{"id":2717,"date":"2015-10-10T10:06:08","date_gmt":"2015-10-10T13:06:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2717"},"modified":"2017-11-02T14:08:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:06","slug":"por-que-chorar-pelo-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/10\/por-que-chorar-pelo-nobel\/","title":{"rendered":"Por que Chorar Pelo Nobel?"},"content":{"rendered":"<p>Todo ano, quando sai o nome do vencedor do Pr\u00eamio Nobel de literatura, h\u00e1 uma pequena discuss\u00e3o em torno da raz\u00e3o pela qual o Brasil n\u00e3o ganha (nem mais \u00e9 cogitado). Esse ano aconteceu novamente e segue n\u00e3o havendo muita d\u00favida sobre as raz\u00f5es de n\u00e3o sermos contemplados (o \u00fanico autor de L\u00edngua Portuguesa a s\u00ea-lo foi o Saramago, que n\u00e3o somente \u00e9 portugu\u00eas como pouco se parece com um portugu\u00eas &#8220;normal&#8221; a julgar por seus escritos). \u00c0 parte o fato de que h\u00e1 muito tempo o &#8220;jogo&#8221; do Nobel j\u00e1 teve suas regras compreendidas pelos analistas (n\u00e3o vou detalh\u00e1-las), n\u00e3o parece haver nenhum movimento no sentido de possibilitar a vit\u00f3ria brasileira nesse pr\u00eamio. Muitos de nossos autores parecem estar felizes em publicar seus pastiches de subliteratura estrangeira e os outros se dividem entre os que ativamente desprezam o tipo de literatura que leva o Nobel e os que apenas sentem despeito de raposa diante das uvas. Outros ainda, como eu, entendem perfeitamente que n\u00e3o h\u00e1 caminho poss\u00edvel at\u00e9 l\u00e1, e resolveram cuidar da vida.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o choro pelo Nobel revela uma inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de que a gente que faz literatura no Brasil intimamente &#8220;sabe&#8221; que nossa literatura em geral \u00e9 uma porcaria, ou vai a caminho de s\u00ea-lo. Este &#8220;saber&#8221; n\u00e3o corresponde necessariamente \u00e0 verdade, mas ao que enxergam os olhos m\u00edopes de quem faz a &#8220;literatura brasileira de superf\u00edcie&#8221;. Os que fazem nossa literatura gostariam de ser reconhecidos fazendo o que fazem, mas n\u00e3o ousam pensar fora da caixa, e caixa \u00e9 o que mais tem na literatura nacional. O reconhecimento, por\u00e9m, n\u00e3o vir\u00e1 para uma literatura que se decomp\u00f5e, cujos grandes nomes est\u00e3o mortos ou morrendo e cujos novos valores se edificam desprezando nossa heran\u00e7a e idolatrando qualquer porcaria trazida de fora que tenha vendido milhares de exemplares. H\u00e1 uma verdadeira obsess\u00e3o por denegrir e suprimir nossa heran\u00e7a cultural, como se &#8220;ser brasileiro&#8221; fosse algum tipo de defeito. O pr\u00eamio Nobel, quando sai das culturas europeias centrais, vai em busca de um tipo de voz sintonizada com o passado, o presente e o universal. O tipo de autor que acha Machado de Assis chato e se deixa levar pela ira quando as falhas de seu texto s\u00e3o apontadas \u00e9 do tipo que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o ganha o Nobel como coloca espinhos no caminho de quem talvez ganhasse.<\/p>\n<p>Os brasileiros querem ganhar o Nobel, acreditam que haver\u00e1 um tipo de &#8220;cota&#8221; que um dia nos beneficiar\u00e1, mas n\u00e3o querem escrever bons livros. Seus \u00eddolos vendem, apenas. Portanto o que querem \u00e9 vender, e usar suas vendas para arrotarem uma grandeza posti\u00e7a, zombarem de quem tenta fazer o diferente, humilhar quem pensa fora da caixa. E ainda querem ganhar o Nobel!<\/p>\n<p>Claro que o pr\u00eamio \u00e9 frequentemente injusto. N\u00e3o s\u00f3 na literatura mas nas outras \u00e1reas tamb\u00e9m. Historicamente, por exemplo, a Academia Sueca ainda deve se envergonhar de ter dado o Nobel de medicina a Egas Moniz, o inventor da lobotomia, cirurgia cerebral monstruosa que supostamente eliminava dist\u00farbios mentais e que por d\u00e9cadas foi usada como uma panaceia universal. Mas dizer isso \u00e9 o mesmo que torcer para que um dia uma injusti\u00e7a dessas nos beneficie. \u00c9 torcer para o \u00e1rbitro inventar um p\u00eanalti para nosso time ganhar o campeonato.<\/p>\n<p>Torcer por isso \u00e9 ansiar pelo acaso. Pela loteria. \u00c9 querer a recompensa sem passar pelo trabalho. Bem de acordo com o narcisismo de nossa literatura que, a julgar por pesquisas recentes, \u00e9 praticada por um homem branco e urbano, que vive no sudeste, trabalha no jornalismo, em alguma profiss\u00e3o liberal ou emprego p\u00fablico e escreve basicamente sobre si. O autor brasileiro \u00e9 fechado demais em sua aldeia, at\u00e9 quando tenta sair dela. As influ\u00eancias estranhas que absorve n\u00e3o s\u00e3o fruto de uma ida ao mundo, de uma busca pelo outro, mas apenas a aceita\u00e7\u00e3o de elementos <em>que lhe chegam<\/em> atrav\u00e9s da cultura de massas. A esta capitula\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa diante da cultura globalizada este autor costuma chamar de &#8220;cosmopolitismo&#8221;, mas poderia ser melhor definida como &#8220;indol\u00eancia existencial&#8221;. O autor brasileiro t\u00edpico n\u00e3o vai ao mundo, colhe do mundo o que dele lhe chega. Se fosse mentira essa afirma\u00e7\u00e3o, haveria mais autores brasileiros buscando inspira\u00e7\u00e3o na China, na R\u00fassia, na Argentina (que fica aqui do lado) ou em Alfa Centauro &#8212; n\u00e3o precisariam focar tanto nos Estados Unidos, na Gr\u00e3 Bretanha e mais dois ou tr\u00eas cen\u00e1rios de filmes de Hollywood e de <em>best-sellers<\/em> da moda.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 o que o Nobel busca. Ele quer &#8220;vozes&#8221; de diferentes culturas. A literatura brasileira precisaria representar melhor o pr\u00f3prio Brasil, passado e presente, para falar alto o bastante a ponto de se ouvir na Europa. Do jeito, por\u00e9m, que ela anda, \u00e9 mais f\u00e1cil ganhar o angolano Agualusa ou o mo\u00e7ambicano Mia Couto do que algum dos &#8220;novos talentos&#8221; que temos. Esses dois oferecem o que o Nobel quer, n\u00f3s n\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o bem ou para o mal, porque, afinal, nossa literatura nem ganha e nem perde por estar mais longe ou mais perto daquilo que os gringos acham que ela deveria ser. Uma literatura saud\u00e1vel n\u00e3o precisa ser legitimada pelo reconhecimento externo. \u00c9 certo que nossa literatura n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito saud\u00e1vel, mas ela n\u00e3o ser\u00e1 jamais se continuar pensando mais em pular do jeito certo para ganhar um pr\u00eamio aleat\u00f3rio concedido na Europa do que em se gabaritar como voz de seu pr\u00f3prio povo e de seu tempo.<\/p>\n<p>Paremos de chorar pelo Nobel e vamos escrever, gente. Escrever intransitivo, escrever apenas. Escrever a penas, se for preciso, e tamb\u00e9m  se for impreciso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo ano, quando sai o nome do vencedor do Pr\u00eamio Nobel de literatura, h\u00e1 uma pequena discuss\u00e3o em torno da raz\u00e3o pela qual o Brasil n\u00e3o ganha (nem mais \u00e9 cogitado). 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