{"id":2683,"date":"2015-07-28T23:25:30","date_gmt":"2015-07-29T02:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2683"},"modified":"2017-11-02T14:08:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:06","slug":"impressoes-apenas-as-positivas-da-leitura-da-serie-harry-potter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/07\/impressoes-apenas-as-positivas-da-leitura-da-serie-harry-potter\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es (Apenas as Positivas) da Leitura da S\u00e9rie \u201cHarry Potter\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Tenho a certeza de que alguns dos que ler\u00e3o este texto se surpreender\u00e3o por sua simples exist\u00eancia, outros n\u00e3o entender\u00e3o sua raz\u00e3o de ser, mas os poucos que me acompanham h\u00e1 algum tempo logo entender\u00e3o todos os porqu\u00eas. J\u00e1 faz algum tempo que eu participo de debates liter\u00e1rios nas redes sociais e a minha posi\u00e7\u00e3o mais frequente nestes \u00e9 sempre no sentido de criticar os &#8220;best-sellers&#8221;, nacionais e estrangeiros, e glorificar obras que t\u00eam um pulso mais lento e firme. No entanto, os tais poucos que me conhecem devem se lembrar que eu sempre fiz quest\u00e3o de admitir exce\u00e7\u00f5es nesta cr\u00edtica: entre os autores estrangeiros que sempre fiz quest\u00e3o de deixar de fora de minhas diatribes estiveram J. K. Rowling e Stephen King \u2014 mesmo admitindo, como n\u00e3o poderia deixar de admitir, que eles n\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis aos autores que normalmente cito como exemplos. N\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis, por exemplo, a um Herman Melville, a um Charles Dickens ou mesmo um H. P. Lovecraft.<\/p>\n<p>Minhas raz\u00f5es para excetuar Rowling e os livros da s\u00e9rie de Harry Potter s\u00e3o m\u00faltiplas. Agora que completei a leitura de todos, posso explicar os motivos pelos quais esses livros n\u00e3o merecem as ofensas que j\u00e1 dirigi, por exemplo, a um bruxo com outros poderes e cujo nome, por um tempo, eu tamb\u00e9m evitei dizer. N\u00e3o falo de Voldemort, obviamente. Posso resumir em seis as minhas raz\u00f5es para achar valor na s\u00e9rie Harry Potter:<\/p>\n<ol>\n<li>\n<p>Embora n\u00e3o primorosamente escritos (tal defici\u00eancia \u00e9 particularmente do\u00edda no primeiro), o n\u00edvel de comando da linguagem formal e das t\u00e9cnicas narrativas que Rowling consegue empregar \u00e9 significativamente maior que o da maioria dos concorrentes. N\u00e3o surpreende que esses livros, com todos os seus defeitos, tenham tido o sucesso que tiveram, porque possuem qualidades liter\u00e1rias que v\u00e3o al\u00e9m do n\u00edvel pedestre da maioria dos best-sellers. Al\u00e9m do mais, a qualidade da prosa de Rowling evolui significativamente ao longo da s\u00e9rie. Mas analisar as mudan\u00e7as de seu estilo vai al\u00e9m de meus objetivos.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Embora a hist\u00f3ria n\u00e3o fa\u00e7a mais do que aplicar diretamente e sem surpresa o conhecido clich\u00ea da &#8220;Jornada do Her\u00f3i&#8221;, isso n\u00e3o chega a irritar porque se trata, exatamente, do tipo de literatura para o qual a Jornada parece um recurso \u00fatil. Mitos s\u00e3o particularmente \u00fateis para levar mensagens a leitores jovens porque eles ainda n\u00e3o t\u00eam nem o gosto e nem a capacidade para dedicar-se a reflex\u00f5es mais frias e racionais. O calor dos mitos oferece aos jovens um caminho mais seguro.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Existe um subtexto curioso quando contemplamos a s\u00e9rie, no seu todo, como uma obra s\u00f3: ao narrar de forma cont\u00ednua sete anos da &#8220;educa\u00e7\u00e3o m\u00e1gica&#8221; de Harry Potter e seus amigos, Rowling espelha justamente a transforma\u00e7\u00f5es pelas quais os adolescentes passam, entre onze e dezoito anos (ainda que no mundo dos feiticeiros a maioridade chegue aos dezessete). Ela consegue, de uma forma muito competente, expressar estas transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas de uma forma cr\u00edvel mas tamb\u00e9m de uma forma atraente para os seus leitores. N\u00e3o \u00e9 apenas Harry que cresce, crescem tamb\u00e9m os seus leitores (embora eu duvide muito que eles esperem para ler um livro por ano, como a autor certa vez teria dito que gostaria que fosse) e cresceu J. K. Rowling tamb\u00e9m, porque ela certamente n\u00e3o \u00e9 a mesma que era quando come\u00e7ou a escrever a s\u00e9rie. O amadurecimento da autora se revela em muitos aspectos, dos quais o mais interessante \u00e9 a matiza\u00e7\u00e3o de personagens como Severus Snape, Sirius Black, James Potter, Albus Dumbledore, Neville Longbottom, Ron Weasley, Remus Lupin e Draco Malfoy (com seus pais). Nenhum destes personagens chega ao final da s\u00e9rie exatamente como nela entrou. O que parece vil\u00e3o e detest\u00e1vel se mostra heroico, apesar de falhas e fracassos. O que parecia desastrado e sem sorte chega a equivaler-se a Harry em hero\u00edsmo (ou a super\u00e1-lo, se considerarmos que, mesmo no contexto da hist\u00f3ria, nunca teve muito a seu favor). O que parecia doce se mostrou, tamb\u00e9m, f\u00fatil e ego\u00edsta. O que parecia um santo se mostra cruel e desprez\u00edvel, apesar de ainda capaz de fazer o bem. Quem parecia merecedor de absoluta confian\u00e7a se mostra um car\u00e1ter d\u00fabio. Um que sempre exibiu grande coragem e seguran\u00e7a se revela um covarde e precisa ser admoestado por Harry para ter coragem de fazer o que se esperava que fizesse. O pr\u00f3prio Harry, inicialmente um menino doce e inocente, n\u00e3o apenas se deixa obcecar por instintos assassinos, como ambiciona poderes das trevas e chega a executar &#8220;maldi\u00e7\u00f5es imperdo\u00e1veis&#8221; contra quem se interp\u00f5e em seu caminho. Os \u00fanicos que parecem unidimensionais s\u00e3o os secund\u00e1rios \u2014 entre eles Bellatrix Lestrange, que jamais questiona Voldemort, apesar do que ele lhe faz e \u00e0 sua fam\u00edlia, ou Dolores Umbridge, rematada psicopata que, em qualquer circunst\u00e2ncia, apenas quer um meio de controlar e torturar pessoas. E Voldemort, claro, pois matizar demais ao vil\u00e3o seria incompat\u00edvel com o g\u00eanero de que falamos. Mesmo assim ele tamb\u00e9m tem sua Jornada particular, at\u00e9 que, no fim, sabendo do sofrimento que ele causou ao mundo, nos compadecemos de seu destino.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Os livros n\u00e3o se limitam \u00e0 hist\u00f3ria. Seguindo (mas de forma alguma eu diria que igualando) a respeit\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o de perfeccionistas como Boleslaw Prus (escritor polon\u00eas que se tornou um egipt\u00f3logo para poder escrever um romance ambientando no Antigo Egito) e J. R. R. Tolkien (que escreveu mais sobre o mundo \u201cSenhor dos An\u00e9is\u201d do que as p\u00e1ginas do pr\u00f3prio romance, a fim de criar e desenvolver a ambienta\u00e7\u00e3o), Rowling produziu todo um plano de fundo para o que narra, incluindo regras completas do jogo de Quidditch, dezenas de t\u00edtulos de obras citadas (com suas resenhas e autores), biografias para dezenas de personagem, mapas e at\u00e9 hist\u00f3rias acess\u00f3rias. Todo esse trabalho ajuda a dar densidade \u00e0 narrativa, especialmente do segundo livro para a frente, quando se vai se tornando mais necess\u00e1rio tornar tang\u00edvel o mundo de Harry Potter. Que Rowling tenha sido capaz de executar este planejamento, esta pesquisa e esta cria\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria, dando credibilidade a uma hist\u00f3ria que, inicialmente, parece n\u00e3o ser mais que um conto de fadas ambientado num sub\u00farbio ingl\u00eas; nos d\u00e1 a medida de que ela n\u00e3o foi apenas uma aventureira com sorte. Se assim fosse, a hist\u00f3ria teria desmilinguido em suas m\u00e3os a partir do segundo livro \u2014 e sabemos que isso n\u00e3o aconteceu. De fato, em vez de desmilinguir, a qualidade liter\u00e1ria deles vai melhorando.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Os personagens t\u00eam vida, inclusive os secund\u00e1rios, em sua maioria. A marca de qualidade de uma boa obra liter\u00e1ria \u00e9 que os personagens assumem personalidades. Os personagens de Harry Potter s\u00e3o t\u00e3o marcantes que ao terminar a leitura voc\u00ea \u00e9 capaz de lembrar de diversos deles e sua apar\u00eancia (eu li os livros at\u00e9 o quarto antes de ter visto os filmes \u2014 e ainda n\u00e3o vi todos os filmes). Mais do que isso, voc\u00ea se lembra de tra\u00e7os de sua personalidade e de coisas marcantes que fizeram. Todos que leiam a s\u00e9rie ter\u00e3o seus personagens favoritos, e isso ajuda no sucesso. Entre os personagens que me fascinaram mais est\u00e3o Neville Longbottom (por sua grande transforma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica ao longo da s\u00e9rie), Draco Malfoy (por sua progressiva humaniza\u00e7\u00e3o) e Severus Snape (por ser ao mesmo tempo previs\u00edvel e surpreendente). Claro que h\u00e1 os personagens unidimensionais, que parecem existir para sempre dizerem ou fazerem uma coisa s\u00f3 \u2014 como Luna Lovegood e Bellatrix Lestrange \u2014 e os caricatos, como Hagrid e Filch. Mesmo alguns deles conseguem, por\u00e9m, surpreender-nos em algum momento. A surpresa de Luna est\u00e1 em sua incr\u00edvel resili\u00eancia diante da dor e da tortura, sendo capaz de oferecer conforto aos que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o pior. A supresa de Bellatrix est\u00e1 em sua absoluta depend\u00eancia psicol\u00f3gica de algu\u00e9m que lhe d\u00ea rumo na vida, j\u00e1 que est\u00e1 afastada de boa parte de sua fam\u00edlia e obviamente ficou louca depois de quase vinte anos presa na horr\u00edvel pris\u00e3o de Azkaban. Hagrid e Filch n\u00e3o oferecem surpresa alguma, por\u00e9m.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>O mundo fant\u00e1stico criado por Rowling \u00e9 suficientemente atraente para o leitor, qualquer que seja a sua idade. Embora ela tenha cometido certas excessivas liberdades ao reimaginar certas criaturas, estas liberdades v\u00e3o se reduzindo \u00e0 medida que a s\u00e9rie avan\u00e7a, com as criaturas mais problem\u00e1ticas saindo de cena (caso dos &#8220;grindlows&#8221;). De uma forma geral, por\u00e9m, as cria\u00e7\u00f5es mais contidas de Rowling (os &#8220;testrais&#8221;, os patronos e as aranhas gigantes, por exemplo) ou as criaturas que ela readaptou com mais suavidade (caso dos elfos, dos duendes, dos drag\u00f5es e dos lobisomens) funcionam melhor do que os seus espasmos de criatividade.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>Juntando tudo isso, podemos dizer que a leitura dos livros n\u00e3o \u00e9 perda de tempo para um adolescente. Estes livros podem ser \u00fateis em uma biblioteca escolar, embora eu acredite que, se forem parar l\u00e1, deva ser por doa\u00e7\u00e3o e nunca por aquisi\u00e7\u00e3o pelo governo, pois verbas p\u00fablicas n\u00e3o deveriam ser usadas para subsidiar a cultura e a literatura de outros pa\u00edses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho a certeza de que alguns dos que ler\u00e3o este texto se surpreender\u00e3o por sua simples exist\u00eancia, outros n\u00e3o entender\u00e3o sua raz\u00e3o de ser, mas os poucos que me acompanham h\u00e1 algum tempo logo entender\u00e3o todos os porqu\u00eas. J\u00e1 faz algum tempo que eu participo de debates liter\u00e1rios nas redes sociais e a minha posi\u00e7\u00e3o mais frequente nestes \u00e9 sempre no sentido de criticar os &#8220;best-sellers&#8221;, nacionais e estrangeiros, e glorificar obras que t\u00eam um pulso mais lento e firme. 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