{"id":2565,"date":"2015-03-10T21:48:54","date_gmt":"2015-03-11T00:48:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2565"},"modified":"2017-11-02T14:08:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:07","slug":"porque-odeiam-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/03\/porque-odeiam-machado-de-assis\/","title":{"rendered":"Porque Odeiam Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p>O \u00f3dio a Machado de Assis \u00e9 muito frequente entre jovens que alegam terem sido &#8220;for\u00e7ados&#8221; a l\u00ea-lo na escola. Aparentemente os jovens acreditam que a fun\u00e7\u00e3o da escola \u00e9 exclusivamente dar-lhes o que gostam e o que escolhem, da\u00ed a revolta por receberem uma tarefa tal. Certamente Machado de Assis \u00e9 dif\u00edcil, mas para quem n\u00e3o tem boa vontade, n\u00e3o h\u00e1 facilidade em nada a n\u00e3o ser no nada. A culpa que o Machado tem \u00e9 a de ser um sucesso e ainda ser lembrado pelos educadores &#8212; mas se o autor fosse outro, o \u00f3dio seria o mesmo. O \u00f3dio dos jovens a Machado de Assis n\u00e3o se dirige ao Bruxo do Cosme Velho, mas \u00e0 pr\u00f3pria ideia de ter de se identificar com o passado.<\/p>\n<p>Machado de Assis, sim, representa um peda\u00e7o fenomenal de nosso passado. Um belo l\u00edrio que floresceu no brejo de uma \u00e9poca triste, desesperan\u00e7ada e suja. Ele \u00e9 parte do que fomos, do que somos. Seus contempor\u00e2neos s\u00e3o os nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s, pessoas que, em um pa\u00eds avesso \u00e0 genealogia, n\u00f3s n\u00e3o conhecemos mais.<\/p>\n<p>O brasileiro \u00e9 um povo sem mem\u00f3ria, como se propaga h\u00e1 muito tempo. A amn\u00e9sia coletiva da nacionalidade nos condena a viver em um tempo anist\u00f3rico, que se nos apresenta como c\u00edclico e n\u00e3o como um processo. A figura\u00e7\u00e3o da mentalidade brasileira \u00e9 a de uma mandala impercept\u00edvel, na qual s\u00f3 existe o passado imediato, o presente onipotente e o futuro pr\u00f3ximo. Todo o resto pertence ao tempo do mito, \u00e9 como se fosse parte de outra civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a natureza de nossa rela\u00e7\u00e3o, mesmo a dos jovens autores, com os cl\u00e1ssicos liter\u00e1rios. Eles s\u00e3o trambolhos in\u00fateis porque n\u00e3o mais nos reconhecemos neles. N\u00e3o captamos sua import\u00e2ncia porque estamos presos \u00e0 mandala imediatista que nos sonega o pertencimento ao tempo hist\u00f3rico. Este modo de pensar reflete o modelo mental tribal propugnado por Marshall McLuhan &#8212; que consiste justamente na falta da concep\u00e7\u00e3o de linearidade do tempo e do encadeamento das ideias entre antecedentes e consequentes. A l\u00f3gica argumentativa e a filosofia s\u00e3o ferramentas caracter\u00edsticas da civiliza\u00e7\u00e3o do alfabeto, que destribaliza o homem ao integr\u00e1-lo na evolu\u00e7\u00e3o do tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Da\u00ed a valoriza\u00e7\u00e3o do impermanente, do mediato e do c\u00edclico. N\u00e3o acreditamos que o passado nos possa falar porque ele saiu de nosso c\u00edrculo. Tal como n\u00e3o concebemos usar uma roupa que foi da moda do ver\u00e3o passado, n\u00e3o aceitamos ler uma obra escrita no estilo de uma \u00e9poca antiga. O pensamento anist\u00f3rico desenvolve a ideia de que s\u00f3 podemos compreender e aproveitar o presente, \u00e9 um pensamento diferente da ideia de progresso linear, que nos faz abandonar o passado por imperfeito. O passado n\u00e3o \u00e9 imperfeito, ele simplesmente n\u00e3o nos fala mais.<\/p>\n<p>A falta de forma\u00e7\u00e3o humana, hist\u00f3rica e cultural nos impede de decifrar o passado, assim \u00e9 esperado que o consideremos desconfort\u00e1vel (porque o desconhecido nos \u00e9 desconfort\u00e1vel), deselegante (porque n\u00e3o apreciamos uma moda que passou), in\u00fatil (porque n\u00e3o mais nos identificamos com as mensagens que ele nos traz) e ent\u00e3o descart\u00e1vel (porque se a obra n\u00e3o consegue mais nos falar e nos ensinar, ela se tornou vazia de prop\u00f3sito).<\/p>\n<p>Este tipo de julgamento, por\u00e9m, diz mais sobre quem o faz do que sobre a obra que vitima. Diz muito sobre as limita\u00e7\u00f5es culturais do cr\u00edtico, sua falta de respeito pela heran\u00e7a cultural do pa\u00eds, sua imensa sobre sua falta de sensibilidade art\u00edstica, entre outras coisas &#8212; das quais a mais pavorosa \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de um modelo mental tribal, sobre o qual o efeito civilizador da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu agir.<\/p>\n<p>O \u00f3dio simb\u00f3lico a Machado de Assis \u00e9 um s\u00edmbolo do \u00f3dio que o estudante carrega, por toda a vida, por ter sido ludibriado em um sistema educacional criminosamente capenga e limitador. Machado, coitado, acaba sendo bode expiat\u00f3rio da raiva que os jovens t\u00eam ao perceberem que seu tempo gasto na escola foi em sua maioria desperdi\u00e7ado em aulas superficiais, conte\u00fados sem conex\u00e3o com a realidade e viv\u00eancias sem profundidade filos\u00f3fica. Um sistema educacional que n\u00e3o educa, n\u00e3o amadurece, n\u00e3o ensina e n\u00e3o prepara para o mercado de trabalho.<\/p>\n<p>A escola brasileira, de fato, serve para muito pouco. Pouco al\u00e9m de uma creche <em>plus<\/em> onde os pais deixam os filhos por algumas horas. Pouco mais que uma desculpa para receber assist\u00eancia social do governo. Pouco mais do que um meio para se fingir de cidad\u00e3o honesto e cumpridor de seus deveres. O marginal que morreu &#8220;era estudante&#8221;. Nada \u00e9 t\u00e3o f\u00fatil quanto o r\u00f3tulo. Em muitos casos o aluno seria menos marginal e teria mais proveito se estivesse fazendo outra coisa. Um sistema educacional que sequer consegue dar aos alunos mais seguran\u00e7a do que teriam na rua&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a enorme entre n\u00e3o gostar de uma obra e denegri-la. N\u00e3o gostar \u00e9 direito de todo mundo, fazer ataques \u00e9 privil\u00e9gio de quem pode fundament\u00e1-los. Os estudantes, em geral, n\u00e3o podem. Para eles \u00e9 como se o mundo estivesse por detr\u00e1s de uma neblina, e a forma fantasmag\u00f3rica de um homem mulato vestindo um fraque e uma cartola \u00e9 uma assombra\u00e7\u00e3o dentro dela. \u00c9 preciso atirar nessa figura, afugent\u00e1-la, mat\u00e1-la se imposs\u00edvel&#8230; (sic). Mas com que arma, se nossa escola \u00e9 t\u00e3o in\u00f3cua que deixa 78% de analfabetos funcionais na popula\u00e7\u00e3o em geral?<\/p>\n<p>O ataque a Machado de Assis, aqui um mero s\u00edmbolo do que se rejeita &#8212; o passado e a identidade nacional &#8212; acaba, ent\u00e3o, pela sua incompet\u00eancia, refletindo mais as limita\u00e7\u00f5es de quem o inicia do que os defeitos, certamente existentes, da obra do autor. Em geral o que se comete \u00e9 um ros\u00e1rio de fal\u00e1cias e impropriedades gerais. Anacronismo, por exemplo, pois se compara com o padr\u00e3o de hoje um romance escrito h\u00e1 120 anos. Mas o que pensar de quem v\u00ea em uma obra de cunho sat\u00edrico um texto &#8220;penoso&#8221; e &#8220;triste&#8221;? Somente que a falta de preparo e sensibilidade impediu o entendimento. Assim fica dif\u00edcil detectar o valor de uma obra que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia, mas esf\u00edngica.<\/p>\n<p>O profundo irrita principalmente a quem n\u00e3o tem ferramentas para escavar. O enigma frustra a quem n\u00e3o o adivinha. A complexidade de uma obra a torna um inimigo na vis\u00e3o daquele que n\u00e3o a pode abordar. \u00c9 natural que tenhamos, sempre, multid\u00f5es de jovens que odeiam os autores do passado, \u00e9 natural porque o conhecimento necess\u00e1rio para fru\u00ed-los n\u00e3o \u00e9 adquirido por todos &#8212; por uma quest\u00e3o de gostos, oportunidades, capacidades ou seja l\u00e1 o que for. Mas se o sistema escolar conseguisse dar mais do que uma m\u00e3o simples de caia\u00e7\u00e3o cultural sobre os jovens, haveria menos pessoas impedidas de perceber, ao menos, que Machado de Assis n\u00e3o merece ser xingado, mas admirado.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os jovens que enxergam exibicionismo lingu\u00edstico em uma forma liter\u00e1ria que reflete o uso do idioma em um s\u00e9culo passado, que enxergam superficialidade no decoro descritivo de um autor sujeito a todo tipo de censuras sociais e que enxergam infantilidade em um texto que preserva a dignidade de uma \u00e9poca em que a vulgariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o destru\u00edra ainda o relacionamento interpessoal. O que fica destes jovens e seus argumentos \u00e9 a imensa dist\u00e2ncia entre a qualidade de muitos autores brasileiros e o p\u00fablico. E \u00e9 preocupante que autores que antigamente eram lidos com certa facilidade por alunos de segundo grau (conforme eu li) sejam recebidos assim pela juventude de hoje, com paus e pedras. Isso testemunha o imenso fracasso de nosso sistema educacional (que produziu, entre outras coisas, essas opini\u00f5es).<\/p>\n<p>\u00c9 muito preocupante que as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o tenham ferramentas (culturais, formais, argumentativas) para apreciar, ainda que superficialmente, a riqueza de nossa cultura. Parecem arrancadas de nossa hist\u00f3ria, limitadas ao presente. N\u00e3o conseguem olhar para tr\u00e1s, e nem para si, por isso olham tanto para fora, para obras e modelos importados.<\/p>\n<p>Esse tipo de distanciamento faz parecer que o portugu\u00eas do s\u00e9culo XIX est\u00e1 t\u00e3o distante de n\u00f3s quanto uma outra l\u00edngua, que houve uma ruptura cultura, como se os brasileiros daquela \u00e9poca n\u00e3o fossem brasileiros. A juventude de hoje, de fato, olha para esses homens e mulheres como se fossem personagens de um pa\u00eds que existiu e que n\u00e3o \u00e9 nosso. N\u00e3o s\u00e3o os nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s, s\u00e3o criaturas enigm\u00e1ticas de uma outra dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa aliena\u00e7\u00e3o pavorosa \u00e9 uma barreira intranspon\u00edvel a partir de certa idade, porque o mundo sempre nos parece terminar onde est\u00e3o as nossas limita\u00e7\u00f5es. Preferimos as certezas do que j\u00e1 sabemos. Enquanto a escola n\u00e3o for capaz de salvar as crian\u00e7as, n\u00e3o haver\u00e1 futuro para os adultos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u00f3dio a Machado de Assis \u00e9 muito frequente entre jovens que alegam terem sido &#8220;for\u00e7ados&#8221; a l\u00ea-lo na escola. Aparentemente os jovens acreditam que a fun\u00e7\u00e3o da escola \u00e9 exclusivamente dar-lhes o que gostam e o que escolhem, da\u00ed a revolta por receberem uma tarefa tal. 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