{"id":2443,"date":"2014-12-28T09:09:42","date_gmt":"2014-12-28T12:09:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2443"},"modified":"2017-11-02T14:08:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:08","slug":"reflexoes-tardias-a-respeito-do-atentado-do-greenpeace-contra-os-geoglifos-de-nazca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/reflexoes-tardias-a-respeito-do-atentado-do-greenpeace-contra-os-geoglifos-de-nazca\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es Tardias a Respeito do Atentado do &#8220;Greenpeace&#8221; Contra os Geoglifos de Nazca"},"content":{"rendered":"<p>Aguardei um pouco para escrever alguma coisa sobre o caso<br \/>\nda interven\u00e7\u00e3o do Greenpeace no Peru porque as minhas<br \/>\nideias sobre o caso ainda estavam muito misturadas, s\u00f3 que<br \/>\nelas ainda est\u00e3o e eu me sinto ainda assim compelido a<br \/>\ndizer alguma coisa, com base em impress\u00f5es que eu j\u00e1 tinha<br \/>\nantes, e que s\u00f3 foram confirmadas pelo que aconteceu.<\/p>\n<p>Meu coment\u00e1rio se baseia na paulatina observa\u00e7\u00e3o da<br \/>\ncultura de massas que nos \u00e9 imposta pelos Estados Unidos<br \/>\n&#8212; cinema, revistas em quadrinhos, televis\u00e3o &#8212; e da<br \/>\nmaneira como esta se relaciona com s\u00edtios hist\u00f3ricos e<br \/>\narqueol\u00f3gicos em geral, os pa\u00edses subdesenvolvidos e<br \/>\nsuas realiza\u00e7\u00f5es e quaisquer outras culturas, mesmo<br \/>\ndesenvolvidas, que n\u00e3o estejam inseridas no universo<br \/>\nanglo-sax\u00e3o.<\/p>\n<h3>Os EUA Ainda S\u00e3o uma Cultura Colonial<\/h3>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o norte-americana (que nisto se assemelha<br \/>\ncom a brasileira) ainda tem um car\u00e1ter colonial, sem<br \/>\nverdadeiras ra\u00edzes no espa\u00e7o geogr\u00e1fico em que se<br \/>\ninstalou. Uma &#8220;cultura colonial&#8221; se caracteriza pela<br \/>\ndesconex\u00e3o entre o homem e seu espa\u00e7o hist\u00f3rico e<br \/>\ngeogr\u00e1fico. As pessoas n\u00e3o t\u00eam genealogias, n\u00e3o conhecem a<br \/>\nhist\u00f3ria e as lendas dos marcos naturais que as cercam e<br \/>\npossuem uma rela\u00e7\u00e3o hostil com a natureza.<\/p>\n<p>Este tipo de rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusivo dos Estados Unidos e<br \/>\nnem \u00e9 cria\u00e7\u00e3o recente: os colonos romanos se sentiam mais<br \/>\nou menos da mesma forma quando se instalavam nas prov\u00edncias,<br \/>\npor exemplo (e este \u00e9 mais um surpreendente ponto de<br \/>\ncontato que nos permite fazer paralelos entre o Imp\u00e9rio<br \/>\nRomano e os Estados Unidos). Cito-a neste momento apenas<br \/>\npara ressaltar que esta desconex\u00e3o (que n\u00f3s brasileiros<br \/>\nentendemos t\u00e3o bem <em>porque a vivemos tamb\u00e9m<\/em>) ajuda a<br \/>\nexplicar o tema proposto.<\/p>\n<h3>Culturas Coloniais Resultam da Viol\u00eancia<\/h3>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o de uma col\u00f4nia nunca poder\u00e1 ser um processo<br \/>\npac\u00edfico, nem mesmo se o espa\u00e7o a ser ocupado estiver<br \/>\ninteiramente desabitado. O simples translado do colono de<br \/>\nsua terra original j\u00e1 \u00e9 um ato violento, que o arranca de<br \/>\nsua hist\u00f3ria, de sua fam\u00edlia, de seus mitos e de sua<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o afetiva com o espa\u00e7o geogr\u00e1fico. Rios de tinta<br \/>\nj\u00e1 foram gastos falando sobre isso, ent\u00e3o me detenho.<\/p>\n<p>Mas no caso espec\u00edfico da civiliza\u00e7\u00e3o norte-americana, a<br \/>\nviol\u00eancia tem uma camada extra, pois <em>havia muitos povos<br \/>\nocupando o espa\u00e7o que se pretendia colonizar<\/em>  e a<br \/>\ncoloniza\u00e7\u00e3o somente p\u00f4de ocorrer atrav\u00e9s da elimina\u00e7\u00e3o ou<br \/>\nexpuls\u00e3o destes povos, processos que s\u00e3o id\u00eanticos, pois,<br \/>\nse o translado do colono j\u00e1 \u00e9 um processo violento, a<br \/>\nexpuls\u00e3o do nativo <em>o \u00e9 ainda mais<\/em>, especialmente porque,<br \/>\ngradualmente, n\u00e3o haveria mais para onde o nativo pudesse<br \/>\nrecuar em busca da paz.<\/p>\n<p>A supress\u00e3o das culturas nativas se deu atrav\u00e9s, claro,<br \/>\nda supress\u00e3o da exist\u00eancia f\u00edsica daqueles povos, um<br \/>\nprocesso que continua at\u00e9 os dias de hoje, atrav\u00e9s de<br \/>\nmedidas genocidas que o governo dos Estados Unidos tem<br \/>\nmantido, como a esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de mulheres<br \/>\namer\u00edndias nas reservas ind\u00edgenas. Esta supress\u00e3o f\u00edsica<br \/>\nresultou, tamb\u00e9m, na supress\u00e3o cultural, muito embora<br \/>\na correspond\u00eancia de ambas n\u00e3o seja exata: certos<br \/>\nelementos da cultura ind\u00edgena passaram aos brancos e<br \/>\nhouve grupos ind\u00edgenas que sobreviveram, mas perderam a<br \/>\nsua cultura.<\/p>\n<p>Este processo de destrui\u00e7\u00e3o explica a citada desconex\u00e3o<br \/>\ncom o espa\u00e7o hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico e natural. Explica,<br \/>\ntamb\u00e9m, a vis\u00e3o da natureza como algo a ser conquistado<br \/>\na todo custo, uma ideologia que est\u00e1 presente nas hist\u00f3rias<br \/>\nsobre o &#8220;faroeste&#8221; e que se transplantou, mais recentemente,<br \/>\npara a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a fantasia. No fim do processo<br \/>\no habitante contempla como &#8220;inexplic\u00e1veis&#8221; os feitos de<br \/>\nculturas &#8220;perdidas&#8221; como os Anasazi, os construtores de<br \/>\nmontes e os &#8220;pueblos&#8221;.<\/p>\n<h3>A Conquista Colonial Criou Seus Mitos<\/h3>\n<p>Nenhuma cultura pode existir sem mitos. Atrav\u00e9s deles os<br \/>\nindiv\u00edduos constroem la\u00e7os rec\u00edprocos, explicam sua<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o geogr\u00e1fico e determinam sua pol\u00edtica<br \/>\npara com outros povos e culturas. O fato de um mito n\u00e3o ser<br \/>\nchamado de &#8220;mito&#8221; \u00e9 algo totalmente irrelevante neste processo.<\/p>\n<p>A conquista colonial da Am\u00e9rica do Norte criou os seus<br \/>\nmitos, para justificar e ideologizar os processos atrav\u00e9s<br \/>\ndos quais os nativos foram expropriados de suas terras,<br \/>\nreprimidos em suas culturas e finalmente eliminados<br \/>\nfisicamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendendo me aprofundar nisso, cito tr\u00eas mitos<br \/>\nprincipais, porque interessam ao ponto que analisamos:<\/p>\n<ol>\n<li>O &#8220;pioneiro puritano&#8221;<\/li>\n<li>Os &#8220;pais fundadores&#8221;<\/li>\n<li>O &#8220;faroeste&#8221;<\/li>\n<\/ol>\n<p>O pioneiro chega \u00e0 Am\u00e9rica imbu\u00eddo de uma ideia positiva,<br \/>\nque \u00e9 a de viver suas cren\u00e7as em liberdade &#8212; ou pelo<br \/>\nmenos \u00e9 isso que o mito expressa. No entanto, ele tamb\u00e9m<br \/>\nchega trazendo consigo todo o arcabou\u00e7o de cren\u00e7as e<br \/>\nideologias que pretente usar. O pioneiro n\u00e3o vem disposto<br \/>\na aprender nada do novo mundo, e de fato s\u00f3 aprende dele<br \/>\no m\u00ednimo necess\u00e1rio. As semelhan\u00e7as de clima e vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\ntornam desnecess\u00e1rio um contato maior com os saberes<br \/>\ntradicionais dos nativos. Por causa disso \u00e9 que os contatos<br \/>\niniciais entre os colonos europeus e os habitantes da costa<br \/>\nleste resultam no desaparecimento de suas culturas.<\/p>\n<p>Os pais fundadores, por sua vez, vivendo em uma \u00e9poca em<br \/>\nque tal processo cruento j\u00e1 havia sido terminado, pelo<br \/>\nmenos na costa leste, n\u00e3o precisaram de uma ideologia de<br \/>\nconfronto e supersti\u00e7\u00e3o. Seu inimigo era externo, mas<br \/>\nigualmente externos eram os seus interesses culturais e<br \/>\necon\u00f4micos. N\u00e3o h\u00e1 qualquer espa\u00e7o para as culturas nativas<br \/>\nno texto da Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos da Am\u00e9rica,<br \/>\ne este momento de gl\u00f3ria da &#8220;liberdade&#8221; coincide com o<br \/>\navan\u00e7o incessante da coloniza\u00e7\u00e3o para o oeste, difundindo<br \/>\no genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>O faroeste, mito americano por excel\u00eancia, passa a borracha<br \/>\nsobre a cultura material e humana dos nativos, apresentando<br \/>\nos colonos como desbravadores de uma terra virgem,<br \/>\ndesconsiderando completamente as intera\u00e7\u00f5es anteriores dos<br \/>\nnativos com ela.<\/p>\n<p>Estes citados mitos cumprem todos a fun\u00e7\u00e3o de justificativa<br \/>\ndos atos, feitos e cren\u00e7as dos perpetradores do processo<br \/>\ncolonial.<\/p>\n<h3>A Justifica\u00e7\u00e3o se Traduziu em um Iconoclasmo<\/h3>\n<p>Para explicar e justificar a destrui\u00e7\u00e3o dos povos nativos<br \/>\ne a resultante ignor\u00e2ncia atual sobre as suas realiza\u00e7\u00f5es<br \/>\na mitologia americana desenvolveu um aspecto secund\u00e1rio em<br \/>\nseus mitos, uma esp\u00e9cie de &#8220;iconoclasmo&#8221; solerte.<\/p>\n<p>Os iconoclastas originais destru\u00edam as imagens nas<br \/>\nigrejas porque acreditavam que elas eram uma forma de<br \/>\nidolatria, <em>ou induziam os ignorantes \u00e0 idolatria<\/em>, o que<br \/>\ndava no mesmo. O iconoclasmo da mitologia americana<br \/>\napresenta como descart\u00e1veis aquilo que outros povos e<br \/>\nculturas consideram sagrado: as rel\u00edquias e ru\u00ednas do<br \/>\npassado.<\/p>\n<p>Uma vez que a cultura norte-americana tem um tra\u00e7o<br \/>\npredominantemente colonial (e ainda colonialista) e se<br \/>\nassenta sobre os cad\u00e1veres de dezenas de povos exterminados<br \/>\nnum dos maiores genoc\u00eddios da hist\u00f3ria humana, ela sempre<br \/>\nprocurou apresentar como irrelevantes as realiza\u00e7\u00f5es de<br \/>\ntais povos &#8212; o que \u00e9 natural, neste contexto. Por\u00e9m, a<br \/>\npersist\u00eancia dessa desconsidera\u00e7\u00e3o pelas realiza\u00e7\u00f5es dos<br \/>\namer\u00edndios influenciou a atitude cultural dos americanos<br \/>\n(e daqueles influenciados por sua cultura de massas) tamb\u00e9m<br \/>\nno modo como observam as realiza\u00e7\u00f5es de quaisquer outros<br \/>\npovos. Vale lembrar, neste ponto, que <em>o desprezo pelas<br \/>\nrealiza\u00e7\u00f5es materiais dos povos ditos &#8220;selvagens&#8221; \u00e9<br \/>\ncompartilhado pelas na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias<\/em>, mas estas,<br \/>\ndiferentemente dos Estados Unidos, n\u00e3o viveram o<br \/>\ncolonialismo recente em seu territ\u00f3rio, mas o praticaram<br \/>\nal\u00e9m-mar. Isto explica porque na Europa coexiste um<br \/>\nprofundo respeito por suas antigas ru\u00ednas e sua hist\u00f3ria,<br \/>\nao mesmo tempo em que faz sucesso um charlat\u00e3o como Erich<br \/>\nvon D\u00e4niken, cujo trabalho deprecia a capacidade t\u00e9cnica e<br \/>\nintelectual dos povos n\u00e3o brancos ao atribuir qualquer<br \/>\ntra\u00e7o mais avan\u00e7ado de cultura encontrado em regi\u00f5es<br \/>\n&#8220;selvagens&#8221; a uma influ\u00eancia alien\u00edgena &#8212; nunca a uma<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o local destru\u00edda pelo colonialismo. O pr\u00f3prio<br \/>\nconceito de &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o perdida&#8221; \u00e9 uma maneira de<br \/>\nocultar o genoc\u00eddio praticado pelo colonialismo contra<br \/>\npovos desenvolvidos culturalmente, mas n\u00e3o detentores de<br \/>\ntecnologia b\u00e9lica t\u00e3o eficaz.<\/p>\n<p>A atitude dos americanos difere da dos europeus porque eles<br \/>\nn\u00e3o apenas n\u00e3o compreendem a natureza de obras grandiosas,<br \/>\ncomo os &#8220;pueblos&#8221; ou as habita\u00e7\u00f5es anasazi como costumam<br \/>\nenxerg\u00e1-las como meras curiosidades, cuja preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 mais<br \/>\nimportante como fonte de recursos (na maioria das vezes o<br \/>\nturismo de europeus e gente que pensa como eles) do que<br \/>\ncomo fonte de algo imaterial. Disso resulta a cultura do<br \/>\nmuseu, que relega a espa\u00e7os mortos e controlados todo<br \/>\nobjeto historica ou culturalmente interessante. Mas a<br \/>\ntend\u00eancia a avaliar tudo em termos monet\u00e1rios \u00e9 um tra\u00e7o<br \/>\npor demais abrangente da cultura americana para que se<br \/>\npossa v\u00ea-lo como algo raso ou recente: ele resulta da<br \/>\nintera\u00e7\u00e3o dos americanos com os seus mitos fundadores, e<br \/>\nnesses mitos a natureza era vista como fonte de recursos,<br \/>\ne todo objeto existente no espa\u00e7o natural era parte do<br \/>\nesp\u00f3lio a se conquistar, se tivesse valor objetivo, ou algo<br \/>\na ser deixado l\u00e1, se n\u00e3o o tivesse.<\/p>\n<h3>O Iconoclasmo Como Espet\u00e1culo da Destrui\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Um tema frequente na cultura de massas americana \u00e9 a<br \/>\ndestrui\u00e7\u00e3o espetacular de pr\u00e9dios antigos, o que muitas<br \/>\nvezes ocorre quando o her\u00f3i retira de tal pr\u00e9dio um<br \/>\nobjeto cobi\u00e7ado (como um grande diamante, um \u00eddolo ou<br \/>\nalgo assim). O processo \u00e9 simb\u00f3lico, representando a<br \/>\ndestrui\u00e7\u00e3o de um povo quando, em nome do ganho imediato<br \/>\n(o valor monet\u00e1rio), um objeto central \u00e0 sua cultura \u00e9<br \/>\nretirado de seu contexto. A remo\u00e7\u00e3o do \u00eddolo de ouro<br \/>\nevoca a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do nativo a servi\u00e7o do<br \/>\ncolonialismo, o que leva \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais e de sua economia tradicional.<\/p>\n<p>Mas este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico tipo de destrui\u00e7\u00e3o de antiguidades<br \/>\nque pode ser visto na cultura de massas. H\u00e1 casos em que o<br \/>\nher\u00f3i aprisionado no castelo precisa explodi-lo para<br \/>\nescapar, h\u00e1 casos em que o antigo edif\u00edcio \u00e9 identificado<br \/>\ncomo de natureza &#8220;maligna&#8221; e \u00e9 preciso derrub\u00e1-lo para<br \/>\nevitar que seu mal se espalhe e h\u00e1 casos em que<br \/>\nsimplesmente o vil\u00e3o deseja destruir um pr\u00e9dio antigo para<br \/>\ndemonstrar o quanto \u00e9 mau e louco.<\/p>\n<p>O her\u00f3i prisioneiro que escapa destruindo o castelo \u00e9<br \/>\noutro s\u00edmbolo, do indiv\u00edduo preso pela tradi\u00e7\u00e3o e que<br \/>\ndeseja escapar dela violentamente, n\u00e3o somente salvando a<br \/>\nsi, como impedindo que ela aprisione a outros. Esta<br \/>\nmotiva\u00e7\u00e3o altru\u00edsta justifica  a atitude destrutiva.<\/p>\n<p>O antigo edif\u00edcio maligno \u00e9 um pouco mais simplista,<br \/>\nrefletindo apenas o desprezo do colono pelas ru\u00ednas que<br \/>\nencontra, testemunhos do povo que seus antepassados<br \/>\ndizimaram. Reafirmar a malignidade das ru\u00ednsa \u00e9 uma<br \/>\nforma de desqualificar os povos antigos e justificar<br \/>\na sua destrui\u00e7\u00e3o no passado, e o apagamento de seus<br \/>\nvest\u00edgios no presente.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 justamente nos casos em que a destrui\u00e7\u00e3o ocorre<br \/>\nsem outra justificativa que a vontade do vil\u00e3o que n\u00f3s<br \/>\npodemos identificar o \u00faltimo efeito do iconoclasmo<br \/>\npresente na ideologia dos mitos fundadores americanos:<br \/>\nos objetos e monumentos herdados do passado s\u00e3o<br \/>\n<em>descart\u00e1veis<\/em>, eles podem ser destru\u00eddos apenas para<br \/>\nfins de constru\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter do vil\u00e3o. Tal como um<br \/>\n<em>adelantado<\/em> espanhol causava disc\u00f3rdia no seio de uma<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o e a conduzia \u00e0 guerra civil para facilitar<br \/>\nseu saque e escraviza\u00e7\u00e3o, os vil\u00f5es (e ocasionalmente<br \/>\nat\u00e9 os her\u00f3is) podem trazer destrui\u00e7\u00e3o de coisas que<br \/>\nmuitas vezes sequer compreendem (ou compreendem de<br \/>\numa forma parcial, dado o desenraizamento) apenas para<br \/>\nmostrar que s\u00e3o maus, desastrados ou desapegados de<br \/>\nvalores. Destr\u00f3i-se a Mona Lisa como um ato de rebeldia<br \/>\nart\u00edstica, quebra-se um famoso diamante para mostrar<br \/>\nestoicismo ante valores materiais, demole-se um pr\u00e9dio<br \/>\nhist\u00f3rico para mostrar coragem ou loucura.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o se torna um espet\u00e1culo autojustificado.<\/p>\n<h3>Os Fins Justificam os Meios<\/h3>\n<p>Tudo isso escoa para as ideologias pol\u00edticas, pois tudo,<br \/>\nenfim, se encontra no espa\u00e7o c\u00edvico. As citadas ideologias<br \/>\ne seus mitos, ao criarem uma cultura de receio ou desprezo<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o ao passado, produz um impulso progressista<br \/>\nintenso <em>e a todo custo<\/em>, que talvez seja o maior fundador<br \/>\ndo progresso moderno.<\/p>\n<p>Se o passo existe somente nos espa\u00e7os controlados dos<br \/>\nmuseus, parques e circos, ele \u00e9 apenas uma fonte de<br \/>\nrecursos e ideias que podem ser monetizados. N\u00e3o vale a<br \/>\npena preservar aquilo que quase ningu\u00e9m quer ver.<\/p>\n<p>Mas de tudo o que mais influencia a pol\u00edtica \u00e9 o sentimento<br \/>\nde superioridade do colono em rela\u00e7\u00e3o ao povo que suplantou<br \/>\npela for\u00e7a. Talvez nenhuma outra cultura atual idolatre de<br \/>\nforma t\u00e3o expl\u00edcita o uso da for\u00e7a na resolu\u00e7\u00e3o de<br \/>\nproblemas. Trata-se de uma mudan\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o ao<br \/>\ntipo de her\u00f3i do faroeste, um humilde diante de uma<br \/>\nnatureza ampla e hostil, que vencia pela capacidade de agir<br \/>\ncom precis\u00e3o e exclusivamente no instante certo. Saiu de<br \/>\ncena o her\u00f3i franzino que sabe esperar a hora para sacar<br \/>\nseu Colt ou que sabe onde atirar para n\u00e3o gastar balas<br \/>\n\u00e0 toa. O her\u00f3i americano mais t\u00edpico de hoje \u00e9 um<br \/>\nbrutamontes que alia for\u00e7a f\u00edsica superior a uma capacidade<br \/>\nm\u00edtica de resolver problemas. Nesse sentido o her\u00f3i atual<br \/>\n\u00e9 mais pr\u00f3ximo do her\u00f3i greco-romano original, um semideus,<br \/>\nenquanto o her\u00f3i do faroeste agora parece verdadeiramente<br \/>\num anti-her\u00f3i, pois n\u00e3o vence por seus atributos inatos,<br \/>\nmas atrav\u00e9s do &#8220;jeitinho&#8221; (o que talvez explique o<br \/>\nfasc\u00ednio brasileiro pelo faroeste).<\/p>\n<p>O colono que se justifica pela for\u00e7a (&#8220;might is right&#8221;)<br \/>\nn\u00e3o precisa explicar os &#8220;danos colaterais&#8221; da conquista<br \/>\nda terra. Embora na vida real as pessoas ainda vomitem<br \/>\ndiante da ideia de matar crian\u00e7as para se tomar uma cidade,<br \/>\ncada vez mais elas aceitam, em teoria, que o exterm\u00ednio<br \/>\nseja um mal menor.<\/p>\n<p>Nesse contexto o que pretendo dizer \u00e9 que o excepcionalismo<br \/>\nfundado na for\u00e7a produz a ideologia do &#8220;dano colateral&#8221; e<br \/>\ndos fins que justificam os meios. Isto nos leva ao ativismo<br \/>\ndo &#8220;Greenpeace&#8221;, que h\u00e1 muito tempo realiza a\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontroversas, que j\u00e1 causaram, mais de uma vez, a morte de<br \/>\nativistas ou de pessoas contra quem se protestava.<\/p>\n<p>Acontece que os membros do &#8220;Greenpeace&#8221; n\u00e3o est\u00e3o imunes<br \/>\na estas ideologias, n\u00e3o s\u00f3 pela massiva presen\u00e7a de<br \/>\nnorte-americanos em seus quadros, mas tamb\u00e9m pela difus\u00e3o<br \/>\ndos valores fundacionais dos Estados Unidos atrav\u00e9s de<br \/>\nsua ind\u00fastria de entretenimento &#8212; o que leva tais valores<br \/>\na pa\u00edses onde a atitude em rela\u00e7\u00e3o ao passado era<br \/>\ndiferente at\u00e9 bem pouco tempo.<\/p>\n<p>Assim, quando o &#8220;Greenpeace&#8221; decide que \u00e9 uma boa ideia<br \/>\nfazer uma &#8220;interven\u00e7\u00e3o&#8221; no deserto de Nazca, possivelmente<br \/>\ndanificando um antiqu\u00edssimo monumento hist\u00f3rico, eles n\u00e3o<br \/>\no fizeram de forma inexplic\u00e1vel: s\u00e9culos e d\u00e9cadas de<br \/>\nbombardeio com a ideologia de justifica\u00e7\u00e3o do colonialismo<br \/>\nfizeram com que eles, talvez inconscientemente, adquirissem<br \/>\num desprezo pela heran\u00e7a cultural dos povos extintos.<br \/>\nSimplesmente eles n\u00e3o conseguem compreender os geoglifos<br \/>\nde Nazca como algo significativo, ou pelo menos entendem<br \/>\nque o seu ativismo (&#8220;fins&#8221;) \u00e9 mais importante do que a<br \/>\npreserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural de um pa\u00eds. Afinal,<br \/>\nat\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo os colonos (americanos inclusive,<br \/>\npois tamb\u00e9m os EUA agiram como pot\u00eancia colonial) n\u00e3o viam<br \/>\nnada errado em roubar e depredar monumentos de outros povos<br \/>\npara seu pr\u00f3prio lucro. Seria at\u00e9 mais bonito faz\u00ea-lo em<br \/>\nnome do lucro coletivo da humanidade: se fosse para salvar<br \/>\no mundo, destruir\u00edamos uma pir\u00e2mide? O simples fato de tal<br \/>\nquest\u00e3o ser colocada \u00e9 uma evid\u00eancia de que h\u00e1 uma ferida<br \/>\nque precisa ser purgada: a ferida que a mentalidade<br \/>\ncolonialista deixou em n\u00f3s, que aqui estamos ocupando a<br \/>\nterra que um dia pertenceu a outro povo.<\/p>\n<p>Seria de bom tom que respeit\u00e1ssemos esta casa, mesmo que<br \/>\na tenhamos roubado, mas sabemos bem que os ladr\u00f5es n\u00e3o<br \/>\nrespeitam o que roubam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aguardei um pouco para escrever alguma coisa sobre o caso da interven\u00e7\u00e3o do Greenpeace no Peru porque as minhas ideias sobre o caso ainda estavam muito misturadas, s\u00f3 que elas ainda est\u00e3o e eu me sinto ainda assim compelido a dizer alguma coisa, com base em impress\u00f5es que eu j\u00e1 tinha antes, e que s\u00f3 foram confirmadas pelo que aconteceu. Meu coment\u00e1rio se baseia na paulatina observa\u00e7\u00e3o da cultura de massas que nos \u00e9 imposta pelos Estados Unidos &#8212; cinema, revistas em quadrinhos, televis\u00e3o &#8212; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[77,17,12,52,57],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2443"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4665,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions\/4665"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}