{"id":2538,"date":"2015-02-22T23:09:07","date_gmt":"2015-02-23T02:09:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2538"},"modified":"2017-11-02T14:08:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:07","slug":"silvia-pilz-e-os-limites-de-caco-antibes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/02\/silvia-pilz-e-os-limites-de-caco-antibes\/","title":{"rendered":"Silvia Pilz e os Limites de Caco Antibes"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana a blogueira Silvia Pilz finalmente deixou de escrever sua coluna semanal &#8212; Zona de Desconforto &#8212; para o jornal O Globo, ap\u00f3s uma intensa rea\u00e7\u00e3o da internet a postagens suas em que ela supostamente ridicularizaria os pobres de uma forma humilhante. A queda do blog revela que muita coisa mudou na sociedade brasileira nos \u00faltimos anos, Silvia n\u00e3o havia percebido &#8212; e muito menos nossa imprensa olig\u00e1rquica o percebera.<\/p>\n<p>Nunca li o blog, n\u00e3o vou comentar o conte\u00fado dele em si, mas a forma como tudo aconteceu. O conte\u00fado do blogue foi difundido na internet, chegou \u00e0s redes sociais, causou desconforto e espanto em muita gente, viralizou, tornou-se alvo de uma campanha negativa que afetou a imagem do jornal e por fim levou a escritora a perder seu espa\u00e7o. Todo o processo envolve meios e atores que n\u00e3o existiam at\u00e9 recentemente.<\/p>\n<p>Isso me alertou para a emblem\u00e1tica frase de Renato Arag\u00e3o, que lamentou hoje sermos t\u00e3o sens\u00edveis e que antigamente as minorias (negros, judeus, gays etc.) n\u00e3o se ofendiam em ser alvo de piadas. Renato est\u00e1 preso a uma l\u00f3gica de d\u00e9cadas atr\u00e1s, mas ele tem mais de setenta anos, admir\u00e1vel \u00e9 que Silvia, t\u00e3o jovem, n\u00e3o tenha evolu\u00eddo al\u00e9m do mesmo modelo mental dele.<\/p>\n<p>O tipo de humor que se faz \u00e0 custa dos fracos deve desaparecer, os pruridos &#8220;anticensura&#8221; dos comediantes &#8220;politicamente incorretos&#8221; s\u00e3o puro reacionarismo. Fruto de um momento doloroso de transi\u00e7\u00e3o cultural &#8212; e \u00e9 lament\u00e1vel que os humoristas, que normalmente s\u00e3o a vanguarda do pensamento novo, estejam associados, no Brasil, a uma atitude reacion\u00e1ria. Sivia Pilz assimila o discurso de incorre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e criou o blog com o objetivo expl\u00edcito de provocar. O objetivo \u00e9 leg\u00edtimo, mas a quem se deve provocar, qual o objetivo do humor, afinal?<\/p>\n<p>No Brasil o humor politicamente incorreto se manifesta de uma forma curiosa. N\u00e3o \u00e9 apenas um humor reacion\u00e1rio, que representa um &#8220;<em>modus ridendi<\/em>&#8221; de d\u00e9cadas passadas, mas tamb\u00e9m um humor corrosivamente antinacional. H\u00e0 uma obsess\u00e3o em denegrir o povo, especialmente o povo pobre, em diminuir o m\u00e9rito do que \u00e9 nacional, em atacar a autoestima dos indiv\u00edduos, demolir a auto-imagem da na\u00e7\u00e3o. Nada disso seria errado se esse tipo de humor n\u00e3o tivesse se tornado t\u00e3o prevalente, excludente de outros discursos, e se ele n\u00e3o estivesse, no atual momento hist\u00f3rico, afinado com os objetivos de imperialismos estrangeiros.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil dizer que houve mal\u00edcia em Silvia. O discurso ideol\u00f3gico nem sempre est\u00e1 na boca de quem o domina e entende. Uma das fun\u00e7\u00f5es da ideologia \u00e9 fornecer, justamente, elementos facilmente reproduz\u00edveis para que aqueles que n\u00e3o a compreendem possam transmitir. Silvia representa uma ideologia de desmonte da identidade nacional, e \u00e9 irrelevante se ela sabe disso e o faz conscientemente ou se apenas reproduz um discurso majorit\u00e1rio. Ideologicamente falando, as nossas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o tem a mais remota import\u00e2ncia. Como diria Nietzsche, o relevante n\u00e3o \u00e9 o que pensamos, mas o que dizemos. O discurso, sim, atinge a outros. De boas inten\u00e7\u00f5es, o inferno n\u00e3o carece. A monstruosidade n\u00e3o necessariamente est\u00e1 na inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Silvia Pilz produzia seus textos quase impunemente porque eles tinham alcance restrito. Ela n\u00e3o estava no foco de aten\u00e7\u00e3o. A liberdade de express\u00e3o \u00e9 praticamente ilimitada se n\u00f3s n\u00e3o temos meios de chegar \u00e0s massas. Ningu\u00e9m se importa com o que eu diga na solid\u00e3o de meu quarto, poucos ligam se eu digo besteira na mesa do bar, raros se incomodam com as postagens desse blog, mas se algum artigo meu alcan\u00e7ar milh\u00f5es de pessoas, haver\u00e1 certamente milhares de apoios e milhares de rejei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Precisamos estar preparados para isso. N\u00e3o podemos almejar a um absurdo direito de agir sem consequ\u00eancias. Embora todos queiramos um moto perp\u00e9tuo, um motor im\u00f3vel, um impulso sem rea\u00e7\u00e3o, <em>todos esses ideais s\u00e3o infantis<\/em>. Queremos fazer o que desejamos sem custo e sem consequ\u00eancias, mas a vida nos ensina que tudo tem um pre\u00e7o e cada ato produz reflexos. Mesmo palavras marcam quem as ouve. &#8220;Quem diz o que quer, ouve o que n\u00e3o quer&#8221;. Se poucos ouvem, poucos gostam e poucos odeiam.<\/p>\n<p>Ocorre que sempre houve grupos que n\u00e3o podiam retrucar. Havia os desvalidos, os desassistidos, os marginalizados, os oprimidos. Eles n\u00e3o podiam nos fazer ouvir o que n\u00e3o quer\u00edamos porque n\u00e3o tinham voz, ou porque enfrentavam mais consequ\u00eancias por reagirem do que por destilarem sua m\u00e1goa \u00e0 noite para o travesseiro. Sim, n\u00f3s os atac\u00e1vamos sem piedade, e sem perceber, talvez, que \u00e9ramos impiedosos, e como nunca receb\u00edamos qualquer rea\u00e7\u00e3o, sup\u00fanhamos que n\u00e3o se ofendiam, tal como Renato Arag\u00e3o se expressou.<\/p>\n<p>Aqueles grupos, por\u00e9m, que nos poderiam atacar de volta, esses evit\u00e1vamos. N\u00e3o quer\u00edamos mexer em vespeiros, n\u00e3o quer\u00edamos &#8220;pol\u00eamicas&#8221;. Com o tempo internalizamos que mexer com certos assuntos \u00e9 perigoso e &#8220;macaco velho n\u00e3o mete a m\u00e3o em cumbuca.&#8221; N\u00e3o havia, por\u00e9m, pol\u00eamica alguma em atacar os que n\u00e3o reagiam.<\/p>\n<p>Mas o mundo mudou. Surgiram ferramentas atrav\u00e9s das quais as vozes dos pequenos conseguem unir-se num coro assustador. Vozes antes mudas passam a se ouvir, e elas s\u00e3o legi\u00e3o, e elas s\u00e3o respeitadas porque formam opini\u00e3o independentemente dos ve\u00edculos. Ent\u00e3o passa a haver consequencias para quem as provoca tamb\u00e9m. Subitamente aqueles que n\u00e3o tinham voz se ouvem (sic). Ouvindo-se mutuamente, descobrem que tem, tamb\u00e9m, uma forma limitada de poder. Podem punir quem os desagrada. J\u00e1 n\u00e3o mais precisam chorar para as paredes, impotentemente.<\/p>\n<p>Exigem respeito.<\/p>\n<p>O mesmo respeito que conced\u00edamos aos vespeiros. N\u00e3o \u00e9 que estejam limitando os assuntos do humor. \u00c9 que nunca foi de fato humor a humilha\u00e7\u00e3o do humilde. R\u00edamos de nossa crueldade, e a cham\u00e1vamos de &#8220;humor&#8221;. R\u00edamos de nossa insensibilidade, e a cham\u00e1vamos de &#8220;humor&#8221;. Isto n\u00e3o \u00e9 censura, \u00e9 a cultura brasileira passando da adolesc\u00eancia e chegando \u00e0 idade adulta.<\/p>\n<p>Por que nos surpreendemos que as pessoas se ofendam? Porque antes n\u00e3o ouv\u00edamos sua dor, n\u00e3o sab\u00edamos do seu ranger de dentes \u00e1 noite, humilhadas pelo dia. Atac\u00e1-las era como atirar no vento. Era um prazer inconsequente. Como apertar o bot\u00e3o em Lisboa e morrer na China um mandarim desconhecido, embora sua heran\u00e7a fosse somente nosso riso.<\/p>\n<p>O mandarim n\u00e3o tinha defesa. Por isso apert\u00e1vamos o bot\u00e3o sem culpa. O pobre n\u00e3o reagia, ent\u00e3o r\u00edamos dele, de seus dentes, de sua cor, de seu sotaque, de suas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas um dia descobrimos que aqueles de quem r\u00edamos eram pessoas. Isso nos surpreende porque nunca imagin\u00e1ramos que eles se ofendessem, que tivessem uma dignidade pr\u00f3pria. A surpresa de S\u00edlvia decorre de seu atraso para enxergar que o mundo mudou. E esse \u00e9 mais um epis\u00f3dio que nos mostra a lament\u00e1vel decad\u00eancia de nosso humorismo, que em vez de olhar para a frente, imita ideias estrangeiras e reproduz discursos conservadores.<\/p>\n<p>Silvia agora est\u00e1 de volta ao seu espa\u00e7o pessoal limitado. Pode continuar dizendo o que dizia antes, mas atingir\u00e1 a menos pessoas. Isso certamente preserva a sua liberdade de continuar dizendo qualquer bobagem que pense, mas talvez os jornais tenham que come\u00e7ar a se preocupar em oferecer ao leitor mais do que o discurso unilateral da elite &#8212; e eu n\u00e3o consigo aceitar que existam pessoas dotadas de polegares opositores e telenc\u00e9falos altamente desenvolvidos que s\u00e3o simultaneamente capazes de entender essa necessidade de di\u00e1logo do jornal com o leitor, de pluralidade de conte\u00fado, como uma forma de &#8220;censura&#8221;.<\/p>\n<p>Censura era quando voc\u00ea n\u00e3o tinha como se fazer ouvir, tinha que engolir a verdade pronta vinda de cima. N\u00e3o existe censura de muitos contra um, existe apenas a rea\u00e7\u00e3o normal de se deparar com as consequ\u00eancias do que diz. Ningu\u00e9m deve almejar a liberdade de ser inconsequente. Esta \u00e9 uma das muitas falsas liberdades, que s\u00f3 existem porque existiram pessoas t\u00e3o poderosas que podiam se dar ao luxo de n\u00e3o medir as consequencias de seus atos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana a blogueira Silvia Pilz finalmente deixou de escrever sua coluna semanal &#8212; Zona de Desconforto &#8212; para o jornal O Globo, ap\u00f3s uma intensa rea\u00e7\u00e3o da internet a postagens suas em que ela supostamente ridicularizaria os pobres de uma forma humilhante. A queda do blog revela que muita coisa mudou na sociedade brasileira nos \u00faltimos anos, Silvia n\u00e3o havia percebido &#8212; e muito menos nossa imprensa olig\u00e1rquica o percebera. Nunca li o blog, n\u00e3o vou comentar o conte\u00fado dele em si, mas a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[77,39,62,7,8],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2538"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2538"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2538\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4658,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2538\/revisions\/4658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}