{"id":2577,"date":"2015-04-06T20:00:34","date_gmt":"2015-04-06T23:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2577"},"modified":"2017-11-19T12:41:06","modified_gmt":"2017-11-19T15:41:06","slug":"ainda-sera-possivel-falar-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/04\/ainda-sera-possivel-falar-do-brasil\/","title":{"rendered":"Ainda Ser\u00e1 Poss\u00edvel Falar do Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>Parece que o Brasil virou crime. \u00c9 imposs\u00edvel falar do pa\u00eds que \u00e9 nosso sem desagradar a algu\u00e9m. Para toda tentativa de se abordar a hist\u00f3ria e cultura nacional haver\u00e1 um grupo que se ofenda e que se defenda. \u00c9 como se fosse preciso passar uma borracha sobre todo o tempo at\u00e9 ontem e come\u00e7ar a viver de novo em prol do amanh\u00e3. Qualquer coisa menos que isso ser\u00e1 controversa.<\/p>\n<p>Minha percep\u00e7\u00e3o desse absurdo vem crescendo h\u00e1 algum tempo, mas o alarme soou quanto li <a href=\"http:\/\/correionago.ning.com\/profiles\/blogs\/choque-cultural-e-arte-contra-o-genocidio\">que o movimento negro acusa de racismo a Farinha de Trigo Dona Benta<\/a> porque quem cozinhava no S\u00edtio do Picapau Amarelo era a Tia Nast\u00e1cia. \u00c0 parte o fato de que <em>Dona Benta tamb\u00e9m cozinhava<\/em>, o questionamento parece racional at\u00e9 que voc\u00ea toma conhecimento da [grita do movimento negro contra o restaurante Divino Fog\u00e3o]) por usar a imagem de uma mulher negra como mascote. Face aos dois fatos, resta a pergunta: ainda \u00e9 poss\u00edvel fazer alguma refer\u00eancia \u00e0 cultura brasileira sem ser acusado de racismo?<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 perfeitamente cab\u00edvel porque \u00e9 racismo quando a farinha se chama Dona Benta em vez de Tia Nast\u00e1cia, mas tamb\u00e9m \u00e9 racismo quando o restaurante usa como s\u00edmbolo a cozinheira negra. Fica parecendo que ainda achariam racismo se a farinha fosse Tia Nast\u00e1cia e se a mascote do restaurante fosse branca:<\/p>\n<p><em>Usar a imagem de uma negra para vender farinha de trigo, que \u00e9 branca, que falta de respeito! Isso \u00e9 associar a imagem da mulher negra \u00e0 culin\u00e1ria e etc.<\/em><\/p>\n<p><em>Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de o restaurante ter uma mascote branca se quem cozinhava eram as negras?<\/em><\/p>\n<p>Da\u00ed o pr\u00f3ximo dono de restaurante d\u00e1 ao lugar um nome qualquer em ingl\u00eas ou b\u00falgaro e v\u00e3o reclamar que n\u00e3o se valoriza a cultura nacional. Como valorizar a cultura nacional se toda ela est\u00e1 impregnada de escravismo e intoler\u00e2ncia, se toda ela foi criminalizada?<\/p>\n<p>Quando Ruy Barbosa foi ministro no governo de Campos Salles, mandou queimar toda a documenta\u00e7\u00e3o do Arquivo Nacional que se referia \u00e0 escravid\u00e3o, segundo ele &#8220;para apagar esta mancha da hist\u00f3ria da P\u00e1tria&#8221;. Ficamos sem os arquivos mas a mancha continua at\u00e9 hoje, pois n\u00e3o \u00e9 o rabo que abana o cachorro. Ficamos com esta estranha situa\u00e7\u00e3o, em que qualquer lembran\u00e7a de nosso passado pode ser associada com racismo, intoler\u00e2ncia, preconceito e todos os valores opressivos e negativos que o primeiro iluminado defensor dos fracos e oprimidos queira atirar contra n\u00f3s. Diante disso, melhor falar de elfos e pensar em N\u00e1rnia, porque o Brasil agora \u00e9 crime.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero que entendam este texto como uma rea\u00e7\u00e3o intolerante de algu\u00e9m que deseja defender um status quo qualquer. Trata-se, em vez disso, de um apelo \u00e0 raz\u00e3o. A hist\u00f3ria do Brasil n\u00e3o se limita \u00e0 escravid\u00e3o, e mesmo que se limitasse, deixar de falar sobre isso n\u00e3o diminuir\u00e1 sua gravidade e nem modificar\u00e1 as suas consequ\u00eancias para o presente. Em vez de criminalizarmos refer\u00eancias culturais inocentes, como a Farinha de Trigo Dona Benta ou a mascote negra do Divino Fog\u00e3o, devemos pensar em fazer algo de positivo para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de igualdade social e econ\u00f4mica para os grupos menos favorecidos de nossa sociedade. N\u00e3o se far\u00e1 isso com debates bizantinos sobre palavras e frases, embora isso possa ser feito com respeito e at\u00e9 de forma esclarecedora.<\/p>\n<p>As \u00fanicas coisas que podem influir decisivamente sobre o futuro s\u00e3o a\u00e7\u00f5es coordenadas &#8212; e muito disso j\u00e1 tem sido feito. S\u00f3 pe\u00e7o que, em nome da boa causa da igualdade racial, n\u00e3o ataquemos a identidade nacional desta forma. Especialmente na literatura. Escrever sobre um fato n\u00e3o \u00e9 endoss\u00e1-lo. Romancear um fato n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que ele \u00e9 correto. Aquilo que faz parte do passado precisa ser mostrado e n\u00e3o apagado. N\u00e3o podemos limpar o passado do pa\u00eds fingindo que nele n\u00e3o forma cometidos os atos que efetivamente foram cometidos, e n\u00e3o podemos considerar que as refer\u00eancias a este passado s\u00e3o necessariamente criminosas &#8212; ou tornaremos cada vez mais dif\u00edcil a defesa de uma identidade nacional brasileira frente a essa avalanche de conte\u00fado de massa que nos chega de fora.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ingenuidade achar que os povos ditos desenvolvidos t\u00eam hist\u00f3rias limpas. Eles s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o tolos a ponto de descartar sua hist\u00f3ria para idolatrar bobagens importadas s\u00f3 porque cinco ou seis se ofendem com coisas que aconteceram h\u00e1 s\u00e9culos. Apenas precisamos desenvolver a sensibilidade de n\u00e3o mais idolatrar o mal &#8212; como fizeram os americanos ao deixarem de massacrar \u00edndios em filmes de faroeste. A men\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, a tais massacres, ser\u00e1 sempre inevit\u00e1vel em toda hist\u00f3ria ambientada no s\u00e9culo XIX deles, embora dificilmente ela seja foco, ou, no caso de ser, seja mostrada como algo positivo. Tal como \u00e9 inevit\u00e1vel lembrar que as cozinheiras eram negras, tanto quanto a maioria dos capit\u00e3es do mato.<\/p>\n<p>Quando atingirmos a maioridade intelectual, nos ofenderemos com coisas mais importantes que a Farinha de Trigo Dona Benta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece que o Brasil virou crime. \u00c9 imposs\u00edvel falar do pa\u00eds que \u00e9 nosso sem desagradar a algu\u00e9m. Para toda tentativa de se abordar a hist\u00f3ria e cultura nacional haver\u00e1 um grupo que se ofenda e que se defenda. \u00c9 como se fosse preciso passar uma borracha sobre todo o tempo at\u00e9 ontem e come\u00e7ar a viver de novo em prol do amanh\u00e3. Qualquer coisa menos que isso ser\u00e1 controversa. 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