p>Uma das t\u00e9cnicas para isso \u00e9 come\u00e7ar a his\u00adt\u00f3ria em um ambiente familiar ao leitor e depois fazer a ruptura com a introdu\u00e7\u00e3o de ele\u00admen\u00adtos fant\u00e1sticos, sem nunca, por\u00e9m, perder de vista a rela\u00e7\u00e3o com o mundo real. Este tipo de hist\u00f3ria costuma rece\u00adber a designa\u00e7\u00e3o (ofensiva e muito impr\u00f3pria) de &#8220;baixa fic\u00e7\u00e3o&#8221;. O cen\u00e1rio realista fornece ambiente seguro para fazer a constru\u00e7\u00e3o dos personagens e estabelecer con\u00adflitos que podem ou n\u00e3o ser significativos na ambienta\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica. Exemplos de &#8220;baixa fic\u00e7\u00e3o&#8221; na literatura cl\u00e1ssica s\u00e3o <i>Dr\u00e1cula <\/i>(Bram Stoker), <i>A Guerra dos Mundos <\/i>(H. G. Wells), <i>Tarzan dos Macacos <\/i>(Edgar Rice Burroughs), <i>A Sombra Sobre Innsmouth <\/i>(H. P. Lovecraft) e <i>A Luneta M\u00e1gica <\/i>(Joaquim Manuel de Macedo), <i>A Nova Calif\u00f3rnia <\/i>(Lima Barreto) e <i>A Casa dos Esp\u00edritos <\/i>(Isabel Allende).<\/p>\n<p>Quando a hist\u00f3ria transcorre, no todo ou em na maior parte, em um cen\u00e1rio inte\u00adgral\u00admente fant\u00e1stico, temos a assim chamada &#8220;alta fic\u00e7\u00e3o&#8221;, na qual a liberdade do autor n\u00e3o encontra limites a n\u00e3o ser os da coer\u00eancia interna. Exemplos desse tipo de obra s\u00e3o <i>O Senhor dos An\u00e9is <\/i>(J. R. R. Tolkien), <i>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas <\/i>(Lewis Carroll), <i>Funda\u00e7\u00e3o <\/i>(Isaac Asimov), <i>Can\u00e7\u00f5es da Terra Distante <\/i>(Arthur C. Clarke), <i>Viagens de Gulliver <\/i>(Jonathan Swift) e <i>As Brumas de Avalon <\/i>(Marion Zimmer Bradley). Este tipo de hist\u00f3ria costuma ter um f\u00f4lego maior (reque\u00adrendo centenas de p\u00e1ginas ou uma pluralidade de volumes), sendo raramente encon\u00adtrado na fic\u00e7\u00e3o curta (contos, novelas e noveletas). A necessidade de desenvolver um cen\u00e1rio ficcional completo exigir\u00e1 do autor algumas decis\u00f5es sobre prioridades na hora de escolher os elementos que desenvolver\u00e1, ou ter\u00e1 de escre\u00adver milhares de p\u00e1ginas. Nem todo autor est\u00e1 disposto ao desafio de Tolkien\u2026 <\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios tipos de limita\u00e7\u00f5es a que o autor recorre para abreviar o tamanho e comple\u00adxi\u00addade resultantes. A maioria dos autores abrevia a tarefa simplesmente abreviando as descri\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio. Assim, mesmo o cen\u00e1rio sendo fant\u00e1stico, ele acaba sendo parecido com a realidade, e o desvio \u00e9 apenas o suficiente para o autor n\u00e3o ter de fazer uma pesquisa acurada. Poder-se-ia dizer que esse tipo de &#8220;alta fic\u00e7\u00e3o&#8221; fica, de fato, mais &#8220;baixo&#8221; do que uma &#8220;baixa fic\u00e7\u00e3o&#8221; que inclua elementos fant\u00e1sticos abundantes e bem constru\u00eddos. Esse, tamb\u00e9m, \u00e9 o tipo mais popular de &#8220;alta fic\u00e7\u00e3o&#8221; atualmente, embora eu n\u00e3o v\u00e1 citar nomes para n\u00e3o perder leitores\u2026 Outra via de simplifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a dos personagens, que pode ser de duas formas: estruturando-os a partir de arqu\u00e9tipos ou de clich\u00eas. Pode, tamb\u00e9m, ocorrer uma decis\u00e3o deliberada de n\u00e3o desenvolver os personagens, reservando toda a proemi\u00adn\u00ean\u00adcia da hist\u00f3ria ao desenvolvimento dos elementos de fundo. \u00c9 uma decis\u00e3o rara entre os fic\u00adcio\u00adnistas de nossa tradi\u00e7\u00e3o neolatina e relativamente mais comum entre os autores anglo-sax\u00f4nicos, uma tradi\u00e7\u00e3o que remonta aos prim\u00f3rdios da fic\u00e7\u00e3o g\u00f3tica e passa por nomes como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft. Este \u00e9 o tipo de op\u00e7\u00e3o a que Ashton-Smith recorreu.<\/p>\n<p>Em que medida a op\u00e7\u00e3o pelo cen\u00e1rio em vez dos personagens reflete uma limita\u00e7\u00e3o do talento liter\u00e1rio do autor, \u00e9 injusto espe\u00adcular, visto que ele nunca encontrou um meio adequado para a difus\u00e3o de sua obra, e o p\u00fablico ao qual se dirigiu, atrav\u00e9s das revistas <i>pulp, <\/i>n\u00e3o aceitaria uma profundidade muito maior. Ademais, Ashton-Smith possu\u00eda um temperamento art\u00edstico peculiar que lhe fazia dar aten\u00e7\u00e3o minuciosa \u00e0s descri\u00e7\u00f5es. Sua inclina\u00e7\u00e3o \u00e0s artes pl\u00e1sticas naturalmente j\u00e1 o impelia a um detalhismo acima do normal. De certa forma, as obras de Ashton-Smith s\u00e3o pinturas verbais de cen\u00e1rios imaginados, sobre as quais se movem, de forma ritualizada, personagens que n\u00e3o passam de bos\u00adque\u00adjos ou bonequinhos-palito. Nesse sentido, \u00e9 muito importante estudar aquela obra que tal\u00advez represente, mais que qualquer outra, a ep\u00edtome da sua fic\u00e7\u00e3o: <i>A Paisagem com Salgueiros.<\/i><\/p>\n<p>Desde o seu t\u00edtulo esta obra evoca a subordina\u00e7\u00e3o da figura humana ao cen\u00e1rio em que a a\u00e7\u00e3o se inscreve: pode-se dizer que o personagem principal deste conto n\u00e3o \u00e9 o mandarim Shih Liang, mas a pintura da paisagem com salgueiros que ele tanto ama. Al\u00e9m do protagonista, apenas dois nomes s\u00e3o citados em toda a hist\u00f3ria: Po Lung, seu irm\u00e3o (Ashton-Smith n\u00e3o conhecia suficientemente a cultura chinesa para entender os costumes onom\u00e1sticos), e Mung Li, um colecionador de arte. Al\u00e9m destes personagens nomeados, s\u00f3 temos conhecimento de mais dois, citados <i>en passant: <\/i>o imperador e a donzela de vestido rosa que habita a pintura (e que, de certa forma, \u00e9 um personagem). <\/p>\n<p>Nenhum destes personagens recebe a aten\u00e7\u00e3o de uma descri\u00e7\u00e3o. De Shih Liang, tudo que sabe\u00admos \u00e9 que &#8220;como seus ancestrais, era um erudito, um poeta e um amante da arte e da natu\u00adreza&#8221;; que &#8220;era sozinho e n\u00e3o tinha parentes nem amigos&#8221;; &#8220;herdeiro de muitos d\u00e9bi\u00adtos e pouca propriedade ou dinheiro, a n\u00e3o ser por um n\u00famero de tesouros art\u00edsticos inesti\u00adm\u00e1\u00adveis&#8221;; que &#8220;se aproximava da meia idade&#8221; e que &#8220;sua vida era cada vez mais triste e opri\u00admida pela m\u00e1 sa\u00fade e pela pobreza&#8221; pois seu sal\u00e1rio como funcion\u00e1rio da corte era dedi\u00adcado prin\u00adcipal\u00admente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o mais novo. De seu irm\u00e3o nada sabemos, a n\u00e3o ser que era mais novo e se dedicava integralmente aos estudos. De Mung Li, nada a n\u00e3o ser que era &#8220;um conhecedor que comprara outras pe\u00e7as de sua antiga cole\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>A pintura, por\u00e9m, recebe uma aten\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria: nada menos do que em cinco dos dezenove par\u00e1grafos do conto o autor se det\u00e9m a descrever ou a relembrar os detalhes da paisagem. Pelo menos um destes, o segundo, \u00e9 integralmente dedicado a descrev\u00ea-la em detalhes. Outros par\u00e1grafos se det\u00eam a analisar a rela\u00e7\u00e3o de Shih Liang com a pintura, em termos equivalentes \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de um namoro. \u00c9 claro, ent\u00e3o, que o conflito central da his\u00adt\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 entre personagens: ainda que Shih Liang n\u00e3o tenha bons sentimentos em rela\u00ad\u00e7\u00e3o a Mung Li, \u00e9 dif\u00edcil considerarmos este homem como um antagonista, visto que o seu inte\u00adresse por antiguidades \u00e9 o meio atrav\u00e9s do qual o desgra\u00e7ado Shih Liang consegue se sus\u00adtentar em sua velhice.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-cenario-como-elemento-central-da-ficcao-de-clark-ashton-smith-2\/\">Continua<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem-se por inquestion\u00e1vel verdade que a concep\u00e7\u00e3o dos personagens \u00e9 o elemento central da literatura de fic\u00e7\u00e3o em qualquer g\u00eanero. 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