{"id":245,"date":"2011-08-19T23:45:00","date_gmt":"2011-08-20T02:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=245"},"modified":"2017-11-02T14:09:09","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:09","slug":"romance-frustrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/romance-frustrado\/","title":{"rendered":"Romance Frustrado"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o estou conseguindo dormir. Deve ser sexta ou s\u00e9tima vez s\u00f3 nesse m\u00eas. Minha m\u00e3e diz que passo tempo demais correndo solto por a\u00ed, vendo coisas que n\u00e3o devia e conversando com esp\u00edritos-de-porco. Se eu fosse viver de acordo com a vontade dela, ficaria trancado no por\u00e3o mais fundo, sem uma vez sequer sair para ver a lua. Por\u00e9m eu n\u00e3o sou um bicho medroso, gosto do frio da noite, do cheiro do ar limpo, do calor das pessoas.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o consigo dormir, como hoje, come\u00e7a a me dar uma afli\u00e7\u00e3o imensa e fica dif\u00edcil continuar deitado, olhando para nada. Deixo todo mundo em seus sonhos tranquilos e saio. Quando volto a minha m\u00e3e est\u00e1 desesperada como se fosse sempre a primeira vez: &#8221; Voc\u00ea ainda n\u00e3o sabe o que acontece l\u00e1 fora? \u00c9 perigoso! &#8220;<\/p>\n<p>Pode ser verdade. Na verdade tenho certeza que \u00e9. Mas se ficar trancado tamb\u00e9m corro um perigo: o perigo de que passe a eternidade e eu n\u00e3o viva nada! S\u00f3 queria saber de onde me vem toda essa ins\u00f4nia, que est\u00e1 ficando sempre mais frequente, a cada m\u00eas. N\u00e3o h\u00e1 perigo maior que esse.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 a primeira vez que tenho coragem de lhe falar, mo\u00e7a. Custei muito para isso, porque n\u00e3o a entendo. Voc\u00ea \u00e9 estrangeira aqui, sua l\u00edngua soa diferente, distante, mas ainda assim eu a entendo, embora n\u00e3o saiba como repetir. Ali\u00e1s, nem sei se est\u00e1 me entendo. Parece que sim, porque sente o ritmo da minha indecis\u00e3o e reage aos pequenos desastres que eu cometo, sempre que tento ser cavalheiresco. Eu tento, mo\u00e7a, mas somos diferentes demais, talvez a minha educa\u00e7\u00e3o lhe ofenda, talvez a minha agressividade lhe agrade.<\/p>\n<p>Eu acho curioso que voc\u00ea n\u00e3o me conhe\u00e7a. Esse bairro \u00e9 t\u00e3o pequeno, os habitantes daqui se conhecem quase todos. O bairro l\u00e1 de baixo, na cidade nova, est\u00e1 cheio de esp\u00edrito cosmopolita e moderno, mas este lugar aqui \u00e9 tranquilo e familiar. Tem dias que at\u00e9 parece que faz mil anos que nenhuma fam\u00edlia nova muda, ent\u00e3o todos estamos acostumados uns com os outros. N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, mas algumas pessoas aqui t\u00eam medo de voc\u00ea, muito medo. Eles se incomodam quando voc\u00ea vem, mas eu gosto, n\u00e3o me importo.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o ria. N\u00f3s somos desconfiados. N\u00e3o somos amados, isso faz com que nos isolemos. Voc\u00ea n\u00e3o me reconhece, mas voc\u00ea eu j\u00e1 conhe\u00e7o, sua vida j\u00e1 faz parte da minha h\u00e1 meses. Voc\u00ea vem sempre, eu sempre a sigo pelas ruas a\u00ed, admirando sua beleza. S\u00f3 nunca ousava falar.<\/p>\n<p>Posso lhe dizer uma coisa? Acho que \u00e9 por sua causa que n\u00e3o consigo mais dormir. Como me deitar e esquecer a vida, sabendo que uma mo\u00e7a linda que nem voc\u00ea est\u00e1 perambulando por a\u00ed, nesse bairro perigoso, exposta a tudo quanto \u00e9 coisa ruim que a gente costuma fazer? N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, mas eu j\u00e1 a livrei de uma ou duas coisas que lhe aconteceriam.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o espero gratid\u00e3o por isso. Gratid\u00e3o \u00e9 um sentimento vil, uma rea\u00e7\u00e3o de covardes. Prefiro que voc\u00ea me pague de alguma forma e n\u00e3o me deva nada. N\u00e3o lhe fiz pensando em nenhum grande benef\u00edcio. S\u00f3 voc\u00ea n\u00e3o ter fugido de mim hoje j\u00e1 foi um pagamento suficiente, me mostrou que existe alguma maneira de interagirmos, apesar dos dois mundos diferentes em que n\u00f3s estamos.<\/p>\n<p>Mas no fundo, bem no fundo, o que eu gostaria era que voc\u00ea, que aqui vem tantas vezes sem nunca nos pedir licen\u00e7a, me desse a licen\u00e7a de ir com voc\u00ea, entrar em sua casa, dormir um dia l\u00e1.<\/p>\n<p>Oh, n\u00e3o! N\u00e3o v\u00e1 ainda embora, mo\u00e7a! A sua companhia d\u00e1 vida a esse lugar. A sua presen\u00e7a me empresta calor, me faz ver um sentido, afinal, na minha exist\u00eancia vagorosa e vazia. N\u00e3o, n\u00e3o se v\u00e1. E n\u00e3o v\u00e1 rindo, porque sei que n\u00e3o \u00e9 de alegria esse riso, mas de esc\u00e1rnio. Minha voz \u00e9 a de um velho, mo\u00e7a, meu peito est\u00e1 cheio de idade e de trevas, mas n\u00e3o me julgue pela profundidade do escuro de meus olhos, deixe que eu lhe mostre o vigor que resta dentro de mim, porque no mundo em que eu vivo eu ainda sou um jovem, como voc\u00ea!<\/p>\n<p>N\u00e3o, perdoe-me! Fui afoito demais, minhas m\u00e3os \u00e0s vezes s\u00e3o brutas e bruscas demais para tua carne t\u00e3o delicada. N\u00e3o, n\u00e3o se deixe ainda, \u00e9 do seu calor que eu mais preciso! Oh, desastrado que sou! N\u00e3o voltar\u00e1s! Oh, desastrado que sou, talvez n\u00e3o chegues! Tome pelo menos esta ficha, procure um orelh\u00e3o, chame algu\u00e9m que lhe socorra, antes que o sangue se desate todo e voc\u00ea morra! Oh, claro! Fichas! Pobre diabo que sou! Apenas fuja, haver\u00e1 um carro de aluguel ao p\u00e9 do morro! V\u00e1, n\u00e3o voltes! Oh, desastrado que sou! N\u00e3o a mere\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o estou conseguindo dormir. Deve ser sexta ou s\u00e9tima vez s\u00f3 nesse m\u00eas. Minha m\u00e3e diz que passo tempo demais correndo solto por a\u00ed, vendo coisas que n\u00e3o devia e conversando com esp\u00edritos-de-porco. Se eu fosse viver de acordo com a vontade dela, ficaria trancado no por\u00e3o mais fundo, sem uma vez sequer sair para ver a lua. Por\u00e9m eu n\u00e3o sou um bicho medroso, gosto do frio da noite, do cheiro do ar limpo, do calor das pessoas. 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