{"id":254,"date":"2011-08-03T11:37:00","date_gmt":"2011-08-03T14:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=254"},"modified":"2017-08-13T21:21:24","modified_gmt":"2017-08-14T00:21:24","slug":"beijo-frio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/beijo-frio\/","title":{"rendered":"Beijo Frio"},"content":{"rendered":"<p>Estava escuro ainda quando Manoel acordou. A cerra\u00e7\u00e3o ainda recobria as encostas da serra e as estrelas estavam sumidas no meio de tanta umidade no c\u00e9u. Mas tinha ficado dif\u00edcil continuar dormindo, e ele n\u00e3o sabia porque. Dentro da barraca o frio n\u00e3o entrava tanto, o saco de dormir isolava bem a umidade, mas de alguma forma ele acordou e foi se sentar, ainda enrolado nos agasalhos que catou da mochila. Acendeu o fogareiro e come\u00e7ou a esquentar \u00e1gua para preparar um caf\u00e9 sol\u00favel. Reparou ent\u00e3o que as outras barracas estavam vazias.<\/p>\n<p>>Voc\u00ea tem exatamente tr\u00eas mil horas para parar de me beijar<br \/>\n\u2013 Cazuza.<\/p>\n<p>&#8220;Mas com mil diabos, aonde esse pessoal foi parar no meio da noite?&#8221;<\/p>\n<p>Subitamente lembrou de um sonho que tivera, um sonho molhado com algum tipo de criatura sensual. Por alguma raz\u00e3o inexplic\u00e1vel, no sonho, os seus companheiros de acampamento fugiam esbaforidos, como ratos diante do ronronar de um gato esfomeado. Mas ele ficara. Sentiu retornar \u00e0 boca o estranho gosto de \u00e1gua de mina, de caneca de lat\u00e3o, de colher oxidada. Gosto rico em ferro.<\/p>\n<p>&#8220;Devo ter mordido o l\u00e1bio, ou estou com as gengivas inflamadas outra vez.&#8221;<\/p>\n<p>A \u00e1gua come\u00e7ou a formar bolhas na caneca.<\/p>\n<p>&#8220;Onde estar\u00e1 o maldito pote de caf\u00e9?&#8221;<\/p>\n<p>Saiu tateando pela escurid\u00e3o, tentando que a pouca luz das labaredas lhe mostrasse o caminho. Ent\u00e3o sentiu novamente arrepiar a nuca, uma sensa\u00e7\u00e3o que lhe lembrou o sonho. Virou-se assustado, poderia ser uma on\u00e7a. Mas n\u00e3o era, era s\u00f3 uma mulher. Uma mulher bonita, embora n\u00e3o extraordinariamente bela. A mulher do sonho \u2014 ora bolas! Tinha um ar de camponesa, as unhas malfeitas, o cabelo ligeiramente emplastado de umidade.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0De onde voc\u00ea veio?<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o deu sinais de compreender o que ele dizia. Repetiu a pergunta. Ela pelo menos pareceu perceber que tinha sido uma pergunta. Disse-lhe algumas frases em uma l\u00edngua desconhecida:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0*Nu \u00een\u0163eleg ce spui, draga.*<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Hem? O que\u2026?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o era uma gringa. In\u00fatil esperar que ela mantivesse uma conversa normal. Aproximou-se do fogareiro e finalmente viu a lata de caf\u00e9, tombada junto \u00e0 mochila de um dos companheiros de acampamento. Abriu-a e j\u00e1 se preparava para derramar um pouco na \u00e1gua que j\u00e1 estava prestes a ferver quando resolveu tentar alguma m\u00edmica para falar com a estranha. Esfregou a m\u00e3o no bra\u00e7o, tentando dizer que estava frio e apontou-lhe a \u00e1gua quente e o caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Caf\u00e9?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0*Da, o cafea mica. V\u0103 rug\u0103m s\u0103\u2026*<\/p>\n<p>O caf\u00e9 ficou pronto instantaneamente, tal como a embalagem prometia. S\u00f3 n\u00e3o ficou bom. Mas no alto da serra qualquer bebida quente era maravilhosa \u00e0quela hora da madrugada velha.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o n\u00e3o conseguia evitar os arrepios na nuca e os n\u00f3s na garganta. Tinha vontade de correr, de chorar ou de pelo menos dar um berro animalesco. Mas n\u00e3o o fazia. N\u00e3o sabia porque deveria. N\u00e3o conseguia entender como se segurava. Terminou de tomar o caf\u00e9, ainda esfregando os olhos para espantar o sono. A mulher ali estava.<\/p>\n<p>Aproximou-se dela com cuidado e curiosidade e loucura. Ousou tocar seu queixo duro, era frio como uma das pedras. Puxou seu rosto para cima e mirou naqueles olhos que redemoinhavam como o Estige e o Aqueronte. Veio puxando lentamente para perto de si aqueles l\u00e1bios rasgados na carne p\u00e1lida. Ela n\u00e3o resistiu, ainda que o deslocar de seu rosto fosse pesado, e volunt\u00e1rio. Havia momentos em que at\u00e9 lhe parecia que era o queixo dela que empurrava a sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois pares de l\u00e1bios se tocaram. A troca de calor parecia provocar oscila\u00e7\u00f5es coloridas em sua imagina\u00e7\u00e3o. Lembrou-se de uma letra de m\u00fasica, queria que o beijo nunca terminasse. &#8220;Estamos, meu bem, por um triz, pro dia nascer feliz.&#8221;<\/p>\n<p>Seus olhos queriam fechar-se, mas sua mente, arrepiada como os cabelos de um cavalo assustado por um lobo, insistia que n\u00e3o. Ent\u00e3o, por uma sorte destas que ampara aos tolos, conseguiu contemplar a pr\u00f3pria m\u00e3o e notou nela veias saltadas que antes ela n\u00e3o possu\u00eda. Ent\u00e3o o sonho voltou com mais for\u00e7a \u00e0 sua lembran\u00e7a e descobriu por que todo o seu ser queria gritar e fugir da presen\u00e7a da estranha.<\/p>\n<p>Atirou-se ao ch\u00e3o como p\u00f4de, desprendendo os seus l\u00e1bios dos dela. Mas ela n\u00e3o o soltou. Apenas conseguiu, por efeito da surpresa, fazer com que o equil\u00edbrio de ambos oscilasse no mesmo instante. Ca\u00edram sobre o fogareiro, o g\u00e1s escapou e envolveu-os em chamas, brevemente. Ela o soltou, deixando um rugido demon\u00edaco sair de sua boca. Enquanto ela gritava, rolou sobre a grama \u00famida, apagando as chamas. Ela batia as m\u00e3os contra as vestes negras, completamente atarantada.<\/p>\n<p>Se tivesse ju\u00edzo, teria fugido como os demais. Teria aproveitado o sol que dentro em pouco assombraria a paisagem, como prometia a nesga l\u00e1ctea no horizonte. Mas como fazer isso com aquela beldade? Encheu a caneca de \u00e1gua fria da fonte e atirou sobre ela, apagando as chamas.<\/p>\n<p>Ela se calou, intrigada. Uma fuma\u00e7a branca ainda subia do tecido, a pele estava avermelhada em v\u00e1rios pontos, talvez do fogo, talvez do jorro de energia adquirido. Um forte cheiro de cabelo queimado empestava o ambiente.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0*De ce am fost salvat? De ce am fost salvat, draga?*<\/p>\n<p>Um comprido raio de sol atravessou as nuvens e atingiu a encosta da montanha desolada. A mulher deu um gemido e cobriu o rosto com os cabelos falhados pelas queimaduras. Depois disso Manuel n\u00e3o se lembra mais de nada. Lembra-se apenas de ter acordado com tapas no rosto e gotas de uma \u00e1gua fria que parecia flocos de geada que derretiam com o calor de sua pele.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Quem \u00e9 o veado que est\u00e1 me molhando\u2026?<\/p>\n<p>Nem acabou a frase. Os seus amigos estavam todos em volta, assustados.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que merda foi essa que voc\u00ea fez, Manuel?<\/p>\n<p>O fogareiro estava derrubado, e um largo trecho de grama seca estava queimado.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00eas n\u00e3o tinham ido embora?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Embora para onde? Acordamos com os seus gritos, maluco!<\/p>\n<p>Manuel j\u00e1 se erguia, confuso e imaginando que estava louco. Ent\u00e3o sentiu outra vez o arrepio na nuca, com uma for\u00e7a t\u00e3o grande que era como se lhe socassem pelas costas: como n\u00e3o reparara antes em tantos fios grisalhos e tantas rugas de express\u00e3o no rosto dos colegas de faculdade? Olhou a pr\u00f3pria m\u00e3o, vincada de veias. E notou, com um horror que nem teve a coragem de mencionar, peda\u00e7os de tecido preto ao lado da pedra \u00e0 beira do barranco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava escuro ainda quando Manoel acordou. A cerra\u00e7\u00e3o ainda recobria as encostas da serra e as estrelas estavam sumidas no meio de tanta umidade no c\u00e9u. Mas tinha ficado dif\u00edcil continuar dormindo, e ele n\u00e3o sabia porque. Dentro da barraca o frio n\u00e3o entrava tanto, o saco de dormir isolava bem a umidade, mas de alguma forma ele acordou e foi se sentar, ainda enrolado nos agasalhos que catou da mochila. 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