{"id":2635,"date":"2015-06-06T16:11:18","date_gmt":"2015-06-06T19:11:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2635"},"modified":"2017-11-02T14:08:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:07","slug":"o-metodo-asimov","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/06\/o-metodo-asimov\/","title":{"rendered":"O M\u00e9todo Asimov"},"content":{"rendered":"<p>O amigo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/arquivista.daguilda\">Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo dos Santos<\/a> se mostra espantado com um texto em que Isaac Asimov descreve o processo de cria\u00e7\u00e3o do \u00e9pico \u201cFunda\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o pela sua dificuldade, mas pela forma como o autor o apresenta: sem *glamour* e sem divina centelha (tamb\u00e9m conhecida como \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d). Para Asimov, o processo foi algo assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Eu tinha um encontro com o Sr Campbell para conversar sobre o enredo de um novo livro, mas o problema \u00e9 que, at\u00e9 a reuni\u00e3o come\u00e7ar, eu n\u00e3o tinha enredo nenhum preparado. Eis que utilizei um recurso a que sempre costumo recorrer. Abri um livro e fui criando a hist\u00f3ria a partir da primeira imagem que vi.<\/p>\n<\/blockquote>\n<blockquote>\n<p>O livro que eu tinha em m\u00e3o era uma pe\u00e7a de Gilbert e Sullivan. Assim que vi a rainha fada Iolante se jogando aos p\u00e9s do soldado Willis. Pensei em soldados, em imp\u00e9rios militares, no Imp\u00e9rio Romano\u2026<\/p>\n<\/blockquote>\n<blockquote>\n<p>\u2013 Ah! Um imp\u00e9rio gal\u00e1tico! Por que n\u00e3o escrever um livro sobre um imp\u00e9rio gal\u00e1tico e o retorno do feudalismo, narrado do ponto de vista de um cidad\u00e3o do Segundo Imp\u00e9rio? Afinal, eu tinha lido \u201cO Decl\u00ednio e Queda do Imp\u00e9rio Romano\u201d duas vezes!<\/p>\n<\/blockquote>\n<blockquote>\n<p>Reuni-me com Campbell, excitado, e lhe contei a nova ideia. Em cerca de uma hora, criamos a no\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias interconectadas que mostrariam os mil anos entre o Primeiro e o Segundo Imp\u00e9rio Gal\u00e1tico e a base para as hist\u00f3rias seria a psicohist\u00f3ria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na opini\u00e3o de Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo, a revela\u00e7\u00e3o de Asimov parece \u201cchocante\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Confesso que fiquei um tanto decepcionado em saber que Asimov teve a ideia ap\u00f3s uma busca <b>aleat\u00f3ria<\/b> em um livro, <b>cujo tema nem tratava de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/b>, nem de previs\u00f5es e cen\u00e1rios poss\u00edveis acerca do futuro da civiliza\u00e7\u00e3o. Pode ser que essa tenha <b>sido uma declara\u00e7\u00e3o fantasiosa<\/b> a respeito da fonte de inspira\u00e7\u00e3o do autor, mas para algu\u00e9m que anos mais tarde veio a se tornar nome consagrado da literatura ocidental, uma refer\u00eancia para diversos autores de seu subg\u00eanero, <b>eu esperava mais seriedade<\/b>, talvez, <b>na escolha de temas de livros<\/b>. Afinal, <b>fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 um tema f\u00e1cil de abordar<\/b>, pois lida com extrapola\u00e7\u00f5es sobre o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e tend\u00eancias (at\u00e9 transforma\u00e7\u00f5es) sociais em um futuro pr\u00f3ximo (ou distante, no caso de Funda\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eu assinalei algumas palavras e trechos que julguei significativos porque acredito que a rea\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo \u00e9 muito sintom\u00e1tica da maneira idealizada e irrealistas com que tendemos a abordar a literatura, apesar de os que a realmente fazem com qualidade estarem h\u00e1 s\u00e9culos dando sinais de fuma\u00e7a de que a coisa n\u00e3o \u00e9 exatamente t\u00e3o fofa quanto se cr\u00ea. G. K. Chesterton famosamente disse que \u201co temperamento art\u00edstico \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que acomete aos amadores\u201d (ou algo assim). O choque sofrido por Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo revela uma profunda condi\u00e7\u00e3o de \u201ctemperamento art\u00edstico\u201d.<\/p>\n<p>O temperamento art\u00edstico consiste, basicamente, em atribuir ao fazer liter\u00e1rio uma aura sagrada. O pr\u00f3prio termo \u201cautor\u201d em vez de escritor j\u00e1 revela essa idealiza\u00e7\u00e3o, pois remete a um ato originador, a uma posse exclusiva e m\u00edstica. Assim como conceitos de \u201ccriatividade\u201d (originalmente um atributo divino), \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d (a ideia de que os deuses entram em n\u00f3s para que possamos criar \u00e9 herdeira do profetismo hebreu), \u201coriginalidade\u201d (ou a busca por ela, vista como uma busca pela excepcionalidade e pela imortalidade). A poesia, m\u00e3e de toda a literatura, tem seu nome vinculado ao ato de criar (\u201cpoi\u00e9sis\u201d, em grego) e os poetas foram, em certa \u00e9poca, chamados de \u201cvates\u201d, termo que originalmente denominava os oficiais da religi\u00e3o romana que eram respons\u00e1veis por prever o futuro (donde \u201cvatic\u00ednio\u201d). Assim as \u201cacademias\u201d (cujo nome deriva de uma escola de filosofia fundada por Plat\u00e3o) e seus \u201cimortais\u201d (que assim se tornam por atingirem \u201cgl\u00f3ria imorredoura\u201d com suas obras). Tudo isso \u00e9 \u201ctemperamento art\u00edstico\u201d, tudo isso \u00e9 para consumo externo. Os escritores de verdade nunca se sentiram assim, pelo menos n\u00e3o antes de ficarem velhos e desejarem idolatria para consol\u00e1-los na solid\u00e3o da idade.<\/p>\n<p>Para o escritor o que existe, de fato, n\u00e3o \u00e9 nem Apolo com suas musas, nem Jav\u00e9 soprando a verdade para dentro de nossas narinas, nem a capacidade de antever o futuro. O que existe, no duro, \u00e9 a vontade de encher p\u00e1ginas com palavras. Assim como o maratonista olha para a pista \u00e0 frente em vez de pensar no p\u00f3dio ou sonhar com o simbolismo geom\u00e9trico do tra\u00e7ado, como o pedreiro se preocupa em fazer boas paredes em vez de planejar as orgias que o dono da casa organizar\u00e1 em sua su\u00edte. Pode parecer alienante, mas n\u00e3o h\u00e1 futuro sem presente, n\u00e3o h\u00e1 fruto sem semeadura. O escritor que se perde a sonhar o que ser\u00e1 de sua obra pronta acaba n\u00e3o a terminando nunca. Escrever \u00e9 escrever, n\u00e3o \u00e9 posar de escritor. Nada contra quem posa, mas que pose em cima de uma pilha de obras que justifique a pose.<\/p>\n<p>E o fazer liter\u00e1rio necess\u00e1rio (posto que se sup\u00e9rfluo o sentisse, o escritor n\u00e3o escreveria) n\u00e3o se faz com misticismos (ou satanismos), mas com processos materiais e mundanos. Muita vez um autor repensou e achou uma frase melhor enquanto apontava o l\u00e1pis cuja ponta se quebrara. Tudo influi no fluxo das ideias, e \u00e9 ingenuidade achar que as ideias se servem da mat\u00e9ria para adquirirem forma liter\u00e1ria. Muito pelo contr\u00e1rio: \u00e9 a mat\u00e9ria que vai se apropriando de imat\u00e9ria (ideias) para encontrar caminhos e produzir uma obra. A aleatoridade \u00e9, portando, uma parte t\u00e3o importante do fazer liter\u00e1rio quanto a determina\u00e7\u00e3o e o planejamento. A influ\u00eancia da aleatoriedade n\u00e3o diminui o valor da obra e nem do autor, pelo contr\u00e1rio o aumenta porque o autor que se deixa penetrar pela realidade acaba dando testemunho de si mesmo e do mundo que o cerca, o que ajuda a dar densidade (e portanto verossimilhan\u00e7a) \u00e0 idealiza\u00e7\u00e3o pura.<\/p>\n<p>Um outro aspecto do choque do amigo Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo \u00e9 sua dificuldade para aceitar o autor que o autor n\u00e3o \u00e9 um especialista. Asimov lia at\u00e9 mesmo obras infanto-juvenis, ora! Acostumado a ver em Isaac Asimov um autor de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, n\u00e3o lhe ocorreu que ele talvez gostasse de ler (ou at\u00e9 de escrever) outros tipos de obras. \u00c9 muito raro que um autor de <em>best-sellers<\/em> fa\u00e7a o que gosta. Na \u00e9poca de Asimov havia um grande mercado para fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tal como hoje h\u00e1 para a fantasia, e muita gente que teria escrito outra coisa se vivesse em outro tempo embarcou na mesma onda. Talvez seja at\u00e9 ir\u00f4nico que as obras mais inteligentes e criativas sejam justamente escritas por aqueles que queriam escrever outra coisa. Por n\u00e3o se conformarem em fazer o que n\u00e3o gostam, tentam dar variedade ao que escrevem, trazer influ\u00eancias de fora, subverter as regras. O autor que realmente gosta (e s\u00f3 gosta) do g\u00eanero que escreve tende a se tornar um diletante, um diluidor, pois s\u00f3 conhece aquilo que lhe chega atrav\u00e9s de obras parecidas com as suas. Esse sistema fechado, retroalimentado, \u00e9 o que explica a progressiva dilui\u00e7\u00e3o e compartimenta\u00e7\u00e3o da literatura de fantasia, que cada vez mais se especializa em g\u00eaneros cultivados \u00e0 exaust\u00e3o. O surgimento de diversos \u201csubg\u00eaneros\u201d em uma forma art\u00edstica pode ser um sinal de sua decad\u00eancia pois s\u00f3 enxergamos tantos detalhes quando nos fixamos excessivamente em um \u00fanico lugar.<\/p>\n<p>O choque diante da revela\u00e7\u00e3o de Asimov leva o amigo Jo\u00e3o a suspeitar que o autor estivesse mentindo, que fosse uma mera bravata para inspirar os novatos, pois um autor que se torna refer\u00eancia deve ter mais seriedade. A contradi\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio \u00e9 gritante: a seriedade de um autor n\u00e3o \u00e9 afetada por ele mentir sobre seu processo criativo, mas seria comprometida se ele n\u00e3o tivesse uma rela\u00e7\u00e3o idealizada e respeitosa com a escrita. O autor pode mentir, desde que n\u00e3o escreva com alegria e espontaneidade. O \u201ctemperamento art\u00edstico\u201d de que fala Chesterton <em>odeia<\/em> a espontaneidade. Se escrever \u00e9 algo sagrado (como se cr\u00ea) ent\u00e3o deve haver uma rever\u00eancia, uma penit\u00eancia, um ritual. Escrever despreocupadamente \u00e9 como escrever despudoradamente. H\u00e1 falta de respeito em escrever com facilidade, em ter ideias aos borbot\u00f5es. O leitor n\u00e3o quer ouvir que o seu \u00eddolo fez rapidinho aquilo que ele tanto reverencia, o que me lembra Djavan.<\/p>\n<p>Djavan foi ao programa do J\u00f4 Soares, que lhe perguntou como ele fazia suas composi\u00e7\u00f5es, tidas como complexas e po\u00e9ticas. Pois bem, o cantor jogou um balde de \u00e1gua fria em quem o ouviu. Em vez de citar rituais cabal\u00edsticos, viagens m\u00edsticas, leituras dos Vedas ou coisa parecida, ele simplesmente disse que se reunia em est\u00fadio, com os m\u00fasicos de sua banda fixa, <em>quando a gravadora exigia um novo disco<\/em> ou <em>quando a necessidade de gravar coisa nova para os shows ficava forte<\/em>, e ent\u00e3o eles reuniam as improvisa\u00e7\u00f5es que haviam desenvolvido nos shows, as experimenta\u00e7\u00f5es que haviam feito em casa e alguma coisa que \u201cpintava na hora\u201d e faziam a m\u00fasica. A letra, essa vinha depois, no fluxo da melodia.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que assisti \u00e0 entrevista do Djavan eu fiquei ofendido com ele, tal como Jo\u00e3o agora ficou ofendido com o Asimov. Pareceu-me inconceb\u00edvel que o cantor fosse t\u00e3o desleixado com sua obra, que gravasse em obedi\u00eancia \u00e0 press\u00e3o da gravadora ou porque apenas tinha vontade de suprir novidades para os seus shows. Hoje eu j\u00e1 perdoei Djavan, j\u00e1 entendi que para quem faz arte, seja m\u00fasica, pintura ou literatura, a maturidade implica em uma facilidade cada vez maior para fazer aquilo que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil que os amadores fa\u00e7am. Assim, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 um \u201ctema dif\u00edcil de abordar\u201d para quem faz fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Nenhum tema \u00e9 dif\u00edcil de abordar para quem gosta dele e se especializa. A dificuldade \u00e9 aparente porque somente pessoas especiais podem conseguir abordar fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Pessoas que t\u00eam um conhecimento excepcional de ci\u00eancias e de outras coisas. Mas n\u00e3o acho que a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica seja mais dif\u00edcil que outros g\u00eaneros nesse aspecto. Para fazer um bom romance sentimental o autor certamente n\u00e3o precisa entender de f\u00edsica, mas precisa ter uma viv\u00eancia emocional e um conhecimento psicol\u00f3gico que talvez um f\u00edsico n\u00e3o tenha. S\u00e3o especializa\u00e7\u00f5es diferentes, e para quem n\u00e3o entende de um tema, ele \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto qualquer outro tema desconhecido.<\/p>\n<p>O que nos leva \u00e0 ideia do \u201cm\u00e9todo Asimov\u201d. A ila\u00e7\u00e3o seguinte feita pelo Jo\u00e3o \u00e9 que Asimov teria desenvolvido um \u201cm\u00e9todo\u201d para escolher seus temas e desenvolver seus argumentos. N\u00e3o me parece que tenha acontecido isso. Asimov nunca publicou nenhum conselho nesse sentido (este texto n\u00e3o \u00e9 um conselho, \u00e9 um relato) e o contexto da hist\u00f3ria n\u00e3o me parece sugerir que o \u201cm\u00e9todo\u201d funcione para outras pessoas, ou que tenha funcionado para Asimov todas as vezes. \u201cM\u00e9todo\u201d \u00e9 uma palavra forte, que nos faz supor que <code>a + b = c<\/code>. Outra pessoa que n\u00e3o o Asimov leria os mesmos livros e teria ideias diferentes, ou n\u00e3o teria ideia alguma, ou teria a ideia e n\u00e3o a poderia desenvolver. Ent\u00e3o n\u00e3o existe a\u00ed um m\u00e9todo. Na verdade n\u00e3o existe \u201cm\u00e9todo\u201d para a literatura, a n\u00e3o ser aquele que cada um desenvolve, com base em suas leituras e experi\u00eancias. Seria melhor dizer \u201cprocesso\u201d em vez de \u201cm\u00e9todo\u201d, porque um processo \u00e9 algo aberto, interativo e mais rico.<\/p>\n<p>O que funcionou para Asimov s\u00f3 funcionou porque ele teve uma alfabetiza\u00e7\u00e3o precoce e leu muito, e leu desde muito cedo. Tamb\u00e9m se tornou poliglota (russo, hebraico, i\u00eddice e ucraniano, depois ingl\u00eas, alem\u00e3o e espanhol) ainda jovem e teve acesso a um leque de leituras com o qual pouca gente sonha. O fato de termos mais informa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da internet, n\u00e3o quer dizer que tenhamos mais conhecimento. Ou mesmo mais aprendizado. Asimov certamente sabia com mais profundidade uma variedade de assuntos que hoje as pessoas se gabam de conhecer porque rapidamente localizam as informa\u00e7\u00f5es na internet. Acontece que a facilidade para recuperar o conhecimento armazenado \u00e9 uma habilidade diferente da capacidade de reter informa\u00e7\u00f5es na pr\u00f3pria mem\u00f3ria, e gera resultados diferentes. O conhecimento que permanece externo a n\u00f3s n\u00e3o resulta em conex\u00f5es, o que nos dificulta reconhecer padr\u00f5es e encontrar uma hist\u00f3ria que cruze universos diferentes. As conex\u00f5es naturais, processadas lentamente dentro de nossa mente, a partir de mem\u00f3rias retidas de nossas leituras, essas s\u00e3o as conex\u00f5es com maior val\u00eancia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, faz parte do modelo mental moderno, educado na rasa autoajuda, a ideia de que o esfor\u00e7o deve ser abolido, pelo menos o esfor\u00e7o do aprendizado. Faz parte das ilus\u00f5es da auto ajuda a ideia de que voc\u00ea pode fazer o complexo seguindo m\u00e9todos simples. Ela vende atalhos, ensina os \u201csegredos dos profissionais\u201d. A ideia \u00e9 fazer o leitor pensar que pode economizar a experi\u00eancia de vida que levou o profissional a saber o que sabe \u2013 o que, ali\u00e1s, nos faz desejar seguir o \u201cm\u00e9todo Asimov\u201d.<\/p>\n<p>Asimov n\u00e3o tinha um m\u00e9todo, ele achou um jeito de usar o conhecimento que tinha. Seguir o m\u00e9todo dele sem ter tido a experi\u00eancia e a cultura dele, \u00e9 como achar que voc\u00ea pode chegar em Belo Horizonte andando 500 km rumo noroeste, tanto faz se voc\u00ea sai do Rio de Janeiro ou de Manaus.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m faz parte desse modo de pensar a ideia de que voc\u00ea pode aprender a fazer X sem precisar fazer X, o que \u00e9 uma forma de atalho, ali\u00e1s. \u201cEmagre\u00e7a comendo\u201d, \u201caprenda dormindo\u201d, \u201cexercite-se em casa\u201d, \u201ccozinhe sem \u00f3leo\u201d, \u201caprenda filosofia consertando motocicletas\u201d\u2026 Junte dois verbos antit\u00e9ticos ou n\u00e3o relacionados, ou crie uma frase usando a palavra \u201csem\u201d e voc\u00ea poder\u00e1 inventar um novo conceito de auto-ajuda.<\/p>\n<p>Como as pessoas n\u00e3o querem ler o que Asimov leu, mas gostariam de ter os resultados que ele teve, ent\u00e3o entram em cena os meios alternativos de buscar o que Asimov achou. Temos a ideia de um \u201cm\u00e9todo Asimov\u201d. Mas quando essa ideia se desfaz diante da confiss\u00e3o do autor de que ele escolhia suas ideias aleatoriamente e as desenvolvia de um modo totalmente isento de \u201cglamour\u201d, ent\u00e3o surge a decep\u00e7\u00e3o, a ideia de que o autor est\u00e1 mentindo para n\u00f3s, ou faltando para com o respeito pela dif\u00edcil arte.<\/p>\n<p>Porque queremos que o autor sofra como n\u00f3s, que ainda somos inexperientes e que ainda padecemos para fazer o que nos parece apenas sofr\u00edvel? Porque n\u00e3o admitimos que os autores experientes fazem f\u00e1cil que nos custa sangue? Acredito que \u00e9 porque, no fundo, vemos neles \u00eddolos e her\u00f3is. Ambos s\u00e3o admir\u00e1veis pelos seus sacrif\u00edcios. Quem n\u00e3o se sacrifica n\u00e3o nos parece heroico, parece um escroque, um vil\u00e3o de fancaria. O her\u00f3i apanha, \u00e9 tra\u00eddo, triunfa a custo. Enquanto isso vemos o vil\u00e3o comer as melhores mulheres e receber massagem nas costas. Queremos que o vil\u00e3o se ferre no fim, e nos sentimos enganados quando descobrimos que o nosso \u00eddolo n\u00e3o sofre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amigo Jo\u00e3o Ger\u00f4nimo dos Santos se mostra espantado com um texto em que Isaac Asimov descreve o processo de cria\u00e7\u00e3o do \u00e9pico \u201cFunda\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o pela sua dificuldade, mas pela forma como o autor o apresenta: sem *glamour* e sem divina centelha (tamb\u00e9m conhecida como \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d). Para Asimov, o processo foi algo assim: Eu tinha um encontro com o Sr Campbell para conversar sobre o enredo de um novo livro, mas o problema \u00e9 que, at\u00e9 a reuni\u00e3o come\u00e7ar, eu n\u00e3o tinha enredo nenhum preparado. 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