{"id":2599,"date":"2015-04-24T10:52:46","date_gmt":"2015-04-24T13:52:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2599"},"modified":"2018-02-26T01:01:37","modified_gmt":"2018-02-26T04:01:37","slug":"riding-the-lightning","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/04\/riding-the-lightning\/","title":{"rendered":"&#8220;Riding the Lightning&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A primeira impress\u00e3o de que eu estava no come\u00e7o de algo estranho foi quando ouvi um tinir met\u00e1lico vagamente ritmado. Logo acompanhado por vibra\u00e7\u00f5es graves e um zunido agudo que ia e vinha, numa oscila\u00e7\u00e3o que me pareceu familiar. Eu caminhava por uma rua estranha, muito ampla, com uma linha f\u00e9rrea \u00e0 minha esquerda e uma linha de edif\u00edcios que, parede a parede, muravam o horizonte. As pessoas ao meu redor se vestiam para um frio moderado e n\u00e3o pareciam ouvir as mesmas sensa\u00e7\u00f5es musicais que eu.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Strange as it seems his musical dreams<br \/>\n  Ain&#8217;t quite so bad.<br \/>\n  &#8212; &#8220;Amazing Journey&#8221; (The Who)\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Subitamente dei-me conta de que em algum lugar o mundo executava &#8220;The Gates of Delirium&#8221; e eu tive vontade de descobrir onde. &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ainda esteja vivo algum membro do Yes&#8221;, foi a primeira d\u00favida que tive. Em momento algum alcancei que a improbabilidade maior era que estivesse no Brasil naquele momento.<\/p>\n<p>Lembrei um nome de cidade que logo esqueci. N\u00e3o sei porque aquele nome em especial voejava pela minha cabe\u00e7a. Circulei por alguns quarteir\u00f5es no compasso daquela melodia, entre pessoas desinteressadas, que certamente n\u00e3o a ouviam, at\u00e9 que as notas musicais tomaram outro rumo. Eu ainda &#8220;sabia&#8221; que era Yes, mas n\u00e3o conseguia saber, ou n\u00e3o consigo lembrar, de qual faixa eram os acordes. Mas a persegui\u00e7\u00e3o in\u00fatil de sua origem me fez enxergar que a m\u00fasica parecia n\u00e3o estar em lugar nenhum, mas estava, ao mesmo tempo, em cada lugar, como se fosse eu que levasse m\u00fasica \u00e0quela paisagem cinzenta.<\/p>\n<p>Quando percebi isso, chegara a uma larga pra\u00e7a, sob a fronde de uma \u00e1rvore imensa e de copa arredondada. Artistas circenses executavam malabarismos e uma turba de vendedores ambulantes oferecia de tudo, at\u00e9 drogas, entre as mo\u00e7as e crian\u00e7as que sorriam e atiravam confetes. O vento os fazia voar, e demoravam a depositar-se no ch\u00e3o, como flocos de neve. Uma mo\u00e7a de l\u00e1bios pintados de vermelho deixava a pra\u00e7a olhando para tr\u00e1s enquanto um grupo de pierr\u00f4s e colombinas se reunia sob a torre de uma igreja.<\/p>\n<p>Rodrigo estava sob a marquise de uma padaria, tomando caf\u00e9 quente em um copo de isopor e conversando com um grupo de amigos. Aproximei-me, entrei no c\u00edrculo sem pedir licen\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8212; Dia mais estranho esse, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que estou sonhando com esta pra\u00e7a, e com voc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8212; Pera\u00ed, Pedro. Deixa o Digo terminar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E o Digo continuou a hist\u00f3ria que andava pela metade.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o imagine, naquela noite o grupo estava com medo de tocar, armava uma chuva cabulosa. Quando desistiram definitivamente, a gente vinha a seguir, subimos no palco mostrando o dedo do meio para a f\u00faria dos elementos. Keith apenas perguntou aos eletricistas se os equipamentos estavam aterrados, ent\u00e3o se dirigiu \u00e0 multid\u00e3o e quis saber se algu\u00e9m tinha medo. Ningu\u00e9m se afastou, come\u00e7ou a cair uma chuva rala, mas de gotas grossas, acompanhada de tanto trov\u00e3o que o palco, \u00e0s vezes, parecia silencioso. &#8220;Voc\u00eas querem rock&#8217;n&#8217;roll?&#8221; A galera gritou que sim e a banda atacou. Ent\u00e3o, no meio de &#8220;Smoke on the Water&#8221;, justamente quando o p\u00fablico cantou &#8220;fire in the sky&#8221;, um rel\u00e2mpago poderoso atingiu o palco e atapetou de fa\u00edscas o lugar.<\/p>\n<p>&#8220;Era como se a gente pisassem em estrelas por um minuto. Senti-me no topo do mundo, poderoso Thor. Renatinho estava sacudindo os dedos chamuscados e as cordas do contrabaixo pareciam avermelhadas. A multid\u00e3o entrou em p\u00e2nico e o povo queria dispersar. Come\u00e7ou o grande pisoteio, com o palco totalmente preto e silencioso, tudo queimado. Ent\u00e3o aquela garota saltou sobre o palco, para escapar da confus\u00e3o, e veio sobre mim, sem me ver. Relampejou novamente e vimos nossos rostos no meio daquele clar\u00e3o. Eu a beijei, ela deixou, ela se abriu, quando a luz da pra\u00e7a voltou ainda est\u00e1vamos fazendo amor sob a chuva, entre as fa\u00edscas e os rel\u00e2mpagos.<\/p>\n<p>&#8220;De repente eu esbarrei um bra\u00e7o num cabo desencapado e fomos atravessados por uma corrente de cento e dez volts. Ela gemeu como se um gozo c\u00f3smico a ativasse, eu me larguei como se fosse a primeira vez e lhe disse que n\u00e3o sabia quem era ela, mas que ela precisava ser parte da minha vida, ou eu nunca seria completo. Ela disse que sim, jurou que me amava, mas enquanto eu tinha os olhos ofuscados por mais um rel\u00e2mpago ela sumiu. N\u00e3o sei se desceu para a pra\u00e7a ou se subiu ao c\u00e9u no cabo de outro rel\u00e2mpago, deixando-me descarregado.<\/p>\n<p>&#8220;Depois dessa noite eu fiquei meses sem cantar, e as mulheres nem me interessavam mais. Porque, cara, como \u00e9 poss\u00edvel querer uma mortal qualquer depois de ter uma deusa nos bra\u00e7os como eu tive?&#8221;<\/p>\n<p>Os que ouviam a hist\u00f3ria concordaram. Era triste, mas fora belo. No refluxo da hist\u00f3ria terminada todos ficaram em sil\u00eancio, como se tamb\u00e9m alguma coisa lhes tivesse sido puxada para o c\u00e9u no cabo de um rel\u00e2mpago. Alguns olhavam em volta, talvez pensando na experi\u00eancia do Digo e querendo algo, talvez, parecido.<\/p>\n<p>Havia mais o que fazer na vida, mais sensa\u00e7\u00f5es a explorar. Outras pra\u00e7as, outras can\u00e7\u00f5es, outras mulheres. Mas tudo era t\u00e3o cinza, t\u00e3o estranho.  N\u00e3o tinha mais certeza de qual cidade era aquela, a can\u00e7\u00e3o ia morrendo, e com ela toda defini\u00e7\u00e3o do lugar, das pessoas, das lembran\u00e7as. Em qual encarna\u00e7\u00e3o eu conhecera o Digo e o Renatinho? Eu me sentia leve naquele lugar, com rel\u00e2mpagos no horizonte me fazendo estremecer, rel\u00e2mpagos acima e ao redor de mim, um frio que nem parecia natural.<\/p>\n<p>Acordei. Estava deitado de costas em uma cama de hospital, com soro na veia e dores pelo corpo. O quarto coletivo tinha mais duas camas, mas o meu pesco\u00e7o do\u00eda tanto que eu n\u00e3o conseguia me virar para ver quem estava nelas, se algu\u00e9m estava. Tossi para ter a certeza de que  ainda podia. Pude. Meu ru\u00eddo chamou a aten\u00e7\u00e3o de quem estava na cama \u00e0 minha esquerda.<\/p>\n<p>&#8212; Pedro, \u00e9 voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sou eu &#8212; respondi num fio de voz, como algu\u00e9m estivesse sentado sobre o meu peito.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea a viu?<\/p>\n<p>&#8212; Quem?<\/p>\n<p>&#8212; A mulher.<\/p>\n<p>Todas as imagens da cidade, da pra\u00e7a, dos rel\u00e2mpagos. N\u00e3o tinha certeza de nada. Era como se tivesse sido somente um sonho.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei do que voc\u00ea est\u00e1 falando, Rodrigo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois tivemos alta. Renatinho, com as m\u00e3os enfaixadas, nos esperava \u00e0 sa\u00edda, para nos levar de volta para casa na velha Veraneio cinza. A cidade ainda lembrava tanta chuva, com barro acumulado nas sarjetas, galhos de \u00e1rvores espalhados pelas esquinas e um frescor no ar que parece sempre t\u00e3o estranho. Eu ainda conservava no nariz<br \/>\naquele cheiro azedo de el\u00e9trons e a minha pele ainda ardia nos lugares onde o raio passara.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos perdido quase todo o equipamento no desastre, e tamb\u00e9m nossa coragem roqueira. Mostrar o dedo para os elementos n\u00e3o fora, afinal, uma ideia boa. O seguro do evento nos indenizaria pelos instrumentos, mas n\u00e3o pela nossa dignidade.<\/p>\n<p>&#8212; Antes de ir embora, Renatinho, d\u00e1 uma volta pela cidade, quero ver se encontro a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Renatinho n\u00e3o sabia quem poderia ser, nem o pr\u00f3prio Digo saberia. N\u00e3o se lembra no rosto de nenhuma mortal o rosto de uma deusa contemplada \u00e0 luz de um rel\u00e2mpago.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois eu abandonei as baquetas e passei num concurso p\u00fablico. Renatinho se converteu e hoje toca em coral de igreja. S\u00f3 o Digo continua, aos trinta anos, na feliz irresponsabilidade da m\u00fasica.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 por isso, gente, que eu tenho certeza de que ela \u00e9 a mo\u00e7a daquela noite &#8212; disse Rodrigo.<\/p>\n<p>E dito isto se afastou de n\u00f3s, passou pelos malabaristas debaixo da \u00e1rvore e sumiu pela multid\u00e3o em um busca de um rosto fugidio que vira passar. Enquanto isso o resto da banda se perguntava se ele voltaria a tempo da passagem de som. De repente a minha intelig\u00eancia relampejou brevemente e eu percebi que retornara \u00e0 banda, dois anos e meio depois, que est\u00e1vamos prestes a subir num palquinho de bar. Renatinho n\u00e3o estava conosco mais, estavam Jojoca e Marina. A banda era melhor, mas a vida n\u00e3o. A m\u00fasica era mais perfeita, o mundo era uma desgra\u00e7a acumulada no esquenta para um grande show.<\/p>\n<p>&#8212; Deve ser apenas coincid\u00eancia, ele est\u00e1 pirado.<\/p>\n<p>Marina acreditava:<\/p>\n<p>&#8212; A coincid\u00eancia \u00e9 sobrenatural tamb\u00e9m, Pedro. N\u00e3o pode ser de outra forma. Tudo confere. Ela \u00e9 de S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno, ela teve um filho que n\u00e3o foi registrado com o nome de um pai, e ela deu ao garoto o nome de Thor. O que voc\u00ea acha que explica algo assim?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea tamb\u00e9m viu o rosto dela no rel\u00e2mpago, Pedro. Voc\u00ea estava sentado diante da bateria, o p\u00fablico \u00e0 sua frente. Renatinho estava distra\u00eddo, tinha aquela mania de tocar olhando para as cordas, deixando o cabel\u00e3o balan\u00e7ar.  Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica outra pessoa que pode ter visto o rosto da tal mulher. Voc\u00ea na \u00e9poca disse que viu, mesmo brevemente. Ent\u00e3o&#8230; Parece?<\/p>\n<p>Lembrei das palavras do Digo: &#8220;O que eu vi no rel\u00e2mpago n\u00e3o foi o rosto f\u00edsico dela, foi a sua alma imortal, eletrificada, vibrante.&#8221;<\/p>\n<p>&#8212; Dif\u00edcil dizer se esta mo\u00e7a \u00e9 parecida. No fundo, no fundo, todos somos parecidos no escuro.<\/p>\n<p>Os outros riram. Havia uma loucura na hist\u00f3ria, claro, mas havia tamb\u00e9m salva\u00e7\u00e3o: pelo amor da mo\u00e7a que finalmente julgava ter reencontrado, Rodrigo talvez recuperasse a alegria de viver, talvez a voz, talvez at\u00e9 o interesse pelo sexo oposto; mesmo que fosse exclusivamente por ela. &#8220;Como pode o homem interessar-se por uma mulher qualquer, depois de ter nos bra\u00e7os uma deusa?&#8221;<\/p>\n<p>Minutos depois Rodrigo voltou. Trazia uma mo\u00e7a pelo bra\u00e7o. Era dif\u00edcil dizer que era bonita, ou feia. Mulher de amigo meu n\u00e3o tem defeitos e nem qualidades, e s\u00f3 de ver a cara do Digo eu soube que aquela era a mulher dele, ou teria de ser. Ela vinha com uma crian\u00e7a nos bra\u00e7os, uma que parecia ter mais ou menos dois anos&#8230; a conta fechava aproximadamente, levando em considera\u00e7\u00e3o que era uma conta porca, feita com base em extrapola\u00e7\u00f5es. Quanto tempo exatamente dura uma gravidez, afinal? O menino, bem, poderia ter alguma semelhan\u00e7a com Rodrigo, ou n\u00e3o, era dif\u00edcil dizer, Rodrigo tem um rosto bastante comum e a mo\u00e7a tamb\u00e9m, e ambos eram do mesmo tom moreno da pele da crian\u00e7a. Dif\u00edcil era aceitar que ele enxergasse naquela coitada a mesma mulher que vira \u00e0 luz do rel\u00e2mpago.<\/p>\n<p>Era uma garota morena, de seios fartos, mas fl\u00e1cidos, pesco\u00e7o grosso, rosto arredondado, cabelos pretos e muito lisos, n\u00e3o muito alta, de cintura larga, pernas finas, ainda mais evidentes por usar aqueles jeans t\u00e3o apertados. Nela eu n\u00e3o enxergaria nada de divino, mas quando os dois me deram as costas, num breve momento em que um quis mostrar ao outro alguma coisa em outro lugar, percebi a tatuagem de raios nas esp\u00e1duas dela, no segundo seguinte vi que n\u00e3o era isso, eram cicatrizes&#8230; de raio!<\/p>\n<p>Talvez&#8230; Seria? Talvez eu nunca tenha esta certeza, mas a Rodrigo basta que ele tenha. A ela, ainda mais. Marina brincou: &#8220;Que mais deseja uma mulher sen\u00e3o um homem que enxergue nela uma deusa?&#8221; Tirara a sorte grande, a mo\u00e7a. De pobre e m\u00e3e solteira se tornava imediatamente noiva, e logo esposa, de um cara legal como o Digo, filho de uma fam\u00edlia importante. Um cara como eu jamais conseguira ter f\u00e9 em algo assim, n\u00e3o conseguiria enxergar atrav\u00e9s das cortinas da carne a mesma ess\u00eancia el\u00e9trica de uma deusa vista no clar\u00e3o de um rel\u00e2mpago, a menos que&#8230; que diabos \u00e9 aquilo brilhante entre os dedos do moleque? Por um momento tive a impress\u00e3o de que ele produzia fa\u00edscas entre os dedos, e quase acreditei na hist\u00f3ria toda.<\/p>\n<p>Aquele foi o show mais foda da vida de Rodrigo. Ele n\u00e3o recuperou a voz, mas executou um solo t\u00e3o cabuloso que metade da plateia ficou tapada de sil\u00eancio no fim da m\u00fasica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira impress\u00e3o de que eu estava no come\u00e7o de algo estranho foi quando ouvi um tinir met\u00e1lico vagamente ritmado. 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