{"id":2527,"date":"2015-01-31T12:38:12","date_gmt":"2015-01-31T15:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2527"},"modified":"2017-11-02T14:08:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:07","slug":"tudo-seria-valido-em-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/01\/tudo-seria-valido-em-literatura\/","title":{"rendered":"Tudo Seria V\u00e1lido em Literatura?"},"content":{"rendered":"<p>A relatividade dos gostos liter\u00e1rios vigora no presente, mas n\u00e3o no passado. Porque gosto \u00e9 algo relativo, \u00e9 verdade, mas o que define o valor absoluto de uma obra \u00e9 aquilo que vai <em>al\u00e9m do gosto<\/em>.<\/p>\n<p>As obras que se limitam a atender gostos presentes s\u00e3o esquecidas \u00e0 medida que os gostos mudam. Mas h\u00e1 obras que, al\u00e9m de atenderem aos gostos, ou mesmo sem atend\u00ea-los, cont\u00eam elementos que s\u00e3o significativos para gera\u00e7\u00f5es posteriores. Estas obras permanecem. N\u00e3o porque sejam perfeitas, mas porque ainda s\u00e3o interessantes.<\/p>\n<p>Os cl\u00e1ssicos s\u00e3o cl\u00e1ssicos porque ainda s\u00e3o interessantes. N\u00e3o h\u00e1 como negar isso. Se voc\u00ea quiser negar isso, ter\u00e1 que impedir Shakespeare e Dostoi\u00e9vski de ainda serem lidos. Convencer todo mundo que eles n\u00e3o s\u00e3o interessantes. Mas n\u00e3o conseguir\u00e1, porque mesmo que conven\u00e7a a maioria, sempre haver\u00e1 pessoas que se interessem por esses autores, porque eles oferecem coisas que s\u00e3o interessantes para pessoas de nosso tempo, embora em minoria.<\/p>\n<p>Negar o valor dos cl\u00e1ssicos \u00e9 apenas dizer que voc\u00ea n\u00e3o se interessa por eles. Os cl\u00e1ssicos est\u00e3o cagando e andando para o que voc\u00ea acha: eles sempre ser\u00e3o lidos e n\u00e3o h\u00e1 nenhum sentido de superioridade nisso, apenas o fato de que h\u00e1 muitas pessoas que s\u00e3o imediatistas e focam na literatura como divertimento. Para estas pessoas, um livro publicado h\u00e1 cem anos <em>n\u00e3o pode<\/em> dizer nada de interessante. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o a priori, preconceituosa portanto.<\/p>\n<p>A cultura de massas, ao mesmo tempo em que se alimenta da cultura &#8220;cl\u00e1ssica&#8221;, direta ou indiretamente, procura negar o seu valor. Em parte isto ocorre porque os praticantes da cultura de massa, quando inteligentes, <em>t\u00eam consci\u00eancia de suas limita\u00e7\u00f5es<\/em> e precisam convencer as pessoas de que pedra \u00e9 pau e pau \u00e9 pedra para que eles possam vender o que fazem. Pessoas que tenham recebido uma educa\u00e7\u00e3o abrangente e n\u00e3o tenham sofrido influ\u00eancia decisiva de cultura de massas n\u00e3o aceitar\u00e3o elementos desse tipo.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 a forma como os ingleses reagem ao &#8220;funk carioca&#8221;. Embora eles pr\u00f3prios tenham sua &#8220;cultura de massas&#8221; (t\u00e3o grosseira e imbecil quanto o funk), por estarem &#8220;fora da caixa&#8221; eles podem indentificar os v\u00edcios do outro e apont\u00e1-los.<\/p>\n<p>Mas quando voc\u00ea est\u00e1 &#8220;dentro da caixa&#8221; voc\u00ea n\u00e3o consegue se libertar da lavagem cerebral e aceita que pedra \u00e9 pau e pau \u00e9 pedra. Voc\u00ea absorve ideologias imediatistas e aceita aquilo que voc\u00ea n\u00e3o aceita quando contempla no outro.<\/p>\n<p>Um bom exemplo: boa parte dos f\u00e3s de telenovela brasileira zombam de novelas mexicanas. Novelas mexicanas s\u00e3o cultura de massas no M\u00e9xico. N\u00f3s n\u00e3o percebemos como as nossas telenovelas s\u00e3o rasas, mas percebemos os excessos e artif\u00edcios da telenovela dos outros. Achamos que Manoel Carlos \u00e9 um bom escritor, mas sequer sabemos quem foi o &#8220;ot\u00e1rio&#8221; que escreveu &#8220;Mar\u00eda del Barrio&#8221; (embora ele possa tere ganhado mais dinheiro e &#8220;pr\u00eamios&#8221; do que Manoel Carlos).<\/p>\n<p>Argumentar em torno de gostos \u00e9 uma argumenta\u00e7\u00e3o obscurantista, portanto, porque os gostos <em>n\u00e3o s\u00e3o livres<\/em>. Voc\u00ea n\u00e3o gosta de coisas que escolheu gostar, mas de coisas que foi <em>adestrada<\/em> para gostar. Voc\u00ea \u00e9, como eu, produto do meio. Se meus valores s\u00e3o diferentes dos seus, n\u00e3o \u00e9 porque eu seja superior, mas porque fui criado em um ambiente muito diferente.<\/p>\n<p>Ocorre que todos n\u00f3s temos duas escolhas:<\/p>\n<p>a) absorver acriticamente a cultura de massas e viver regurgitando-a e ruminando-a ao tempo em que afirmamos que ela \u00e9 boa e que a escolhemos de bom grado<\/p>\n<p>b) tentar &#8220;pensar fora da caixa&#8221; e encarar a cultura de massas que nos \u00e9 impingida sob um ponto de vista de alteridade, tentar encarar tudo isso como encaramos a cultura de massas &#8220;do outro&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira escolha envolve desvalorizar o que \u00e9 diferente do consenso, envolve internalizar como seus os valores que lhe foram impostos pela fam\u00edlia, pela vizinha, pela escola, pelos grupos de press\u00e3o, pela televis\u00e3o, pelo r\u00e1dio, pelo governo, etc.<\/p>\n<p>A segunda escolha envolve questionar os valores e as qualidades, buscar paradigmas para definir o que \u00e9 afinal bom e belo, mesmo reconhecendo que tais opini\u00f5es s\u00e3o prec\u00e1rias e relativas.<\/p>\n<p>A primeira escolha n\u00e3o produz nada de novo, pois te coloca numa posi\u00e7\u00e3o passiva de consumidor.<\/p>\n<p>A segunda produz conhecimento porque o questionamento das pr\u00f3prias certezas \u00e9 o parto do conhecimento verdadeiro.<\/p>\n<p>Em qualquer circunst\u00e2ncia, as opini\u00f5es daqueles que fazem a primeira op\u00e7\u00e3o apenas refletem grosseria intelectual ou apego \u00e0 ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam medo de mudar, tendemos ao conservadorismo. Tendemos a acreditar que vivemos no melhor dos mundos, e isso piora \u00e0 medida que envelhecemos, porque detestar\u00edamos admitir que andamos perdendo tempo. Que escolhemos errado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A relatividade dos gostos liter\u00e1rios vigora no presente, mas n\u00e3o no passado. Porque gosto \u00e9 algo relativo, \u00e9 verdade, mas o que define o valor absoluto de uma obra \u00e9 aquilo que vai al\u00e9m do gosto. As obras que se limitam a atender gostos presentes s\u00e3o esquecidas \u00e0 medida que os gostos mudam. Mas h\u00e1 obras que, al\u00e9m de atenderem aos gostos, ou mesmo sem atend\u00ea-los, cont\u00eam elementos que s\u00e3o significativos para gera\u00e7\u00f5es posteriores. Estas obras permanecem. 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