{"id":2568,"date":"2015-03-15T19:41:36","date_gmt":"2015-03-15T22:41:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2568"},"modified":"2017-08-13T00:11:24","modified_gmt":"2017-08-13T03:11:24","slug":"a-escola-brasileira-educa-para-a-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/03\/a-escola-brasileira-educa-para-a-violencia\/","title":{"rendered":"A Escola Brasileira Educa Para a Viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Neste dia em que o pa\u00eds parece assombrado por fantasmas de um passado que deveria ter sido morto e enterrado h\u00e1 trinta anos, em um outro quinze de mar\u00e7o, dediquei algumas horas a refletir sobre o futuro, j\u00e1 que o presente me parece irremediavelmente perdido, ainda que os fantasmas sejam derrotados (e eles dever\u00e3o ser). Esta semana que passou ficou marcada em mim mais pelo relat\u00f3rio final da CPI estadual sobre o trote universit\u00e1rio, conduzida pela Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, do que por qualquer enfrentamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As conclus\u00f5es s\u00f3 ficam claras quando come\u00e7amos a relacionar fatos que parecem desconexos. J\u00e1 falei antes sobre deforma\u00e7\u00f5es de nosso sistema educacional (como [fetiche do livro did\u00e1tico](\/lit\/2011\/06\/o-fetiche-do-livro-e-a-polemica-dos-livros-didaticos-malditos) e [t\u00e9cnicas pedag\u00f3gicas que ensinam a vandalizar](\/lit\/2010\/09\/nossas-escolas-odeiam-os-livros\/)), mas somente o ac\u00famulo de mais informa\u00e7\u00f5es nos permite ter uma vis\u00e3o geral de algo mais profundo: nossos sistema educacional educa para a viol\u00eancia e reproduz fen\u00f4menos seculares de opress\u00e3o, enquadramento em papeis predefinidos e humilha\u00e7\u00e3o de minorias. Trata-se de um processo, que come\u00e7a na pr\u00e9-escola e atravessa toda a vida escolar do aluno, at\u00e9 desembocar na faculdade.<\/p>\n<p>Comecemos pelas rela\u00e7\u00f5es violentas que se institucionalizaram em nosso sistema educacional, que podem ser emblematicamente resumidas no [caso](http:\/\/www.hojeemdia.com.br\/horizontes\/aluno-agride-diretora-com-tripe-dentro-de-escola-no-bairro-jardim-guanabara-1.302871) do aluno que agrediu a diretora de uma escola em Belo Horizonte enquanto ela conversava com sua m\u00e3e a respeito de um caso anterior de indisciplina.<\/p>\n<p>A escola que temos no Brasil \u00e9 fruto h\u00edbrido de uma ideologia conciliat\u00f3ria que nasceu da forma torta como chegamos de volta \u00e0 democracia, depois da noite de vinte e um anos que quase nos asfixiou. A Nova Rep\u00fablica nasceu da concilia\u00e7\u00e3o, em vez do confronto, e fez parecer que a democracia era mais uma concess\u00e3o do que uma conquista. N\u00e3o nos tornamos democr\u00e1tico porque a ditadura se tornou insustent\u00e1vel ou foi derrotada, tornamo-nos uma democracia para que as for\u00e7as vivas que mantinham o arb\u00edtrio pudessem sobreviver \u00e0 sua inevit\u00e1vel derrocada. Tanto foi uma concess\u00e3o, que a ditadura teve at\u00e9 acr\u00e9scimos (a prorroga\u00e7\u00e3o em um ano do mandato de Jo\u00e3o Figueiredo) e prorroga\u00e7\u00e3o (o mandato-tamp\u00e3o de Jos\u00e9 Sarney).<\/p>\n<p>Essa ideologia conciliat\u00f3ria certamente nos poupou, por algumas d\u00e9cadas ao menos, a necessidade de enfrentar as grandes contradi\u00e7\u00f5es de nossa sociedade, mas ela n\u00e3o conseguiu produzir uma s\u00edntese proveitosa ao pa\u00eds. De fato, ela corrompeu tudo em que tocou, transformando os governos e as institui\u00e7\u00f5es em grandes balc\u00f5es de neg\u00f3cios onde o essencial era n\u00e3o atacar o problema enquanto fosse poss\u00edvel. No caso das escolas, a concilia\u00e7\u00e3o bloqueou toda iniciativa que teria algum efeito transformador sobre a realidade da educa\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que produziu uma variedade de altera\u00e7\u00f5es superficiais, em m\u00e9todos e *slogans*, que em nada afetou o fracasso de nosso sistema de ensino, que n\u00e3o conseguiu erradicar vinte por cento de analfabetos em vinte anos, enquanto a Bol\u00edvia erradicou quarenta por cento em oito anos. Nosso sistema educacional \u00e9, hoje, inferior ao da Bol\u00edvia, e n\u00f3s temos preconceito contra os alunos que se formam naquele pa\u00eds. V\u00e1 lavar o rosto com \u00e1gua fria, porque este tapa arde mesmo.<\/p>\n<p>Um sistema educacional desenhado para fracassar produz um arremedo de rito educacional onde os agentes s\u00e3o impotentes para fazer o bem, mas todos s\u00e3o fortes para produzir a desgra\u00e7a. Na falta de um processo pedag\u00f3gico eficaz, o professor se desmoraliza (e n\u00e3o haveria &#8220;autoridade&#8221; que funcionasse) e o aluno se sente &#8220;perdendo tempo&#8221;, pois sabe que a escola n\u00e3o ter\u00e1 o poder de mudar sua realidade. A pseudo-educa\u00e7\u00e3o que as escolas brasileiras oferecem produz alunos revoltados, professores desmotivados e um ambiente de confronto no qual ambos perdem.<\/p>\n<p>Os jovens se sentem superiores e acreditam que o sistema educacional \u00e9 impotente porque desde cedo se acostumaram com a ideia de que podem fazer o que bem entenderem e a \u00fanica consequ\u00eancia ser\u00e1 a &#8220;conversa&#8221;. A escola n\u00e3o dialoga com eles na hora de oferecer um ensino de qualidade, mas ela os ouve quando eles causam problemas. Eles s\u00e3o, portanto, condicionados a causar problemas para terem a aten\u00e7\u00e3o da escola e dos pais. Funciona assim. N\u00e3o \u00e9 algo s\u00f3 dentro da escola: fora tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Outro aspecto da concilia\u00e7\u00e3o da Nova Rep\u00fablica foi a impot\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es contra quem as viola. De um lado, democratas traumatizados com os excessos da ditadura e de outro gente que temia sofrer o peso da lei porque vivia a viol\u00e1-la. Esses dois grupos se juntaram para produzir uma legisla\u00e7\u00e3o c\u00edvel e penal que n\u00e3o se limita a conceder amplo direito de defesa, o que \u00e9 louv\u00e1vel, mas tamb\u00e9m se esmera em punir o m\u00ednimo poss\u00edvel quem deveria ser punido. C\u00e1 entre n\u00f3s, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel n\u00e3o conhecer algu\u00e9m que sofreu um agravo criminoso e descobriu que n\u00e3o adiantava denunciar. Os criminosos que s\u00e3o condenados permanecem pouco tempo presos, logo est\u00e3o livres para atacar quem os denunciou. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde n\u00e3o vale a pena cooperar na solu\u00e7\u00e3o de crimes, pois isso lhe causa mais problemas do que se voc\u00ea tivesse cometido um crime. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que nossas leis s\u00e3o as que as raposas teriam feito para o galinheiro.<\/p>\n<p>Mas se a lei \u00e9 impotente contra quem a viola, os bra\u00e7os armados da lei s\u00e3o violentos contra o criminoso pobre, e os bra\u00e7os armados do crime s\u00e3o ainda mais violentos contra os que n\u00e3o merecem a prote\u00e7\u00e3o do estado. Crescendo em um ambiente social no qual a impunidade \u00e9 a regra e viol\u00eancia \u00e9 uma resposta cega e injusta que atinge qualquer um, mas raramente vitima os que talvez a merecessem, o aluno da escola p\u00fablica n\u00e3o tem paradigmas \u00e9ticos para agir. Ele interpreta a professora e a diretora como pessoas que n\u00e3o t\u00eam autoridade sobre ele porque n\u00e3o s\u00e3o capazes de intimid\u00e1-lo. Ele vive em um ambiente onde a autoridade se exerce atrav\u00e9s da viol\u00eancia e onde o estado, que poderia agir de forma n\u00e3o violenta para demonstrar o imp\u00e9rio da lei, \u00e9 omisso. <\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um comportamento irracional, muito pelo contr\u00e1rio: esse aluno foi inteligente o bastante para perceber que h\u00e1 pessoas que desejam determinar-lhe o que fazer, mas pretendem fazer isso sem exercer qualquer tipo de poder. A escola no Brasil n\u00e3o tem qualquer resqu\u00edcio de autoridade, por m\u00ednimo que seja. \u00c9 a verdadeira casa da M\u00e3e Joana, onde a \u00fanica opini\u00e3o que n\u00e3o tem nenhum valor \u00e9 a do profissional de ensino. Se a escola tem algum problema, vai-se ouvir a opini\u00e3o de um pedagogo formado na Sorbonne, de um pol\u00edtico, de um l\u00edder comunit\u00e1rio, do primeiro cachorro que estiver passando pela rua &#8212; mas o professor, esse n\u00e3o. O professor-toureiro de nossas escolas n\u00e3o tem direito a um sal\u00e1rio digno e muito menos pode reivindicar condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Tem que se desviar de golpes brutais e irrefletidos que lhe s\u00e3o desferidos pelo sistema, enquanto lida com alunos que, dependendo da escola, \u00e0s vezes j\u00e1 tem mortes nas costas mas n\u00e3o t\u00eam nenhum respeito pelo sistema &#8212; sequer t\u00eam medo, essa forma inferior de respeito que costuma predominar entre os brutos.<\/p>\n<p>Na cabe\u00e7a desse adolescente, e de muitos outros, somente a autoridade da viol\u00eancia \u00e9 leg\u00edtima porque \u00e9 a \u00fanica que se exerce no cen\u00e1rio de abandono afetivo e ideol\u00f3gico em que esse aluno nasce e se cria. Ele aprendeu que empregar a viol\u00eancia n\u00e3o atrai san\u00e7\u00f5es, que a lei \u00e9 fraca para com os fortes e impiedosa para com os fracos. Normalmente os professores se ferram por se excederem dos ex\u00edguos limites que o estado lhes concede, mas os alunos nem sequer podem mais ser &#8220;expulsos&#8221; ou &#8220;transferidos&#8221; porque \u00e9 cl\u00e1usula p\u00e9trea de nosso sistema escolar que \u00e9 dever da escola &#8220;acolher o aluno&#8221;, mesmo que ele seja o l\u00edder do crime organizado no bairro e v\u00e1 a escola para traficar, e \u00e9 dever do estado assegurar que o aluno tenha acesso \u00e0 escola de sua prefer\u00eancia, mesmo que ele v\u00e1 l\u00e1 para destru\u00ed-la. Ent\u00e3o, segundo essa l\u00f3gica, em que o professor &#8220;nada pode&#8221;, mas ele &#8220;tudo pode&#8221;, o que a diretora lhe poderia dizer? Com que autoridade ela poderia sancion\u00e1-lo? Na cabe\u00e7a desse aluno, a conversa entre a diretora e a sua m\u00e3e era uma palha\u00e7ada.<\/p>\n<p>Eles se sentem superiores e acreditam que a sociedade \u00e9 impotente contra eles porque sabem que a &#8220;conversa&#8221; \u00e9 a \u00fanica abordagem. Antigamente existia a possibilidade de apanhar que nem boi ladr\u00e3o, e ao chegar em casa, apanhar da m\u00e3e tamb\u00e9m, por ter criado confus\u00e3o na escola. Era errado, talvez, mas era uma alternativa, convincente, para fazer o aluno entender que quando o professor &#8220;conversava&#8221; com ele era algo especial, uma prova de dec\u00eancia, e n\u00e3o um sinal de impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Aquele que pode usar de viol\u00eancia, mas usa de conversa, demonstra grande autoridade moral. Aquele que tenta conversar, mas n\u00e3o pode fazer nada al\u00e9m disso, est\u00e1 reduzido, aos olhos dos adolescentes, a um tolo pomposo e in\u00fatil, a quem \u00e9 preciso &#8220;mostrar o seu lugar&#8221;. O aluno, certamente, logo estar\u00e1 de volta \u00e0 mesma escola. A diretora, traumatizada, talvez n\u00e3o. Assim se completa a educa\u00e7\u00e3o deste aluno, e de todos os que s\u00e3o testemunhas, &#8220;colocando em seu lugar&#8221; a diretora e ostentando o triunfo da for\u00e7a contra o argumento. Seria menos nocivo ao futuro da na\u00e7\u00e3o se esse aluno fosse levado pela pol\u00edcia e fuzilado num matagal. Seria horr\u00edvel, claro, mas pelo menos n\u00e3o permitiria que no ambiente educacional ocorresse o triunfo da for\u00e7a sobre a raz\u00e3o. O problema \u00e9 que esse triunfo seria apenas transferido de lugar. Seria uma outra forma de concilia\u00e7\u00e3o &#8212; e de tanto conciliar o Brasil se deixou empurrar \u00e0 beira do abismo. Chega de conciliar.<\/p>\n<p>Digo que o fuzilamento do aluno ainda seria uma concilia\u00e7\u00e3o porque ele seria uma solu\u00e7\u00e3o imediata, para calar a boca dos radicais tradicionalistas e de direita. Nada mudaria de fato porque n\u00e3o se tocaria nem nas leis lenientes que fazem o crime compensar e nem se mudaria uma v\u00edrgula na estrutura viciada de nosso sistema educacional omisso. Matar o criminoso extrajudicialmente por n\u00e3o poder tratar dele adequadamente nos tr\u00e2mites da justi\u00e7a \u00e9 passar um recibo de que as institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 faliram. Qualquer argumento em defesa de institui\u00e7\u00f5es que j\u00e1 faliram \u00e9 um argumento conciliador. E o Brasil n\u00e3o precisa mais de concilia\u00e7\u00e3o, precisa confrontar os problemas. Passar anest\u00e9sico no espinho est\u00e1 apenas aumentando a inflama\u00e7\u00e3o. Precisamos arranc\u00e1-lo logo, antes que o pa\u00eds perca o p\u00e9.<\/p>\n<p>Outra forma de concilia\u00e7\u00e3o existente em nossa sociedade \u00e9 a escola particular. Os mais abastados, sabendo ou prevendo que a escola p\u00fablica seguia uma receita de desastre meticulosamente planejado, trataram de levar seus filhos para escolas privadas, aonde as pol\u00edticas p\u00fablicas teriam m\u00ednimo impacto. Teriam, mas de fato n\u00e3o tiveram, porque tamb\u00e9m na escola privada se consagraram as mais torpes inven\u00e7\u00f5es do regime militar brasileiro: a escola em turnos (em vez de tempo integral), o diferente peso das mat\u00e9rias (com \u00eanfase em portugu\u00eas e matem\u00e1tica) e uma estrutura pedag\u00f3gica sem di\u00e1logo, baseada no professor-fornecedor e no aluno-consumidor, uma pr\u00e1tica unilateral e doutrinadora que produz gente sem senso cr\u00edtico. Mas nas escolas privadas os alunos da elite est\u00e3o, pelo menos, livres da conviv\u00eancia com os alunos das classes mais baixas &#8212; e este n\u00edvel de concilia\u00e7\u00e3o j\u00e1 parece suficiente para seus pais.<\/p>\n<p>Principalmente porque a escola privada reproduz a mesma ideologia individualista e consumista que existe no resto da sociedade. Em vez de pagar impostos para que todos tenham direito a uma boa escola, os membros das classes mais abastadas desejam pagar por uma educa\u00e7\u00e3o privada que assegure privil\u00e9gios aos seus filhos. A ideologia do privil\u00e9gio \u00e9 o cerne da exist\u00eancia de escolas privadas, a mesma ideologia que cria em espa\u00e7os particulares, como os centros comerciais, uma experi\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o se pode ter no espa\u00e7o p\u00fablico. Mas esta concilia\u00e7\u00e3o segregacionista pelo menos oferece ao aluno e aos seus pais a ilus\u00e3o de ser superior.<\/p>\n<p>O tradicionalismo &#8220;conciliador&#8221; usa e abusa de instrumentos para perpetuar sua ideologia exclusivista. Entre estes instrumentos est\u00e3o ritos de passagem que for\u00e7am os novatos a assimilar-se \u00e0s pr\u00e1ticas correntes. O conservadorismo \u00e9, necessariamente, corrupto. Sempre foi assim, e sempre ser\u00e1. Em uma sociedade conservadora, voc\u00ea s\u00f3 se insere no sistema tornando-se igual  \u00e0queles que j\u00e1 o integram. Por um simples princ\u00edpio de entropia, se voc\u00ea s\u00f3 consegue entrar tornando-se igual, \u00e9 natural que o sistema se torne progressivamente mais monstruoso e corrupto porque \u00e9 mais f\u00e1cil adicionar novos atos reprov\u00e1veis do que esquecer os antigos. <\/p>\n<p>Nosso sistema eleitoral praticamente impede que os partidos, por idealistas que sejam, obtenham vit\u00f3rias eleitorais e implementem suas pol\u00edticas. A Nova Rep\u00fablica se ergueu sobre o princ\u00edpio de que o governo teria de incluir todas as for\u00e7as da sociedade, inclusive aquelas que haviam se locupletado durante o regime militar. \u00c9 inconceb\u00edvel haver, no Brasil, uma &#8220;vit\u00f3ria&#8221; de um partido, como ocorre em outros pa\u00edses. Isso decorre do sistema proporcional simples com voto transfer\u00edvel, que dificulta a forma\u00e7\u00e3o de minorias, mas decorre tamb\u00e9m do bizarro &#8220;presidencialismo de coaliz\u00e3o&#8221;, no qual o Congresso Nacional det\u00e9m um grande poder e absolutamente nenhuma responsabilidade. Se o executivo n\u00e3o tem maioria congressual e a oposi\u00e7\u00e3o se determina a obstrui-lo, relegando-o \u00e0 ina\u00e7\u00e3o, todo o \u00f4nus deste estado de coisas recai sobre o executivo &#8212; em parte pela forma como as coisas se organizam e em parte pelo generalizado analfabetismo pol\u00edtico do brasileiro, que vota em candidatos ao sabor de crit\u00e9rios vagos, frequentemente votando em um partido para o cargo majorit\u00e1rio do executivo e em seus advers\u00e1rios para os cargos proporcionais do legislativo. Assim, \u00e9 praticamente certo que os idealistas, para tentarem implementar os seus ideais ter\u00e3o de &#8220;compor&#8221; com outras for\u00e7as pol\u00edticas, que muito querem mas pouco cedem. Para cada &#8220;bondade&#8221; aprovada, t\u00eam de compactuar com tr\u00eas &#8220;maldades&#8221;. E \u00e9 sempre sobre os idealistas que recai a maior cobran\u00e7a. Ningu\u00e9m se surpreende que os porcos sejam sujos, mas quando eles atiram bosta em um cisne que era for\u00e7ado a comer no chiqueiro, todos acham muito errado o comportamento do cisne&#8230; Mas ningu\u00e9m questiona porque os cisnes t\u00eam de ir comer no chiqueiro &#8212; e assim, sucessivamente, ao longo de cinco mandatos presidenciais, partidos de esquerda ou centro-esquerda foram for\u00e7ados a compactuar com agendas da direita.<\/p>\n<p>Para entender como se chega a isso, precisamos passar, ainda, pelo est\u00e1gio intermedi\u00e1rio entre a escola e a vida adulta, que \u00e9 justamente o momento no qual ocorre de forma mais transparente a concilia\u00e7\u00e3o violenta que est\u00e1 no cerne dos v\u00edcios da Nova Rep\u00fablica. Estamos falando aqui do trote.<\/p>\n<p>O trote universit\u00e1rio \u00e9 um rito de passagem &#8212; o que significa, entre outras coisas, que ele \u00e9 um instrumento ideol\u00f3gico conservador e tendente \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o. Sua antiguidade significa apenas que ele j\u00e1 internalizou uma quantidade absurda de comportamentos inaceit\u00e1veis. Mas n\u00f3s somos, ainda, tolerantes para com ele porque n\u00f3s acreditamos na tradi\u00e7\u00e3o. Poucos povos do mundo s\u00e3o t\u00e3o conservadores quanto o brasileiro &#8212; nenhum pa\u00eds do mundo \u00e9 t\u00e3o avesso a mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Era algo at\u00e9 benigno (no sentido de tumor) enquanto era apenas uma grande festa em que se gozava o calouro ou se fazia pequenas tro\u00e7as, como comer em restaurante e n\u00e3o pagar, mas isso foi no tempo em que ainda se amarrava cachorro com lingui\u00e7a: desde meus tempos de crian\u00e7a ouve-se falar em trote violento. J\u00e1 s\u00e3o mais de trinta anos desde que me lembro por gente que se sabe que em certas faculdades o trote  \u00e9 um perigo. Coisas que se comenta \u00e0 boca pequena e que n\u00e3o se pode falar em voz alta por causa de processos &#8212; mas coisas que a CPI paulista revelou. Cada par\u00e1grafo do relat\u00f3rio final da CPI apenas revela coisas que se comentam h\u00e1 mais de trinta anos. Que mulheres calouras s\u00e3o obrigadas a fazer sexo com os veteranos, por exemplo, *especialmente nos cursos de medicina*, \u00e9 coisa que eu via amigos de meu pai comentando com ele, que eu via at\u00e9 mesmo enfermeiros comentando dentro de hospital quando estavam chateados com alguma m\u00e9dica. <\/p>\n<p>Mas tudo isso acontecia, as pessoas sabiam, ouviam falar, mas ningu\u00e9m tomava provid\u00eancia alguma. Todos fingiam n\u00e3o saber ou, no m\u00e1ximo, acreditavam que as coisas eram como eram e que tudo n\u00e3o passava de uma fase. Quando surgia algum caso mais escabroso, como a [caloura Chica da Silva](http:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/educacao\/ufmg-deve-divulgar-parecer-sobre-trote-racista-em-uma-semana-8061432) ou o [Leil\u00e3o das Calouras](http:\/\/www.pinheirinho.net\/2015\/03\/interior-de-sp-mulher-apanha-ao-filmar.html), inventava-se uma distra\u00e7\u00e3o in\u00f3cua como o &#8220;trote social&#8221;  &#8212; que \u00e9, essencialmente, a mesma coisa que colocar glac\u00ea em um bolo de lama.<\/p>\n<p>Os trotes s\u00e3o uma coisa medieval e incompat\u00edvel com a democracia. Eles se baseiam na ideologia de controle do acesso ao conhecimento. Surrar os calouros de origem n\u00e3o nobre (somente estes, diga-se) era uma forma que as universidades medievais tinham de desestimular a educa\u00e7\u00e3o dos comuns. Em pa\u00edses como os EUA e a Gr\u00e3 Bretanha, alunos de fam\u00edlias abastadas pagavam multas \u00e0s fraternidades de veteranos para que seus trotes fossem benignos, mas alunos de fam\u00edlias pobres tinham de se submeter a situa\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Trote deveria ser crime. Deveria ser crime hediondo, inclusive, pelas situa\u00e7\u00f5es humilhantes a que os calouros s\u00e3o submetidos, que muitas vezes t\u00eam sequelas psicol\u00f3gicas duradouras, [quando n\u00e3o f\u00edsicas](http:\/\/g1.globo.com\/sp\/presidente-prudente-regiao\/noticia\/2015\/02\/adolescente-e-queimada-com-acido-em-trote-de-faculdade-em-adamantina.html). A pr\u00e1tica do trote universit\u00e1rio tem natureza coercitiva e, portanto, \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos dos calouros &#8212; como nunca percebemos isso antes, por que foi preciso esta CPI?.<\/p>\n<p>O trote \u00e9 um crime que se consuma diante dos olhos complacentes de uma sociedade violenta e acostumada a oprimir os mais fracos e as minorias. Sendo os calouros em minoria, o trote assim se consuma pela sua incapacidade de defesa. A universidade deveria ser considerada c\u00famplice do trote praticado por seus alunos, mesmo que fora da universidade, para for\u00e7\u00e1-las a punir os infratores quando identificados. As v\u00edtimas de trote deveriam ter o direito de processar a universidade e o Estado por dano moral (e pelos demais danos que ocorrerem) e tamb\u00e9m aos agressores que for poss\u00edvel identificar. Quando as primeiras destas a\u00e7\u00f5es conseguirem obter \u00eaxito, as universidades e os legisladores come\u00e7aram a subitamente perceber que n\u00e3o se pode violar a dignidade da pessoa humana sob a capa da tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 justificou a escravid\u00e3o negra, a opress\u00e3o da mulher, a institucionaliza\u00e7\u00e3o violenta dos doentes mentais e hoje ainda justifica, entre outras coisas, o trote universit\u00e1rio. O trote \u00e9 mais uma parte de nosso sistema educacional, ele n\u00e3o \u00e9 uma coisa improvisada e alheia. Ele \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, da qual as faculdades fazem parte. Ele cumpre uma fun\u00e7\u00e3o de colocar os novos &#8220;em seu lugar&#8221;. Ele tem apoios dentro e fora das faculdades, de forma que os que se recusam a participar ou o denunciam sofrem repres\u00e1lias (inclusive acad\u00eamicas) e posteriormente encontram fechadas portas que ficam abertas para os que participam. Assim, essa \u00e9 mais uma de muitas inst\u00e2ncias em que, no Brasil, a v\u00edtima \u00e9 brutalizada mais uma vez quando os criminosos s\u00e3o recompensados e entronizados no poder.<\/p>\n<p>O trote precisa ser abolido, entre muitas outras coisas que est\u00e3o erradas no pa\u00eds. Ele \u00e9 apenas uma engrenagem do sistema, mas acredito que seja uma engrenagem importante e que se conseguirmos quebr\u00e1-la, toda a m\u00e1quina repressiva sofrer\u00e1 um grande abalo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste dia em que o pa\u00eds parece assombrado por fantasmas de um passado que deveria ter sido morto e enterrado h\u00e1 trinta anos, em um outro quinze de mar\u00e7o, dediquei algumas horas a refletir sobre o futuro, j\u00e1 que o presente me parece irremediavelmente perdido, ainda que os fantasmas sejam derrotados (e eles dever\u00e3o ser). Esta semana que passou ficou marcada em mim mais pelo relat\u00f3rio final da CPI estadual sobre o trote universit\u00e1rio, conduzida pela Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, do que por qualquer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[72,68,119],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2568"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2568"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2568\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4654,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2568\/revisions\/4654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}