{"id":2694,"date":"2015-09-20T23:05:19","date_gmt":"2015-09-21T02:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2694"},"modified":"2017-11-02T14:08:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:06","slug":"pense-fora-da-caixa-e-entre-nessa-caixa-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/09\/pense-fora-da-caixa-e-entre-nessa-caixa-aqui\/","title":{"rendered":"Pense Fora da Caixa e Entre Nessa Caixa Aqui&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O mercado editorial brasileiro se caracteriza, desde h\u00e1 muito, pelo seu conservadorismo. N\u00e3o me refiro aqui que o mercado seja avesso ao novo, mas que ele seja fechado a questionamentos. Existe uma estrutura de poder, e o autor brasileiro, se quiser chegar \u00e0 notoriedade, precisa de abdicar de liberdades que deveriam ser essenciais \u00e0 arte. O establishment liter\u00e1rio precisa se proteger de questionamentos, precisa desqualificar quem questiona, precisa infantilizar o discurso desviante. E como ele n\u00e3o ousa fazer isso pela boca de seus membros mais not\u00f3rios, terceiriza o discurso para jovens autores rec\u00e9m aparecidos para o mercado.<\/p>\n<p>De vez em quando um texto desses sobe \u00e0 tona de minha linha do tempo e eu sou for\u00e7ado a ler de novo a justificativa desse establishment liter\u00e1rio sobre si mesmo. Hoje foi no blog da Rebeca Melo.<\/p>\n<p>Esse texto \u00e9 mais um entre dezenas que h\u00e1 em diversos blogs liter\u00e1rios reproduzindo uma ideologia &#8220;de cima para baixo&#8221; que subordina a criatividade do autor \u00e0 iniciativa do editor e coloca a literatura nacional como um ap\u00eandice pobre da que as editoras importam pronta. As ideias aqui podem at\u00e9 ser aparentemente de quem o escreveu, e ela afirmar\u00e1 isso, mas s\u00e3o fruto de um pensamento coletivo ao qual ela tem estado exposta.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es para a terceiriza\u00e7\u00e3o da defesa \u00e9 que ela se faz com argumentos que n\u00e3o caem bem na boca de um medalh\u00e3o. Qualificar como &#8220;mimimi&#8221; os argumentos de que discorda n\u00e3o \u00e9 uma maneira muito recomend\u00e1vel de reivindicar raz\u00e3o. Fica parecendo que voc\u00ea n\u00e3o respeita quem pensa diferente de voc\u00ea. Infantilizar a opini\u00e3o diferente me parece o jeito errado de sensibilizar quem voc\u00ea questiona. Pode render pontos junto a quem j\u00e1 concorda com voc\u00ea, mas s\u00f3 serve para criar mais animosidade. Os medalh\u00f5es n\u00e3o querem aparecer em pol\u00eamicas, eles t\u00eam sua guarda pretoriana para isso.<\/p>\n<p>Tanto a quest\u00e3o dos <em>booktubers<\/em> quanto a do profissionalismo online \u00e9 abordado de uma maneira superficial. N\u00e3o se questiona nada, de fato, apenas se aceita como legitimada e correta a realidade. Parece que j\u00e1 foi o tempo em que a arte era contestadora, a onda agora \u00e9 se encaixar o mais r\u00e1pido e perfeitamente poss\u00edvel nas novidades.<\/p>\n<p>O problema com os <em>booktubers<\/em> \u00e9 que eles n\u00e3o s\u00e3o realmente autores a priori, mas pessoas que se tornam &#8220;webcelebridades&#8221; e depois se tornam autores para preencher uma fama pr\u00e9via. Est\u00e3o na mesma categoria das subcelebridades televisivas que lan\u00e7am livros. Defend\u00ea-los equivale a defender a literatura como algo acess\u00f3rio e posterior \u00e0 fama, como um ap\u00eandice, um &#8220;afterthought&#8221;. Como se a literatura, por si, n\u00e3o fosse capaz de produzir um autor e fosse necess\u00e1rio que o autor criasse fama pr\u00e9via por outros caminhos. Criticar os <em>booktubers<\/em> \u00e9 criticar pessoas que acrescentam a literatura como um detalhe a mais de seu curr\u00edculo. Legitim\u00e1-los \u00e9 colocar os autores em desvantagem perante a quem come\u00e7a com a fama de outras \u00e1reas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do &#8220;profissionalismo online&#8221; \u00e9 outro contencioso perigoso. \u00c9 preciso muito cuidado ao recomendar &#8220;profissionalismo&#8221; aos jovens escritores para n\u00e3o recair no &#8220;caretismo&#8221;. Recomendar &#8220;profissionalismo&#8221; pode facilmente resvalar para recomendar conformismo, falta de ousadia, robotiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode esperar que autores em forma\u00e7\u00e3o ajam previamente como profissionais. A inf\u00e2ncia da escrita precisa de liberdade (inclusive a liberdade de errar) para que o jovem teste seus limites, cometa seus erros, desista se for preciso. Profissionalismo deveria ser exigido apenas de profissionais. Dos amadores, o amadorismo j\u00e1 deveria ser suficiente. Por isso me parece que essa prega\u00e7\u00e3o de profissionalismo \u00e9 uma evangeliza\u00e7\u00e3o castradora e careta. E que tem muita utilidade quando quem a faz tem telhados de vidro e algum poder para atirar em quem joga pedras. Cuidado, crian\u00e7as, n\u00e3o tentem dizer que o Rei est\u00e1 nu, ou ele pode prejudicar voc\u00eas no futuro&#8230;<\/p>\n<p>Uma coisa que me deixou intrigado \u00e9 haver pessoas no mercado editorial brasileiro que acham mais f\u00e1cil lidar com autores estrangeiros. Esta informa\u00e7\u00e3o me parece dif\u00edcil de digerir.<br \/>\n\u00c9 verdade que h\u00e1 muitos autores que se relacionam mal com os seus editores, mas isso s\u00f3 significa que muitos autores n\u00e3o est\u00e3o prontos para publicar. Que n\u00e3o sejam publicados, ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o chegarem ao ponto. H\u00e1 uma obsess\u00e3o de publicar todo mundo? S\u00f3 se esse autor for visto como &#8220;fonte&#8221;.<\/p>\n<p>Por outro lado, quero ver evid\u00eancias materiais de que os autores nacionais s\u00e3o piores que os estrangeiros nisso. &#8220;J\u00e1 ouvi de v\u00e1rias pessoas no mercado editorial&#8221; n\u00e3o \u00e9 prova, \u00e9 boato, \u00e9 &#8220;weasel word&#8221;. Com que autores estrangeiros essas &#8220;v\u00e1rias pessoas&#8221; do mercado editorial se relacionam? Existem autores estrangeiros que publicam in\u00e9ditos por editoras nacionais? Ou as tais pessoas do mercado editorial s\u00f3 tem contato com autores que j\u00e1 s\u00e3o profissionais e a respeito de obras que j\u00e1 foram publicadas? \u00c9 justo, ou mesmo honesto, comparar jovens incautos com autores experientes e que, ademais, como a pr\u00f3pria autora do artigo admite, trazem j\u00e1 uma boa carga de marketing? N\u00e3o estamos colocando o obst\u00e1culo muito alto para o autor brasileiro?<\/p>\n<p>Autores imaturos devem existir em todos os pa\u00edses &#8212; e parte do trabalho do editor \u00e9 justamente educ\u00e1-los. V\u00e1rios desses autores estrangeiros com quem &#8220;v\u00e1rias pessoas&#8221; do mercado editorial se relacionam provavelmente come\u00e7aram um dia t\u00e3o ing\u00eanuos e tolos quanto os nacionais. Ent\u00e3o ser\u00e1 que o &#8220;mimimi&#8221; est\u00e1 somente do lado dos autores? N\u00e3o haver\u00e1, tamb\u00e9m, um &#8220;mimimi&#8221; dos editores, que querem que nossos jovens talentos apare\u00e7am prontos, com atitude profissional e tudo, ombreando-os com autores estrangeiros que j\u00e1 nos chegam ap\u00f3s um filtro? Ser\u00e1 que esses editores n\u00e3o est\u00e3o com pregui\u00e7a de &#8220;editar&#8221; e ficam reclamando que os jovens n\u00e3o trazem as obras prontas? E, por fim, h\u00e1 justi\u00e7a em julgar a literatura nacional pela sua adequa\u00e7\u00e3o a um padr\u00e3o de best-seller imposto de fora?<\/p>\n<p>O resuminho final \u00e9, por sua vez, uma mostra de certa arrog\u00e2ncia e didatismo. Trata os leitores com uma superioridade que n\u00e3o me parece autorizada pelo n\u00edvel dos argumentos. Se recapitular o que j\u00e1 fora dito j\u00e1 me parece uma certa atitude &#8220;de cima para baixo&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao leitor, a afirmativa n\u00famero 3 me parece um tanto perigosa de se fazer &#8212; especialmente se o texto \u00e9, como me parece ser, dirigido a jovens autores. Dizer-lhes &#8220;voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 Shakespeare&#8221; \u00e9 uma forma de lhes negar a priori a capacidade de produzir uma obra relevante por sua iniciativa. Completar isso com a afirmativa de que &#8220;precisa aprender a dar ouvidos ao seu editor&#8221; sugere que \u00e9 o editor, afinal, que faz Shakespeare. Embora eu realmente acredite que o bom relacionamento com um editor \u00e9 proveitoso e que bons conselhos nunca sobram nesse mundo, n\u00e3o vejo em que agredir a auto estima de um jovem desta forma possa ser \u00fatil. Especialmente porque &#8220;voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 Shakespeare&#8221; traz de contrabando a ideia de que &#8220;ningu\u00e9m \u00e9 Shakespeare&#8221;.<\/p>\n<p>Essa atitude decadente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura, a descren\u00e7a de que o presente ou o futuro possam produzir algo compar\u00e1vel ao passado, \u00e9 uma maneira, tamb\u00e9m, de justificar a falta de criatividade de um mercado que se baseia na reprodu\u00e7\u00e3o de clich\u00eas e no &#8220;quadradamento&#8221; (sic) de toda uma gera\u00e7\u00e3o de jovens autores conforme &#8220;nichos&#8221;. Por isso eu acho t\u00e3o engra\u00e7ada a ideia de que este texto recomende que os jovens pensem fora da caixa, quando justamente o que mercado mais tem e mais quer s\u00e3o pessoas que aceitam entrar em caixas e categorias as mais diversas. Afinal, &#8220;voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 Shakespeare&#8221;, ent\u00e3o jogue fora esse texto que escreveu e faz para mim uma obra seguindo a Jornada do Her\u00f3i, que \u00e9 isso que o mercado quer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mercado editorial brasileiro se caracteriza, desde h\u00e1 muito, pelo seu conservadorismo. N\u00e3o me refiro aqui que o mercado seja avesso ao novo, mas que ele seja fechado a questionamentos. Existe uma estrutura de poder, e o autor brasileiro, se quiser chegar \u00e0 notoriedade, precisa de abdicar de liberdades que deveriam ser essenciais \u00e0 arte. O establishment liter\u00e1rio precisa se proteger de questionamentos, precisa desqualificar quem questiona, precisa infantilizar o discurso desviante. E como ele n\u00e3o ousa fazer isso pela boca de seus membros mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[147,49,132,55,148,57,114,7],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2694"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2694"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4627,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2694\/revisions\/4627"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}