{"id":2581,"date":"2015-06-14T14:23:44","date_gmt":"2015-06-14T17:23:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2581"},"modified":"2017-11-02T14:08:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:06","slug":"bonitinha-mas-ordinaria-um-filme-que-explica-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/06\/bonitinha-mas-ordinaria-um-filme-que-explica-o-brasil\/","title":{"rendered":"Bonitinha, Mas Ordin\u00e1ria &#8212; Um Filme que Explica o Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana, na ressaca do feriado, assisti pela segunda vez um cl\u00e1ssico de nosso cinema, baseado em obra ainda mais cl\u00e1ssica de N\u00e9lson Rodrigues, o Anjo Pornogr\u00e1fico, nosso mais pol\u00eamico autor. Trata-se de uma obra que precisa ser melhor apreciada, embora o filme mesmo tenha envelhecido sob v\u00e1rios aspectos \u2013 e ainda que as pol\u00eamicas abordadas pelo enredo j\u00e1 n\u00e3o sejam t\u00e3o relevantes no mundo de hoje. Digo que o filme precisa ser mais visto porque a obra de N\u00e9lson Rodrigues, cada vez mais, parece essencial para se entender o Brasil do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><strong>Este texto cont\u00e9m spoilers. Se quer ver o filme, veja-o antes de ler<\/strong><\/p>\n<p>As recentes gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se d\u00e3o conta, mas o nosso pa\u00eds atravessou entre 1980 e 2000 uma transforma\u00e7\u00e3o cultural e de costumes muito grande, quase traum\u00e1tica. Ao cabo de um espa\u00e7o menor que uma gera\u00e7\u00e3o, uma s\u00e9rie enorme de conceitos vistos como centrais para a sociedade foram descartados. Do abandono desses paradigmas surgiu um deserto comportamental, uma esp\u00e9cie de vale-tudo p\u00f3s-moderno no qual, ao que parece, ainda n\u00e3o nos achamos. O que Rodrigues documentou em suas obras foi o in\u00edcio desse processo, as dores da doen\u00e7a profunda de nossa nacionalidade. Hoje vivemos justamente a agonia final, e temos de optar por deixar morrer o que j\u00e1 n\u00e3o serve ou prolongarmos com aparelhos a exist\u00eancia daquele Brasil doente no qual os personagens de \u201cBonitinha, Mas Ordin\u00e1ria\u201d se locomovem. Depois de vistos em seu contexto, eles dificilmente parecer\u00e3o aceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lembro da primeira vez que assisti esse filme \u2013 ele passou na televis\u00e3o e v\u00e1rios de meus amigos assistiram. Falamos nele durante v\u00e1rias semanas. Termos como \u201ccont\u00ednuo!\u201d (dito em uma voz rascante) e \u201cPeixoto\u201d, bem como a \u201cfrase do Otto\u201d, segundo a qual \u201co mineiro s\u00f3 \u00e9 solid\u00e1rio no c\u00e2ncer\u201d, entraram em nossos papos como se fossem bord\u00f5es. O filme nos atingiu em algum ponto sens\u00edvel porque, a exemplo de Edgar, \u00e9ramos banc\u00e1rios. Mas a coincid\u00eancia de profiss\u00e3o n\u00e3o explica tudo: produziu-se um choque forte, de auto-reconhecimento.<\/p>\n<p>Antes de mais nada \u00e9 preciso lembrar que o filme est\u00e1 longe de ser \u201cbom\u201d segundo o entendimento geral do que seria um filme de qualidade, e fica, de fato, <em>longe<\/em> disso. Braz Chediak n\u00e3o \u00e9, nem nos seus pr\u00f3prios sonhos, um dos grandes diretores do cinema p\u00e1trio, nem s\u00e3o perfeitas as atua\u00e7\u00f5es que d\u00e3o vida aos personagens: algumas s\u00e3o at\u00e9 pat\u00e9ticas. O que torna t\u00e3o forte a experi\u00eancia de assistir o filme \u00e9 que Chediak, talvez consciente de suas limita\u00e7\u00f5es, trata com respeito o texto original, tornando a obra praticamente um \u201cteatro filmado\u201d. Existe uma virtude em se filmar assim, quando o texto original possui tal for\u00e7a.<\/p>\n<p>Grosso modo, a trama pode ser resumida a um \u00fanico conflito central, que gravita em torno de seu protagonista, o pat\u00e9tico Edgar, um homem que, de fato, vai se tornando homem \u00e0 medida que a hist\u00f3ria avan\u00e7a. H\u00e1 cenas sem sua participa\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, mas todas elas apontam para ele: n\u00e3o h\u00e1, para falar a verdade, nenhuma subtrama no enredo. Longe de ser um defeito, \u00e9 a maior qualidade de uma obra que parece argumentar um conceito definido desde o princ\u00edpio como quem defende uma tese. \u201cBonitinha, Mas Ordin\u00e1ria\u201d \u00e9 uma tese sobre o Brasil \u2013 e como tal, precisa seguir um encadeamento.<\/p>\n<p>A obra come\u00e7a em uma cena familiar de grande densidade, talvez o momento de melhor atua\u00e7\u00e3o dos atores no filme. Werneck, empres\u00e1rio poderoso, tem uma discuss\u00e3o com sua fam\u00edlia a respeito do que fazer com Maria Cec\u00edlia, sua ca\u00e7ula, que foi recentemente estuprada. A primeira constata\u00e7\u00e3o desta cena \u00e9 que Maria Cec\u00edlia \u00e9 a \u00fanica pessoa da fam\u00edlia que est\u00e1 ausente da discuss\u00e3o \u2013 embora seja a maior interessada no que se decidir\u00e1. O drama de seu estupro \u00e9 revelado sem pudores, diante de sua m\u00e3e, L\u00edgia, de seu cunhado, Peixoto, de sua irm\u00e3 mais nova (que sequer tem um nome), e sua av\u00f3. Werneck, demonstrando uma atitude completamente hip\u00f3crita e amoral, mesmo diante da dor da filha, prop\u00f5e, at\u00e9 ironicamente, que seja levada a um cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico famoso, a que chama de \u201cPitanguy dos caba\u00e7os\u201d, e por ele operada para uma reconstitui\u00e7\u00e3o do h\u00edmen.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o defendida por Werneck revela a grande crise de valores, que j\u00e1 afetava a cultura nacional na \u00e9poca em que a pe\u00e7a fora escrita (anos 50) e se agravara na \u00e9poca da filmagem (1980). A virgindade da mulher antes do casamento, que no passado servira a prop\u00f3sitos rituais e representava a pureza dos sacramentos, agora \u00e9 s\u00f3 uma apar\u00eancia a ser mantida, a mera ilus\u00e3o fetichizada em algo que era originalmente acess\u00f3rio. Werneck vai dizer que o h\u00edmen reconstitu\u00eddo \u201csangra at\u00e9 mais\u201d na noite de n\u00fapcias, o que evidencia que para ele o sangramento, ilus\u00e3o de pureza, adquiriu uma preval\u00eancia sobre o sentido da pureza, de que o h\u00edmen era apenas s\u00edmbolo material. Podemos dizer, ent\u00e3o, que o modo de pensar exprimido por este personagem representa a substitui\u00e7\u00e3o dos valores religiosos tradicionais do Brasil por uma ostenta\u00e7\u00e3o superficial desligada das fun\u00e7\u00f5es originais dos ritos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a breve exposi\u00e7\u00e3o inicial de Werneck, entra a sua sogra, personagem sem nome e de pouca express\u00e3o facial, encarnada pela veterana Henriette Morineau. Diferente de Werneck, que s\u00f3 est\u00e1 interessado em manter a sua filha desej\u00e1vel para um casamento padr\u00e3o, restaurando-lhe uma virgindade \u201cfake\u201d, a av\u00f3 de Maria Cec\u00edlia, vestida em luto fechado de vi\u00fava, ainda tem o sentido original dos s\u00edmbolos e determina que somente um casamento poderia resolver o \u201cproblema\u201d criado pelo defloramento de Maria Cec\u00edlia. Esta solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de agradar a Werneck, porque tal casamento seria necessariamente com algu\u00e9m de classe social inferior, que precisaria ser convencido a aceitar uma noiva \u201cdefeituosa\u201d.<\/p>\n<p>Um ponto interessante do di\u00e1logo, a essa altura, \u00e9 a forma como a sogra se comporta em rela\u00e7\u00e3o a Werneck, dizendo quando falar e calar-se, e at\u00e9 lhe ordenando que n\u00e3o se levante enquanto ela fala. Esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante porque ela ser\u00e1 repetida depois, no di\u00e1logo entre Werneck e o seu futuro genro, Edgar. Neste outro di\u00e1logo, Werneck incorpora os modos autorit\u00e1rios da sogra e oprime Edgar exatamente da mesma forma com que a sogra o oprimira. Quando um di\u00e1logo espelha o outro, Rodrigues nos passa sutilmente a ideia de que os rituais de opress\u00e3o presentes na fam\u00edlia de Werneck s\u00e3o perpetuados entre as gera\u00e7\u00f5es e que Edgar, por ingressar em tal fam\u00edlia, ter\u00e1 de se submeter a eles e futuramente reproduzi-los. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar o quanto isto reflete o conservadorismo brasileiro e as suas tradi\u00e7\u00f5es, que se baseiam em \u201cmoldar\u201d (a marretadas se preciso) cada nova gera\u00e7\u00e3o que se apresenta. O trote universit\u00e1rio \u00e9 um exemplo.<\/p>\n<p>Enquanto tudo isso se desenrola, Maria Cec\u00edlia est\u00e1 s\u00f3 em seu quarto. Na cena inicial ela recebe uma liga\u00e7\u00e3o an\u00f4nima, de algu\u00e9m que se identifica como o \u201cCadel\u00e3o\u201d. Mais tarde esse apelido ganha diversos significados. O futuro noivo, Edgar, trabalha em um banco, sem saber de nada disso.<\/p>\n<p>Ao fim da conversa, a vontade da sogra de Werneck triunfa (como sempre o conservadorismo tende a triunfar no Brasil) e este ordena ao seu genro e subordinado, Peixoto, que selecione entre seus empregados no Banco algum que seja aceito por Maria Cec\u00edlia como marido. A solu\u00e7\u00e3o conservadora se mostra, afinal, menos violenta do que a preconizada por Werneck: embora for\u00e7ada a casar-se cedo (ela tem 17 anos), Maria Cec\u00edlia ter\u00e1 vez e voz na escolha do marido e, afinal, por ele ser um subordinado de seu pai, a rela\u00e7\u00e3o ser\u00e1 pautada por uma desigualdade que lhe favorecer\u00e1. N\u00e3o \u00e9 nada ideal esta solu\u00e7\u00e3o, <em>mas \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o coerente com a estrutura de poder apresentada pela obra<\/em>.<\/p>\n<p>Peixoto, subordinado a Werneck, seu sogro, pede a uma secret\u00e1ria que lhe traga as fichas de registro de todos os funcion\u00e1rios solteiros. Na cena seguinte Peixoto est\u00e1 sozinho com Maria Cec\u00edlia em seu quarto, o que nos \u00e9 mostrado como o primeiro ind\u00edcio de que a hist\u00f3ria possui camadas que nos ser\u00e3o reveladas devagar. A jovem examina as fichas selecionadas por Peixoto e escolhe uma, a de Edgar, interpretado por Jos\u00e9 Wilker, em uma atua\u00e7\u00e3o canastrona de doer.<\/p>\n<p>Uma vez exibida a ficha do noivo, a a\u00e7\u00e3o corta para uma jovem professora interpretada por Vera Fischer, que toma um \u00f4nibus \u00e0 sa\u00edda de uma escola e viaja para casa no sub\u00farbio contemplando a paisagem pela janela. Seus devaneios s\u00e3o interrompidos pela vis\u00e3o de Edgar, que ultrapassa o \u00f4nibus em um Bugre branco, em companhia de uma mo\u00e7a, que depois sabemos ser uma das tr\u00eas irm\u00e3s da personagem de Fischer, que se chama Rita.<\/p>\n<p>A cena seguinte, aparentemente gratuita (mas s\u00f3 aparentemente) nos mostra Rita tomando banho de caneca, dentro de uma banheira, enquanto sua irm\u00e3 urina sentada na privada. Conversam sobre a carona e Rita repreende sua irm\u00e3 por t\u00ea-la aceitado. A conversa termina com uma discuss\u00e3o entre elas e a acusa\u00e7\u00e3o de que Rita s\u00f3 se incomodou com a carona porque \u00e9 ela, Rita, que deseja o rapaz para si. A cena, apesar de padecer muito com a falta de talento dram\u00e1tico de Vera Fischer (mesmo diante duma atriz iniciante), serve para nos mostrar as condi\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas e desconfort\u00e1veis em que a fam\u00edlia de Rita vive. O fato de Edgar ser referido como \u201cvizinho\u201d nos apresenta o futuro noivo de Maria Cec\u00edlia como um rapaz desesperadamente pobre, apesar de possuir um carro \u201cdescolado\u201d (para os padr\u00f5es de 1981). De fato Edgar, filho de migrantes, tem muita vergonha de suas origens e de seu in\u00edcio hum\u00edlimo no Banco (onde trabalhou no in\u00edcio como cont\u00ednuo). Possuir um carro assim era uma ostenta\u00e7\u00e3o para negar sua condi\u00e7\u00e3o social subalterna. Pelo menos \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de seu carro, Edgar podia se apresentar como algu\u00e9m superior ao que era.<\/p>\n<p>A seguir, a briga das irm\u00e3s chega \u00e0 sala, onde a m\u00e3e delas, uma senhora aparentemente senil, contempla a briga que se generaliza at\u00e9, enfim, n\u00e3o se conter e entrar em surto psic\u00f3tico, andando para tr\u00e1s e repetindo que desde a morte do marido tudo em sua vida andava para tr\u00e1s. A met\u00e1fora de \u201candar para tr\u00e1s\u201d se materializa em um ato, com o corpo obedecendo a um comando imaterial. Mais tarde saberemos as raz\u00f5es do estado mental desta mulher, v\u00edtima de grandes sofrimentos.<\/p>\n<p>Peixoto e Edgar se encontram em um bar. Est\u00e3o b\u00eabados quando o primeiro, num rompante algo cafajeste, induz o segundo a aceitar o casamento, com argumentos que variam da simples beleza da noiva \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social de sua fam\u00edlia e as vantagens econ\u00f4micas envolvidas. Edgar, que n\u00f3s j\u00e1 sabemos ser um homem fr\u00edvolo e interesseiro, parece receptivo \u00e0 ideia, mesmo com Peixoto lhe dizendo que seria preciso um certo grau de canalhice para se olhar no espelho depois de aceitar tal oferta. Mas Edgar, relembrando as circunst\u00e2ncias da morte de seu pai, que foi enterrado como indigente com o dinheiro coletado por uma vaquinha dos vizinhos, diz que est\u00e1 cansado de esperar que as pessoas se compade\u00e7am dele e almeja ser enterrado como Get\u00falio Vargas, em um caix\u00e3o com tampo de vidro. Para coroar a aceita\u00e7\u00e3o da oferta, resume seu desencanto com os valores morais da sociedade com a tal \u201cfrase do Otto\u201d: \u201cO mineiro s\u00f3 \u00e9 solid\u00e1rio no c\u00e2ncer.\u201d Esta frase \u00e9 de autoria do escritor Otto Lara Resende (tamb\u00e9m autor de outras tais) e resume a ideia de que o homem s\u00f3 se une em torno de trag\u00e9dias, ou que as pessoas s\u00f3 t\u00eam valor depois de mortas.<\/p>\n<p>Ao chegar em casa e contar para a m\u00e3e que aceitou a tal oferta, Edgar se v\u00ea, subitamente, idolatrado por ela. Esta rea\u00e7\u00e3o espelha a esperan\u00e7a que os pais t\u00eam de ver os filhos \u201cbem na vida\u201d \u2013 que, em alguns casos, n\u00e3o conhece nem mesmo os limites \u00e9ticos. Casar-se com uma rica herdeira \u00e9 no fim de contas um sucesso. \u201cNascer pobre \u00e9 destino, casar-se com um pobre \u00e9 burrice.\u201d<\/p>\n<p>No dia seguinte Edgar recebe em sua casa a visita de Peixoto, que vem se certificar de que a oferta foi entendida e aceita. Somente neste ponto a condi\u00e7\u00e3o de Maria Cec\u00edlia \u00e9 mencionada a Edgar. Seu estupro \u00e9 narrado em m\u00ednimos detalhes por Peixoto, o que permite que Edgar reconstitua a cena mentalmente. Por\u00e9m, tal como em \u201cRashomon\u201d, de Akira Kurosawa, n\u00f3s vemos uma cena que \u00e9 meramente a interpreta\u00e7\u00e3o da narrativa de Peixoto atrav\u00e9s do entendimento de Edgar. N\u00e9lson Rodrigues costumava dizer que explorava em seus textos quatro tempos verbais: o presente, o passado, o futuro e a mem\u00f3ria. Este \u00faltimo, efetivamente, \u00e9 uma mentira ou uma ilus\u00e3o ou uma lembran\u00e7a real \u2013 nunca o saberemos totalmente. Nesta primeira vers\u00e3o do estupro de Maria Cec\u00edlia n\u00f3s a vemos dirigir sozinha pelo que parece ser um ferro-velho. Temos aqui a primeira discrep\u00e2ncia, s\u00f3 percebida depois: ela tem somente dezessete anos (na verdade acabou de complet\u00e1-los) e n\u00e3o poderia estar sozinha ao volante, dificilmente saberia conduzir o carro.<\/p>\n<p>Edgar e Maria Cec\u00edlia (que sempre est\u00e1 vestida de branco e em trajes que parecem de noiva) se conhecem em um lugar id\u00edlico. Ela vem pelas m\u00e3os de Peixoto. Ap\u00f3s conhec\u00ea-la e se certificar de que ela \u00e9 realmente t\u00e3o bela quanto lhe fora dito, Edgar vai se encontrar com a fam\u00edlia Werneck, para acertar os detalhes do casamento. Nesta cena, e em todas as outras cenas formais em que aparecer\u00e1, Edgar usa o mesmo terno, para enfatizar a sua falta de condi\u00e7\u00e3o financeira para vestir-se. A reuni\u00e3o com a fam\u00edlia de Maria Cec\u00edlia \u00e9 um desastre, porque Werneck parece obcecado por humilhar Edgar o m\u00e1ximo poss\u00edvel. N\u00e3o s\u00f3 reproduz o gestual autorit\u00e1rio da sogra, negando a palavra ao futuro genro, como ainda rejeita as poucas palavras que este diz. Rejeita quando este concorda com o casamento em separa\u00e7\u00e3o total de bens, dizendo que Edgar desejaria a comunh\u00e3o universal. Rejeita quando Edgar diz ter come\u00e7ado na firma como auxiliar de escrit\u00f3rio e usa o termo \u201ccont\u00ednuo\u201d para desqualific\u00e1-lo, dando a entender que, mesmo com o casamento, sempre considerar\u00e1 Edgar como um mero <em>office-boy<\/em>. Enquanto toda essa amarga discuss\u00e3o acontece, L\u00edgia, a mulher de Werneck, insiste em dizer que o marido \u00e9 um homem bom.<\/p>\n<p>Edgar volta para casa revoltado e humilhado, depois de xingar Werneck em termos bastante chulos e requerer demiss\u00e3o do emprego. Em casa, a m\u00e3e se desespera com a situa\u00e7\u00e3o e passa a trat\u00e1-lo mal. Nesta cena vemos, ent\u00e3o, que a situa\u00e7\u00e3o de Edgar era a mesma de Rita: ele tamb\u00e9m tem de tomar seu banho usando uma panela, ajudado pela m\u00e3e.<\/p>\n<p>Revoltado com o acontecido, Edgar resolve, finalmente, se acertar com a vizinha Rita, e lhe d\u00e1 uma carona, que termina na floresta da Tijuca. No caminho ele acelera em alta velocidade pelas ruas. Ela se mant\u00e9m esquiva aos seus avan\u00e7os, que se tornam cada vez mais exagerados, lim\u00edtrofes com uma tentativa de estupro, mas ela finalmente cede ao pedido de um beijo, e os dois quase transam sobre uma pedra, mas s\u00e3o vistos por um leproso e a cena rom\u00e2ntica \u00e9 interrompida de forma rid\u00edcula.<\/p>\n<p>Dias depois Peixoto volta \u00e0 casa de Edgar e lhe pede que reconsidere sua determina\u00e7\u00e3o de n\u00e3o mais se casar com Maria Cec\u00edlia. A pr\u00f3pria aparece e faz o seu apelo, tentando transformar o termo \u201ccont\u00ednuo\u201d em algo doce. \u00c9 ela quem diz que teria orgulho de ser casada com um \u201cex cont\u00ednuo\u201d e que se lembrava de Edgar, usando o uniforme vermelho dos cont\u00ednuos. Com isto Edgar cede e aceita retomar o noivado.<\/p>\n<p>Enquanto isso, na casa de Ritinha, vemos que as suas irm\u00e3s arrumaram uns namorados e que est\u00e3o todos obcecados por pornografia. A m\u00e3e louca n\u00e3o \u00e9 capaz de regul\u00e1-las na aus\u00eancia da irm\u00e3 mais velha e elas veem os filmes em sua presen\u00e7a, sem que ela efetivamente se d\u00ea conta disso. Os rapazes convencem as meninas a irem com eles a uma festa onde haveria liberdade, bebida e sexo.<\/p>\n<p>Nesse momento o filme come\u00e7a a rumar para o cl\u00edmax. Vemos Peixoto chegar em casa e cumprimentar o amante de sua mulher \u00e0 entrada. Eles conversam casualmente sobre futebol, como bons amigos. Em casa, a mulher est\u00e1 nua, sobre a pr\u00f3pria cama, chorando porque o seu caso acaba de terminar. Mas, mesmo diante de tal cena, Peixoto ainda parece indiferente. Ele protesta apenas porque sua esposa o tra\u00edra em sua casa, em seu quarto, sobre sua cama. Ela, por\u00e9m, o interrompe dizendo que a casa, o quarto e a cama s\u00e3o seus, n\u00e3o dele. Assim vemos que tipo de rela\u00e7\u00e3o espera por Edgar caso se conforme em casar com Maria Cec\u00edlia. Zombado por sua mulher, que o chama de frouxo e de frio, Peixoto apenas responde que \u00e9, sim, capaz de amar e que, de fato, ama a uma mulher, uma mulher que ele define como \u201cainda mais suja e c\u00ednica que sua esposa.\u201d Neste ponto n\u00e3o sabemos se \u00e9 apenas uma bravata de corno conformado ou se existe de fato tal mulher. O que a cena nos mostra com mais for\u00e7a \u00e9 o estado de decomposi\u00e7\u00e3o a que Peixoto permitiu que chegasse a sua dignidade, conformado com as vantagens que o seu casamento lhe proporcionava. Podemos supor pelo contexto que tamb\u00e9m Peixoto \u00e9 um marido de n\u00edvel social inferior \u00e0 esposa, tal como Edgar o ser\u00e1 em breve.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o inversa de hegemonia da mulher, econ\u00f4mica, cultural e at\u00e9 mesmo sexual, realmente revolucion\u00e1ria, \u00e9 vista por N\u00e9lson Rodrigues de uma maneira muito negativa, como uma nega\u00e7\u00e3o do papel e da identidade do homem no casamento. Nem tanto pelas trai\u00e7\u00f5es, mas pela discrep\u00e2ncia que surgiu. Inverter uma situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o apenas cria outra opress\u00e3o. No fim de contas a fam\u00edlia de Peixoto n\u00e3o \u00e9 \u201cmoderna\u201d, \u00e9 apenas uma fam\u00edlia tradicional que apodreceu (palavras dele). O apodrecimento ocorre quando os valores da fam\u00edlia s\u00e3o substitu\u00eddos pelo dinheiro, pois agora se pode usar o dinheiro para comprar e controlar um homem, que seja de condi\u00e7\u00e3o social inferior. Assim, a fam\u00edlia Werneck n\u00e3o \u00e9 um novo modelo familiar, apenas o fruto apodrecido das rela\u00e7\u00f5es opressivas no seio da sociedade conservadora e autorit\u00e1ria quando transplantados para dentro da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Edgar retorna \u00e0 mans\u00e3o Werneck para se reconciliar com o sogro e \u00e9 outra vez humilhado, sem que reaja. Depois de conversar com Werneck dentro da sauna (mesmo estando de terno) e de assisti-lo masturbar-se enquanto um empregado lhe aplica uma ducha de \u00e1gua fria, Edgar tem de massagear com talco as costas nuas do futuro sogro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/maniacosporfilme.files.wordpress.com\/2012\/03\/bonitinha-mas-ordinc3a1ria-7.jpg\" width=\"320\" height=\"234\" class=\"alignleft\" \/><\/p>\n<p>Neste di\u00e1logo o protagonista tenta se diferenciar, dizer que tem dignidade, mas \u00e9 novamente recha\u00e7ado por Werneck, que afirma que \u201ctodo mundo \u00e9 Peixoto\u201d \u2013 enunciado que resume a condi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, especialmente do homem, que aceita vender mesmo a sua dignidade. O dinheiro \u00e9 o valor supremo para Werneck, ele acredita e pratica a ideia de que se comprar\u00e1 tudo com dinheiro, at\u00e9 a dignidade de um homem como Edgar, reduzindo-o a um \u201cPeixoto\u201d. Ao fim da massagem, com o corpo gordo ainda envolto num roup\u00e3o, Werneck prop\u00f5e a Edgar um teste: preenche e lhe entrega um cheque ao portador no valor de \u201ccinco milh\u00f5es de cruzeiros\u201d (cerca de um milh\u00e3o de reais em dinheiro de hoje). O teste consiste em rasgar o cheque e mostrar que n\u00e3o \u00e9 um Peixoto, ou sac\u00e1-lo e aceitar que sua dignidade est\u00e1 a venda. Edgar fica no meio do caminho e guarda o cheque, embora afirme que nunca o sacar\u00e1, mas o guardar\u00e1 como o trof\u00e9u, s\u00edmbolo de sua hombridade.<\/p>\n<p>Decidido a realmente se casar, Edgar marca um encontro com Rita para se despedir dela (uma grande bobagem que, idiota, tamb\u00e9m fiz, inspirado no filme). O encontro termina em um cemit\u00e9rio, e os dois entram em uma cova rec\u00e9m cavada para ficarem \u00e0 vontade. Ap\u00f3s uma tosca interrup\u00e7\u00e3o por um coveiro portugu\u00eas, t\u00e3o gratuito quanto mal interpretado, Edgar afirma a Rita que a ama, mas que vai se casar com Maria Cec\u00edlia, e pede um outro beijo de despedida. Neste momento, Rita o surpreende ao confessar que \u00e9, de fato, uma prostituta, que faz a vida para complementar a renda.<\/p>\n<p>Abalado pela revela\u00e7\u00e3o, Edgar fica ainda mais certo de sua decis\u00e3o sobre o casamento, pois, em seu entendimento, Maria Cec\u00edlia n\u00e3o era \u201cpura\u201d por uma quest\u00e3o alheia \u00e0 sua vontade, o \u201cacidente\u201d conforme definido por seu pai, enquanto Rita se jogava voluntariamente \u00e0 deprava\u00e7\u00e3o por dinheiro.<\/p>\n<p>Na cena seguinte outro personagem aparentemente \u00edntegro se desfaz diante de nossos olhos. Werneck e L\u00edgia jogam cartas e conversam, mas o assunto termina numa grotesca cena de sexo em que a matriarca se rende ao marido de forma rid\u00edcula enquanto canta hinos religiosos. Estes hinos emendam a cena seguinte, que se passa durante uma missa, assistida principalmente pela fam\u00edlia Werneck. Peixoto aparece b\u00eabado e faz suas afirma\u00e7\u00f5es sobre o iminente \u201capodrecimento\u201d da fam\u00edlia Werneck. Edgar, claro, n\u00e3o cr\u00ea em nada do que ele diz. \u00c0 sa\u00edda da missa, leva Maria Cec\u00edlia em um passeio, de carro, ao mesmo lugar onde o estupro ocorrera, o que fora pedido pela pr\u00f3pria jovem que, de uma forma estranha, parece n\u00e3o estar traumatizada, nem pelo local e nem pela lembran\u00e7a do ocorrido. No local do crime, ela d\u00e1 sua vers\u00e3o dos fatos \u2013 que difere significativamente da primeira, de Peixoto, contada a Edgar no come\u00e7o do filme. Nesta segunda vers\u00e3o, mais uma vez evocando Rashomon, Peixoto e Maria Cec\u00edlia estavam juntos porque ela estava aprendendo a dirigir. Isto explica o furo da vers\u00e3o inicial de Peixoto, mas n\u00e3o explica porque necessariamente ele a ensinaria e nem porque foram a local t\u00e3o ermo e perigoso. Tal como na primeira vers\u00e3o, o crime ocorreu sob chuva: o carro morre por entrada de \u00e1gua no carburador e Peixoto desce para tentar consertar, os bandidos aparecem e o agridem, deixando-o inconsciente. Maria Cec\u00edlia acrescenta mais detalhes sexuais, o que mais uma vez parece estranho. O distanciamento dela em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe ocorrera poucas semanas antes \u00e9 intrigante. Entre os detalhes, a presen\u00e7a de sexo anal choca profundamente Edgar, mas o que mais o irrita \u00e9 que a jovem o acusa de ser um frouxo por n\u00e3o peg\u00e1-la a for\u00e7a ali.<\/p>\n<p>Suas d\u00favidas s\u00f3 aumentam quando Rita o procura e se justifica, afirmando que fora empurrada \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o por uma s\u00e9rie de fatores, entre eles a morte prematura do pai e a m\u00e3e ter perdido o emprego no correio por uma suspeita de fraude. O supervisor do correio a convencera a lhe prestar favores sexuais em troca da absolvi\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, mas tal n\u00e3o ocorreu, Rita fora \u201cdeflorada\u201d, tornando-se \u201cinadequada\u201d para um bom casamento, e por fim se rendera \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o como um meio poss\u00edvel para complementar a renda familiar. A forma como o supervisor lida com Rita \u00e9 extremamente da situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel da mulher que tem de viver autonomamente em uma sociedade arrogantemente machista e onde o \u00f4nus da rela\u00e7\u00e3o sexual recai exclusivamente sobre ela, que menos tem escolha.<\/p>\n<p>Ao retornar para casa, ap\u00f3s o encontro, Rita descobre que as suas irm\u00e3s sa\u00edram com os namorados e a sua m\u00e3e foi deixada, fantasiada de colegial, em um fliperama. Ap\u00f3s agredir o respons\u00e1vel pelo fliperama, ela descobre aonde suas irm\u00e3s foram levadas e segue de t\u00e1xi para l\u00e1, tentando salvar suas honras. Enquanto isso Edgar \u00e9 levado por Peixoto \u00e0 mans\u00e3o Werneck, para presenciar uma prova do \u201capodrecimento\u201d da tradicional fam\u00edlia, que est\u00e1 embriagada por dinheiro e poder. Na casa de Werneck acontece uma festa estranha e depravada, em que os convidados s\u00e3o servidos de drogas, em bandejas de prata. Ao ingerir coca\u00edna, Werneck prop\u00f5e aos convidados um jogo humilhante em que as esposas confessariam as suas infidelidades. A primeira que se voluntaria, cheia de coca\u00edna, se despe completamente e confessa, deitada no sof\u00e1 da sala a se masturbar, que pagava por mich\u00eas e que transara com um deles dentro de um t\u00fanel das obras do metr\u00f4.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/static.bcc.org.br\/fotos\/FB_0991_002.jpg\" width=\"815\" height=\"547\" class=\"aligncenter\" \/><\/p>\n<p>Embora Egar esteja enojado e queira ir embora, Peixoto lhe diz que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, pois Werneck j\u00e1 os viu e mandou fechar a casa. Em seguida, o dono do festa apresenta aos convidados a \u201catra\u00e7\u00e3o principal\u201d: diante deles ser\u00e1 cometido um crime hediondo, que eles poder\u00e3o testemunhar, mas nenhuma consequ\u00eancia advir\u00e1 do fato, pois Werneck usar\u00e1 o seu dinheiro para \u201ctapar a boca da fam\u00edlia\u201d. Ele se jacta de que, com seu dinheiro, \u00e9 capaz de comprar qualquer coisa, mesmo a honra alheia. Ent\u00e3o as irm\u00e3s de Rita s\u00e3o trazidas, e logo ap\u00f3s tr\u00eas jovens nus e sob o efeito de coca\u00edna tamb\u00e9m. Elas s\u00e3o despidas e estupradas pelos tr\u00eas, sucessivamente. Edgar nada pode fazer e Rita s\u00f3 chega \u00e0 mans\u00e3o Werneck depois que a festa j\u00e1 terminou, e suas irm\u00e3s est\u00e3o deitadas no ch\u00e3o, exaustas e sangrando.<\/p>\n<p>Na cena que talvez seja o cl\u00edmax do \u201cracioc\u00ednio\u201d desenvolvido pelo filme, Rita explica a Werneck que se prostitu\u00eda, entre outras coisas, para que as suas irm\u00e3s pudessem permanecer virgens e \u201ccasar direitinho\u201d, mas que ele, ao organizar o estupro delas, tornara sem sentido todo o sacrif\u00edcio que ela fizera. Werneck ent\u00e3o se prop\u00f5e a pagar uma repara\u00e7\u00e3o, que Rita aceita, por n\u00e3o haver mais o que fazer, e Werneck deixa a sala vendo que a sua tese sobre a possibilidade de comprar honra \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>Enquanto isso Edgar est\u00e1 no quarto com Maria Cec\u00edlia e ela o chama pelo mesmo apelido que supostamente seria o de um de seus estupradores. Edgar se sente ofendido ao ser chamado de \u201cCadel\u00e3o\u201d e exige explica\u00e7\u00f5es, neste momento Peixoto aparece e explica que o apelido era dele, que ele era o \u201cCadel\u00e3o\u201d e que fora amante de Maria Cec\u00edlia desde antes do estupro, que o estupro fora armado por ela para acobertar seu defloramento anterior e que, na verdade, ela o descartara. Maria Cec\u00edlia tenta convencer Edgar a rejeitar a nova vers\u00e3o de Peixoto para os fatos, mas Edgar aceita porque a nova vers\u00e3o parece fazer mais sentido. Nesta vers\u00e3o Maria Cec\u00edlia, que j\u00e1 n\u00e3o era virgem, pede a Peixoto, seu amante, que contrate cinco homens para estupr\u00e1-la. Ele, Peixoto, tem de ficar dentro do carro assistindo \u00e0 cena em que sua amante \u00e9 brutalizada por cinco homens, escolhidos pelos membros avantajados, inclusive com sexo anal e oral (impl\u00edcitos).<\/p>\n<p>Enojado com tudo isso (inclu\u00edda a cena de estupro das irm\u00e3s de Rita, que presenciara pouco antes), Edgar deixa a mans\u00e3o Werneck, determinado a se redimir e mostrar que \u00e9 um homem de car\u00e1ter, n\u00e3o um cafajeste. Peixoto, ent\u00e3o, saca de uma navalha e desfigura Maria Cec\u00edlia, antes de se matar, cortando a pr\u00f3pria jugular com a mesma navalha.<\/p>\n<p>Edgar ent\u00e3o perdoa Rita, buscando-a no bordel e prometendo-lhe casamento com a condi\u00e7\u00e3o de que ela o respeite. Ele ent\u00e3o mostra o cheque, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o sacara, e diz que vai destru\u00ed-lo, provando que n\u00e3o \u00e9 um homem do tipo que se vende, apesar de ter vivido em tenta\u00e7\u00e3o. Ela a princ\u00edpio tenta convenc\u00ea-lo a usar o dinheiro para montar a nova casa, mas ele a convence de que a \u00fanica forma de viver em dignidade seria negando a tese de Werneck e destruindo o cheque, mesmo que para isso precisassem comer lixo e beber \u00e1gua do esgoto. Rita, por fim, concorda com este argumento, que era, afinal, o argumento atrav\u00e9s do qual Edgar a retirava da vida de prostituta e lhe oferecia amor verdadeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, na ressaca do feriado, assisti pela segunda vez um cl\u00e1ssico de nosso cinema, baseado em obra ainda mais cl\u00e1ssica de N\u00e9lson Rodrigues, o Anjo Pornogr\u00e1fico, nosso mais pol\u00eamico autor. 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