{"id":262,"date":"2011-07-18T22:30:00","date_gmt":"2011-07-19T01:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=262"},"modified":"2017-11-02T14:09:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:10","slug":"velocipede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/07\/velocipede\/","title":{"rendered":"Veloc\u00edpede"},"content":{"rendered":"<p>Uma semelhan\u00e7a entre a realidade e sonho \u00e9 que as duas coisas n\u00e3o tem come\u00e7o. Da mesma forma como n\u00e3o nos recordamos das primeiras cenas de um sonho, tampouco nos recordamos das primerias coisas que vimos, sentimos, cheiramos, bebemos, pensamos. Cada um de n\u00f3s vive como em um intermin\u00e1vel sonho, do qual talvez acordemos um dia b\u00eabados do cansa\u00e7o da noite. E se morrer em meu sonho, o que acontecer\u00e1 comigo na invis\u00edvel cama na qual, calmamente, eu repouso?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei exatamente quem sou. Venho me tornando, esta \u00e9 a verdade. A minha vida teve muitos epis\u00f3dios estranhos e a primeira coisa de que me lembro \u00e9 um pijaminha de macia flanela, estampado com figurinhas desbotadas de animais. Estava vestido assim, cal\u00e7ado de um par de sand\u00e1lias fortes de couro e montado em um veloc\u00edpede de metal. N\u00e3o lembro bem o que acontecera antes, mas sei que, por uma raz\u00e3o qualquer, naquele dia fresco de inverno tropical, eu sa\u00ed pela estrada afora de veloc\u00edpede, empregando toda a for\u00e7a das minhas pernas gordinhas. Tinha dois anos de vida e muita vontade de ver o mundo, ou de fugir para algum lugar al\u00e9m das montanhas que tapavam o horizonte, como um mar de m\u00e3os erguidas com os dedos contra o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Lembro dos odores desse dia: eu cheirava fortemente a leite fresco e a estrada possu\u00eda um aroma penetrante de capim gordura. Lembro do cheiro do ar quente cortando as minhas narinas com o esfor\u00e7o das pedaladas. Mas n\u00e3o me lembro da raz\u00e3o pela qual sa\u00ed de casa, n\u00e3o lembro tampouco aonde fui. Houve um tempo em que eu lembrava, mas hoje n\u00e3o consigo mais discernir exatamente que lembran\u00e7as s\u00e3o de fatos realmente que aconteceram, quais de coisas que eu somente imaginei. Ent\u00e3o esse epis\u00f3dio aparece cortado na minha mente, como uma figura retirada duma revisa: eu era menino e queria enfrentar a estrada e pus toda minha for\u00e7a nos pedais de um veloc\u00edpede. Segundo a minha m\u00e3e eu cheguei \u00e0 casa da vizinha, que me deu uma broa de fub\u00e1 e mandou um empregado chamar meu pai para buscar-me. Pode ser verdade. Pode n\u00e3o ser. Eu fui muitas vezes \u00e0 casa de Deuslira, n\u00e3o lembro da broa de fub\u00e1, n\u00e3o tenho motivos para duvidar de minha m\u00e3e, mas a mem\u00f3ria \u00e9 traidora em qualquer idade.<\/p>\n<p>Eu estive pensando em maneiras de come\u00e7ar a contar a minha hist\u00f3ria, essa que todas as pessoas acham que est\u00e1 contada em minha fic\u00e7\u00e3o. Pensei durante semanas e n\u00e3o tinha uma maneira de come\u00e7ar. Ontem, ent\u00e3o eu me dei conta da semelhan\u00e7a que h\u00e1 entre a vida e o sonho, percebi como as minhas mem\u00f3rias mais antigas aparecem t\u00eanues como sonhos, quase derretendo com o passar dos dias. J\u00e1 tive uma lembran\u00e7a muito mais rica deste antigo e enigm\u00e1tico dia, hoje s\u00f3 lembro do pijama de flanela, o veloc\u00edpede, os cheiros de leite e de capim gordura. Nem sei mais da cor do veloc\u00edpede. Talvez se demorasse mais quatro anos para contar isso para algu\u00e9m, nem teria mais o que contar. Eu tinha pouco mais de dois anos quando sa\u00ed de casa vestido apenas com um pijaminha e pedalando um veloc\u00edpede de metal. Hoje para sair de casa tenho necessidade de levar tanta coisa que a for\u00e7a de minhas pernas parece muito menor do que a que eu tive naquele dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma semelhan\u00e7a entre a realidade e sonho \u00e9 que as duas coisas n\u00e3o tem come\u00e7o. Da mesma forma como n\u00e3o nos recordamos das primeiras cenas de um sonho, tampouco nos recordamos das primerias coisas que vimos, sentimos, cheiramos, bebemos, pensamos. Cada um de n\u00f3s vive como em um intermin\u00e1vel sonho, do qual talvez acordemos um dia b\u00eabados do cansa\u00e7o da noite. E se morrer em meu sonho, o que acontecer\u00e1 comigo na invis\u00edvel cama na qual, calmamente, eu repouso? Eu n\u00e3o sei exatamente quem sou. 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